Segundo turno no Brasil: quem é o favorito na visão da imprensa internacional, do mercado e das grandes potências?

Imprensa internacional vê Flávio Bolsonaro em vantagem após o primeiro turno, mas aponta uma disputa acirrada com Lula até 25 de outubro

O segundo turno da eleição presidencial brasileira entrou no radar do mundo. Depois de uma campanha marcada pela polarização, o resultado do primeiro turno colocou Flávio Bolsonaro à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, abrindo uma disputa que extrapola as fronteiras brasileiras e envolve democracia, economia, comércio internacional, Amazônia, China, Estados Unidos e o futuro geopolítico da América Latina.

A primeira correção necessária é também a mais importante: o segundo turno de 2026 não é entre Lula e Jair Bolsonaro, mas entre Lula e Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A diferença obtida no primeiro turno foi suficiente para alterar a percepção internacional da corrida. Até a votação de 4 de outubro, boa parte das análises tratava Lula como favorito ou apontava uma disputa extremamente equilibrada. Depois da apuração, a narrativa mudou: Flávio passou a ser tratado como o candidato com vantagem inicial.

Flávio saiu na frente e ganhou o primeiro trunfo internacional

A Reuters descreveu a eleição brasileira como uma das disputas políticas mais acompanhadas do continente e destacou que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula.

O Washington Post, em sua análise dos cinco principais fatores da eleição, chamou atenção para o fato de que Flávio obteve aproximadamente 47% dos votos contra 45% de Lula. Para o jornal americano, a proximidade do resultado torna o segundo turno especialmente competitivo, embora o presidente tenha entrado na nova fase da campanha em posição mais difícil.

A Associated Press também destacou a força inesperada de Flávio, sua proximidade política com o governo de Donald Trump e a diferença entre os projetos internacionais apresentados pelos dois candidatos.

Na avaliação da imprensa internacional, portanto, o primeiro turno produziu um favorito circunstancial: Flávio Bolsonaro. Mas isso está longe de significar que a eleição esteja decidida.

Reuters: mercado aposta primeiro em Flávio

É no mercado financeiro que a mudança de percepção aparece de maneira mais explícita.

Em reportagem publicada após o primeiro turno, a Reuters ouviu gestores e analistas sobre a reação dos investidores. A avaliação predominante foi de que a liderança de Flávio poderia provocar uma valorização dos ativos brasileiros, diante da expectativa de uma política fiscal considerada mais favorável aos investidores.

Um dos argumentos utilizados por gestores é que uma eventual vitória de Flávio poderia abrir espaço para um programa de ajuste fiscal e para uma relação mais amigável com o mercado de capitais. A configuração do Congresso, com avanço de forças de direita e centro-direita, também é apontada como elemento que poderia facilitar a aprovação de determinadas medidas econômicas.

A própria Reuters, entretanto, registrou uma ressalva importante: o mercado está antecipando expectativas, não conhecendo ainda o comportamento de um eventual governo Flávio. O senador nunca ocupou a Presidência da República e ainda precisaria transformar promessas de campanha em política econômica concreta.

Em outras palavras: o mercado hoje aposta mais em Flávio do que apostava antes do primeiro turno, mas essa aposta é uma precificação de cenário, não uma previsão matemática do resultado eleitoral.

Ibovespa e dólar: por que os investidores reagiram positivamente?

A Axios também identificou uma reação positiva dos mercados brasileiros após o resultado. A leitura dos investidores é que uma eventual mudança de governo poderia representar uma inflexão na política fiscal e econômica.

Levantamentos repercutidos pela imprensa econômica indicaram expectativa de valorização significativa das ações brasileiras e de fortalecimento do real caso a probabilidade de vitória de Flávio continuasse aumentando.

Isso não significa que investidores estejam necessariamente fazendo uma avaliação política ou moral do candidato. Mercados compram expectativas de fluxo de caixa, juros, câmbio, dívida pública, tributação, privatizações e crescimento.

Por isso, a reação financeira deve ser lida com cautela. O mesmo mercado que comemora uma expectativa de ajuste fiscal pode mudar rapidamente de direção se perceber riscos institucionais, dificuldades de governabilidade ou medidas econômicas diferentes das prometidas durante a campanha.

The Guardian: a eleição é também uma escolha sobre democracia e clima

A análise do The Guardian adota uma perspectiva bastante diferente da análise financeira.

O jornal britânico considera a eleição brasileira uma disputa que terá consequências internacionais, especialmente em razão do tamanho econômico e ambiental do Brasil. O editorial associa uma eventual vitória de Flávio ao retorno de uma agenda política mais próxima da direita radical internacional e manifesta preocupação com democracia, direitos das minorias, Amazônia e política ambiental.

Para o jornal, uma vitória de Flávio poderia aproximar ainda mais Brasília de Washington durante o governo Trump. O Guardian também considera que a política ambiental brasileira teria importância mundial em razão do papel da Amazônia nas discussões climáticas.

É uma leitura editorial — e não uma previsão eleitoral —, mas ajuda a compreender como setores importantes da imprensa europeia enxergam a disputa: não apenas como uma eleição presidencial brasileira, mas como uma escolha com impacto sobre democracia, clima e equilíbrio geopolítico.

O que está em jogo entre Washington e Pequim?

É nesse ponto que a eleição brasileira ganha dimensão geopolítica. Uma análise do Council on Foreign Relations destaca que Lula e Flávio apresentam visões diferentes sobre a política externa brasileira.

Lula aprofundou durante seu atual governo as relações com a China, defendeu o fortalecimento do BRICS e procurou manter o Brasil dentro de uma estratégia de relacionamento simultâneo com diferentes centros de poder.

Flávio, por sua vez, sinaliza uma aproximação muito maior com os Estados Unidos. Entre as propostas discutidas internacionalmente estão uma relação mais estreita com Washington e participação em iniciativas de segurança promovidas pelo governo Trump.

Mas existe um limite econômico para uma mudança radical. Como observa o CFR, China e Estados Unidos são parceiros fundamentais para o Brasil. A China é um mercado essencial para commodities brasileiras e possui participação crescente em investimentos no país.

Isso significa que mesmo um governo Flávio dificilmente poderia simplesmente romper com Pequim. A tendência mais provável, segundo especialistas ouvidos pelo CFR, seria uma aproximação política e de segurança com Washington, preservando relações comerciais relevantes com a China.

Pequim já monitora Flávio

A preocupação chinesa com uma eventual vitória de Flávio já vinha sendo observada antes mesmo do primeiro turno. A CNN Brasil informou que Pequim vinha acompanhando as declarações e posições de Flávio sobre BRICS, minerais críticos e inteligência artificial.

O interesse chinês é compreensível. Uma mudança na política externa brasileira poderia alterar o equilíbrio entre Washington e Pequim na América do Sul.

Entretanto, o próprio cálculo chinês considera o pragmatismo econômico. O comércio entre Brasil e China é grande demais para que uma mudança de governo produza automaticamente uma ruptura.

Foreign Policy: Flávio quer Washington, mas não pode abandonar Pequim

A Foreign Policy chegou a uma conclusão semelhante antes do primeiro turno: Flávio pretende aproximar o Brasil dos Estados Unidos, mas encontraria dificuldades para abandonar a relação econômica com a China.

A publicação destaca propostas de maior cooperação com Washington, inclusive em segurança e minerais estratégicos, ao mesmo tempo em que lembra que a China continua sendo o principal parceiro comercial brasileiro.

O cenário mais provável, portanto, não seria uma simples troca de Pequim por Washington, mas uma mudança no eixo político da diplomacia brasileira: mais alinhamento com os Estados Unidos em segurança, defesa e determinadas questões internacionais, combinado com pragmatismo econômico nas relações, tanto diplomáticas quanto econômicas, com a China.

O voto brasileiro no exterior revela uma divisão interessante

Há ainda um dado que merece atenção internacional: o comportamento dos brasileiros que vivem fora do país. Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, Lula venceu Flávio entre os brasileiros residentes no exterior e ganhou em 64 dos 101 países com votação.

A distribuição geográfica, entretanto, foi bastante reveladora. Lula teve desempenho especialmente forte em países europeus, enquanto Flávio apresentou resultados expressivos nos Estados Unidos, Japão e Paraguai.

Esse mapa não determina o resultado brasileiro, mas mostra que a polarização internacional também acompanha a divisão política doméstica.

Por que Lula ainda pode virar?

A vantagem de Flávio não elimina as possibilidades de Lula. O primeiro turno deixou milhões de votos fora dos dois finalistas. A Reuters informa que a campanha de Lula pretende disputar especialmente os votos dos candidatos que ficaram fora do segundo turno e recuperar eleitores que não compareceram às urnas - choveu em grande parte do país no 4 de outubro.

Além disso, a segunda rodada muda completamente a lógica eleitoral. O eleitor que escolheu um candidato de terceira via no primeiro turno precisa agora decidir entre dois projetos radicalmente diferentes.

Lula também possui uma vantagem importante: experiência de governo, reconhecimento internacional e uma imagem consolidada entre líderes estrangeiros. Seu relacionamento com governos da Europa, da América Latina, da China e de outras economias emergentes é muito mais conhecido do que seria o de um eventual governo Flávio.

Por outro lado, Flávio chega ao segundo turno com o impulso de ter vencido a primeira etapa e com uma base política forte, além de uma direita que demonstrou capacidade eleitoral relevante nas disputas estaduais e legislativas.

O que favorece Flávio Bolsonaro?

  • Vitória no primeiro turno;
  • vantagem inicial de aproximadamente dois pontos percentuais;
  • força da direita e do bolsonarismo no Congresso;
  • apoio de setores conservadores e evangélicos;
  • aproximação política com Donald Trump;
  • reação positiva dos mercados à possibilidade de mudança econômica;
  • forte discurso sobre segurança pública;
  • capacidade de mobilização do eleitorado antipetista.

O que favorece Lula?

  • experiência presidencial e reconhecimento internacional;
  • histórico de programas sociais e políticas de distribuição de renda;
  • alianças políticas construídas ao longo de décadas;
  • maior proximidade com governos europeus e setores do Sul Global;
  • forte relação econômica e diplomática com a China;
  • capacidade de transferência de votos para o segundo turno;
  • possibilidade de explorar o temor de setores do eleitorado em relação ao retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto.

Afinal, quem é o favorito?

Se a pergunta for quem terminou o primeiro turno em melhor posição, a resposta é Flávio Bolsonaro. Se a pergunta for quem o mercado está preferindo neste momento, novamente a resposta é Flávio Bolsonaro.

Se a pergunta for quem tem a eleição ganha, a resposta é ninguém. A imprensa internacional trata a disputa como aberta. O The Guardian, por exemplo, reconhece a força da candidatura de Flávio, mas ressalta que o cenário brasileiro permanece imprevisível.

O Washington Post chama atenção para o fato de Lula ter terminado atrás e precisar reorganizar sua campanha. A Reuters também passou a tratar Flávio como favorito circunstancial depois da primeira rodada.

O quadro que emerge das principais análises internacionais pode ser resumido assim: Flávio começa o segundo turno na frente; Lula continua competitivo; o mercado prefere, neste momento, a hipótese de vitória de Flávio; e as grandes potências já se preparam para os dois cenários.

Uma eleição brasileira com consequências mundiais

O resultado de 25 de outubro terá impacto muito além da política interna. Uma vitória de Lula significaria a continuidade de uma política externa baseada em multilateralismo, BRICS, aproximação com o Sul Global e manutenção de relações estratégicas simultaneamente com China, Estados Unidos, Europa e países emergentes.

Uma vitória de Flávio provavelmente representaria uma mudança de direção, com maior aproximação política e estratégica com Washington, especialmente durante o governo Trump, sem que isso necessariamente significasse uma ruptura comercial com Pequim.

Para a economia mundial, para o mercado de commodities, para as políticas ambientais e para o equilíbrio de forças na América Latina, portanto, a eleição brasileira deixou de ser apenas um assunto brasileiro.

É justamente por isso que Washington, Pequim, os mercados financeiros e os grandes veículos internacionais acompanham com atenção cada movimento da campanha.

Hoje, a fotografia mostra Flávio Bolsonaro na frente. Mas a eleição ainda será decidida nas urnas — e não nas manchetes, nas bolsas ou nas avaliações dos analistas internacionais. Como ambos os candidatos tiveram expressiva votação, nesta semana teve início uma nova nova eleição, com Lula e Bolsonaro praticamente empatados, partindo do zero. Cabe agora à população brasileira de com sabedoria. Pois, o eleito irá governar o país ao menos pelos próximos quatro anos.

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