Parcerias assinadas por Luiz Inácio Lula da Silva e Narendra Modi ampliam cooperação, garantem medicamentos contra o câncer no SUS e reforçam uma agenda de soberania produtiva, desenvolvimento tecnológico e integração entre Sul Global
| Foto: Ricardo Stuckert/PR |
A viagem presidencial de Lula e da primeira-dama Janja à Índia não foi apenas simbólica nem restrita ao debate sobre inteligência artificial (IA). Nos bastidores — e também nas reuniões e atos oficiais — o que se viu foi a construção de uma agenda concreta, com impacto direto na vida das pessoas.
Entre reuniões diplomáticas, fóruns empresariais e encontros bilaterais, Brasil e Índia assinaram acordos que atravessam saúde pública, indústria farmacêutica, tecnologia e minerais estratégicos. É uma agenda que fala menos de promessas e mais de capacidade produtiva — um tema central quando o assunto é autonomia nacional.
Medicamentos contra o câncer: produção nacional e acesso no SUS
O ponto mais sensível — e talvez o mais transformador — foi a assinatura de três Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo que garantem a oferta de medicamentos oncológicos utilizados no tratamento de câncer de mama, pele e leucemias.
O investimento previsto é de R$ 722 milhões já no primeiro ano. Em dez anos, a projeção chega a R$ 10 bilhões.
Mas o dado mais relevante não está apenas no volume financeiro. Os acordos preveem transferência de tecnologia e produção no Brasil — um movimento que reduz dependência externa, dá estabilidade ao abastecimento e amplia o acesso a terapias de alta complexidade no SUS.
Na prática, isso significa algo simples e profundo: menos incerteza para pacientes e mais segurança para o sistema público de saúde do povo brasileiro.
A cooperação inclui ainda vacinas, biofabricação, biológicos, saúde digital, telessaúde e inteligência artificial aplicada ao setor — áreas que definem o futuro da saúde pública no mundo.
Ciência, regulação e soberania sanitária
Os acordos também avançam em um campo menos visível, mas decisivo: a infraestrutura científica e regulatória.
Memorandos assinados ampliam a troca de informações sobre medicamentos, dispositivos médicos e processos regulatórios, além de abrir espaço para pesquisa, desenvolvimento e produção de medicamentos estratégicos.
Trata-se de fortalecer a engrenagem que sustenta o SUS — da pesquisa ao acesso — e não apenas a etapa final do tratamento.
Para o governo brasileiro, a cooperação com a Índia consolida uma parceria histórica na defesa do acesso a medicamentos, especialmente genéricos, e no fortalecimento da soberania em saúde pública.
Minerais críticos e terras raras: tecnologia e geopolítica
Outro eixo central da missão envolve minerais críticos e terras raras — insumos essenciais para transição energética, indústria tecnológica, defesa, logística e cadeias globais de suprimento.
O acordo firmado entre os dois países busca construir cadeias produtivas mais resilientes e menos dependentes de poucos fornecedores globais.
O Brasil possui uma posição estratégica nesse cenário, com uma das maiores reservas mundiais desses recursos. A aproximação com a Índia amplia possibilidades de investimento, cooperação industrial e desenvolvimento tecnológico bilateral.
Mais do que exportar recursos, a discussão passa a incluir processamento, inovação e agregação de valor — um debate antigo da política industrial brasileira que volta ao centro da agenda.
Parceria que vai além do comércio
A Índia já figura entre os principais parceiros comerciais do Brasil na Ásia, especialmente no setor farmacêutico. Em 2024, as importações de fármacos vindos do país asiático chegaram a US$ 7,3 bilhões.
Agora, o movimento sinaliza uma nova etapa: sair da lógica de dependência para uma lógica de coprodução, como exige o multilateralismo que é o maior propulsor do progresso das nações.
A ampliação do acordo entre Mercosul e Índia aparece como prioridade estratégica e pode redefinir fluxos comerciais, investimentos e inovação nos próximos anos.
Multilateralismo
Há viagens diplomáticas que produzem imagens, ou cenas de isolamento em um país que já quase foi considerado pátria paria. Outras, como estamos observando, produzem estruturas erigidas sobre alicerces sólidos.
Os acordos firmados na Índia indicam um esforço para reconstruir capacidade produtiva — na saúde, na indústria e na tecnologia — a partir de parcerias entre países do Sul Global.
Quando medicamentos passam a ser produzidos no país, quando minerais deixam de ser apenas exportados e quando ciência atrelada à inteligência entra na equação econômica, o debate deixa de ser técnico e se torna político no sentido mais amplo da palavra: o direito de decidir o próprio futuro.
É nesse ponto que a missão presidencial ganha dimensão real. Não como evento, mas como direção. O Brasil dos últimos 3 anos deixou de fazer apenas jogo de cena para se tornar um grande player num mundo que ao nosso ver caminha finalmente em direção à paz, construindo mais pontes, ao invés de muros e barreiras. Se os Estados Unidos caminham no viés do unilateralismo, o Brasil abraça todas as nações com o multilateralismo.
Brasil e Índia não são apenas duas grandes democracias do Sul Global. Somos o encontro da farmácia do mundo com o celeiro do mundo, de uma superpotência digital com uma potência em energia renovável. Dois países megadiversos, com força cultural e compromisso com o… pic.twitter.com/c3BgEm1C2B
— Lula (@LulaOficial) February 21, 2026











