Lula reúne multidão na Boca Maldita e fala de trabalho, dignidade e humanidade no Paraná
Presidente da República causa frisson em sua passagem pelo Paraná - mesmo em dia chuvoso Lula reuniu cerca de 30 mil pessoas no centro de Curitiba
Curitiba viveu neste sábado (12) uma manhã diferente. A Boca Maldita, um dos lugares mais simbólicos da política paranaense, foi tomada por uma multidão para receber o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado da primeira-dama Janja da Silva, Requião Filho, Gleisi Hoffmann e Dr. Rosinha. Também estavam no palco os pais do candidato ao Governo do Paraná, Roberto Requião e Maristela Quarenghi, importância que a família tem para os paranaenses.
Eu estava lá. Desde cedo, era possível perceber que não se tratava de uma pequena reunião política. Antes mesmo do sol nascer recebi a primeira mensagem do dia, do companheiro Nelsão que foi o primeiro a chegar, na concentração que aguardava caravanas de todo o estado, na Rua Lamenha Lins. Rua que conheço desde garoto pois minha avó Euléa tinha casa onde hoje é o prédio do número 240.
Todos os meus tios e a minha mãe foram batizados na paróquia do Nosso Senhor Bom Jesus, ali entre a Lamenha Lins e a Boca Maldita. Santo Antônio já mostrava ser um dia abençoado. Gente chegando de Curitiba, da Região Metropolitana e de várias regiões do Paraná. Trabalhadores, aposentados, jovens, mulheres, militantes, integrantes de movimentos sociais e pessoas que simplesmente queriam estar perto de Lula.
Gente chegando de todos os bairros e da região metropolitana na praça Rui Barbosa. O ruído da multidão começou a aumentar logo cedo. A previsão é de tempestades, mas não choveu. O que veio foi gente de todo canto para ver o presidente que o Lula falar.
Entre 30 e 40 mil pessoas
As estimativas oficiais e publicadas sobre o tamanho do público variaram. A Polícia Militar falou em cerca de 20 mil pessoas; o PT estimou 30 mil; outras reportagens trabalharam com números menores. Mas, para quem estava no meio daquela multidão, a sensação era de que havia muito mais gente.
E, realmente havia, muita gente. Circulei pela região e observei. Conheço o lugar desde minha infância. Falando com o Nelsão, já é parceiro do nosso blog, a Força Sindical Paraná estima que o número de presentes no ápice do evento, que foi a fala do presidente Lula, ultrapassou 40 mil pessoas.
Na minha avaliação, como jornalista que acompanhou o ato presencialmente, e que conhece a região há mais de 50 anos, eram mesmo mais de 40 mil pessoas. Não apresento esse número como uma contagem oficial, mas como a impressão de quem viu a ocupação da Boca Maldita, da Rua XV de Novembro e de absolutamente todas as adjacências.
Havia gente de praticamente todo o Paraná. Quem é aqui da capital sabe. Para a maioria do Brasil nosso sotaque é o mesmo mas entre nós reconhecemos as diferenças das regionalidades.
O Paraná tem cinco grandes regiões e certamente havia pessoas de todas elas. Muitas pessoas chegaram depois de viajar durante a madrugada para participar do comício. Comércio do centro da cidade também agradeceu pois registrou grande movimento durante todo o dia e até parte da noite.
Lula falou para quem trabalha e para quem mais precisa
Quando Lula começou a falar, o que mais me chamou a atenção foi a capacidade de transformar assuntos que parecem distantes da vida política curitibana e da vida dos paranaenses na linguagem local, trazendo empatia e a certeza que apesar das regionalidades assim como no Paraná em todo o Brasil, somos um só povo, uma só nação.
Lula falou dos trabalhadores. Falou dos aposentados. Falou dos jovens. Falou da educação, das crianças, da saúde pública, do emprego, dos programas sociais e da necessidade de o governo olhar para quem mais precisa. Apostando sempre na produtividade como caminho para o emprego.
Falou também dos aposentados que foram vítimas de descontos indevidos no INSS e da necessidade de responsabilizar aqueles que participaram dos esquemas investigados. Lembrando que o governo federal ressarciu toda aposentada e todo o aposentado vítimas desse golpe que deixa muita gente indignada.
Mas, pessoalmente, percebi algo maior atravessando o discurso. A preocupação com a vida real. Com o preço da comida. Com o custo de viver. Com o aposentado que trabalhou a vida inteira e precisa continuar tendo condições de pagar suas contas. Com a família que depende do SUS. Com o jovem que precisa estudar e ter uma oportunidade. Com acesso à educação, ao ensino superior, a ciência, à especialização...
Na noite anterior, em Porto Alegre, Lula já havia falado sobre o custo dos alimentos e reconhecido que, apesar dos avanços econômicos apresentados pelo governo, o preço da comida ainda pesa no bolso dos brasileiros. Ele pede a confiança da eleitora e do eleitor paranaense à reeleição, para poder acabar esse trabalho. Em Curitiba, esse sentimento também estava presente.
Um estado que precisa voltar a olhar para as pessoas
O discurso de Lula também encontrou um Paraná que, na minha visão, está passando por uma transformação preocupante. Um estado onde o custo de vida é o segundo maior do Brasil. Um estado onde o discurso político muitas vezes parece caminhar para o confronto permanente com o diferente, com os pobres e menos favorecidos.
Lula disse que o Paraná é um estado que corre o risco de acreditar que endurecer, militarizar e dividir as pessoas é a solução para todos os problemas.
Pensamos diferente. A gente precisa de humanidade. Humanidade com quem trabalha, com quem envelheceu, com os desempregads. Humanidade com quem depende do SUS, com as mulheres vítimas da violência, com os jovens, com quem veio de outro estado em busca de uma vida melhor. E foi justamente nesse ponto que a fala de Requião Filho ganhou força.
Requião Filho fala de acolhimento
Ao lado de Lula, Requião Filho apresentou uma visão de Paraná que se contrapõe ao discurso de ódio e de intolerância. Ele falou de um estado que deve acolher nordestinos, trabalhadores, pessoas de diferentes características regionais, raças, credos e orientações.
“O discurso de ódio não se cria”, afirmou em seu discurso.
Requião Filho também defendeu um Paraná que valorize políticas públicas e ações reais para valorizar e dar a devida remuneração aos policiais, professores, agentes de saúde, trabalhadores sociais, fortalecendo pequenos produtores e pequenos empresários.
É uma fala que merece atenção porque coloca no centro da discussão aquilo que muitas vezes fica escondido atrás das grandes disputas eleitorais: as pessoas que fazem o estado funcionar todos os dias, as servidoras e servidores públicos, trabalhadoras e trabalhadores do Paraná.
Gleisi faz discurso duro
Gleisi Hoffmann candidata ao Senado que tem conseguido gerar grande mobilização em torno de sua campanha fez críticas duras aos adversários do campo da direita e apresentou a eleição como uma disputa entre projetos diferentes de país e de estado.
Falou sobre soberania, investimentos sociais, recuperação da dignidade dos brasileiros e também sobre a necessidade de enfrentar a violência contra as mulheres.
Gleisi citou os casos recentes de feminicídio no Paraná, estado com grande número de ocorrências policiais. A candidata relacionou a violência contra as mulheres ao ambiente de ódio e intolerância que, segundo ela, vem sendo alimentado na política.
Também fez críticas duuras a Sergio Moro e Deltan Dallagnol, personagens centrais da política paranaense desde a malfada operação lava-jato, vergonha nacional, da qual até o Jornal da Globo já pediu desculpas, por ter abobado a apresentação, na época, deu um PowerPoint feito por Deltan.
No final a operação lava-jato recuperou pouco mais de 5 bilhões de suposta corrupção por parte da empreiteira Odebrecht e alguns agentes políticos. Acabou prendendo o Lula por 580 dias em Curitiba.
Lula, Moro e a memória da Lava Jato
Não dá para falar de Lula em Curitiba sem lembrar a história recente. Foi aqui que Lula passou 580 dias preso, depois das condenações da Operação Lava Jato que posteriormente foram anuladas.
Por isso, seu retorno à Boca Maldita carrega um simbolismo muito forte. O lugar tem esse nome devido a forte ligação com a história do Jornalismo e da Imprensa do rádio e da TV no estado. O presidente voltou ao mesmo centro de Curitiba onde sua prisão marcou profundamente a política brasileira. E voltou agora para pedir votos e defender um projeto político para o Brasil e para o Paraná.
De acordo com o Dieese, a Lava Jato contribuiu para a perda de 4,4 milhões de empregos e reduziu investimentos em R$ 172,2 bilhões. Críticos apontam forte impacto sobre setores estratégicos, enquanto defensores atribuem a crise à corrupção investigada e ao cenário econômico da época.
Banco Master, INSS e combate à corrupção
Lula também dedicou parte de seu discurso ao caso Banco Master. Disse ter conversado com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, sobre a necessidade de transparência nas investigações e defendeu que os autos sejam conhecidos.
O presidente afirmou que ninguém deve ser protegido, independentemente de posição política, proximidade ou poder.
A mesma cobrança apareceu quando falou das fraudes contra aposentados no INSS.
A mensagem foi direta: quem tiver cometido crime deve responder por isso.
O SUS e os programas que mudam a vida das pessoas
Uma parte importante do discurso de Lula foi a defesa das políticas públicas do governo federal. Educação, saúde, programas sociais, universidades e institutos federais, geração de empregos e políticas destinadas aos jovens apareceram como exemplos de um Estado que, segundo o presidente, precisa estar presente na vida das pessoas.
E é impossível não pensar no SUS. Para milhões de brasileiros, inclusive para este jornalista que vos escreve, o Sistema Único de Saúde não é uma discussão abstrata. É o posto de saúde do bairro. É o médico. É o exame. É a cirurgia. É a vacina. É o atendimento que muitas vezes chega justamente onde nenhuma outra alternativa chega. Defender o SUS é defender pessoas.
Mais do que números
Depois do ato, certamente haverá uma disputa pelos números. Quantas pessoas estavam lá?
15 mil? 20 mil? 30, 40 mil? Eu vi uma multidão. Vi pessoas chegando de longe. Vi bandeiras. Vi famílias, crianças. Vi trabalhadoras e trabalhadores. Vi aposentadas e aposentados. Vi gente emocionada.
Por isso, minha percepção foi de que havia mais de 40 mil pessoas naquela região. Mas talvez o número mais importante não seja esse. O mais importante é entender por que tanta gente saiu de casa, viajou durante horas e foi até o centro de Curitiba para ouvir Lula.
Uma parte dessas pessoas estava ali para defender um projeto político. Outra parte estava ali para reencontrar uma esperança. Outras estavam ali porque acreditam que política também pode significar cuidado.
Precisamos de humanidade
Foi essa palavra que ficou comigo depois que o ato terminou. Humanidade. Ao final da farra de Lula me emocionei. Senti a humanidade do presidente Lula e das pessoas que ali estavam,vedadeiros seres humanos.
Num momento em que a política brasileira parece cada vez mais dominada pelo ódio, pela agressividade e pela tentativa de transformar o adversário em inimigo, talvez seja necessário lembrar o básico. Governar é cuidar de pessoas. É cuidar de quem trabalha e de quem já se aposentou. É cuidar de quem precisa do SUS e de quem precisa de escola.
É cuidar de quem procura emprego, das mulheres ameaçadas pela violência, das crianças e dos jovens. É cuidar também de quem pensa diferente.
O Paraná tem enormes riquezas e uma população trabalhadora. Mas também enfrenta problemas sérios, entre eles o custo de vida, a violência e desigualdades que não podem ser escondidas atrás de discursos políticos.
Precisamos de segurança, sim. Precisamos de desenvolvimento e de empregos mas precisamos também de humanidade. Foi isso que eu vi e senti neste sábado na Boca Maldita, na Rua XV e em todo centro de Curitiba.
Uma multidão foi ouvir Lula. E, entre discursos, bandeiras e palavras de ordem, havia algo muito maior: pessoas querendo ser ouvidas e querendo acreditar que a política ainda pode servir para melhorar a vida de quem mais precisa. Eu estava lá. E foi isso que trouxe comigo. Mais empatia, mais compreensão, mas cuidado com o próximo e amor no coração.
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| Nelsão da Força, Arilson Chiorato e Márcio Kieller, ao fundo Ênio Verri (Foto: Nelsão) |






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