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Mostrando postagens de abril, 2021

Machado de Assis: 'A Cristã-nova' (Parte I: Cantos I e II)

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 A CRISTÃ-NOVA "...essa mesma foi levada cativa para uma terra estranha. NAUM, cap. III, v. 10   PARTE I   I "Olhos fitos no céu, sentado à porta, O velho pai estava. Um luar frouxo Vinha beijar-lhe a veneranda barba Alva e longa, que o peito lhe cobria, Como a névoa na encosta da montanha Ao destoucar da aurora. Alta ia a noite, E silenciosa: a praia era deserta, Ouvia-se o bater pausado e longo Da sonolenta vaga, — único e triste Som que a mudez quebrava à natureza. II Assim talvez nas solidões sombrias Da velha Palestina Um profeta no espírito volvera As desgraças da pátria. Quão remota Aquela de seus pais sagrada terra, Quão diferente desta em que há vivido Os seus dias melhores! Vago e doce, Este luar não alumia os serros Estéreis, nem as últimas ruínas, Nem as ermas planícies, nem aquele Morno silêncio da região que fora E que a história de todo amortalhara. Ó torrentes antigas! águas santas De Cedron! Já talvez o sol que passa, E vê nascer e vê morrer as flores, To...

Machado de Assis: 'Flor da Mocidade'

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Poesia de Machado de Assis - Imagem: SULPOST "Eu conheço a mais bela flor; És tu, rosa da mocidade, Nascida, aberta para o amor. Eu conheço a mais bela flor. Tem do céu a serena cor, E o perfume da virgindade. Eu conheço a mais bela flor, És tu, rosa da mocidade. Vive às vezes na solidão, Como filha da brisa agreste. Teme acaso indiscreta mão; Vive às vezes na solidão. Poupa a raiva do furacão Suas folhas de azul-celeste. Vive às vezes na solidão, Como filha da brisa agreste. Colhe-se antes que venha o mal, Colhe-se antes que chegue o inverno; Que a flor morta já nada vale. Colhe-se antes que venha o mal. Quando a terra é mais jovial Todo o bem nos parece eterno. Colhe-se antes que venha o mal, Colhe-se antes que chegue o inverno." Machado de Assis, em 'Falenas' (1870)

Machado de Assis: 'Musa Consolatrix'

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IMAGEM: SULPOST MUSA CONSOLATRIX "Que a mão do tempo e o hálito dos homens Murchem a flor das ilusões da vida,     Musa consoladora, É no teu seio amigo e sossegado Que o poeta respira o suave sono.     Não há, não há contigo, Nem dor aguda, nem sombrios ermos; Da tua voz os namorados cantos     Enchem, povoam tudo De íntima paz, de vida e de conforto. Ante esta voz que as dores adormece, E muda o agudo espinho em flor cheirosa, Que vales tu, desilusão dos homens?     Tu que podes, ó tempo? A alma triste do poeta sobrenada     À enchente das angústias, E, afrontando o rugido da tormenta, Passa cantando, alcíone divina.     Musa consoladora, Quando da minha fronte de mancebo A última ilusão cair, bem como     Folha amarela e seca Que ao chão atira a viração do outono,     Ah! no teu seio amigo Acolhe-me, — e haverá minha alma aflita, Em vez de algumas ilusões que teve, A paz, o último bem, último e puro!" Mac...

Fernando Pessoa: 'Não sei quantas almas tenho'

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Imagem: SULPOST  "Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é, Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou. Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que sogue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo: "Fui eu ?" Deus sabe, porque o escreveu." Fernando Pessoa