Agressão contra dirigente sindical ganhou repercussão nacional, chegou a Brasília e deixou uma pergunta sem resposta: o que foi feito para apurar a atuação da Polícia Militar durante a greve?
Há imagens que não deveriam ser esquecidas. E algumas delas, graças à tecnologia, já não podem ser apagadas. Podem, no máximo, cair no silêncio enquanto outras notícias ocupam seu lugar.
Uma dessas cenas aconteceu em 4 de fevereiro de 2026, diante da fábrica da Brose, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Trabalhadores estavam em greve quando uma intervenção da Polícia Militar do Paraná (PMPR), terminou com a imobilização e a prisão do dirigente sindical Nelson Silva de Souza, o Nelsão da Força. Vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC) e Força Sindical Paraná.
As imagens, da truculência policial, circularam por todo o país. Todas as Centrais Sindicais denunciaram a violência policial e o cerceamento do direito de greve. Trabalhadores relataram o uso de spray de pimenta. Outros dirigentes também denunciaram truculência. Nelson foi algemado com tiras de nylon que poderiam até ter causado uma gangrena em suas mãos, de tão apertadas.
A PM apresentou sua versão para a ocorrência. Os trabalhadores e sindicalistas apresentaram outra. É justamente por isso que, seis meses depois, a pergunta continsindicalistasssária: houve uma investigação efetiva e independente sobre o que aconteceu?
A greve terminou. A pergunta não cala
A paralisação dos funcionários e funcionárias da Brose terminou em março, mas o caso, as perguntas e a indignação não terminaram com ela. O Ministério Público do Trabalho no Paraná (MPT-PR) ajuizou uma Ação Civil Pública contra a empresa, apontando práticas antissindicais durante a greve e pedindo, entre outras medidas, R$ 1 milhão por dano moral coletivo.
É uma resposta institucional importante. Mas diz respeito à conduta da empresa. E a atuação da Polícia Militar? Essa é uma questão vital e que precisa ser apurada separadamente. Mas até agora nada apareceu e não se sabe se algo foi feito, sequer se foi aberto um inquérito pelo serviço reservado da própria PMPR, ou denúncia do Ministério Público do Paraná (MPPR).
Nelsão quer saber se a Corregedoria da PMPR abriu procedimento. Quer saber se a Secretaria de Estado da Segurança Pública tomou alguma providência. Quer saber se o Ministério Público do Paraná recebeu a denúncia e acompanhou o caso. E, acima de tudo, quer saber se houve responsabilização. Afinal, quem deu a ordem?
Não foi apenas Nelsão
A denúncia nunca envolveu somente a agressão sofrida pelo dirigente sindical. Outros sindicalistas, trabalhadoras e trabalhadores também relataram violência e truculência durante os conflitos registrados ao longo da greve. Há inclusive imagens comprovando as denúncias.
Por isso, a questão ultrapassa a experiência pessoal de Nelsão. Se houve abuso, é preciso saber quem praticou, quem autorizou, quem fiscalizou e quais medidas foram tomadas. A apuração se faz assaz, para impedir que algo semelhante volte a acontecer.
Não se trata de condenar antecipadamente nenhum policial ou cadeia de comando. Trata-se de investigar. Inclusive o suposto aparelhamento da Polícia Militar pela empresa. E, que se a investigação concluir que não houve irregularidade na ação policial, que isso também seja informado publicamente. Pois as pessoas que ficaram traumatizadas com o episódio, gente tinha desconfiava na polícia mas agora tem medo. Merece uma explicação do Estado.
 |
| As marcas das algemas nos braços do Nelsão |
Quando a notícia também bate à porta de casa
Há uma razão pessoal para que esta discussão também me atravesse como jornalista. Na mesma época dos acontecimentos da Brose, minha própria casa recebeu diversas visitas policiais. Em uma delas, a porta foi arrombada. Em outra, houve ameaça de arrombamento caso minha companheira não abrisse a porta.
Sou jornalista, sou pessoa com deficiência e já tenho uma certa idade. Até hoje, ninguém apareceu para pagar sequer o caixilho que ficou danificado. Nunca antes disso tinha acontecido na minha vida, e olha que eu já briguei com gente grande porque aprendi que o sol, a lua e a verdade não se esconde para sempre.
Considero aquilo um abuso e continuo também esperando uma resposta. Foram dezenas de vezes a polícia de pistola engatilhada na porta da minha casa. Poucas equipes foram cordiais. Na maioria considero que foi abuso, ainda mais que todas aconteceram depois das 18 horas.
Não trago essa experiência para substituir provas ou investigação. Apesar do trauma, não guarda mágoa ou rancor. Mas carrego comigo essa experiência terrível, e agora trago à tona porque é impossível discutir abuso de autoridade sem lembrar que, do outro lado da ocorrência, existe sempre uma pessoa.
Existe uma casa. Existe uma família. Existe alguém que precisa continuar vivendo depois que a viatura vai embora. Quando é levado dentro da viatura também preciso voltar para casa, mesmo local aonde trabalho, carregando esse estigma comigo.
Existe uma pergunta que demorou para ser feita ser feita: quem fiscaliza quem tem o monopólio da força? Meu pai, assim como o meu avô, que também eram jornalistas aqui nessa mesma cidade, sempre me disseram: a tropa é reflexo do comandante.
Trabalhador, sindicalista e jornalista não são inimigos do Estado
Quando um trabalhador está em greve, ele continua sendo cidadão. Ser trabalhador não é crime.
Quando um sindicalista está na porta de uma fábrica, continua protegido pela Constituição. Sindicalismo não é crime.
Quando um jornalista denuncia aquilo que considera errado, também continua tendo seus direitos fundamentais preservados. Jornalismo não é crime.
Da mesma forma, qualquer cidadão abordado pelo Estado tem direito à dignidade, à integridade física, à presunção de inocência e ao devido processo legal. E, em caso de abuso você não merece reparação moral e material, deveria ao menos haver um pedido oficial de desculpas.
Por isso, não podemos aceitar como normal a ideia de que alguém possa ser tratado como culpado antes de qualquer investigação ou julgamento. Ninguém pode ser levado em suposto flagrante forjado através de denúncia caluniosa. Perturbação da paz inclusive, que hoje em dia é muito alegada por essa corporação, está regulada por lei e tem aferição do Inmetro. Não ultrapassar 95 decibéis durante o dia. Não ultrapassar 90 decibéis após as 22h00.
Armas existem para proteger vidas e enfrentar situações de risco. Não podem se transformar em instrumento de intimidação contra cidadãos que exercem direitos. Não podem ser engatilhadas contra pessoas inocentes que estão dentro da privacidade do lar ou na porta das fábricas e não oferece ameaça alguma ao próximo, a si mesmo e muito menos às autoridades.
Chega de trabalhador ser tratado como inimigo porque fez greve. Chega de sindicalista ser tratado como ameaça porque organizou sua categoria. E chega de jornalista ser tratado como criminoso simplesmente porque fez uma denúncia, ou esbraveja indignado contra sistemas obscuros supostamente com motivação financeira e ideológica.
O exercício do pensamento é livre. A livre expressão é garantida pela Constituição Federal sendo vedado apenas o anonimato. Qualquer manifestação pode ser feita em qualquer lugar público, desde que avisado antes e que não fruste outra marcada anteriormente.
A polícia tem uma função essencial na democracia. Justamente por isso, precisa ser protegida de práticas que possam comprometer a confiança da sociedade. Durante quase 55 anos da minha vida, confiei na polícia. Hoje tenho medo da polícia. E olha que nesse meio tempo morei 11 anos no Rio de Janeiro. Mas foi aqui no Paraná, durante o governo Ratinho Junior, que a polícia realmente me deu medo.
De São José dos Pinhais a Brasília
Voltando ao caso da Brose, que saiu dos portões da fábrica e ganhou repercussão nacional, mobilizando entidades sindicais e chegando às instituições do Paraná e de Brasília. Podemos perceber que a denúncia não desapareceu.
Mas também aumenta a responsabilidade das autoridades em oferecer uma resposta. Só a verdade pode esclarecer os fatos. E, isso só pode ser obtido através de investigação pelas instituições competentes. O caso precisa ser apurado e uma resposta precisa ser dada.
Não cabe a uma reportagem antecipar conclusões sobre eventual responsabilidade individual. Todos são inocentes até se prove o contrário. Cabe às instituições investigar, ouvir os envolvidos, analisar as imagens e apresentar suas conclusões. É preciso coragem. É assim que funciona um Estado Democrático de Direito.
As perguntas continuam sem resposta
Por isso, o blog Sulpost faz publicamente as perguntas que permanecem depois de seis meses:
- O que foi feito para investigar a atuação policial durante a greve da Brose?
- A Corregedoria da PMPR abriu procedimento administrativo?
- A Secretaria de Segurança Pública instaurou alguma investigação?
- O Ministério Público do Paraná recebeu a denúncia?
- Os policiais envolvidos foram identificados e ouvidos?
- As imagens da ocorrência foram incorporadas a algum procedimento?
- Os policiais usavam câmeras corporais?
- Se houve investigação, houve conclusão?
- Algum agente foi responsabilizado?
- Se não houve responsabilização, qual foi a conclusão que levou a isso?
- Que medidas serão adotadas para evitar que trabalhadores em greve voltem a ser submetidos a situações semelhantes?
- Que medidas serão adotadas para que o local de trabalho e moradia de um jornalista não seja invadido na calada da noite?
Investigar não é atacar a Polícia Militar
Essa talvez seja a parte mais importante desta discussão. Investigar uma denúncia de abuso de autoridade não significa atacar a Polícia Militar. Muito pelo contrário, significa inclusive inocentar bons policiais e identificar de onde veio a ordem, para poder se saber se foi uma ação policial ou um comando realizado dentro, ou fora da legalidade.
Uma instituição forte é aquela que também aceita ser fiscalizada. Os bons policiais, que são a grande maioria, aqueles que trabalham corretamente e respeitam a lei, também ganham quando eventuais abusos são apurados. A responsabilização de quem eventualmente ultrapassa os limites da autoridade não enfraquece a corporação.
Uma investigação completa sobre todos esses acontecimentos, inclusive, protege a instituição. Protege quem veste a farda corretamente. E protege, principalmente a sociedade, os mais vulneráveis, os trabalhadores e trabalhadoras, cidadãos e cidadãs, aqueles que para quem entra para as forças policiais, jura servir e proteger.
Da mesma maneira, uma denúncia não transforma automaticamente o denunciado em culpado. É justamente a investigação que deve separar fato, suspeita, excesso, erro e responsabilidade. E, se forem constatadas irregularidades o inquérito deve evoluir, naturalmente, penso eu, para a esfera administrativa e judicial cabível.
Para que não aconteça novamente
A greve da Brose acabou. A ação trabalhista continua. Mas as pessoas que passaram por aquela situação vexatória e desumana também continuam carregando suas marcas.
Algumas ficam no corpo. Outras permanecem na memória. E há aquelas que atingem algo mais difícil de reconstruir: a confiança. Talvez algumas pessoas tenham procurado a Justiça. Talvez outras tenham desistido por medo, inclusive medo de que aconteça alguma coisa com a sua própria família, pelo cansaço ou pela sensação de que ninguém iria ouvi-las.
É justamente por isso que a cobrança precisa continuar. E chega aqui, preto no branco, tornando-se indelével. Sem medo da verdade. Sem medo de perguntar. Sem medo de exigir respostas. Não se trata de escolher entre trabalhadores e policiais.
Trata-se de escolher entre o silêncio e a transparência; entre a impunidade, os possíveis abusos por parte das autoridades, as falsas denúncias que levam a polícia ao erro, à lei e ao Estado Democrático de Direito.
Se houve excesso, ele precisa ser apurado. Se aconteceu alguma espécie de abuso, que haja investigação e responsabilização. Se não houve irregularidade, que a investigação demonstre isso e traga a todas e todos, que se sentiram machucados, feridos em seus direitos pelo Estado, uma resposta.
O que não pode acontecer é uma denúncia de violência contra trabalhadores desaparecer simplesmente porque os meses passaram. Então esquentamos a falta, e trazemos fatos novos ao conhecimento público.
A Brose já responde a uma ação na Justiça do Trabalho. Agora é preciso saber o que aconteceu com as denúncias relacionadas à atuação policial. Inclusive na minha casa e local de trabalho, que se tornou truculenta justamente na mesma época dos fatos ocorridos com o Nelsão.
Porque uma sociedade democrática não pode pedir ao trabalhador que esqueça aquilo que o Estado ainda não explicou. A greve acabou. O Nelsão está lá na casa dele, com a família, aguardando eu mandar o link para ele ler essa reportagem, que resolvemos escrever juntos. Eu continuo vivo, ainda bem que nenhuma pistola disparou ou não usaram um fazer contra uma pessoa que tem problemas em um dos ramos do coração.
A pergunta, não cala e exige resposta. O governo Ratinho Júnior não pode simplesmente terminar sem que essas respostas apareçam. Mesmo que tentem nos oprimir ou criminalizar com o poder do Estado, a publicação está feita. A história dirá quem errou, quem acertou, quem eram os bons ou os maus, ou talvez até, simplesmente esclareça os fatos pois existem trabalhadores e famílias com a dignidade ferida pelo Estado.
Nem eu, nem o Nelsão, nem o movimento sindical e muito menos os trabalhadores, trabalhadoras, companheiros e companheiras, vão deixar essas perguntas cairem no esquecimento.
Os danos não ficaram apenas registrados nas imagens daquele dia na Brose é nas noites em claro, que passei com medo de ter a porta novamente arrombada pela polícia do Estado do Paraná.
As marcas ficaram no corpo, na memória e na confiança de pessoas que talvez antes enxergassem a polícia como proteção e hoje sintam medo quando encontram uma farda ou veem uma viatura passar.
E talvez seja justamente aí que esteja a questão mais importante de todas: se queremos uma sociedade mais segura e justa, precisamos também de instituições nas quais o cidadão possa confiar. Se a polícia fiscaliza os cidadãos, quem fiscaliza a polícia?
Por isso, seis meses depois, continuamos perguntando:
- O que aconteceu depois daquela prisão?
E o que o Estado do Paraná fará para garantir que aquilo, O que é isso não aconteça novamente? Da minha parte continua esperando alguém pagar o caixilho da minha porta e me pedir desculpas perante a todos aos quais me senti humilhado por ser tratado de forma desumana como fizeram com a Nelsão. Uma coisa terrível, um absurdo, tentando manchar histórias e reputação construída ao longo de décadas.
Assusta ser levado preso de dentro de casa, durante a noite, justamente quando o filme brasileiro que faz mais sucesso no exterior, inclusive premiado com o Oscar, fala sobre um jornalista levado por militares da sua casa, que nunca mais voltou. Mas eu ainda estou aqui. E o companheiro Nelsão também, lutando pelo que para nós é certo, através das nossas garantias constitucionais. Cada um na sua área de atuação.
Nota editorial: A existência de denúncias e imagens da ocorrência não significa antecipar culpa individual. O objetivo desta reportagem é cobrar que as autoridades competentes investiguem os fatos, esclareçam o que ocorreu e, caso sejam constatadas irregularidades, adotem as medidas cabíveis previstas em lei.
Os relatos do Nelson e pessoais apresentados nesta reportagem são resultado de experiência do autor - Ronald Sanson Stresser Jr - e não como prova de outros casos. Por isso costumo dizer que o mesmo calçado mal feito, aperta o calcanhar de um, a bolha no pé do outro, e o calo de outrem.
A presunção de inocência, o contraditório, a ampla defesa e os direitos fundamentais previstos na Constituição Federal valem para todos — trabalhadores, sindicalistas, jornalistas, policiais, empresas e autoridades públicas. E também sempre é preciso observar o estatuto do deficiente, garantido a preservação da dignidade justamente daqueles que mais precisam da proteção do Estado.
Investigar não é condenar. Investigar é garantir que a verdade possa ser conhecida. Porque, como dizia o Buda: existem três coisas que não se escondem para sempre, o sol, a lua e a verdade. Mesmo que estejamos vivendo dias nublados, tenho certeza de que a verdade há de voltar a raiar no horizonte do Paraná.
Basta! Sindicalismo não é crime. Ideologia política progressista não é crime. Jornalismo não é crime. Deficiência ou neurodivergência, além de não ser crime é sinônimo de respeito. Para isso existem as leis.
Lembrando que a perseguição feroz para cima da minha pessoa como cidadão, da minha família, do meu posicionamento político e do meu trabalho, não começou este ano. Os registros da Polícia Militar do Estado do Paraná talvez contem melhor a parte da história que ainda me é oculta. A primeira vez que fui levado preso, após arrombamento da porta da minha residência durante a noite sem que houvesse flagrante algum, foi em junho de 2025.