10.8.26

Requião Filho aposta em propostas

Depois do debate da Band, candidato do PDT diz que pretende trocar o embate direto pelo debate por propostas para o Paraná

Requião Filho (PDT) e Sandro Alex (PSD) nos estúdios da Band Paraná - Reprodução

O debate termina, as câmeras se apagam e a disputa eleitoral continua, agora com a devida apresentação pública dos candidatos, no já tradicional Debate da Band, o primeiro realizado durante o período eleitoral. Sérgio Moro não compareceu, mas as campanhas de Requião Filho e Sandro Alex começaram para valer. É neste momento, durante esta semana, que vai repercutir em todo o estado o debate e os embates entre os candidatos. 

Em vídeo publicado nas redes sociais na tarde desta segunda-feira (10), o candidato do PDT afirma que não pretende entrar na lógica de uma disputa baseada apenas na agressividade. A ideia, segundo ele, é responder aos adversários com firmeza, mas concentrar a campanha na apresentação de propostas.

“Nessa eleição, todo mundo espera de mim o Requião do Velho Testamento. Pau, polícia e cacete. Só que nessa eleição, a gente tem muito mais proposta e muito mais conhecimento do Paraná...  Eles esperam de nós agressividade. Nós vamos entregar assertividade.”

A frase resume o tom que Requião Filho pretende imprimir à caminhada eleitoral. Em vez de transformar cada divergência em um novo confronto, o candidato diz que quer apresentar soluções para problemas que considera centrais para o Estado.

A manifestação também ocorre em meio às primeiras repercussões do debate da Band, realizado neste domingo (9). A ausência de Sergio Moro (PL) acabou alterando a dinâmica do encontro, que teve momentos de confronto mais direto entre Requião Filho e Sandro Alex (PSD).

Para o candidato do PDT, o debate não deve ser medido apenas pelos momentos de maior tensão. A proposta anunciada é levar a discussão para aquilo que acontece fora dos estúdios e das redes sociais: o cotidiano de quem vive no Paraná.

“Vamos apresentar propostas que já deram certo, que já demonstraram resultados, e aprimorá-las para a realidade do Paraná.”

É uma tentativa de mudar o centro da conversa. Em vez de fazer da eleição uma sucessão de ataques, Requião Filho procura apresentar a disputa como uma escolha entre diferentes projetos para o Estado. E, é o que é. Candidatos devem ser medidos por projetos e não por ataques pessoais.

Temas que entram no centro da campanha

Essa linha, aliás, não começou com o debate. Antes mesmo do encontro da Band, o candidato já havia sinalizado que pretende colocar no centro da campanha questões como emprego, saúde, impostos, segurança e desenvolvimento do interior.

São temas que, na prática, ultrapassam a disputa entre candidatos. Estão presentes no dia a dia de quem procura atendimento de saúde, de quem depende de emprego, de quem enfrenta a violência. Ouvir aqueles que vivem longe dos grandes centros e cobram do poder público oportunidades semelhantes às encontradas nas regiões mais desenvolvidas.

O desafio, agora, será transformar o discurso de campanha em propostas suficientemente concretas para que o eleitor consiga comparar caminhos diferentes para o Paraná.

O cenário eleitoral

Na pesquisa Quaest divulgada pela Band em 27 de julho, Requião Filho aparecia em segundo lugar na disputa pelo governo do Paraná, com 18% das intenções de voto.

No cenário de segundo turno apresentado pelo levantamento, o candidato registrava 37%, contra 20% de Sandro Alex.

Os números, porém, retratam apenas um momento da corrida eleitoral. Com a campanha ainda em construção e os debates começando a colocar os candidatos frente a frente. Novas posições podem surgir à medida que o eleitor conhecer melhor nomes, propostas e, principalmente, a capacidade de cada um de transformar discurso em projeto de governo.

Depois do primeiro debate, a mensagem de Requião Filho parece estar definida: se os adversários esperam mais confronto, ele pretende responder com propostas. A eleição, daqui para frente, dirá quanto espaço essa estratégia conseguirá conquistar no debate sobre o futuro do Paraná.

Saúde: ministro visita hospitais do Paraná

Agenda em Curitiba e Campina Grande do Sul destacou ampliação de cirurgias, tratamentos de alta complexidade e atendimento pelo SUS

Foto: Ministério da Saúde

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, esteve no Paraná neste sábado (8) para conhecer de perto o trabalho de hospitais que atendem pacientes do SUS. A agenda passou pela Santa Casa de Curitiba e pelo Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana.

Na Santa Casa, que tem 146 anos de história, Padilha acompanhou ações voltadas à ampliação de cirurgias e exames. A instituição conta com 367 leitos destinados ao SUS e, até abril deste ano, já havia realizado 32,8 mil cirurgias dentro do programa Agora Tem Especialistas.

O hospital também oferece tratamentos de alta complexidade e realiza transplantes de córnea, rim, coração, tecidos musculoesqueléticos e válvulas cardíacas. Somente em 2025, foram 40 transplantes.

Outro destaque da agenda foi o Complexo de Saúde Pequeno Cotolengo, que passou a atuar como Centro Especializado em Reabilitação II. Com a nova habilitação, a capacidade anual de atendimento deve saltar de 9,8 mil para mais de 44 mil procedimentos voltados principalmente à reabilitação física e intelectual.

Atendimento de alta complexidade

Em Campina Grande do Sul, o ministro visitou o Hospital Angelina Caron, referência em serviços de média e alta complexidade. A unidade atende em 30 especialidades e oferece tratamentos como oncologia, cardiologia, transplantes, hemodiálise e radioterapia.

Em 2025, mais de 128 mil pessoas foram atendidas no hospital, sendo 90% pela rede pública. No mesmo período, foram realizadas 30,3 mil cirurgias. A unidade também passou a contar, desde maio, com uma nova sala de cirurgia geral.

Durante as visitas, Padilha destacou a importância da parceria entre o Ministério da Saúde, os municípios e as instituições filantrópicas para ampliar o acesso da população a consultas, exames, cirurgias e tratamentos especializados.

Santas Casas têm papel importante no SUS

A agenda também ocorre em um momento de reforço às instituições filantrópicas. Uma nova lei sancionada em 6 de agosto prorrogou até 2030 a possibilidade de uso de recursos do FGTS em operações de crédito destinadas a hospitais filantrópicos e entidades sem fins lucrativos que atendem pelo SUS.

Em todo o país, as Santas Casas realizaram 1,3 milhão de internações e 74,1 milhões de procedimentos ambulatoriais em 2025. As instituições filantrópicas também foram responsáveis por 1,8 milhão das cirurgias eletivas realizadas pelo SUS naquele ano.

Na área de transplantes, a participação também é expressiva: entre 2012 e maio de 2026, entidades sem fins lucrativos responderam por 59,7% dos transplantes realizados pelo SUS.

Na Volvo, confiança no sindicato vira conquista no bolso do trabalhador

Na Volvo, em Curitiba, um exemplo de sucesso para movimento sindical brasileiro — ao longo dos anos SMC vem conquistando importantes vitórias para a classe trabalhadora

 

Quase cinco décadas de chão de fábrica, liderança presente e uma categoria organizada. Na Volvo, a história mostra que quando o trabalhador, a trabalhadora e o sindicato caminham juntos, a negociação ganha força — e o resultado aparece diretamente na qualidade de vida das famílias.

É essa trajetória que envolve nomes como Nelsão da Força, funcionário da Volvo há mais de 47 anos, e Sérgio Butka, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC), que aos 66 anos segue firme, defendendo as bandeiras históricas da categoria. Butka é pioneiro na luta pela jornada de 40 horas semanais e a escala 5x2, desde 1996.

Mais do que dirigentes, Nelsão e Butka são lideranças que conhecem o chão da fábrica, os trabalhadores e suas famílias. Eles sabem que a força da luta e a vitória, começa na confiança por parte da classe no sindicato e em seus dirigentes. Essa confiança voltou a se transformar em resultado na campanha salarial 2026/2027.

A proposta negociada pelo SMC foi aprovada pela maioria dos trabalhadores da Volvo e garante 100% do INPC, sem teto, em 2026 e 2027, além de abono de R$ 2.700 em cada ano e vale-mercado de R$ 1.800.

São conquistas que representam mais poder de compra e segurança para milhares de famílias. Mas o principal resultado talvez esteja em outro lugar: na demonstração de que a organização da base continua sendo decisiva para a luta.

De acordo com o Nelsão, são os diretores e diretoras que estão dentro da fábrica, conversando diariamente com os trabalhadores, quem mais ajuda a transformar as reivindicações em negociação. Sempre com a liberdade para participação, sagrada, dos trabalhadores e trabalhadoras em participar das assembleias e votações. É a assembleia presencial que dá força e legitimidade à representação sindical.

Na Volvo, não é diferente das outras empresas, a liderança não se faz de longe. Se faz no chão de fábrica, lado a lado com o companheiro e a companheira que trabalha na mesma fábrica. A história de Butka, Nelsão e dos diretores do SMC mostra que as conquistas coletivas nascem de três palavras: organização, confiança e unidade.

E, pelo que temos observado aqui na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), quando trabalhadores e sindicato estão juntos, a luta continua — e a vitória vem.

O Brasil onde trabalhar ficou caro demais: salário mínimo, transporte e o abandono de quem paga a conta

Enquanto o custo de vida pesa cada vez mais no orçamento, milhões de brasileiros chegam ao fim do mês entre o salário, que não acompanha todas as despesas, as dívidas e a perda de poder aquisitivo

 
Enquanto o custo de vida pesa cada vez mais no orçamento, milhões de brasileiros chegam ao fim do mês entre o salário, que não acompanha todas as despesas, as dívidas e a perda de poder aquisitivo

Há uma pergunta que os governos estaduais do Brasil deveriam fazer com mais frequência — e responder com menos discursos que sequer o povo consegue compreender: quanto custa, hoje, simplesmente viver e trabalhar no Brasil?

A resposta não cabe apenas em uma planilha, não se pode tratar as pessoas apenas como números, estatística. Ela aparece no caixa do supermercado, quando o carrinho volta para casa mais vazio a cada mês que passa. Aparece no aplicativo bancário do seu telefone, quando a fatura do cartão chega. Aparece na catraca do transporte coletivo. Aparece no aluguel, na conta de luz, na farmácia e, principalmente, naquele momento do mês em que o salário começa a acabar antes de as contas fecharem.

O salário mínimo nacional foi fixado em R$ 1.621 em 2026. O valor representa o piso oficial de remuneração, mas está muito distante daquilo que o próprio DIEESE estima como necessário para uma família de quatro pessoas manter as despesas básicas. Em maio, o instituto calculou esse valor em R$ 7.999,44. Valor que representa praticamente cinco salários mínimos.

A diferença ajuda a dimensionar o tamanho do problema. Mas os números, sozinhos, ainda não contam a história inteira, pois pessoas, vidas, famílias, comunidades inteiras, não são apenas números. Somos almas humanas, todas e todos temos necessidades que vão além da alimentação.

Existe também uma parcela de milhões de brasileiros que não vivem apenas com o salário mínimo. Ganham um pouco mais no fim do mês. Mas todo mundo têm um emprego, empreende ou recebe comissão além de salário. São vários os cenários, mas todos nós pagamos impostos. Alguns têm financiamento imobiliário da casa propria, outros pagam prestação do sonhado carro novo. Muitos de nós temos filhos para sustentar.

E, mesmo quem ganha mais de um salário mínimo, ainda assim, vive no limite. Inclusive no limite do crédito mais caro do mundo. É essa parcela, a chamada classe média, que vai sendo espremida entre uma renda que parece razoável no contracheque ou no lucro do negócio próprio, e um custo de vida em escalada contante que, na prática, não deixa sobrar quase nada no final das contas.

O orçamento acaba antes do mês

O levantamento do DIEESE aponta que em maio de 2026, o salário mínimo necessário para uma família de quatro pessoas foi estimado em R$ 7.999,44, considerando despesas como alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência. O valor equivalia a 4,93 vezes o salário mínimo oficial de R$ 1.621. Na mesma pesquisa, a cesta básica de São Paulo custava R$ 952,20, quando todos sabemos que a cesta básica é o mínimo para uma pequena família sobreviver durante um mês.

Em outras palavras: somente a alimentação básica pesquisada pelo DIEESE representava 63,5% do salário mínimo líquido considerado no levantamento. Isso sem levar em conta o aluguel, a conta de água e de energia elétrica. Despesas com remédios e transporte, vestuário e material escolar, gás e aquela despesa inesperada que não estava no orçamento.

É nesse ponto que a discussão sobre custo de vida deixa de ser uma abstração econômica e passa a ser uma pergunta bastante simples: quanto dinheiro sobra depois que uma pessoa paga suas contas para continuar vivendo?

O trabalhador também paga para conseguir trabalhar

O transporte coletivo talvez seja uma das expressões mais claras dessa contradição. Em Florianópolis, a tarifa paga em cartão transporte, dinheiro, Pix ou QR Code chegou a R$ 7,70 em 2026. Para alguém que utiliza duas passagens por dia durante 22 dias úteis, a conta chega a R$ 338,80 por mês. Isso equivale a cerca de 21% de um salário mínimo. Não é pouco. É caro.

Quando já descontado do contracheque, é dinheiro que sai antes mesmo de o trabalhador comprar comida, pagar aluguel ou colocar uma conta em dia. Em Curitiba, onde a tarifa foi mantida em R$ 6 durante 2026, duas passagens por dia em 22 dias úteis representam R$ 264 por mês — cerca de 16,3% do salário mínimo. A Prefeitura também mantém programas específicos, como a tarifa reduzida aos domingos e a Tarifa Zero a Caminho do Emprego.

Em São Paulo, a tarifa municipal de ônibus está em R$ 5,30. No mesmo cálculo de duas viagens diárias durante 22 dias úteis, o trabalhador gastaria R$ 233,20 por mês, ou aproximadamente 14,4% do salário mínimo.

As contas parecem simples. Mas não. São contas que ajudam a mostrar uma coisa que muitas vezes desaparece nas discussões sobre mobilidade: o trabalhador não usa o transporte apenas para se deslocar. Ele paga para chegar ao próprio emprego.

É claro que transporte coletivo tem custo. Há combustível, manutenção, veículos, trabalhadores, terminais, infraestrutura e contratos. Os sistemas também recebem subsídios públicos em diferentes níveis. Explicar o custo das tarifas é necessário, más explicar não resolve a conta de quem precisa pagá-la mês após mês.

A cidade pode prosperar enquanto o trabalhador aperta o orçamento

Existe outro panorama panorama importante de se observar. As cidades que concentram atividade econômica, empregos e serviços, como capitais e cidades polo, que produzem mais, paradoxalmente apresentam custos mais elevados de moradia, alimentação, transporte e outros serviços. É uma combinação particularmente difícil para quem vive do trabalho, e sabe que o seu trabalho está gerando riqueza para outros, entender.

Uma cidade pode ter restaurantes sofisticados, condomínios valorizados, escritórios modernos e um mercado imobiliário aquecido. Entretanto quem cuida da limpeza e manutenção esses prédios, dirige os ônibus, serve nos restaurantes, trabalha em supermercados e mantém os serviços funcionando, igualmente precisa morar, comer, se deslocar, ter acesso à saúde, cultura e educação. Mas quem ainda consegue acessar todas essas necessidades básicas, nem sempre consegue fazer isso com tranquilidade.

Enquanto a cidade prospera, o trabalhador que contribui com essa prosperidade não consegue acompanhá-la no que diz respeito à qualidade de vida. Talvez aí possa ser observada uma das contradições mais silenciosas do Brasil contemporâneo. Embora a fome tenha sido mais uma vez erradicada no país, ainda vivemos em um profundo abismo social.

Quando o salário não basta, entra o crédito

Quando a renda não acompanha as despesas, o leque de escolhas da classe trabalhadora vai ficando menor. Quando o cinto começa a apertar, primeiro se corta o consumo, em seguida vem o adiamento para pagar uma conta. Então começam os parcelamentos, nas contas, nas compras, nos boletos. As pessoas usam o cartão de crédito, entram no rotativo, pedem um empréstimo. Excedem o limite da conta.

Para cerca de metade da população brasileira, pouco a pouco, o crédito deixa de ser uma ferramenta para comprar alguma coisa e passa a funcionar como extensão do salário. Um dinheiro que custa mais de 400% de juro ao ano.

É bem neste ponto que o endividamento começa a mudar de natureza. O Serasa registrou 83,3 milhões de brasileiros inadimplentes em abril de 2026. O número correspondia a 50,81% da população adulta e representava o maior volume da série histórica do levantamento. Blogueiro também não escapa, eu também faço parte dessa maioria.

Mas isso não significa que todas essas pessoas tenham chegado à inadimplência pelo mesmo motivo. Há quem tenha perdido emprego, clientes e renda. Há quem tenha acumulado compromissos - na tentativa de manter o mesmo padrão de qualidade de vida. Existem as pessoas que enfrentaram ou estão enfrentando uma emergência familiar e muitos que acabaram recorrendo ao crédito, simplesmente para manter o orçamento funcionando.

Existe aí uma diferença que hoje percebe-se como fundamental. Uma coisa é contrair uma dívida para comprar um bem. Outra, muito mais preocupante, é recorrer ao crédito para pagar despesas que deveriam caber na renda mensal: comida, energia elétrica, despesas com moradia, transporte, remédios, etc...

Quando a dívida chega neste patamar, ela não está mais financiando sonhos ou projetos, ela passou a financiar a própria sobrevivência.

A classe média perdeu seu fôlego?

É aqui que o debate sobre custo de vida tem que sair da velha alegoria, que divide a sociedade entre ricos e pobres. Há uma parcela enorme da população que não se considera pobre, mas que também não consegue mais se sentir financeiramente segura.

É o trabalhador que tem emprego, mas depois que paga aluguel não lhe resta o suficiente para manter o mesmo padrão alimentar. É o casal que tem renda, mas a maior parte dela está comprometida com o financiamento da casa. Existe aquela pessoa, aquela família que têm carro, mas não sabe de onde vai tirar o dinheiro quando surge uma manutenção inesperada.

No meio de tudo isso também estão os profissionais que recebem acima do salário mínimo, mas vêem a escola dos filhos, supermercado, plano de saúde, transporte, impostos, acesso à cultura e moradia consumirem tudo o que ganham.

Essa população não aparece nas estatísticas de extrema pobreza. Mas isso não significa que a classe média brasileira esteja confortável. Está sim é se tornando vulnerável. E, a vulnerabilidade financeira, não surge necessariamente no extremo, quando chega ao absurdo da falta comida na mesa.

A vulnerabilidade financeira da classe média, às vezes só começa a aparecer quando simplesmente desaparece qualquer economia para um imprevisto, para uma emergência. Pode ser uma geladeira quebrada, um problema no carro, doença na família, demissão. Ela surge quando comerciantes e profissionais liberais deixam de ter apenas mês ruim e se veem cercados por contas em atraso e dívidas.

Sem reserva financeira, qualquer uma dessas situações pode empurrar uma família para o crédito. E o crédito, quando já existe outra divida em atraso, pode virar uma armadilha, ou uma espécie de areia movediça. As pessoas se veem desesperançadas.

Governos precisam olhar para a conta que chega ao trabalhador

Nenhum governo controla sozinho todos os preços. A prefeitura não determina o valor do supermercado. O governo estadual não fixa sozinho o preço do aluguel. A União não administra cada despesa que aparece no orçamento doméstico.

Mas governos municipais, estaduais e federal recolhem taxas e impostos, portanto têm responsabilidades importantes sobre as condições que determinam o custo de vida da população.

Por isso, não deveria bastar apresentar bons números fiscais, inaugurar obras ou anunciar investimentos. Nas planilhas tudo parece maravilhoso mas a realidade é outra.

Os governantes precisam olhar também para a outra ponta da equação: quanto custa viver na cidade, no estado e no país que eles administram?

As políticas públicas deveria ser examinadas também por uma pergunta muito menos abstrata: depois de pagar as despesas essenciais, quanto sobra no bolso do trabalhador e da trabalhadora? Quanto sobra no orçamento doméstico da família? Quando sobra pouco, existe um problema. Se não sobra nada, existe uma emergência.

As contas não tem ideologia

O custo de vida também precisa ser discutido além da velha estratégia de tentar colocar a todos acreditar nas armadilhas de marketing, que transforma cada número em munição partidária.

As cidades brasileiras, os Estados da Federação, têm governos de diferentes partidos, ideologias e orientações políticas. Algumas políticas seja de qual partido foi, dão certo, outras precisam ser revistas. Há avanços de uma administração que podem ser preservados pelo governo seguinte e problemas que atravessam diferentes e diversos mandatos.

A vida real é mais complicada do que as etiquetas partidárias e as planilhas com estatísticas. O trabalhador não paga a passagem com ideologia. Paga com dinheiro vindo do próprio trabalho. Feijão com arroz e bife não se compra com discurso político, custa dinheiro.

Planilha com números ajuda no planejamento, mas não se paga aluguel com promessa eleitoral. Paga-se com dinheiro. É justamente por isso que governos de diferentes espectros políticos deveriam ser cobrados por uma régua comum: a relação entre o custo e a qualidade real da vida de quem trabalha ou depende da aposentadoria para viver.

O país precisa olhar para quem está no limite

O Brasil não pode tratar como normal uma situação em que trabalhar durante todo o mês não garante, para milhões de pessoas, a possibilidade de construir sequer uma pequena reserva financeira. E neste caso o Paraná, nosso estado, já atravessou o sinal vermelho. Aqui temos o segundo custo de vida mais alto do país, atrás apenas do Distrito Federal.

Não deveria se tornar natural que uma parcela tão grande da população, mais da metade dela, esteja endividada ou inadimplente.

Também não podemos aceitar como normal que o transporte consuma uma fatia significativa da renda, justamente das pessoas que dependem dele para chegar ao emprego.

O pedágio da estrada não pode consumir o benefício da própria viagem. Da mesma forma não podemos aceitar que o aumento nominal do salário seja comemorado, sem que se observe quanto esse reajuste desaparece frente aos custos com alimentação, moradia e serviços.

Quando uma família deixa de comprar alguma coisa porque o dinheiro acabou, não é apenas aquela família que sente. O comércio também sente, assim como o pequeno prestador de serviços e toda economia local.

Quando uma pessoa deixa de fazer uma manutenção preventiva porque não tem dinheiro, o problema é adiado e pode ficar maior depois.

Cada vez que uma família entra no crédito, para pagar despesas básicas, compromete sua própria renda futura. É assim que um problema aparentemente doméstico e localizado vai ganhando dimensão econômica e social. Me parece assustador que no estado maior produtor de tilápia do mundo, 800g de filé de tilápia, custem perto de R$40,00 no supermercado.

A escada social não pode virar esteira

Durante muito tempo, a ideia de ascensão social esteve associada a uma sequência relativamente simples: estudar, trabalhar, melhorar a renda, comprar uma casa, formar uma reserva e oferecer aos filhos uma condição melhor do que aquela recebida dos pais.

Para alguns, essa trajetória ainda é possível. Mas não por incompetência ou gastar demais ou trabalhar menos ou mais, fato é que para milhões de pessoas, ela ficou mais difícil. Muitas pessoas perdem o sono com o temor de não conseguir deixar os filhos em melhor situação futura, através do próprio trabalho.

Quem começa a vida sem patrimônio, sem reserva financeira e com renda baixa enfrenta uma distância enorme até o primeiro degrau. Os que conseguem ou conseguiram subir alguns degraus, também podem descobrir que não estão tão protegidos quanto imaginavam.

Basta perder o emprego, surgir uma doença. Contrair uma dívida quando os juros e a inflação apertam. É o aluguel ou prestação da casa própria que sobe, é o custo com transporte que pesa.

O resultado parece estar numa sensação cada vez mais presente: a de que a escada social, que deveria permitir a subida, às vezes parece funcionar como uma esteira — a pessoa trabalha, trabalha, trabalha e permanece sempre no mesmo lugar.

A discussão sobre custo de vida é menos sobre números e mais sobre dignidade humana. Porque o verdadeiro indicador de uma economia não está apenas no tamanho do PIB, na arrecadação, no número de empregos ou no resultado das contas públicas.

Esta é uma questão presente na vida concreta de quem acorda cedo, enfrenta o trânsito ou o ônibus, trabalha o dia inteiro e volta para casa fazendo e refazendo contas, sem conseguir chegar no resultado que seja no mínimo satisfatório.

Onde viver pesa mais no bolso

O custo de vida não é igual para quem mora em diferentes regiões do Brasil. Uma pesquisa da Serasa em parceria com o Opinion Box, realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, mostrou diferenças expressivas no valor médio mensal do custo de vida no Brasil.

O Distrito Federal (DF) aparece no topo, seguido pelo Paraná (PR) e São Paulo (SP). A pesquisa considerou gastos com moradia, contas recorrentes, supermercado, transporte, saúde, educação, lazer, alimentação, compras e serviços pessoais.

Posição UF Unidade da Federação Gasto médio mensal
DF Distrito Federal R$ 4.920
PR Paraná R$ 4.300
SP São Paulo R$ 4.270

Fonte: Serasa/Opinion Box. Pesquisa realizada entre 22 de dezembro de 2025 e 6 de janeiro de 2026. A média nacional de despesas apontada pelo levantamento foi de R$ 3.520 mensais. Os valores representam estimativas médias de gastos e não um índice oficial de custo de vida.

Os dados chamam atenção especialmente no caso do Paraná. O estado aparece na segunda posição, com uma despesa média mensal de R$ 4.300 — cerca de R$ 780 acima da média nacional apontada pelo levantamento divulgado em janeiro deste ano.

O levantamento ajuda a colocar em perspectiva uma contradição que muitas vezes passa despercebida: estados e cidades que oferecem mais empregos, serviços e moradia, também podem cobrar mais caro por aquilo que o trabalhador precisa para viver. As contas não fecham, o trabalhador acaba pagando para trabalhar e usando crédito para viver.

E não basta olhar apenas para quanto entra no contracheque, na venda diária, ou serviço prestado. É preciso olhar para quanto sobra depois de pagar as contas e comprar comida, para a própria vida.

Afinal, quanto custa viver? Quanto precisa ganhar uma pessoa para que trabalhar não seja apenas uma maneira de sobreviver - como uma espécie de escravidão remunerada - e volte a ser também uma forma de construir alguma coisa. Ter o poder de transformar sonhos em realidade, não deveria ser artigo de luxo.

9.8.26

Iate movido a energia solar cruza 3.000 milhas náuticas sem usar combustível

Construída pelo próprio dono, a embarcação de 11 metros utiliza dez painéis solares e uma bateria de 24 kWh; projeto custou cerca de US$ 20,7 mil (R$106.000,00)

 
Construída pelo próprio dono, a embarcação de 11 metros utiliza dez painéis solares e uma bateria de 24 kWh; projeto custou cerca de US$ 20,7 mil (R$106.000,00)

Um iate construído de forma artesanal por seu próprio proprietário acaba de superar a marca de 3.000 milhas náuticas — cerca de 5.560 quilômetros — percorridas sem consumir uma única gota de combustível.

O responsável pelo projeto é Lukas Sjoman, que construiu o Helios 11, uma embarcação de 11 metros projetada para navegar utilizando exclusivamente energia solar. O barco vem percorrendo o litoral europeu e recentemente atingiu o novo marco de autonomia.

O sistema elétrico utiliza dez painéis solares residenciais, conectados a uma bateria de 24 kWh. Em condições ideais de insolação, o conjunto pode gerar até 4.000 watts, energia suficiente para alimentar o motor elétrico de popa de 6 kW. Quando está ancorado, o sistema também consegue recarregar completamente as baterias.

Além da autonomia, o custo do projeto chama atenção. Sjoman estima ter gasto aproximadamente US$ 20.724 para construir o iate. Desse total, cerca de US$ 2.881 foram destinados ao conjunto de baterias, US$ 4.600 ao motor elétrico e menos de US$ 900 aos painéis solares.

A proposta é mostrar que a navegação sustentável não precisa necessariamente estar restrita a embarcações comerciais de alto custo. Segundo Sjoman, o projeto pode servir de inspiração para uma nova geração de navegadores interessados em reduzir o impacto ambiental e a dependência de combustíveis fósseis.

Outro diferencial do Helios 11 é o calado de apenas 50 centímetros. A característica permite que a embarcação alcance áreas rasas e mais isoladas, onde iates maiores não conseguem navegar.

O resultado é um barco capaz de combinar energia solar, propulsão elétrica e baixo custo, ampliando as possibilidades de uma navegação marítima independente de combustíveis.

Fonte: Edwards, D. (2026). “Man who built $20,724 solar-powered yacht that can run forever passes 3,000 nautical miles having used zero fuel”. Supercar Blondie.

Candidatura de Alexandre Curi pode ganhar apoio dos metalúrgicos da RMC

Reunião entre o presidente da Assembleia Legislativa e Nelsão da Força abriu diálogo sobre as eleições de 2026; eventual apoio à candidatura ao Senado ainda será discutido pelo movimento sindical paranaense

O presidente da Alep, dep. Alexandre Curi e Nelsão da Força - Divulgação

O movimento das peças no tabuleiro eleitoral do Paraná está evoluindo. E, entre uma conversa e outra, nos corredores da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) o movimento sindical também vai construindo seus caminhos de apoio para candidatos e candidatas às eleições de 2026.

Na terça-feira (4), o presidente da ALEP, Alexandre Curi, recebeu o dirigente sindical Nelsão da Força para uma conversa sobre o cenário eleitoral. O encontro abriu um canal de diálogo que pode resultar, mais adiante, no apoio dos metalúrgicos da Região Metropolitana de Curitiba (RMC) à candidatura de Curi ao Senado. Mas é importante deixar claro: esse apoio ainda não está definido.

O próprio Nelsão explica que uma eventual participação na campanha de Curi será discutida junto ao movimento sindical paranaense. A reunião, portanto, representa o início de uma conversa, e não uma decisão já tomada. Mostrando que o movimento sindical é apartidário. Os trabalhadores a trabalhadoras, como fazem todas as outras classes, apenas escolhem aqueles que mais vêm ao encontro das demandas trabalhistas.

Uma conversa que aproxima projetos diferentes

A aproximação chama atenção porque Nelsão mantém diálogo com diferentes projetos políticos sem abrir mão da sua atuação histórica em defesa dos trabalhadores.

O dirigente sindical já definiu seu apoio à reeleição do presidente Lula e à ex-ministra Gleisi Hoffmann, além de manter seu apoio ao projeto de Requião Filho para o Governo do Paraná.

Agora, com a possível candidatura de Alexandre Curi ao Senado, uma nova conversa começa a ser construída. Segundo Nelsão, a reunião também ocorreu em representação do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, Sérgio Butka, reforçando o caráter institucional do encontro e a intenção de aproximar a categoria desse debate eleitoral.

“Nós já declaramos apoio ao Requião Filho para o Governo do Estado à Gleisi Hoffmann e reeleição de Lula. Agora vamos discutir também a possibilidade de participar da campanha do Alexandre Curi”, disse Nelsão.

A força política dos metalúrgicos

Mais do que uma declaração eleitoral, a possibilidade de aproximação tem um peso próprio. A categoria metalúrgica possui uma presença histórica na Região Metropolitana de Curitiba e reúne trabalhadores de importantes polos industriais do Paraná. Por isso, qualquer movimento de suas principais lideranças em uma eleição majoritária naturalmente desperta atenção.

Curi, por sua vez, ocupa a presidência da Assembleia Legislativa e está entre os nomes que concorrem a uma das duas vagas ao Senado que estarão em disputa no Paraná, nas eleições que se avizinham.

A conversa com Nelsão coloca sobre a mesa justamente um dos elementos que costumam ganhar importância em uma eleição majoritária: a capacidade de construir pontes para além das estruturas partidárias.

Apoio não significa abandonar posições

É nesse ponto que a trajetória de Nelsão ganha relevância. A aproximação com Curi não aparece, em sua fala, como uma mudança dos posicionamentos já assumidos pelo dirigente sindical. Ao contrário. Nelsão mantém definidos os apoios que já anunciou e, ao mesmo tempo, abre espaço para conversar com outras forças políticas.

A lógica é manter abertas as portas com quem poderá ocupar espaços de decisão no Paraná e em Brasília. Para o movimento sindical, uma eleição não termina na urna. O resultado se transforma, depois, em decisões que podem afetar emprego, indústria, investimentos, direitos trabalhistas e políticas públicas.

A decisão ainda será coletiva

Apesar da aproximação, Nelsão deixa claro que uma eventual participação na campanha de Curi ao Senado ainda precisa passar pelo debate dentro do movimento sindical.

Ou seja, não existe, neste momento, uma declaração formal de apoio dos metalúrgicos da RMC à candidatura de Alexandre Curi ao Senado. Existe uma conversa aberta pelo Nelsão da Força. E, na política, especialmente quando se trata de uma eleição majoritária, muitas vezes é justamente dessas conversas que começam a nascer as alianças que irão definir os caminhos das urnas.

Por enquanto, Curi tem uma porta aberta. O próximo passo será saber se os metalúrgicos da Grande Curitiba decidirão atravessá-la. Certo é que todas as decisões sindicais são sempre democráticas. No final quem vai dizer são os trabalhadores, lembrando que na democracia, o voto, além de sagrado é secreto.

8.8.26

Tecnologia brasileira pode acelerar desenvolvimento de implantes dentários e reduzir custos

Nova técnica desenvolvida pelo Cetene reduz de 72 horas para cerca de uma hora o preparo de amostras usadas em pesquisas com implantes de titânio e pode abrir caminho para processos mais rápidos e acessíveis na saúde bucal

Nova técnica desenvolvida pelo Cetene reduz de 72 horas para cerca de uma hora o preparo de amostras usadas em pesquisas com implantes de titânio e pode abrir caminho para processos mais rápidos e acessíveis na saúde bucal

Quando se fala em nanotecnologia, é comum imaginar algo distante da vida cotidiana, restrito aos grandes laboratórios e às pesquisas que parecem acontecer muito longe de nós. Mas, às vezes, é justamente nesse universo microscópico que começam a surgir soluções capazes de produzir efeitos bastante concretos na vida das pessoas.

É o que acontece com uma nova técnica desenvolvida pelo Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene), unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

A pesquisa pode ajudar a acelerar uma etapa importante dos estudos voltados ao desenvolvimento de implantes dentários de titânio. E o ganho de tempo chama atenção: o preparo de amostras utilizadas nas análises, que podia levar até 72 horas, passa a ser realizado em aproximadamente 60 minutos.

Uma hora no laboratório pode fazer diferença

O tempo é um dos fatores que pesam no desenvolvimento de novas tecnologias em saúde. Quanto mais rápidas e precisas forem as etapas de pesquisa, maior pode ser a capacidade dos laboratórios de testar materiais, comparar resultados e avançar na busca por soluções.

A técnica desenvolvida pela equipe do Cetene não apenas reduz esse intervalo. Segundo os pesquisadores, ela também preserva melhor a estrutura das células e permite uma visualização mais clara das amostras por meio da microscopia eletrônica de varredura.

O trabalho foi conduzido pela cientista Giovanna Machado, em parceria com pesquisadores do Laboratório de Bionanomateriais do Cetene.

Onde entra a nanotecnologia?

É justamente na superfície do implante que está uma das partes mais interessantes da pesquisa.

Os estudos utilizam implantes de titânio que recebem estruturas microscópicas conhecidas como nanotubos. Essa modificação aumenta a área de contato do material com as células e melhora uma propriedade chamada molhabilidade.

Em termos mais simples, a alteração pode favorecer a interação entre o implante, os fluidos presentes no organismo e o tecido ósseo.

É uma mudança que acontece em uma escala que os nossos olhos não conseguem enxergar, mas que pode fazer diferença na maneira como o material se comporta quando estudado em contato com células.

Da bancada do laboratório para o consultório ainda há um caminho

É importante, porém, não transformar uma pesquisa promissora em uma promessa que ela ainda não pode cumprir.

A tecnologia está atualmente nos níveis 4 e 5 de maturidade tecnológica. Isso significa que os protótipos já passaram por testes em ambiente de laboratório, mas ainda não estão prontos para utilização clínica ou comercial.

Antes de qualquer aplicação em pacientes, serão necessárias novas etapas de validação, estudos adicionais, adequação às exigências regulatórias e avaliações sobre a capacidade de produção em maior escala.

Também será preciso comprovar segurança, funcionamento e viabilidade antes que uma tecnologia como essa possa chegar efetivamente ao sistema de saúde ou ser incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Quando ciência vira acesso à saúde

É justamente nessa distância entre o laboratório e a vida real que está o verdadeiro desafio.

Uma técnica mais rápida e eficiente de pesquisa não significa, por si só, que um implante ficará imediatamente mais barato ou que chegará ao SUS. Mas pode contribuir para simplificar processos, reduzir custos de desenvolvimento e acelerar a construção de novas soluções.

E, em um país onde o acesso à saúde bucal ainda é marcado por desigualdades, qualquer avanço que possa ajudar a tornar tratamentos mais acessíveis merece ser acompanhado de perto.

O trabalho recebeu apoio do MCTI, por meio do Sistema Nacional de Laboratórios em Nanotecnologias, além do CNPq e da Finep.

No fim das contas, talvez essa seja uma das formas mais concretas de compreender o papel da ciência: uma descoberta feita em um laboratório, entre microscópios, células e materiais em escala nanométrica, pode um dia se transformar em algo que as pessoas sentem de maneira muito simples.

Um tratamento mais acessível. Uma tecnologia nacional. E, para muita gente, a possibilidade de voltar a sorrir com mais saúde e dignidade.

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Petrobras no Paraná: soberania, emprego e transição energética podem caminhar juntas

Candidata ao Senado Federal pelo Paraná, deputada Gleisi Hoffmann faz visita ao Sindipetro-PR e assume compromisso com petroleiros paranaenses

Candidata ao Senado Federal pelo Paraná, deputada Gleisi Hoffmann faz visita ao Sindipetro-PR e assume compromisso com petroleiros paranaenses

A visita da deputada Gleisi Hoffmann ao Sindicato dos Petroleiros do Paraná (Sindipetro-PR), recoloca na mesa um debate que vai além da Petrobras. É uma discussão sobre soberania nacional, industrialização, segurança energética, fertilizantes e o futuro do trabalho no estado. E os números ajudam a entender por que essa agenda merece atenção.

A começar pela Araucária Nitrogenados (ANSA), a Fafen do Paraná. Depois de permanecer hibernada desde 2020, a fábrica voltou a produzir ureia em abril deste ano. A unidade tem capacidade para produzir 720 mil toneladas de ureia por ano, volume equivalente a cerca de 8% do mercado nacional, além de 475 mil toneladas anuais de amônia e 450 mil m³ de ARLA 32.

Não é pouca coisa. O Brasil está entre os maiores consumidores de fertilizantes do planeta — cerca de 8% do consumo mundial — e ainda depende fortemente do mercado externo. Segundo o Ministério da Agricultura, mais de 80% dos fertilizantes utilizados no país são importados. O Plano Nacional de Fertilizantes foi criado justamente para reduzir essa vulnerabilidade.

É nesse ponto que a defesa da incorporação da Fafen ao sistema Petrobras ganha uma dimensão estratégica: produzir aqui aquilo que o Brasil precisa importar significa reduzir vulnerabilidades, fortalecer a indústria nacional e dar mais segurança ao produtor rural.

E a própria Petrobras voltou a colocar os fertilizantes no seu planejamento. No Plano de Negócios 2026-2030, a companhia prevê investimentos no segmento de Refino, Transporte, Comercialização, Petroquímica e Fertilizantes, mantendo a ANSA, as fábricas da Bahia e de Sergipe e a UFN-III entre os ativos considerados para continuidade operacional.

Mas existe outro capítulo nessa história: a Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar). A Petrobras prevê ampliar sua capacidade de processamento no conjunto do parque nacional de refino de 1,8 milhão para 2,1 milhões de barris por dia até 2030, enquanto avança em combustíveis de menor intensidade de carbono e em projetos de eficiência energética. O Paraná está inserido nessa estratégia.

É justamente aí que a fala da deputada sobre transição energética com participação dos trabalhadores ganha força. Transição energética não precisa significar desindustrialização. Não precisa significar simplesmente fechar uma unidade, demitir trabalhadores e importar tecnologia.

Pode significar o contrário: usar a capacidade industrial que o Brasil já construiu para produzir energia mais limpa, desenvolver novas tecnologias, qualificar trabalhadores e preparar a indústria para a economia de baixo carbono.

A Petrobras informa que já reduziu em 36% suas emissões absolutas de gases de efeito estufa em relação a 2015, chegando a 50 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2025. Para os próximos anos, a companhia mantém metas de redução de emissões e prevê investimentos em transição energética, biocombustíveis, descarbonização e novas tecnologias.

Há, portanto, uma equação possível: mais indústria + mais soberania + mais empregos qualificados + menos emissões. E há uma pauta paranaense que continua aberta: a SIX, em São Mateus do Sul.

A unidade, que durante décadas integrou o patrimônio da Petrobras, tem capacidade de processamento de 5.800 toneladas de xisto por dia. A Petrobras concluiu a venda do ativo, de modo que qualquer discussão sobre sua retomada pela estatal passa necessariamente por uma decisão política e empresarial complexa.

Ainda assim, a discussão é legítima: qual deve ser o papel de ativos estratégicos para o desenvolvimento regional e para a soberania energética brasileira? No fundo, é disso que trata a Carta Compromisso recebida pela deputada Gleisi Hoffmann.

Não se trata apenas de defender uma empresa. Trata-se de decidir se o Paraná quer continuar sendo apenas fornecedor de matéria-prima e consumidor de tecnologia produzida fora ou se quer participar da construção de uma indústria nacional forte, tecnológica, ambientalmente responsável e capaz de gerar emprego e renda.

A Petrobras é uma empresa de economia mista. Mas sua dimensão estratégica para o Brasil ultrapassa os números de um balanço. No petróleo, no refino, nos fertilizantes, na pesquisa e agora também na transição energética, existe uma pergunta que precisa continuar sendo feita: que país queremos construir com aquilo que produzimos?

Para a deputada, a resposta passa por soberania, indústria, trabalhadores e desenvolvimento. E os números mostram que o debate está longe de ser apenas ideológico. É economia real. É Paraná. É Brasil.


Amazônia registra menor área sob alerta de desmatamento da série histórica

Dados do Inpe mostram queda de 36% nos alertas na Amazônia e de 7,8% no Cerrado. Prodes também aponta para redução do desmatamento na Caatinga, Mata Atlântica e Pampa

Imagem: INPE/Reprodução

Há números que parecem frios quando colocados numa tabela, mas que ganham outro significado quando lembramos o que existe por trás deles. Uma árvore que permanece de pé. Uma área de floresta que não foi derrubada. Um rio que continua protegido pela vegetação que o cerca.

Os novos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) trazem justamente uma dessas notícias que precisam ser olhadas com atenção: os alertas de desmatamento caíram na Amazônia e no Cerrado no último ciclo de monitoramento.

Na Amazônia, a redução foi de 36% entre agosto de 2025 e julho de 2026. Foram identificados 2.874,38 km² sob alerta, o menor resultado da série histórica para esse período, iniciada em 2016.

O número também ficou 55,6% abaixo da média dos dez ciclos anteriores, entre 2015/2016 e 2024/2025. É um resultado importante para um bioma que há décadas está no centro das preocupações ambientais brasileiras e internacionais.

Cerrado também apresenta redução

No Cerrado, a queda foi menor, mas sua aferição também aparece nos dados que mostram a redução do desmatamento no país.

Os alertas de desmatamento recuaram 7,8%, chegando a 5.119,46 km² no período de agosto de 2025 a julho de 2026.

E aqui existe uma diferença importante em relação à Amazônia: os números nacionais escondem comportamentos bastante diferentes entre os estados. No Cerrado, por exemplo, o Maranhão concentrou a maior área sob alerta, com 1.276,92 km², seguido por Tocantins, com 1.189,9 km², Piauí, com 568,23 km², Mato Grosso, com 562,02 km², Bahia, com 534,94 km², e Minas Gerais, com 490,38 km². Alguns estados tiveram quedas expressivas. O Piauí apresentou redução de 51,2% e a Bahia, de 27%.

Mas nem todos caminharam na mesma direção. O Maranhão teve aumento de 2,1% nos alertas. No Mato Grosso, a alta foi de 40,5%, enquanto Minas Gerais registrou crescimento de 72,5%.

É justamente essa fotografia regional que mostra por que a luta contra o desmatamento não pode ser tratada como uma realidade única para toda extensão do território brasileiro. Na Amazônia, o estado do Pará continua na liderança dos alertas. Entre os estados amazônicos, o maior volume de alertas foi registrado no Pará: 987,27 km².

Na sequência aparecem Mato Grosso, com 834,41 km²; Amazonas, com 433,9 km²; Roraima, com 272,6 km²; Acre, com 153,8 km²; e Rondônia, com 114,3 km². O comportamento, entretanto, foi de redução na maioria desses estados.

O Mato Grosso apresentou queda de 49%. No Amazonas, a redução chegou a 46,7%. Rondônia teve queda de 41,2%, o Acre de 35,3% e o Pará de 25,5%. Roraima foi a exceção entre os estados destacados: os alertas cresceram 32,5%.

Os números, portanto, não autorizam uma sensação de que o problema desapareceu. Eles mostram algo diferente: o desmatamento detectado está recuando, mas permanece presente e exige fiscalização contínua.

Prodes confirma redução em outros biomas

Na mesma apresentação, realizada nesta sexta-feira (7), na sede do Inpe, em São José dos Campos (SP), também foram apresentados dados do Prodes para a Caatinga, a Mata Atlântica e o Pampa. E os três biomas registraram redução.

Na Caatinga, foram contabilizados 2.289,54 km² de área desmatada, uma queda de 34,3% em relação aos 3.484 km² registrados no período anterior. Na Mata Atlântica, a área suprimida caiu de 475 km² para 402,36 km², redução de 15,32%.

É um resultado especialmente significativo porque representa o menor índice da série histórica do bioma, iniciada em 2001. No Pampa, foram registrados 305,48 km² de supressão de vegetação, uma redução de 41,7%, dados que registram o menor resultado da série histórica para o bioma.

Dois sistemas, duas funções

Para entender corretamente esses números, é preciso fazer uma distinção. O Deter é um sistema de detecção de desmatamento em tempo quase real. Ele produz alertas que ajudam os órgãos de fiscalização a identificar rapidamente áreas onde pode estar ocorrendo supressão de vegetação.

Já o Prodes realiza o levantamento anual das taxas de desmatamento, utilizando metodologia de maior precisão. Por isso, é considerado a referência oficial para a formulação e avaliação das políticas públicas de controle do desmatamento.

Em outras palavras: o Deter ajuda a mostrar onde o problema está acontecendo e permite uma resposta mais rápida. O Prodes consolida, com maior precisão, quanto efetivamente foi desmatado no período de referência.

Os dois sistemas fazem parte do Programa de Monitoramento do Desmatamento (BiomasBR), coordenado pelo Inpe. Uma boa notícia que não permite baixar a guarda. A queda dos alertas na Amazônia e no Cerrado, somada aos resultados do Prodes na Caatinga, Mata Atlântica e Pampa, representa um avanço importante.

A principal mensagem, dos dados divulgados início desse segundo semestre, talvez esteja justamente na necessidade de não transformar uma boa notícia em acomodação. As matas e  florestas continua precisando de fiscalização.

O Cerrado continua sob pressão. A Mata Atlântica, apesar do melhor resultado da série histórica, ainda carrega uma história de séculos de perda de cobertura vegetal. Os números agora divulgados mostram que políticas públicas, monitoramento por satélite e fiscalização podem produzir resultados concretos.

Os levantamentos mostram também que, preservar não é apenas impedir que uma área apareça outra vez como mancha de desmatamento nas imagens de satélite. Precisamos lutar para manter em pé aquilo que já existe, em especial a mata nativa.

Preservar é proteger nascentes, rios, biodiversidade, solo e mitigar os efeitos no clima. É garantir que, daqui a alguns anos, os números continuem caindo — e que a paisagem que eles representam continue viva.

Dados e monitoramento

Os resultados foram apresentados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelos ministros João Paulo Capobianco (Meio Ambiente e Mudança do Clima) e Luciana Santos (Ciência, Tecnologia e Inovação), durante coletiva realizada na sede do Inpe.

Também participaram representantes do Inpe, Ibama, ICMBio e do Ministério do Meio Ambiente. Os dados completos dos sistemas de monitoramento serão disponibilizados na plataforma TerraBrasilis, mantida pelo Inpe.

Carros chineses conquistam o Brasil — mas a grande oportunidade está em produzir aqui

Importações da China avançam, mercado de carros elétricos dispara e indústria brasileira precisa transformar essa nova tecnologia em empregos e novos investimentos

Importações da China avançam, mercado de carros elétricos dispara e indústria brasileira precisa transformar essa nova tecnologia em empregos e novos investimentos

Há números que simplesmente passam pela tela, numa rolagem totalmente desinteressante. E há números que chamam à atenção e pedem uma pausa. Os números mais recentes da indústria automobilística brasileira estão entre eles.

Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), os veículos chineses já representaram 52,4% dos carros importados pelo Brasil nos primeiros sete meses de 2026. As compras de veículos provenientes da China cresceram incríveis 105,4% em comparação com o mesmo período do ano passado (2025).

É uma mudança rápida. E não acontece isoladamente. O mercado brasileiro de veículos eletrificados também vem crescendo em ritmo impressionante. A produção nacional de autoveículos avançou, enquanto as exportações recuaram.

No primeiro semestre, a própria Anfavea registrou crescimento de 8,8% na produção, com 1,372 milhão de veículos fabricados no país. Ao tempo que os carros elétricos já respondiam por uma parcela recorde nas vendas de veículos leves.

Os números mostram uma indústria em transformação. E talvez seja justamente por isso que a discussão precise ir além da velha disputa entre carro nacional e carro importado.

Os carros chineses são bem-vindos

É importante deixar isso muito claro. O progresso é um dos lemas da nossa bandeira nacional, não podemos ser contra os carros chineses. Muito pelo contrário.

A chegada de novas marcas aumentou a concorrência, trouxe tecnologia, ampliou as opções para o consumidor brasileiro e pressionou o mercado a oferecer produtos melhores. A cada ano têm sido produzidos carros mais eficientes e mais competitivos.

Durante muito tempo, o consumidor brasileiro conviveu com automóveis caros, talvez devido à tecnologia que chegou sempre com atraso e à pouca concorrência em determinados segmentos da indústria automobilística.

A entrada dos chineses mudou essa conversa. E de uma maneira positiva. Mas ainda existe uma pergunta que precisamos fazer: quanto dessa riqueza que está sendo movimentada no Brasil poderia estar ficando aqui na forma de empregos, fábricas, fornecedores, tecnologia, engenharia e desenvolvimento industrial?

O alerta sobre os kits importados

É aqui que entra um estudo da Anfavea que merece ser conhecido. A entidade estima que, em um cenário de substituição da fabricação de veículos nacionais, apenas pela montagem, o Brasil poderia colocar em risco até 69 mil empregos diretos e outros 227 mil postos indiretos ao longo de toda cadeia produtiva.

O mesmo levantamento aponta uma possível perda de até R$ 103 bilhões para os fabricantes de autopeças, além de impactos sobre a arrecadação tributária e as exportações. Os números foram divulgados pela Agência Brasil, a partir do estudo da Anfavea.

Mas é preciso fazer uma ressalva importante. Isso não significa que 296 mil empregos já tenham sido perdidos. Não foram. Trata-se de uma estimativa para um cenário extremo, no qual a produção nacional seria progressivamente substituída por modelos de montagem com maior dependência de componentes importados.

Mesmo assim, o número revela o tamanho da discussão que está diante de nós. Porque uma fábrica de automóveis não é apenas uma linha de montagem, onde alguém coloca rodas, bancos e componentes importados na produção de veículos.

Por trás de um carro existe uma logística enorme, uma cadeia de produção gigantesca. São fabricantes de autopeças, siderurgia, química, eletrônica, logística, ferramentaria, engenharia, software, manutenção, serviços, pesquisa, universidades, centros tecnológicos e milhares de trabalhadores. E, tudo isso ainda precisa de transporte.

Quando essa cadeia se fortalece, o benefício econômico vai muito além do carro que sai da concessionária. É toda uma rede, que começa na mineração do aço e vai até a concessionária que vende os veículos ao consumidor final.

O que exigir das novas montadoras

Na visão de especialistas, as montadoras chinesas, que conquistam cada dia mais o mercado brasileiro, deveriam ampliar sua parceria com a indústria nacional.

O Brasil é um mercado tão importante para os chineses, se os consumidores brasileiros estão comprando seus carros e ajudando essas marcas a crescer ... parece lógico esperar que uma parcela cada vez maior dessa operação, incluindo a fabricação de autopeças, seja realizada pela indústria nacional.

Pois não se trata apenas de montar carros aqui. Temos que pensar em fábricas de verdade, não apenas em linhas de montagem, que hoje, grande parte, já são inclusive automatizadas. Devemos pensar em fornecedores brasileiros. Precisamos da produção de componentes automotivos, baterias. Desenvolvimento de pesquisas em novas tecnologias, realizadas dentro do Brasil.

A indústria tem que investir na engenharia, em capacitação profissional, treinamento para preencher vagas de empregos qualificados. Precisamos abrigar em nosso parque industrial uma rede capaz de fazer nosso povo apenas consumir tecnologia, precisamos também produzir.

Camaçari mostra um caminho possível

Neste exato momento há um exemplo que já não está mais diante de nós. A BYD instalou em Camaçari, na Bahia, um dos maiores complexos industriais de sua operação fora da Ásia.

A unidade começou com capacidade projetada de 150 mil veículos por ano, com expansão para 300 mil. Posteriormente a empresa anunciou planos de expansão e projeções que podem elevar a capacidade total para até estimados 600 mil veículos anuais.

Em março de 2026, o Governo da Bahia informou que o complexo já reunia cerca de 10 mil pessoas entre trabalhadores da operação e das obras. A própria BYD também já declarou que pretende ampliar a produção local, incorporando fornecedores brasileiros, ao passo que desenvolve um centro de pesquisa e desenvolvimento.

Em janeiro, a empresa informou que a fábrica de Camaçari havia encerrado 2025 com quase 20 mil veículos produzidos e mais de 2 mil trabalhadores, com previsão de expansão da produção e da contratação ao longo de 2026.

Este é o movimento que precisa ser observado. Uma coisa é vender carros chineses no Brasil. Outra, muito mais interessante, é produzir os carros chineses aqui no Brasil. O diferencial se torna ainda maior quando passamos a desenvolver parte da tecnologia e dos componentes necessários aqui.

Não precisamos escolher entre consumidor e trabalhador

Essa talvez seja a parte mais importante na discussão. Não precisamos escolher entre carros chineses e indústria brasileira. Podemos — e devemos — ter os dois. Os consumidores merecem carros melhores, mais tecnológicos, mais eficientes e, principalmente, a preços mais acessíveis.

O trabalhador brasileiro merece que este crescimento se transforme em mais emprego, renda, qualificação e novas oportunidades. Uma política industrial moderna não deveria ter como objetivo simplesmente taxar a entrada de produtos estrangeiros.

Deveria fazer algo muito mais inteligente: atrair o investimento estrangeiro e fazer com que ele gere cada vez mais valor dentro do país. Fazer com que todos venham produzir no Brasil, um dos países mais ricos do mundo em todo tipo de matéria-prima utilizada pela indústria.

É uma diferença enorme. Em vez de fechar o mercado, como estão fazendo os Estados Unidos, podemos abrir espaço para quem quiser construir sua fábrica aqui.

Em vez de simplesmente importar tecnologia, podemos criar condições para que ao menos parte dela seja desenvolvida e fabricada aqui. Em vez de sermos apenas consumidores, podemos voltar a ser também produtores. A industrialização é a chave do progresso.

O Brasil não pode ser apenas o destino final

O carro que chega pronto da China gera negócios no Brasil. É verdade.Mas o carro que é desenvolvido, produzido vendido no mercado interno e também exportado daqui, gera muito mais emprego e renda. Gera fornecedores, conhecimento, impostos. Gera formação profissional, engenharia e inovação.

O país precisa construir uma indústria menos dependente das decisões tomadas do outro lado do mundo. Essa é uma questão que também diz respeito à soberania econômica. Não significa rejeitar a China.

Muito pelo contrário. Significa aproveitar a presença chinesa no Brasil para construir uma relação que seja boa para os dois lados. A China ganha um mercado estratégico. As empresas brasileiras ganham consumidores e espaço para crescer. Assim o Brasil vai gerar muito mais investimento, tecnologia, empregos e capacidade produtiva.

A verdadeira oportunidade por trás dos carros chineses

O Brasil está diante de uma transformação importante no setor automotivo, com  o início da transição para carros com emissão zero de CO². Os carros elétricos e híbridos chegaram para ficar. As marcas chinesas ganharam espaço rapidamente. A concorrência aumentou. A tecnologia avançou.

Não há como voltar atrás. A questão agora é decidir o que o Brasil fará com essa transformação. Se simplesmente abrirmos espaço para que os carros sejam produzidos lá fora e apenas vendidos aqui, estaremos ampliando o mercado consumidor. Os financiamentos de automóveis 0 Km, mas estaremos gerando empregos apenas nos setores de manutenção e vendas.

Entretanto, se conseguirmos transformar esse movimento em investimentos produtivos, fornecedores de auto-peças e baterias nacionais, pesquisa, engenharia, baterias, componentes e qualificação profissional, estaremos fazendo algo muito maior. Estaremos ajudando a construir uma nova indústria brasileira.

Por isso, se países estrangeiros estão lucrando no Brasil, que também invistam no Brasil. Que tragam suas fábricas para cá. Que tragam e transfiram tecnologia. Que formem mão de obra qualificada. Que desenvolvam tecnologia para os fornecedores. Que produzam aqui e exportem daqui.

O Brasil não pode ser apenas destino final de carros produzidos do outro lado do mundo. Precisamos ser também o lugar onde esses carros são projetados, fabricados, desenvolvidos e, quem sabe, enviados de volta para o mundo.

Essa, na visão do blog Sulpost, é a verdadeira oportunidade escondida por trás da chegada dos carros chineses ao mercado brasileiro. Trazer junto com eles toda uma indústria e uma cadeia de produção.

Quer saber mais? Consulte também

ANFAVEA: dados estatísticos e acompanhamento da indústria automobilística brasileira — Carta da Anfavea.

ANFAVEA: dados estatísticos para download, incluindo produção, emplacamentos, importações, exportações e emprego — base estatística da entidade.

Agência Brasil: estudo da Anfavea sobre os impactos potenciais da utilização de kits importados na produção de veículos — leia a reportagem.

Governo da Bahia: informações sobre empregos e capacidade produtiva do complexo da BYD em Camaçari — Governo da Bahia.

BYD Brasil: informações sobre o complexo industrial de Camaçari, produção local, fornecedores e centro de pesquisa e desenvolvimento — BYD é do Brasil.

SULPOST | Jornalismo independente

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7.8.26

Exposição no Senado abre as portas para mostrar como funciona o sistema eletrônico de votação no Brasil

Mostra organizada pelo Tribunal Superior Eleitoral apresenta, de forma didática, todas as etapas das eleições brasileiras e busca aproximar a população do funcionamento das urnas eletrônicas

Davi Alcolumbre e Nunes Marques durante a inauguração da exposição 'O Caminho do Voto' - Jonas Pereira/Agência Senado

Quem andar pelos corredores do Senado Federal, nas próximas semanas, terá a oportunidade de conhecer, de perto, um dos processos mais importantes da democracia brasileira. Foi aberta está semana, na quarta-feira (5), a exposição "O Caminho do Voto". A iniciativa é do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que convida o público a percorrer todas as etapas do sistema eletrônico de votação — desde o desenvolvimento das urnas eletrônicas até a totalização dos resultados das eleições.

A mostra integra a programação da Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação e transforma o espaço expositivo em um ambiente de informação e transparência, apresentando ao visitante os procedimentos técnicos, os testes de segurança e os mecanismos de auditoria que fazem parte do processo eleitoral brasileiro.

Congresso abre a programação nacional

Durante a cerimônia de inauguração, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, destacou o simbolismo de o Congresso Nacional ter sido escolhido para abrir a programação da semana dedicada ao sistema eletrônico de votação.

Segundo o presidente declarou à Agência Senado, a decisão reforça o compromisso das instituições democráticas com o fortalecimento da confiança pública nas eleições brasileiras.

"Quando Vossa Excelência apresenta e inicia esta caminhada na defesa das urnas e da capacidade de cada brasileiro de ter a liberdade de escolher os representantes em um sistema altamente respeitado, Vossa Excelência decide iniciar esta caminhada pelo Congresso Nacional Brasileiro, pelo Senado Federal, pela Casa da Federação.", disse Alcolumbre.

Na avaliação do presidente do Senado Federal, o sistema eleitoral brasileiro está entre os mais confiáveis do mundo. Em sua avaliação, ampliar o conhecimento da população sobre o funcionamento das eleições, das urnas eletrônicas, é uma forma de fortalecer ainda mais a democracia, a confiança nas instituições e no sistema eleitoral brasileiro.

Processo construído em diversas etapas

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Nunes Marques, afirmou que a exposição também presta homenagem às instituições que participaram da construção e da modernização do nosso sistema eletrônico de votação.

O ministro lembrou que a implantação da urna eletrônica foi resultado da atuação conjunta dos Poderes da República, respeitando as competências constitucionais de cada instituição. Nunes Marques ainda ressaltou que a segurança das eleições não depende de um único mecanismo de proteção.

"Cada uma das etapas ilustradas nesse espaço demonstra que a confiabilidade das eleições brasileiras não repousa em um momento singular ou em um único mecanismo de segurança. A exatidão da apuração do nosso pleito está ancorada na combinação de inúmeras etapas e procedimentos técnicos, que são auditados e testados incessantemente."

Segundo o ministro a exposição permite que qualquer cidadã e cidadão compreenda como são realizados testes, auditorias e procedimentos que garantem a integridade do nosso sistema eletrônico de votação. Desde antes da abertura das urnas até a divulgação oficial dos resultados.

Serviço

"A exposição "O Caminho do Voto" permanecerá aberta para visitação até o dia 21 de agosto, no Espaço Senador Ivandro Cunha Lima, localizado no Anexo I do Senado Federal, em Brasília. Veja o mapa.

A iniciativa integra a programação da Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação e busca aproximar a sociedade do funcionamento das eleições brasileiras por meio de uma experiência educativa e acessível ao público.

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