Júri nos EUA rejeita ação de US$ 150 bilhões movida por Musk contra a empresa que ele ajudou a criar. Nos bastidores do Vale do Silício, disputa é vista como mistura de guerra ideológica, rivalidade empresarial e marketing de alto impacto
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| Elon Musk e Sam Altman - Imagem gerada por IA |
O tribunal ouviu durante semanas uma das disputas mais explosivas da história recente da tecnologia. De um lado, Elon Musk — o homem mais rico do planeta, fundador da Tesla, SpaceX e dono da rede X. Do outro, Sam Altman e a OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT e hoje uma das organizações mais poderosas do mundo da inteligência artificial.
Mas no fim das contas, o julgamento terminou de forma quase anticlimática: Musk perdeu não porque o júri tenha concluído que ele estava completamente errado, mas porque demorou demais para entrar com a ação.
A decisão saiu nesta segunda-feira (18), na Califórnia. Em menos de duas horas de deliberação, os jurados rejeitaram o processo bilionário movido pelo empresário contra a OpenAI, Sam Altman, Greg Brockman e até a Microsoft.
A alegação de Musk era pesada: segundo ele, a OpenAI teria “roubado uma instituição beneficente”, abandonando sua missão original de desenvolver inteligência artificial para o bem da humanidade e se transformando numa máquina privada de bilhões de dólares. Só que havia um problema jurídico difícil de contornar: o relógio.
O homem mais rico do mundo perdeu o prazo
O júri concluiu que Musk deixou passar o tempo legal necessário para apresentar a ação. Em termos simples: a Justiça entendeu que ele já sabia — ou deveria saber — há anos sobre as mudanças na OpenAI.
Especialistas lembraram durante o julgamento que Musk começou a criticar publicamente a empresa ainda em 2020, mas só formalizou o processo em 2024, quando a OpenAI já havia se tornado uma gigante global avaliada em centenas de bilhões de dólares.
Na prática, o mérito da acusação nem chegou a ser julgado profundamente. O tribunal basicamente decidiu que a discussão chegou tarde demais à Justiça. Mesmo assim, Musk reagiu com fúria.
Horas após a derrota, ele publicou uma sequência de mensagens na rede X afirmando que o tribunal não avaliou “o coração do caso”, apenas uma “questão técnica de calendário”.
Segundo Musk, Sam Altman e Greg Brockman enriqueceram usando uma estrutura criada originalmente como organização sem fins lucrativos.
“Eles roubaram uma caridade”, escreveu o bilionário.
O empresário também atacou a juíza responsável pelo caso, Yvonne Gonzalez Rogers, chamando-a de “juíza ativista de Oakland”.
Como a OpenAI virou um império
Para entender por que a disputa ficou tão gigantesca, é preciso voltar ao começo. A OpenAI nasceu em 2015 como um laboratório de pesquisa em inteligência artificial sem fins lucrativos. Elon Musk estava entre os fundadores e primeiros financiadores do projeto.
A proposta parecia quase idealista para os padrões do Vale do Silício: desenvolver IA avançada sem concentrar poder econômico em poucas empresas.
Mas o cenário mudou rapidamente. Depois da saída de Musk, em 2018, Sam Altman iniciou uma transformação estrutural que permitiu à OpenAI captar investimentos privados gigantescos — especialmente da Microsoft. Foi essa guinada que Musk passou a chamar de “traição da missão original”.
Nos anos seguintes, o ChatGPT explodiu mundialmente. A OpenAI virou peça central da corrida global da inteligência artificial, levantando bilhões para construir data centers, desenvolver chips e disputar espaço com Google, Meta e Anthropic.
Agora, com a derrota judicial de Musk, o caminho ficou praticamente livre para um possível IPO — a abertura de capital na Bolsa — que pode entrar para a história como uma das maiores já registradas no setor de tecnologia.
Contradição difícil de ignorar
Durante o julgamento, os advogados da OpenAI apresentaram documentos mostrando que o próprio Musk defendia mudanças parecidas anos atrás. Segundo os registros revelados no tribunal, o bilionário tentou transformar a OpenAI numa empresa com fins lucrativos ainda em 2017. Em determinado momento, chegou até a cogitar incorporar a organização à Tesla.
Isso enfraqueceu parte do discurso apresentado pela defesa do empresário. A OpenAI argumentou que Musk só passou a atacar o modelo empresarial depois que perdeu espaço dentro da companhia — e depois que o ChatGPT virou um fenômeno mundial sem ele.
Nos bastidores, a suspeita de uma guerra de mercado
Embora Musk continue insistindo que sua motivação é ética, muita gente no Vale do Silício acredita que o processo também teve um componente estratégico. Hoje o empresário controla a xAI, dona do chatbot Grok, concorrente direto do ChatGPT.
Nos bastidores da indústria, executivos e analistas enxergam a ação judicial como uma tentativa de desacelerar a OpenAI justamente no momento em que ela se preparava para abrir capital e consolidar domínio sobre o mercado de inteligência artificial.
O investidor Ross Gerber, que acompanha empresas ligadas a Musk há anos, classificou o processo como um “ataque movido pelo ego” e uma tentativa de “distrair e assediar” Sam Altman.
Outros observadores foram mais cautelosos. Alguns afirmam que, apesar da derrota, Musk conseguiu levantar uma discussão legítima: até que ponto uma organização criada sob discurso humanitário pode virar uma superpotência privada bilionária? Essa pergunta continuou ecoando, nos corredores do tribunal e nas ruas, mesmo após o veredito.
A guerra continua
A derrota judicial não significa que a disputa acabou. Os advogados de Musk confirmaram imediatamente que irão recorrer. E o próprio empresário deixou claro que não pretende abandonar o confronto.
Nos bastidores do julgamento, mensagens reveladas em tribunal mostraram o nível da deterioração pessoal entre Musk, Altman e Greg Brockman. Em uma delas, Musk chegou a escrever que os dois poderiam se tornar “os homens mais odiados da América”.
Ao mesmo tempo, ao que tudo indica, fato é que a OpenAI saiu fortalecida. A empresa preservou sua estrutura atual, manteve o apoio da Microsoft e ganhou tempo para continuar crescendo numa corrida tecnológica que movimenta trilhões de dólares.
No fim, a batalha judicial acabou deixando uma imagem quase simbólica do novo Vale do Silício: antigos aliados transformados em rivais bilionários, discutindo ética enquanto disputam o controle da tecnologia mais poderosa do século.
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