12.8.26

STF determina suspensão de verbas indenizatórias acima dos limites e devolução de valores no TJPR

STF suspende verbas indenizatórias fora do limite e manda devolver valores pagos pela AGU a magistrados de 7 estados e do DF

 

Foto: Carlos Moura/STF

De acordo com liberação de imprensa do Supremo Tribunal Federal (STF), a Corte determinou, nesta quarta-feira (12), a suspensão imediata do pagamento de verbas indenizatórias a magistrados de sete Tribunais de Justiça, entre eles o Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), quando os pagamentos estiverem em desacordo com os parâmetros estabelecidos pelo Supremo. A decisão também determina a devolução de valores pagos acima dos limites fixados.

No caso do Paraná, o STF informou que 73 magistrados do TJPR receberam mais de R$ 100 mil em abril. Os pagamentos estão entre os dados analisados pelos ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, após a Corte receber informações detalhadas sobre as folhas de pagamento dos tribunais referentes aos meses de abril, maio, junho e julho.

Pela determinação do Supremo, o TJPR deverá identificar os beneficiários dos pagamentos e encaminhar a relação ao STF no prazo de 72 horas. Também deverá providenciar a devolução dos valores que ultrapassem o limite global estabelecido pela Corte. O tribunal terá cinco dias para comprovar nos autos a suspensão dos pagamentos e as respectivas devoluções.

Limite de 70% do teto

A decisão aplica os parâmetros definidos pelo STF em março deste ano para o cumprimento do teto constitucional da remuneração de magistrados e membros do Ministério Público. A Corte estabeleceu um limite global de 70% do teto constitucional para determinadas parcelas, sendo 35% destinados à parcela de valorização por antiguidade e outros 35% às verbas indenizatórias autorizadas.

A Corte fixou expressamente as verbas devidas aos magistrados e aos membros do Ministério Público e determinou que os pagamentos observem os limites estabelecidos nas decisões.

Repercussão para o TJPR

A determinação coloca sob revisão os pagamentos realizados pelo TJPR no período analisado pelo STF. O levantamento da Corte apontou que, somente em abril, 73 magistrados receberam valores superiores a R$ 100 mil.

A medida não se restringe ao Paraná. Também alcança os Tribunais de Justiça de Goiás, Maranhão, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rondônia e do Distrito Federal.

Além da suspensão dos pagamentos considerados irregulares, os presidentes dos tribunais deverão prestar informações e cumprir as determinações de restituição dos valores que excederem os limites fixados pelo Supremo.

Fiscalização

O corregedor nacional de Justiça, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), deverá ser comunicado para fiscalizar o cumprimento da decisão, inclusive a vedação de pagamentos superiores aos autorizados pelo STF.

A Corregedoria também poderá apurar eventual responsabilidade administrativa e disciplinar dos presidentes dos Tribunais de Justiça pelos pagamentos realizados anteriormente em desacordo com as determinações da Corte.

Fonte: Supremo Tribunal Federal (STF) — “STF suspende pagamento de verbas indenizatórias fora dos limites e determina devolução de valores”, publicada em 12 de agosto de 2026. Texto editado pelo Sulpost.

Discord terá lives suspensas no Brasil após decisão da ANPD

Medida preventiva dá três dias úteis para a plataforma interromper transmissões ao vivo e recursos equivalentes. Caso envolvendo a morte de uma adolescente de 13 anos colocou no centro do debate os limites da proteção de menores na internet

 
Medida preventiva dá três dias úteis para a plataforma interromper transmissões ao vivo e recursos equivalentes. Caso envolvendo a morte de uma adolescente de 13 anos colocou no centro do debate os limites da proteção de menores na internet

Por alguns anos, o Discord ocupou um lugar meio difícil de explicar na vida digital brasileira. Para uns, era o espaço onde amigos se encontravam depois da escola. Para outros, uma extensão das comunidades de jogos, uma sala de estudos, um lugar para conversar durante a madrugada ou simplesmente uma praça pública particular. Entretanto sempre algo de estranho e obscuro no uso do aplicativo, pessoas de má fé escondidas atrás de uma tela, um avarar e, muitas vezes, de um apelido.

É justamente nesse território, onde convivem amizade, anonimato (que é vedado pela CF de 88), comunidades fechadas e comunicação em tempo real, que uma crise de segurança ganhou proporções nacionais. Investigações revelaram cenários escabrosos, por trás dessa aparentemente ingênua plataforma de comunicação em tempo real.

Hoje, quarta-feira (12), a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou que o Discord suspenda, em todo o território nacional, sua funcionalidade de transmissões ao vivo. A empresa terá três dias úteis para cumprir a determinação da ANDP.

A medida também alcança recursos considerados equivalentes de compartilhamento de vídeo e deverá permanecer em vigor, ao menos até que a plataforma adote medidas consideradas eficazes para proteger crianças e adolescentes.

É importante começar por uma distinção: não se trata de um banimento do Discord no Brasil. E essa diferença interessa diretamente a quem abre o aplicativo todos os dias. Pois não há nada de mal na plataforma em si, mas sim em que ela permita a usuários anônimos, muitas vezes se passando por crianças ou adolescentes, praticar ou induzir à prática de crimes, sugestionados muitas vezes em forma de desafios.

O que muda para quem usa o Discord

A decisão da ANPD atinge diretamente a empresa, não o usuário comum. Na prática, depois que a determinação for implementada, quem tentar iniciar uma transmissão ao vivo no Discord deverá, obrigatoriamente, encontrar a função indisponível ou bloqueada.

A decisão não estabelece que o usuário será multado, processado ou terá sua conta automaticamente suspensa por tentar transmitir. Também não determina o desligamento indistinto de todas as chamadas de voz, videochamadas ou do próprio Discord. O foco está nas transmissões ao vivo e em recursos equivalentes de compartilhamento de vídeo.

Por isso, é preciso cuidado com interpretações que tratem a decisão como se ela tivesse determinado o bloqueio individual de todas as funções técnicas do aplicativo, pois isso não é verdade. A forma exata como o Discord fará essa implementação caberá à própria plataforma, implantar dentro do prazo os limites estabelecidos pela ANPD.

Mensagens, servidores, canais e comunicação por voz, por exemplo, não foram transformados em atividades proibidas pela medida preventiva.

Uma história que começou com uma família e chegou a Brasília

Por trás da linguagem burocrática de uma decisão administrativa existe uma história muito mais dolorosa. A fiscalização e a pressão contra o Discord, ganharam ainda mais força depois da morte de uma adolescente de 13 anos, em julho deste ano. Segundo informações relatadas pelas autoridades, ela teria sido influenciada por integrantes de um grupo no Discord a praticar automutilação e suicídio, em uma situação que envolveu transmissão ao vivo.

O caso passou a ser investigado pela Polícia Civil e pelo Ciberlab, laboratório de operações cibernéticas ligado à Secretaria Nacional de Segurança Pública. A própria ANPD deixou claro que sua atuação é complementar às investigações criminais. Essa distinção é fundamental.

A investigação administrativa da ANPD não significa, por si só, que a agência tenha concluído que o Discord foi responsável pela morte da adolescente. Também não significa que todas as acusações contra a plataforma já estejam comprovadas.

A pergunta feita pela autoridade brasileira é outra: os mecanismos de segurança existentes são suficientes para prevenir, detectar e interromper situações de risco envolvendo crianças e adolescentes? É justamente essa resposta que a fiscalização pretende encontrar.

O que a ANPD está cobrando do Discord

A investigação examina a capacidade da plataforma de impedir instantaneamente que crianças e adolescentes sejam expostos a conteúdos capazes de induzir, incitar, instigar ou auxiliar práticas de automutilação e suicídio.

Entre os pontos analisados estão:

  • mecanismos de aferição de idade;
  • prevenção e detecção de conteúdos perigosos;
  • capacidade de identificar e remover conteúdos que violem as regras;
  • interrupção de situações consideradas de risco;
  • comunicação de casos às autoridades competentes;
  • medidas específicas de proteção para crianças e adolescentes.

Antes da determinação desta quarta-feira, a ANPD já havia aberto um processo de fiscalização contra o Discord e dado à empresa cinco dias úteis para apresentar informações sobre seus mecanismos de proteção.

Agora, a investigação ganhou uma consequência prática. Enquanto a plataforma não demonstrar que adotou providências consideradas suficientes, as transmissões ao vivo deverão permanecer suspensas.

A tecnologia já vinha mudando

Ainda existe outro detalhe importante para ser observado nessa história. O Discord já vinha modificando seus mecanismos de verificação de idade no Brasil por causa do ECA Digital, que entrou em vigor em março de 2026.

A plataforma passou a utilizar recursos como estimativa de idade por reconhecimento facial a partir de selfie em vídeo e envio de documento, isso em determinadas situações e para determinados conteúdos. Também foram alteradas configurações de segurança e restrições relacionadas à idade dos usuários.

Isso significa que a discussão não começou nesta quarta-feira. A nova legislação brasileira elevou as responsabilidades das plataformas digitais na proteção de crianças e adolescentes. Entre as preocupações está justamente a necessidade de mecanismos mais efetivos de aferição de idade, em vez de depender apenas da declaração feita pelo próprio usuário.

Um levantamento do Cetic.br apontou que, antes da entrada em vigor das novas regras, 84% dos 25 serviços digitais analisados não verificavam a idade durante a criação da conta. No caso do Discord, porém, a questão agora ficou mais profunda.

Não basta saber que existe uma pessoa menor de idade do outro lado da tela. É preciso saber se a plataforma consegue impedir que ela seja colocada diante de uma situação perigosa ou até traumatizante. País precisam estar atentos.

O problema não começou nas lives

É tentador colocar toda a discussão sobre o Discord em cima de uma única ferramenta: a transmissão em tempo real. A realidade é mais complexa. Uma plataforma comunitária pode reunir, no mesmo ambiente, grupos privados, convites, comunicação direta, anonimato, produção de conteúdo em tempo real e comunidades que podem permanecer praticamente invisíveis para quem está fora delas.

É aí que reside uma parte importante do problema. Uma criança pode entrar em um servidor por indicação de um amigo. Pode encontrar uma comunidade aparentemente inofensiva. Pode começar uma conversa privada. E, pouco a pouco, chegar a um ambiente completamente diferente daquele que seus pais imaginam que ela esteja frequentando.

A tela continua sendo a mesma e as pessoa do outro lado dela também, mas o ambiente mudou. Reportagens anteriores já haviam levantado questionamentos sobre a moderação do Discord no Brasil. A ANPD agora transforma essas preocupações em uma apuração administrativa formal, dentro das obrigações de proteção estabelecidas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital.

O Discord, por sua vez, afirma manter equipes especializadas para identificar grupos envolvidos em atividades violentas, remover conteúdos que violem suas regras e colaborar com autoridades.

Sobre o caso que desencadeou a atual crise, a empresa afirmou que havia identificado e desativado anteriormente um servidor privado relacionado à automutilação, embora não tenha detalhado quando isso ocorreu nem quantas pessoas estavam envolvidas.

O Discord pode ser multado?

Sim, pode. Se a fiscalização concluir que houve descumprimento das obrigações previstas no ECA Digital, a ANPD poderá determinar medidas corretivas e aplicar as sanções previstas na legislação.

Entre elas está a possibilidade de multa de até R$ 50 milhões por infração, conforme o enquadramento jurídico e as conclusões da apuração. Mas é importante não misturar as coisas.

A suspensão das lives é uma medida preventiva. Não representa, por si só, uma conclusão definitiva sobre todas as responsabilidades do Discord. Uma eventual sanção dependerá do resultado da fiscalização e do processo administrativo na ANPD.

E quando as lives poderão voltar?

Essa talvez seja a pergunta que mais interessa a quem utiliza o Discord para transmitir conteúdo. A resposta, neste momento, é: não existe uma data automática para o retorno. A lógica estabelecida pela ANPD é que as transmissões permaneçam suspensas até que o Discord demonstre a adoção de medidas efetivas de proteção de crianças e adolescentes.

Portanto, não se trata simplesmente de esperar três dias úteis e apertar novamente o botão de transmissão. Os três dias são o prazo para a implementação da determinação.

O retorno depende de outra etapa: a demonstração de que os problemas que levaram à intervenção foram enfrentados de maneira considerada suficiente pela autoridade.

E o usuário, fica como?

Para quem utiliza o Discord para conversar com amigos, estudar, jogar ou participar de comunidades, a plataforma continua funcionando. O que muda especificamente é o acesso às transmissões abrangidas pela determinação.

Para quem produz conteúdo, entretanto, o impacto pode ser maior. Criadores que utilizavam o Discord para transmitir partidas, apresentações, encontros ou atividades de suas comunidades terão de encontrar alternativas enquanto a suspensão estiver em vigor. E existe uma dimensão humana nessa história que não aparece nos termos jurídicos.

Para muita gente, uma live no Discord não era apenas uma ferramenta tecnológica. Era o lugar onde uma comunidade se reunia. Era onde amigos se encontravam depois de um dia inteiro longe do computador. Era onde alguém transmitia uma partida para meia dúzia de conhecidos. Era onde uma pequena comunidade tinha seu próprio espaço.

É por isso que o debate precisa escapar dos extremos. De um lado, existem famílias que passaram a olhar para as plataformas digitais com medo depois de descobrir como comunidades podem influenciar crianças e adolescentes de maneira silenciosa.

Do outro, existem milhões de usuários que utilizam essas mesmas ferramentas de maneira legítima, cotidiana e afetiva.

Uma coisa não apaga a outra.

O que acontece agora

Nos próximos dias, o foco estará no cumprimento da determinação e na resposta da plataforma.

12 de agosto: a ANPD determina a suspensão das transmissões ao vivo no Brasil.

Prazo de três dias úteis: o Discord deverá implementar a suspensão determinada pela agência.

Durante a suspensão: lives e recursos equivalentes abrangidos pela ordem deverão permanecer indisponíveis.

Paralelamente: continua a fiscalização sobre os mecanismos de proteção de crianças e adolescentes.

Depois: caso a plataforma demonstre a adoção de medidas eficazes, a situação poderá ser reavaliada. Se forem constatadas irregularidades, outras medidas corretivas e novas sanções poderão ser adotadas.

Enquanto isso, o Discord continua funcionando como plataforma. O Brasil não determinou, nesta decisão, que o aplicativo inteiro seja desligado no país. Mas este capítulo da história está longe de terminar. Porque, no fundo, a discussão sobre o Discord não é apenas sobre uma ferramenta chamada “live”. É sobre o que acontece quando uma tela deixa de ser apenas uma tela.

A discussão em pauta é sobre quando um servidor deixa de ser apenas um servidor. E sobre quando uma conversa aparentemente banal se transforma em uma porta para um ambiente que pais, professores e até a própria plataforma talvez não consigam enxergar a tempo.

E existe uma pergunta ainda maior por trás de toda essa discussão:

Quanto uma empresa de tecnologia precisa enxergar, prevenir e fazer antes que uma situação de risco chegue a uma criança?

Talvez essa seja a questão que ficará depois que as lives voltarem — ou enquanto continuarem suspensas. Porque, do outro lado de cada conexão, de cada perfil e de cada avatar, existe alguém de verdade.

E, quando essa pessoa é uma criança, ou alguém vulnerável, a responsabilidade de quem construiu o ambiente digital também precisa ser real.


SULPOST
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Em campanha, Gleisi está com o pé na estrada — e o Paraná vai junto

Gleisi Hoffmann está percorre o estado, defendendo um projeto para o Paraná e carrega consigo uma história que pouca gente lembra: foi dela a iniciativa que acabou com os antigos 14º e 15º salários dos parlamentares

 

Gleisi Hoffmann está percorrendo o estado, ele defende um projeto para o Paraná e carrega consigo uma história que pouca gente lembra: foi dela a iniciativa que acabou com os antigos 14º e 15º salários dos parlamentares
Gleisi Hoffmann e Requião Filho, candidata ao Senado e candidato ao Governo do Paraná, caminham lado a lado pela Federação Progressista rumo às eleições 2026 - Foto: PDT Paraná/Reprodução.

Há momentos em que a política deixa de ser apenas disputa de nomes e passa a ser também disputa de memória. Disputa de serviços e projetos colocados em prática para o bem do Paraná e do Brasil. Uma história de luta pelo que é certo e pelas pessoas que mais precisam, que agora percorre todo o estado.

Gleisi Hoffmann está novamente com o pé na estrada. Deputada federal pelo Paraná, ex-ministra e candidata ao Senado em 2026. Gleisi vem ampliando a presença no estado numa verdadeira maratona de encontros, reuniões, articulações e conversas políticas.

Não é uma caminhada pequena. O Paraná é grande, gigante, as distâncias são enormes. São 399 municípios, e a eleição para o Senado tem uma característica particular: são duas vagas, muitos candidatos e um eleitor que, na maioria das vezes, de acordo com pesquisas eleitorais recentes, ainda está longe de ter decidido seus dois votos, em especial no cenários de pesquisa espontânea, quando não são citados os nomes dos candidatos.

Nas pesquisas mais recentes, Gleisi aparece no grupo que disputa diretamente uma das vagas. A Genial/Quaest divulgada em julho mostrou Álvaro Dias na liderança e uma disputa embolada pela segunda cadeira, com Alexandre Curi, Deltan Dallagnol, Filipe Barros e Gleisi tecnicamente empatados dentro da margem de erro.

Agora, com a desistência de Álvaro Dias, de acordo com especialistas, ela deve aparecer em primeiro lugar nas próximas sondagens. E, outros levantamentos também colocaram a petista no pelotão de frente.

Uma mulher que conhece o caminho

Gleisi não está começando agora. Ela já foi senadora pelo Paraná, presidiu o PT nacional, comandou a Casa Civil no governo Dilma Rousseff, ocupou a Secretaria de Relações Institucionais do governo Lula e atualmente exerce mandato de deputada federal.

Sua trajetória é conhecida. Suas bandeiras e posicionamentos políticos também. O que às vezes fica esquecido, porém, são algumas decisões importantes tomadas por ela no exercício dos mandatos.

E uma delas merece ser lembrada.

Logo no começo de sua passagem pelo Senado, em fevereiro de 2011, Gleisi apresentou o Projeto de Decreto Legislativo 71/2011, propondo acabar com o pagamento dos chamados 14º e 15º salários aos deputados e senadores. Na época, o benefício era pago no início e no final de cada ano legislativo.

Gleisi foi a primeira a questionar justamente qual seria a justificativa para aquele dinheiro extra. A argumentação dela foi simples e eficientes. Ela teve a coragem de ser a primeira a dizer que as condições e a carga de trabalho dos parlamentares já não correspondia à realidade que havia originado o benefício.

E o Congresso acabou votando

Em maio de 2012, o Senado aprovou o projeto proposto por Gleisi. Meses depois, em 27 de fevereiro de 2013, a Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade, o fim dos chamados 14º e 15º salários. A medida acabou sendo promulgada em março daquele ano.

O dinheiro que antes era pago duas vezes por ano deixou de existir como remuneração extraordinária. A ajuda de custo passou a ter outra finalidade, vinculada ao início e ao final do mandato para despesas de mudança.

É uma história que merece ser contada porque revela uma coisa simples: algumas pautas populares não nascem de discurso de campanha. Nascem de decisões tomadas quando ainda não se sabe qual será o retorno político delas. E, naquele caso, Gleisi resolveu comprar uma briga dentro da própria instituição que integrava.

Política também tem memória

É claro que não dá para transformar isso numa explicação para todos os capítulos da carreira política de Gleisi. Afinal ela talvez seja a maior parlamentar que o Paraná já produziu até hoje.

Também seria incorreto afirmar, sem comprovação documental, que ela deixou de ser eleita ou sofreu uma derrota eleitoral por causa dessa iniciativa. 

O que os fatos mostram é outra coisa: Gleisi apresentou a proposta, o Senado a aprovou, a Câmara confirmou e o benefício acabou. E isso é suficiente para recolocar a discussão no lugar certo. Em tempos em que muita gente promete cortar privilégios, vale olhar para quem efetivamente apresentou propostas para fazê-lo, foi lá e fez.

Agora, outra vez, o Paraná

A Gleisi de 2026 é diferente daquela senadora que chegou ao Congresso em 2011. O devir agiu em sua vida. Ela acumulou experiência, enfrentou crises políticas, ocupou espaços importantes no governo federal e passou a conhecer por dentro os corredores onde as grandes decisões nacionais são tomadas.

Agora ela quer voltar ao Senado. E sua campanha vem ganhando o Paraná. Nos últimos meses, sua agenda pelo estado passou por diferentes regiões e combinou encontros políticos, defesa de investimentos federais, desenvolvimento, infraestrutura, energia, tecnologia, fiscalização de entregas do Governo Federal e a própria relação do Paraná com o governo federal.

A candidatura também foi incorporada ao projeto do campo progressista para 2026. Gleisi aparece como um dos principais nomes do palanque que reúne diferentes forças políticas em torno da candidatura de Requião Filho ao governo estadual e da estratégia de reeleição do presidente Lula, que também de acordo com pesquisas recentes pode estar muito próximo de vencer no primeiro turno.

Não é apenas uma eleição para o Senado

Há algo maior em jogo. O Senado Federal já é, e continuará a ser, uma das arenas centrais da disputa política brasileira nos próximos anos. É ali que estarão discussões sobre orçamento, políticas públicas, direitos sociais e humanos, desenvolvimento, infraestrutura, segurança, energia, relações federativas e, inevitavelmente, os rumos da democracia brasileira.

Para o Paraná, eleger seus representantes significa também escolher quem terá voz diante dessas decisões. Gleisi apresenta uma característica que poucos candidatos conseguem reunir: conhece o estado, conhece Brasília, já viajou por todo o Brasil e conhece o funcionamento do governo federal.

As pessoas podem concordar ou discordar de suas posições políticas. Isso faz parte de toda democracia saudável. Mas é difícil negar que ela conhece o caminho e realmente sabe como fazer as coisas acontecerem.

Uma mulher que não foge de pegar a estrada

Talvez seja justamente por isso que a imagem desta campanha esteja cada vez mais associada à estrada. Dia após dia, cidade após cidade, reunião após reunião. Gente diferente, sotaques diferentes, problemas diferentes.

O Paraná não termina na Região Metropolitana de Curitiba, como também não começa em Brasília. Nosso Estado está junto com o trabalhador e a trabalhadora que pega ônibus de madrugada, na pequena empresária que tenta manter as portas abertas, no agricultor que depende da infraestrutura, no jovem e na jovem que procura seu primeiro emprego, na mãe que espera atendimento de saúde e no aposentado que faz contas antes de ir ao supermercado.

É para esse Paraná que uma candidatura ao Senado precisa olhar. E é nesse território que Gleisi está tentando construir sua volta ao Senado. Ela é um exemplo para toda mulher, paranaense e brasileira, que é candidata nessas eleições de 2026.

Gleisi é Bicho do Paraná

Há paranaenses que ganharam projeção nacional e acabaram ficando distantes de sua terra. Gleisi fez o caminho contrário. Sempre próxima às suas bases. Quanto maior foi o espaço que ocupou em Brasília, maior também se tornou a cobrança para que levasse o Paraná consigo. Agora, de volta à estrada, ela volta a transformar experiência nacional em busca da confiança e do voto da família paranaense.

Não é uma campanha fácil. A disputa pelas duas cadeiras do Senado promete ser uma das mais acirradas do estado. Mas Gleisi já demonstrou que sabe enfrentar eleições difíceis e, principalmente, que não costuma fazer política olhando apenas para o caminho mais confortável.

Em 2011, quando ainda começava sua passagem pelo Senado, decidiu enfrentar uma tradição que beneficiava os próprios parlamentares. Hoje, quinze anos depois, a paranaense volta a pedir, para os cidadãos e os cidadãs do seu estado, uma nova oportunidade para voltar a fazer acontecer a vontade popular no Senado Federal.

Talvez seja essa a parte da história que vale lembrar. Porque política também é memória. Antigamente dizia-se que o povo não tem memória, isso agora não é mais desculpa porque todos carregam a internet no bolso.

E, quando uma mulher que já ocupou alguns dos cargos mais importantes da República decide colocar novamente os pés na estrada, para disputar uma vaga pelo seu estado, vale prestar atenção.

Sim, Gleisi é uma figura central política nacional. Mas continua sendo uma mulher do Paraná. Uma paranaense que trabalha e sonha como qualquer outra. Que luta pela igualdade de gêneros, que quer trabalhar para cuidar das pessoas do nosso Estado.

E, para quem nasceu, cresceu e fez sua trajetória política por aqui, talvez não haja reconhecimento maior do que dizer: Gleisi Hoffmann é Bicho do Paraná.


SULPOST — Jornalismo independente do Paraná
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11.8.26

De “volte para o Ceará” a uma crise que ameaça o mandato: como o caso Tathiana Guzella escalou em Curitiba

Numa cidade construída por muitas gentes, a acusação de xenofobia contra vereadora do PL transformou fala no plenário em indignação e processos que podem resultar até em cassação do mandato


Numa cidade construída por pessoas que chegaram de outros lugares para recomeçar, a acusação de xenofobia contra uma vereadora transformou fala no plenário em denúncia criminal, pedidos de cassação e mais uma crise política para a Câmara de Curitiba

Há frases que terminam quando o som da voz desaparece. Outras continuam ecoando na memória de quem as ouviu — sobretudo quando atingem justamente aquilo que alguém precisou deixar para trás para construir uma nova vida, suas origens.

Curitiba conhece bem histórias como essa. A capital paranaense foi e continua sendo uma cidade de muitas gentes: pessoas que chegaram de outros estados, de outras regiões e de outros países carregando sotaques, costumes, afetos e, muitas vezes, a coragem necessária para começar outra vez.

Para quem migra, ouvir que não pertence ao lugar onde trabalha, mora, cria os filhos ou exerce sua cidadania não é apenas uma ofensa. Pode reabrir a ferida de quem passou anos tentando transformar uma cidade nova em lar.

É nesse ponto que o episódio envolvendo as vereadoras Tathiana Guzella (PL) e Vanda de Assis (PT) ganhou uma dimensão que ultrapassou a disputa política.

O que começou com um confronto durante discurso, numa sessão da Câmara Municipal de Curitiba, em 5 de agosto, transformou-se, em poucos dias, em uma denúncia criminal do Ministério Público do Paraná (MPPR).

A denúncia do MPPR, somada à repercussão nacional do caso, gerou uma sequência de representações por quebra de decoro e, nesta terça-feira (11), em mais um pedido formal de cassação — desta vez apresentado pelo presidente estadual do PT, deputado Arilson Chiorato.

A Lei 7.716/1989 estabelece que crimes resultantes de discriminação ou preconceito também podem estar relacionados à procedência nacional. O artigo 20 criminaliza a prática, indução ou incitação de discriminação ou preconceito por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

O caso, portanto, deixou de ser apenas uma briga entre duas parlamentares. Tornou-se uma questão sobre os limites do discurso político, a responsabilidade de quem ocupa um mandato eletivo e o lugar que Curitiba deseja reservar para quem veio de fora.

5 de agosto — a frase que detonou a crise

A discussão começou durante o debate de um projeto de lei, que prevê a criação de um cadastro municipal para pessoas em situação de rua. Vanda de Assis participava do debate, foi quando durante a fala de Vanda, Tathiana Guzella pediu um aparte.

O confronto subiu de tom e Guzella questionou a origem cearense da colega. Segundo a gravação da sessão e os relatos que embasaram a denúncia do MPPR, a vereadora perguntou por que Vanda não voltava para o Ceará. Guzella teria afirmado ainda que Vanda tinha vindo para Curitiba para “encher o saco”.

A fala agressiva da vereadora do PL provocou reação imediata. Vanda acusou a colega de xenofobia, e a sessão acabou marcada pelo bate-boca.

O episódio é especialmente simbólico porque Vanda de Assis nasceu em Campos Sales, no Ceará, e é a primeira mulher nordestina a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Curitiba, segundo manifestação divulgada pelo presidente do PT-PR, Arilson Chiorato.

A partir daquele momento, a discussão deixou de ser apenas sobre o projeto em debate. A origem regional de uma parlamentar passou a ocupar o centro do conflito.

A pergunta que vem dos curitibanos é: até onde pode ir a linguagem num embate político antes que a crítica passe a atingir a dignidade de uma pessoa por sua origem?

6 de agosto — a reação da Câmara e do Ministério Público

No dia à fala xenofoba, a resposta começou a se organizar em duas frentes. Vanda de Assis protocolou representação na Câmara de Curitiba contra Tathiana Guzella. O documento pede a apuração de possível quebra de decoro parlamentar e a cassação do mandato. Também houve representação apresentada por um coletivo de advogadas e advogados.

A Câmara de Curitiba informou posteriormente que, após o episódio, cinco representações haviam sido protocoladas relacionadas ao caso: quatro contra Tathiana Guzella e uma contra Vanda de Assis.

No mesmo dia, o caso ganhou também uma dimensão criminal. O MPPR apresentou denúncia contra Guzella pela suposta prática de discriminação ou preconceito em razão da procedência nacional. A acusação foi enquadrada no artigo 20 da Lei 7.716/1989.

Na denúncia, segundo as informações divulgadas sobre a peça, a Promotoria afirma que a manifestação teria tido a intenção de ofender e humilhar Vanda e de menosprezar, de forma mais ampla, pessoas de origem cearense.

É importante fazer uma distinção: denúncia do Ministério Público não é condenação. O MP apresenta ao Judiciário a acusação que entende existir; cabe à Justiça analisar se a recebe e, a partir daí, garantir à acusada o direito de defesa e o devido processo legal.

7 de agosto — a crise política ganha volume

A denúncia criminal não ficou isolada. Enquanto o debate sobre a responsabilização penal avançava, os pedidos para que Guzella perdesse o mandato começaram a se multiplicar.

Reportagens publicadas nesse período apontaram quatro pedidos de cassação contra a vereadora. Um deles partiu da própria Vanda de Assis; outro foi apresentado por um coletivo de advogadas e advogados. Ao mesmo tempo, Guzella também apresentou representação contra Vanda, mostrando que o conflito político havia adquirido uma dimensão própria dentro da Câmara.

A disputa, portanto, passou a caminhar por duas estradas diferentes: uma judicial, conduzida a partir da denúncia do MPPR, e outra político-disciplinar, dentro da Câmara Municipal. Para complicar ainda mais a situação da vereadora há uma circunstância particularmente delicada nessa segunda frente.

Tathiana Guzella é a corregedora da Câmara de Curitiba, cargo para o qual foi eleita em junho. Entre as atribuições da Corregedoria estão justamente a manutenção do decoro, da ordem e da disciplina no Legislativo e a realização de sindicâncias sobre denúncias de ilícitos ou infrações ético-disciplinares envolvendo vereadores. Veja no site da Câmara Municipal de Curitiba. Como todo mundo sabe, ninguém pode julgar sobre própria causa.

8 de agosto — acusação passa a envolver também reparação financeira

Com a denúncia criminal, o MPPR não pediu apenas a responsabilização penal de Guzella. A Promotoria requereu que a Justiça estabeleça uma indenização mínima de 20 salários mínimos para Vanda de Assis, pelos danos atribuídos à conduta.

Também pediu mais 40 salários mínimos por dano moral coletivo. Segundo as informações divulgadas sobre a denúncia, o valor seria destinado ao Fundo Estadual de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, para financiar políticas públicas de promoção da igualdade. Somados, os dois pedidos chegam a R$ 97.260.

A dimensão coletiva do pedido chama atenção porque revela que, para o Ministério Público, a discussão não se resume à relação pessoal entre duas vereadoras. A questão colocada pela Promotoria é se uma manifestação dirigida a uma parlamentar por sua origem pode também atingir, simbolicamente, um grupo inteiro.

10 de agosto — as duas vereadoras voltam ao plenário

Na segunda-feira (10), as duas parlamentares voltaram a se manifestar publicamente na Câmara, na primeira sessão após o episódio. Vanda falou sobre as providências que havia tomado e agradeceu as manifestações de solidariedade recebidas de Curitiba, do Paraná e, especialmente, de outras partes do país e do Nordeste. A mensagem foi direta: segundo ela, não se deve aceitar a prática de xenofobia contra ninguém.

Tathiana, por sua vez, negou que tenha cometido xenofobia. A vereadora afirmou que sua fala foi interrompida antes que pudesse concluir o raciocínio e sustentou que pretendia fazer uma comparação entre políticas públicas e indicadores do Paraná e do Ceará. Também disse que jamais teve a intenção de atacar o povo nordestino.

Essa versão passou a integrar a própria disputa sobre o episódio: de um lado, a interpretação de que a origem de Vanda foi usada para desqualificá-la; de outro, a alegação de Guzella de que o contexto de sua fala teria sido interrompido.

A decisão sobre o significado jurídico da manifestação, entretanto, não cabe às partes nem à imprensa, ou a este modesto blogueiro. No âmbito criminal, será da Justiça quem vai decidir. Já no âmbito político, cebe à Câmara de Curitiba, agora decidir. Quem vai analisar representações e decidir sobre os procedimentos previstos? Dependendo da decisão, a fala infeliz da vereadora pode culminar numa eventual responsabilização por quebra de decoro.

11 de agosto — presidente do PT pede cassação

Nesta terça-feira (11), a crise ganhou um novo capítulo. Um reforço do presidente do partido de Vanda no Paraná. O presidente do PT-PR e deputado estadual Arilson Chiorato protocolou um pedido de cassação do mandato de Tathiana Guzella.

Na representação, segundo o documento divulgado pelo parlamentar, a conduta atribuída à vereadora poderia caracterizar quebra de decoro por ser incompatível com a dignidade do cargo. O pedido se apoia nas regras do Código de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara de Curitiba, que prevê diferentes sanções disciplinares, entre elas a cassação.

Chiorato classificou a fala da vereadora do PL como xenófoba e afirmou que manifestações dessa natureza não podem ser normalizadas no exercício de um mandato parlamentar. O argumento político também toca numa característica que Curitiba conhece profundamente: a cidade não pertence exclusivamente a quem nasceu nela. 

“Curitiba” é uma palavra que, para milhares de pessoas, significa justamente o lugar onde a vida foi reconstruída. E na língua nativa local, "lugar de muito pinhão", pois antes do primeiro português chegar aqui era uma aldeia indígena. Mais uma história que dá esperança há milhares de pessoas que escolheram a capital do Paraná como um novo lar.

O mandato de Guzella está em xeque?

Neste momento, é preciso separar o peso político do peso jurídico de cada acontecimento. A denúncia do MPPR coloca Guzella diante de uma acusação criminal formal, mas isso não significa que ela tenha sido condenada. A Justiça ainda deverá analisar a peça acusatória.

Já os pedidos de cassação abrem uma frente político-disciplinar na Câmara de Curitiba. Eles podem resultar em investigação e, dependendo do andamento dos procedimentos e das conclusões alcançadas, em processo que poderá discutir a perda do mandato da vereadora. Mulher que mesmo tendo nascido em Santa Catarina, fez carreira na polícia em Curitiba, como delegada, e através do voto popular conquistou uma cadeira no parlamento municipal.

Há ainda um elemento institucional que torna o caso particularmente sensível: Guzella ocupa a Corregedoria, órgão que tem entre suas funções justamente zelar pelo decoro parlamentar e apurar denúncias envolvendo vereadores. Entretanto isso não significa, por si só, que o mandato da peelista esteja perdido.

Significa que a vereadora passou a enfrentar uma combinação incomum de pressões. Denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público, múltiplas representações dentro da Câmara e, agora, um pedido de cassação formulado pelo presidente estadual de um partido que cinco vezes já elegeu o Presidente da República. Mas o desfecho está em aberto.

Uma cidade de muitas origens

Talvez seja esse o ponto que ultrapasse o destino político e a visão de uma única vereadora. Curitiba foi construída por pessoas que chegaram até aqui. Algumas vieram de longe. Outras atravessaram o país. Muitas trouxeram consigo uma palavra que, em determinados momentos, revela mais do que qualquer documento de identidade: o sotaque.

O migrante sabe que reconstruir uma vida é também conquistar o direito de dizer “esta cidade é minha casa”. E, certamente Vanda de Assis, assim como Guzella, já são radicadas curitibanas.

Por isso, quando alguém ouve que deveria “voltar” para o lugar de onde veio, a frase pode carregar um significado dolorido e muito maior do que aquele percebido por quem a pronuncia. Ainda mais na casa de leis da cidade. Ela pode transformar pertencimento em suspeita e cidadania em favor.

É justamente por reconhecer esse perigo que o ordenamento jurídico brasileiro protege as pessoas contra discriminação e preconceito por procedência nacional. A Lei 7.716/1989 expressamente inclui essa categoria entre as condutas abrangidas pela legislação antidiscriminatória.

No caso de Tathiana Guzella, caberá à Justiça dizer se a fala atribuída à vereadora preenche os requisitos do crime apontado pelo Ministério Público. À Câmara caberá, por sua vez, examinar se houve quebra de decoro parlamentar.

Mas, antes mesmo dessas decisões, permanece uma questão que é de toda a cidade: quem chega a Curitiba para trabalhar, morar, criar os filhos ou exercer um mandato precisa primeiro provar alguma coisa? Ao nosso ver, a resposta de uma cidade feita de muitas gentes deveria ser inequívoca: não. 

Curitiba é terra de muitas gentes! Quem falava Jaime Lerner, disse Roberto Requião, assim como falou Rafael Greca. Vamos ver agora, também, qual será a posição do atual prefeito, Eduardo Pimentel (PSD) e de sua bancada na Câmara de Curitiba.

“Boas maneiras para máquinas”: novas regras podem impedir que a IA destrua a internet aberta

Internet, inteligência artificial e direitos autorais bots de inteligência artificial estão transformando a antiga lógica de cooperação  web em uma disputa por conteúdo, tráfego e dinheiro. Uma proposta para dizer às máquinas o que podem fazer — e o que deveriam devolver à sociedade

Por T.J. Thomson, Daniel Angus, Jake Goldenfein e Kylie Pappalardo - adaptação, tradução e atualização editorial: Sulpost, de original: ‘Manners for machines’: how new rules could stop AI scrapers destroying the internet.

Internet, inteligência artificial e direitos autorais bots de inteligência artificial estão transformando a antiga lógica de cooperação da web em uma disputa por conteúdo, tráfego e dinheiro. Uma proposta para dizer às máquinas o que podem fazer — e o que deveriam devolver à sociedade

A Inteligência Artificial (IA) chegou à internet como quem encontrou uma biblioteca gigantesca com as portas abertas. Durante anos, empresas de tecnologia puderam percorrer páginas, documentos, imagens, fóruns e bancos de dados para indexar informações, melhorar mecanismos de busca e construir novos serviços.

Só que a escala mudou, cresceu. Os mesmos mecanismos de rastreamento que ajudaram a organizar a web agora podem ser utilizados por sistemas de IA para coletar enormes volumes de textos, imagens, códigos, pesquisas acadêmicas e outros materiais. E a relação que existia entre quem publicava e quem rastreava está começando a se romper.

O problema deixou de ser apenas “a máquina pode acessar esta página?”

A pergunta agora é muito maior:

O que uma máquina pode fazer com aquilo que encontrou — e o que ela deve devolver a quem produziu aquele conhecimento?

É nesse ponto que surge uma ideia ainda em construção: os CC Signals, da organização Creative Commons. Mais do que uma nova licença de direitos autorais, a proposta tenta criar uma espécie de conjunto de “boas maneiras para máquinas”.

Quando raspar a internet era parte do funcionamento da web

O chamado web scraping — coleta automatizada de informações disponíveis na internet — não nasceu com a inteligência artificial generativa. Ele é praticamente tão antigo quanto a própria web. Mecanismos de busca precisam rastrear páginas para descobrir o que existe na internet. Sem esse processo, ferramentas como o Google e o Bing não conseguiriam construir seus índices.

Durante muito tempo, formou-se uma espécie de acordo informal. Os proprietários de sites permitiam que robôs acessassem seus conteúdos porque isso podia trazer visitantes, links, visibilidade e relevância. Em troca, os mecanismos de busca ajudavam as pessoas a encontrar aquilo que havia sido publicado.

A relação não era perfeita e nunca esteve completamente livre de conflitos jurídicos. Mas existia uma lógica de reciprocidade. O rastreador chegava no site, o conteúdo era escrutinado, indexado e o usuário era encaminhado para a fonte, através da pesquisa. Assim o site ganhava audiência 'orgânica'.

O ecossistema da web funcionava em torno dessa circulação. Mas hoje, com a Inteligência Artificial, porém, a equação já está mudando de maneira rápida e radical.

Quando a máquina lê, mas o leitor não chega

Um buscador tradicional normalmente precisa mostrar ao usuário onde encontrou a informação. Um sistema generativo pode fazer algo diferente: acessar dezenas de páginas, absorver informações, combinar conteúdos e entregar ao usuário uma resposta pronta. Uma resposta mixada, mais ou menos como fazem os DJs de música eletrônica ao mixar várias músicas, criando uma nova.

Entretanto, assim como aconteceu na música, isso está criando uma questão econômica fundamental: se a máquina consegue entregar a resposta sem que o usuário visite a página original, quem paga pelo jornalismo, pela pesquisa, pela fotografia, pelo livro, pelo código ou pelo trabalho intelectual que alimentou aquela resposta?

A preocupação não é apenas teórica. Dados recentes mostram que rastreadores ligados à inteligência artificial já representam uma parcela significativa da atividade automatizada na web. Relatórios e análises de 2026 também apontam crescimento acelerado de bots voltados à coleta de conteúdo, enquanto editores e proprietários de sites ampliam mecanismos para bloqueá-los ou diferenciá-los.

Em alguns casos, a relação chega a ser assimétrica: um robô pode fazer milhares ou milhões de requisições a um site, consumir largura de banda e recursos computacionais, enquanto praticamente nenhum usuário é encaminhado de volta para a página que produziu a informação.

O resultado pode ser especialmente duro para pequenos veículos, blogs independentes, pesquisadores, fotógrafos, artistas e criadores que dependem da audiência para continuar produzindo. Pessoas que geralmente vivem de contribuição espontânea de usuários da rede que acessam seu conteúdo.

O paradoxo da internet aberta

Existe, entretanto, um alerta ou mesmo risco eminente no sentido contrário. Se cada produtor bloquear completamente seus conteúdos, a internet pode se transformar em uma coleção de fortalezas digitais. Uma internet paralela, uma espécie de Dark Web, com mais paywalls, barreiras, conteúdos invisíveis para ferramentas de busca por causa de sistemas mais fechados, gerando menos circulação livre do conhecimento.

Essa possibilidade é particularmente preocupante para ciência, educação e cultura. Universidades e instituições de pesquisa, por exemplo, utilizam repositórios abertos justamente para ampliar o acesso ao conhecimento. Obras distribuídas por licenças Creative Commons também dependem de uma cultura de compartilhamento.

A questão, portanto, não deveria ser simplesmente escolher entre:

“liberar tudo” ou “bloquear tudo”.

Há um espaço intermediário que deve ser explorado livremente, e é justamente esse espaço que os CC Signals tentam explorar.

O que são os CC Signals?

A Creative Commons anunciou o projeto CC Signals em 2025 como uma estrutura destinada a permitir que criadores e instituições expressem preferências sobre como seus conteúdos podem ser utilizados por sistemas de IA.

A ideia parte de uma constatação simples: as licenças tradicionais de conteúdo aberto foram desenvolvidas para um mundo em que seres humanos compartilhavam, copiavam, remixavam e redistribuíam obras, com vistas ao progresso da humanidade como um todo.

A Inteligência Artificial introduziu uma escala e uma forma de utilização que não estavam previstas quando boa parte dessas ferramentas foi criada. Os CC Signals procuram, portanto, criar sinais que possam ser compreendidos tanto por pessoas quanto por máquinas.

Em vez de um simples “pode usar” ou “não pode usar”, o sistema pretende permitir preferências mais sofisticadas.

  • atribuição da fonte;
  • reciprocidade;
  • contribuição para o ecossistema aberto;
  • determinadas formas de uso em sistemas de IA;
  • condições associadas ao acesso e ao desenvolvimento de modelos.

A proposta ainda está em evolução e não deve ser confundida com uma nova licença de copyright. A própria Creative Commons descreve o CC Signals como uma estrutura orientada por valores e atualmente em fase de desenvolvimento e testes.

A inspiração do velho “robots.txt”

Existe um precedente interessante.

Durante décadas, administradores de sites utilizaram o arquivo robots.txt para informar aos robôs quais áreas de uma página poderiam ou não ser rastreadas.

O sistema nunca foi, por si só, uma lei universalmente aplicável. Seu poder dependia da adesão dos desenvolvedores e operadores de bots. Mesmo assim, tornou-se uma convenção extremamente importante da web.

Era, em essência, uma placa na porta:

"Robô, nessa parte você pode entrar"

ou:

“Nesta parte, não entre.”

O CC Signals parte de uma lógica semelhante, mas pretende responder a uma questão muito mais complexa. Não basta saber se uma máquina pode acessar determinada informação.

É preciso comunicar para que ela pode utilizá-la, sob quais condições e com que tipo de retorno.

O problema: e se a máquina não respeitar a placa?

Essa é uma das maiores fragilidades do modelo. Pesquisas recentes mostram que a adesão dos rastreadores às regras do robots.txt não é uniforme. Um estudo publicado em 2025, baseado em experimentos de larga escala, encontrou diferenças importantes no comportamento de diferentes categorias de bots. O mesmo estudo concluiu que depender exclusivamente do arquivo para impedir rastreamento indesejado é arriscado, pode não funcionar.

Uma pesquisa publicada em julho de 2026 chegou a levantar uma questão ainda mais atual: diferentes assistentes de IA com capacidade de navegação podem se comportar de maneiras distintas diante das instruções presentes no robots.txt. Em testes controlados envolvendo dez assistentes, os pesquisadores encontraram variações na forma como as restrições eram consultadas e respeitadas.

Isso muda a natureza do problema. Uma regra só funciona se houver alguma forma de fazê-la ser respeitada.

A corrida dos bloqueios

O resultado dessa insegurança é uma nova corrida tecnológica. De um lado estão empresas que desenvolvem sistemas de IA e precisam de grandes quantidades de dados.

Do outro estão sites que tentam descobrir quem está acessando seus servidores, o que está sendo coletado e para qual finalidade.

Cada vez mais proprietários de páginas adotam firewalls, limites de requisições, bloqueios por agente de usuário e outras ferramentas para impedir ou controlar rastreadores.

Um levantamento de 2026 sobre os mil maiores sites encontrou aumento expressivo no bloqueio de alguns dos principais bots utilizados para treinamento de inteligência artificial. Mas o problema é que o bloqueio indiscriminado também pode produzir efeitos colaterais.

Um site pode querer impedir que seu conteúdo seja utilizado para treinamento de modelos e, ao mesmo tempo, desejar que um assistente de IA consiga acessar uma determinada página para responder a uma pergunta feita por um usuário e encaminhá-lo à fonte.

São usos diferentes. E a internet pós Inteligência Artificial ainda está construindo a linguagem necessária para distingui-los.

A solução pode estar em uma espécie de “etiqueta digital”

É aqui que a ideia de sinais padronizados ganha importância. Imagine que cada conteúdo carregue instruções compreensíveis por sistemas automatizados:

  • Pode ser indexado.
  • Pode ser usado para responder perguntas, desde que a fonte seja citada.
  • Não pode ser utilizado para treinamento.
  • Pode ser utilizado se houver contribuição para o ecossistema.
  • Pode ser usado mediante acordo comercial.

Esse tipo de granularidade poderia substituir a atual disputa binária entre abrir completamente ou fechar completamente o acesso a determinado site ou conteúdo.

É aí que surge um problema maior ainda: como transformar essas preferências em algo economica e tecnicamente verificável?

Quem paga pelo conteúdo?

Essa talvez seja a pergunta mais difícil de todas. Imagine um modelo de IA que consulta milhões de páginas de maneira praticamente instantânea.

Como calcular quanto cada autor deveria receber? Um artigo científico vale o mesmo que uma notícia? Uma fotografia vale o mesmo que um banco de dados? Um código de programação vale o mesmo que uma reportagem investigativa? E se o conteúdo for utilizado por milhares de modelos diferentes? E se a obra for apenas uma pequena parte de um gigantesco conjunto de treinamento generativo?

A Creative Commons reconhece que esse é um dos pontos mais difíceis do projeto. O cálculo e a distribuição de contribuições financeiras ou em espécie, em uma escala de milhares ou milhões de obras, são desafios consideráveis.

É por isso que os CC Signals não devem ser apresentados como uma solução jurídica pronta. São, neste momento, parte dejurídicatativa maior de construir infraestrutura social, técnica e eventualmente com segurança jurídica adequada ao relacionamento entre criadores e inteligência artificial.

O próprio projeto mudou

E há uma atualização importante em relação ao artigo original. Em abril de 2026, a Creative Commons anunciou que estava ampliando a concepção dos CC Signals.

A organização afirmou que o projeto deixou de ser apenas uma maneira de expressar preferências sobre o uso de conteúdos e passou a buscar mudanças mais estruturais nas condições que permitem que as preferências dos criadores sejam ignoradas.

Em maio, a organização detalhou que pretende avançar de “sinais” para uma infraestrutura mais ampla, incluindo experimentos e projetos-piloto relacionados a mecanismos legais, técnicos e de contribuição ao ecossistema aberto. É uma evolução significativa.

A discussão já não é apenas sobre colocar uma etiqueta em uma página. É sobre quem controla o conhecimento utilizado pela inteligência artificial e de que forma esse valor retorna para a sociedade.

E o Brasil?

A questão também está chegando ao centro do debate brasileiro sobre inteligência artificial. O país discute desde 2023 o Projeto de Lei 2.338, que trata do desenvolvimento, fomento e uso ético e responsável da inteligência artificial. O texto passou por debates e audiências públicas que incluíram especificamente o tema de IA generativa e direitos autorais.

O desafio brasileiro é semelhante ao enfrentado em outras partes do mundo: como permitir inovação tecnológica sem transformar livros, reportagens, músicas, fotografias, pesquisas e outras criações humanas em matéria-prima gratuita e invisível de sistemas comerciais.

Ao mesmo tempo, uma regulamentação excessivamente rígida pode criar obstáculos para pesquisa, inovação, educação e desenvolvimento de tecnologia nacional. O equilíbrio é delicado. Internet precisa continuar sendo um campo livre e aberto à democratização do conhecimento humano.

Uma disputa que pode decidir o futuro da web

A grande ironia é a Inteligência Artificial depender justamente daquilo que a internet aberta produziu ao longo de décadas: artigos, pesquisas, livros, fotografias, enciclopédias, fóruns, comentários, códigos e vídeos. Experiências humanas registradas em escala nunca antes vista.

Grande parte dessa riqueza foi produzida porque existia uma expectativa de que compartilhar conhecimento ajudaria outras pessoas a criar mais conhecimento. Na lógica de conhecimento, gera conhecimento.

Se a consequência da IA for transformar esse patrimônio coletivo em matéria-prima extraída em massa, sem atribuição, reciprocidade ou retorno, existe o risco de que os próprios criadores parem de compartilhar. Ou simplesmente perca o interesse em produzir.

Universidades podem fechar repositórios. Artistas podem abandonar plataformas abertas. Veículos de comunicação podem bloquear rastreadores. Pesquisadores podem restringir o acesso às suas bases de dados. Criadores podem migrar para ambientes fechados.

Tecnicamente, a internet continuaria funcionando, mas seria uma internet muito diferente. Bem menos democrática do que é hoje.

“Boas maneiras” podem não ser suficientes

A expressão utilizada pela Creative Commons — “boas maneiras para máquinas” — é poderosa porque resume bem o problema. Afinal, durante décadas, a web funcionou em grande parte graças a convenções que não estavam necessariamente escritas em leis.

Links, que geram créditos, citações e reciprocidade, tudo respeitando às preferências dos sites. É a ideia de que quem recebe valor da internet, igualmente também contribui para que ela continue existindo.

A inteligência artificial colocou essa cultura sob enorme pressão. Por isso mesmo talvez apenas “boas maneiras” não bastem. Será necessário combinar tecnologia, padrões abertos, contratos, transparência, modelos de remuneração, políticas públicas e, onde for necessário, regras jurídicas.

O objetivo não deveria ser impedir que as máquinas aprendam, ou tampouco transformar a internet em uma coleção de muros. O desafio está em construir uma terceira possibilidade: uma internet aberta o suficiente para que o conhecimento continue circulando, mas justa o suficiente para que as pessoas continuem produzindo esse conhecimento, e recebendo por ele.

O futuro da inteligência artificial depende do futuro da internet

A disputa pelos dados de treinamento parece, à primeira vista, uma briga entre empresas de tecnologia e detentores de direitos autorais. Mas é algo bem maior, é uma disputa sobre a própria arquitetura da sociedade da informação.

Se o conhecimento público se tornar apenas matéria-prima para sistemas privados, o incentivo à criação pode diminuir. Se, por outro lado, o medo da apropriação levar todos a fechar suas portas, perderemos justamente uma das características mais extraordinárias da internet: sua capacidade de conectar conhecimento produzido em lugares diferentes e colocá-lo à disposição de qualquer pessoa, em qualquer lugar.

Os CC Signals são ainda um trabalho em andamento. A própria Creative Commons afirma estar testando no momento diferentes caminhos, e que ainda não possui todas as respostas. Mas a pergunta que eles colocam é provavelmente uma das mais importantes da era da inteligência artificial:

Se as máquinas estão aprendendo com a humanidade, como garantir que a humanidade também se beneficie dessa aprendizagem?

Criadores de conteúdo merecem ser remunerados por suas postagens e publicações de toda espécie. Se as empresas de Inteligência Artificial são tão rentáveis e tem um valor de mercado tão vultuoso, talvez possa ser criado um fundo para remuneração dos criadores de conteúdo, das pessoas físicas e jurídicas que publicam conteúdo autoral na internet.

Fato é que: fontes livres representam texto livre.

Observação: este artigo é uma tradução livre, adaptação e atualização editorial, baseada no artigo: “Manners for machines: how new rules could stop AI scrapers destroying the internet”, publicado originalmente em The Conversation em 25 de março de 2026, de autoria de T.J. Thomson, Daniel Angus, Jake Goldenfein e Kylie Pappardalo. Publicado originalmente no site The Conversation.

Desenrola Adimplentes começa a operar com crédito mais barato e bloqueio de CPF em bets

Nova modalidade permite a trabalhadores informais substituir empréstimos mais caros por uma nova operação com juros de até 1,99% ao mês; adesão exige bloqueio para apostas online por seis meses

© José Cruz/Agência Brasil/Arquivo

O Desenrola Adimplentes, nova modalidade do programa federal de renegociação e reorganização financeira, entrou em operação nesta segunda-feira (10). A iniciativa é voltada principalmente a trabalhadores informais que mantêm suas dívidas em dia, mas estão submetidos a taxas elevadas de juros no crédito pessoal.

A proposta permite substituir uma dívida existente por um novo empréstimo, com juros de até 1,99% ao mês. O programa prevê operações de até R$ 15 mil por instituição financeira e, inicialmente, será oferecido pela Caixa Econômica Federal e pelo Banco do Brasil.

Uma das condições para participar chama atenção: quem contratar a linha terá o CPF bloqueado para apostas em plataformas de bets por seis meses. A medida foi estabelecida pelo governo como contrapartida ao acesso ao crédito em condições mais favoráveis e tem o objetivo de evitar que o dinheiro seja utilizado em apostas online.

Quem pode participar

O Desenrola Adimplentes não é destinado a qualquer pessoa endividada. A modalidade foi criada para trabalhadores informais que ainda conseguem manter seus pagamentos em dia ou que tiveram atrasos recentes.

Para se enquadrar, é necessário:

  • ser trabalhador informal, sem vínculo formal de emprego;
  • possuir uma operação de crédito pessoal não consignado;
  • ter quitado pelo menos quatro parcelas do contrato original;
  • estar em dia com a dívida ou ter atraso de, no máximo, 90 dias;
  • possuir saldo devedor de até R$ 15 mil por instituição financeira;
  • passar pela análise de crédito da instituição responsável pela nova operação.

Não entram na modalidade os empréstimos consignados. As regras também excluem, para esse público, trabalhadores com carteira assinada, servidores públicos, aposentados e pensionistas do INSS.

Como funciona a troca da dívida

Na prática, o programa não simplesmente elimina a dívida existente. O banco concede um novo empréstimo, que é utilizado para quitar integralmente a operação anterior.

A vantagem está nas condições da nova operação. Os juros ficam limitados a 1,99% ao mês, e a nova parcela não pode ultrapassar 90% do valor da prestação original. O prazo pode ser ampliado dentro dos limites estabelecidos pelo programa.

Também existe a possibilidade de o cliente receber crédito adicional de até 50% do saldo devedor original, desde que a nova prestação continue respeitando o limite de 90% da parcela anterior. A operação conta ainda com garantia do Fundo Garantidor de Operações (FGO).

Como aderir ao Desenrola Adimplentes

Quem acredita estar dentro dos critérios deve procurar inicialmente a Caixa Econômica Federal ou o Banco do Brasil, instituições que oferecem a linha nesta fase de implantação.

O interessado deve apresentar ou consultar os dados do empréstimo que deseja substituir e solicitar ao banco uma avaliação para o Desenrola Adimplentes. A instituição fará a análise para verificar se a operação atende às regras e se o cliente possui capacidade de contratar o novo crédito.

É importante destacar que a adesão não é feita por meio de um cadastro genérico em um site do governo. A contratação ocorre junto à instituição financeira, a operação é realizada diretamente no banco no qual o cliente contraiu a dívida.

Clientes que possuem a dívida original em outro banco também podem procurar Caixa ou Banco do Brasil, mas estarão sujeitos a uma nova análise de crédito para verificar o enquadramento na linha.

CPF será bloqueado nas bets

A participação no programa vem acompanhada de uma condição específica: o beneficiário terá de aceitar a autoexclusão das plataformas de apostas online por seis meses.

O bloqueio do CPF é uma das contrapartidas estabelecidas pelo governo para quem receber o crédito. A intenção é evitar que uma linha criada para aliviar o custo das dívidas seja utilizada para financiar apostas.

Portanto, quem estiver considerando aderir deve levar em conta que a contratação do crédito mais barato implica também ficar impedido de utilizar plataformas de apostas regulamentadas durante o período de seis meses.

Governo espera alcançar até 600 mil pessoas

Segundo informações divulgadas sobre a nova etapa, a expectativa do governo é que o programa alcance aproximadamente 500 mil trabalhadores informais e outros 100 mil beneficiários ligados ao Fies.

O pacote também contempla medidas relacionadas ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), incluindo linhas de crédito para empreendedorismo destinadas a estudantes e ex-estudantes que atendam aos critérios específicos da modalidade.

Atenção aos golpes

Com o início do programa, interessados também devem ficar atentos a falsas ofertas de renegociação. Não é recomendado pagar taxas antecipadas nem fornecer dados pessoais a intermediários que prometam “liberar” o benefício. A contratação deve ser realizada diretamente pelas instituições financeiras participantes e por seus canais oficiais.

A recomendação é especialmente importante porque programas de renegociação e crédito costumam ser utilizados por criminosos para criar páginas falsas, anúncios patrocinados, chamadas telefônicas e mensagens enviadas por aplicativos de comunicação.

Serviço: veja as principais regras

Programa: Desenrola Adimplentes

Público principal: trabalhadores informais

Tipo de dívida: crédito pessoal não consignado

Parcelas já pagas: pelo menos 4

Atraso permitido: até 90 dias

Saldo devedor: até R$ 15 mil por instituição

Juros: até 1,99% ao mês

Nova parcela: no máximo 90% da parcela original

Crédito adicional: até 50% do saldo devedor, respeitado o limite da parcela

Instituições inicialmente participantes: Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil - a partir de hoje, 10 de agosto

Contrapartida: bloqueio do CPF para apostas online por seis meses, com auto exclusão dos sites e aplicativos de BETs onde já tem cadastro 

Importante: o programa é destinado a quem ainda está adimplente ou possui atraso de até 90 dias. Portanto, ele não deve ser confundido com programas destinados exclusivamente a pessoas que já estão negativadas.

10.8.26

Requião Filho aposta em propostas

Depois do debate da Band, candidato do PDT diz que pretende trocar o embate direto pelo debate por propostas para o Paraná

Requião Filho (PDT) e Sandro Alex (PSD) nos estúdios da Band Paraná - Reprodução

O debate termina, as câmeras se apagam e a disputa eleitoral continua, agora com a devida apresentação pública dos candidatos, no já tradicional Debate da Band, o primeiro realizado durante o período eleitoral. Sérgio Moro não compareceu, mas as campanhas de Requião Filho e Sandro Alex começaram para valer. É neste momento, durante esta semana, que vai repercutir em todo o estado o debate e os embates entre os candidatos. 

Em vídeo publicado nas redes sociais na tarde desta segunda-feira (10), o candidato do PDT afirma que não pretende entrar na lógica de uma disputa baseada apenas na agressividade. A ideia, segundo ele, é responder aos adversários com firmeza, mas concentrar a campanha na apresentação de propostas.

“Nessa eleição, todo mundo espera de mim o Requião do Velho Testamento. Pau, polícia e cacete. Só que nessa eleição, a gente tem muito mais proposta e muito mais conhecimento do Paraná...  Eles esperam de nós agressividade. Nós vamos entregar assertividade.”

A frase resume o tom que Requião Filho pretende imprimir à caminhada eleitoral. Em vez de transformar cada divergência em um novo confronto, o candidato diz que quer apresentar soluções para problemas que considera centrais para o Estado.

A manifestação também ocorre em meio às primeiras repercussões do debate da Band, realizado neste domingo (9). A ausência de Sergio Moro (PL) acabou alterando a dinâmica do encontro, que teve momentos de confronto mais direto entre Requião Filho e Sandro Alex (PSD).

Para o candidato do PDT, o debate não deve ser medido apenas pelos momentos de maior tensão. A proposta anunciada é levar a discussão para aquilo que acontece fora dos estúdios e das redes sociais: o cotidiano de quem vive no Paraná.

“Vamos apresentar propostas que já deram certo, que já demonstraram resultados, e aprimorá-las para a realidade do Paraná.”

É uma tentativa de mudar o centro da conversa. Em vez de fazer da eleição uma sucessão de ataques, Requião Filho procura apresentar a disputa como uma escolha entre diferentes projetos para o Estado. E, é o que é. Candidatos devem ser medidos por projetos e não por ataques pessoais.

Temas que entram no centro da campanha

Essa linha, aliás, não começou com o debate. Antes mesmo do encontro da Band, o candidato já havia sinalizado que pretende colocar no centro da campanha questões como emprego, saúde, impostos, segurança e desenvolvimento do interior.

São temas que, na prática, ultrapassam a disputa entre candidatos. Estão presentes no dia a dia de quem procura atendimento de saúde, de quem depende de emprego, de quem enfrenta a violência. Ouvir aqueles que vivem longe dos grandes centros e cobram do poder público oportunidades semelhantes às encontradas nas regiões mais desenvolvidas.

O desafio, agora, será transformar o discurso de campanha em propostas suficientemente concretas para que o eleitor consiga comparar caminhos diferentes para o Paraná.

O cenário eleitoral

Na pesquisa Quaest divulgada pela Band em 27 de julho, Requião Filho aparecia em segundo lugar na disputa pelo governo do Paraná, com 18% das intenções de voto.

No cenário de segundo turno apresentado pelo levantamento, o candidato registrava 37%, contra 20% de Sandro Alex.

Os números, porém, retratam apenas um momento da corrida eleitoral. Com a campanha ainda em construção e os debates começando a colocar os candidatos frente a frente. Novas posições podem surgir à medida que o eleitor conhecer melhor nomes, propostas e, principalmente, a capacidade de cada um de transformar discurso em projeto de governo.

Depois do primeiro debate, a mensagem de Requião Filho parece estar definida: se os adversários esperam mais confronto, ele pretende responder com propostas. A eleição, daqui para frente, dirá quanto espaço essa estratégia conseguirá conquistar no debate sobre o futuro do Paraná.

Saúde: ministro visita hospitais do Paraná

Agenda em Curitiba e Campina Grande do Sul destacou ampliação de cirurgias, tratamentos de alta complexidade e atendimento pelo SUS

Foto: Ministério da Saúde

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, esteve no Paraná neste sábado (8) para conhecer de perto o trabalho de hospitais que atendem pacientes do SUS. A agenda passou pela Santa Casa de Curitiba e pelo Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana.

Na Santa Casa, que tem 146 anos de história, Padilha acompanhou ações voltadas à ampliação de cirurgias e exames. A instituição conta com 367 leitos destinados ao SUS e, até abril deste ano, já havia realizado 32,8 mil cirurgias dentro do programa Agora Tem Especialistas.

O hospital também oferece tratamentos de alta complexidade e realiza transplantes de córnea, rim, coração, tecidos musculoesqueléticos e válvulas cardíacas. Somente em 2025, foram 40 transplantes.

Outro destaque da agenda foi o Complexo de Saúde Pequeno Cotolengo, que passou a atuar como Centro Especializado em Reabilitação II. Com a nova habilitação, a capacidade anual de atendimento deve saltar de 9,8 mil para mais de 44 mil procedimentos voltados principalmente à reabilitação física e intelectual.

Atendimento de alta complexidade

Em Campina Grande do Sul, o ministro visitou o Hospital Angelina Caron, referência em serviços de média e alta complexidade. A unidade atende em 30 especialidades e oferece tratamentos como oncologia, cardiologia, transplantes, hemodiálise e radioterapia.

Em 2025, mais de 128 mil pessoas foram atendidas no hospital, sendo 90% pela rede pública. No mesmo período, foram realizadas 30,3 mil cirurgias. A unidade também passou a contar, desde maio, com uma nova sala de cirurgia geral.

Durante as visitas, Padilha destacou a importância da parceria entre o Ministério da Saúde, os municípios e as instituições filantrópicas para ampliar o acesso da população a consultas, exames, cirurgias e tratamentos especializados.

Santas Casas têm papel importante no SUS

A agenda também ocorre em um momento de reforço às instituições filantrópicas. Uma nova lei sancionada em 6 de agosto prorrogou até 2030 a possibilidade de uso de recursos do FGTS em operações de crédito destinadas a hospitais filantrópicos e entidades sem fins lucrativos que atendem pelo SUS.

Em todo o país, as Santas Casas realizaram 1,3 milhão de internações e 74,1 milhões de procedimentos ambulatoriais em 2025. As instituições filantrópicas também foram responsáveis por 1,8 milhão das cirurgias eletivas realizadas pelo SUS naquele ano.

Na área de transplantes, a participação também é expressiva: entre 2012 e maio de 2026, entidades sem fins lucrativos responderam por 59,7% dos transplantes realizados pelo SUS.

Na Volvo, confiança no sindicato vira conquista no bolso do trabalhador

Na Volvo, em Curitiba, um exemplo de sucesso para movimento sindical brasileiro — ao longo dos anos SMC vem conquistando importantes vitórias para a classe trabalhadora

 

Quase cinco décadas de chão de fábrica, liderança presente e uma categoria organizada. Na Volvo, a história mostra que quando o trabalhador, a trabalhadora e o sindicato caminham juntos, a negociação ganha força — e o resultado aparece diretamente na qualidade de vida das famílias.

É essa trajetória que envolve nomes como Nelsão da Força, funcionário da Volvo há mais de 47 anos, e Sérgio Butka, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC), que aos 66 anos segue firme, defendendo as bandeiras históricas da categoria. Butka é pioneiro na luta pela jornada de 40 horas semanais e a escala 5x2, desde 1996.

Mais do que dirigentes, Nelsão e Butka são lideranças que conhecem o chão da fábrica, os trabalhadores e suas famílias. Eles sabem que a força da luta e a vitória, começa na confiança por parte da classe no sindicato e em seus dirigentes. Essa confiança voltou a se transformar em resultado na campanha salarial 2026/2027.

A proposta negociada pelo SMC foi aprovada pela maioria dos trabalhadores da Volvo e garante 100% do INPC, sem teto, em 2026 e 2027, além de abono de R$ 2.700 em cada ano e vale-mercado de R$ 1.800.

São conquistas que representam mais poder de compra e segurança para milhares de famílias. Mas o principal resultado talvez esteja em outro lugar: na demonstração de que a organização da base continua sendo decisiva para a luta.

De acordo com o Nelsão, são os diretores e diretoras que estão dentro da fábrica, conversando diariamente com os trabalhadores, quem mais ajuda a transformar as reivindicações em negociação. Sempre com a liberdade para participação, sagrada, dos trabalhadores e trabalhadoras em participar das assembleias e votações. É a assembleia presencial que dá força e legitimidade à representação sindical.

Na Volvo, não é diferente das outras empresas, a liderança não se faz de longe. Se faz no chão de fábrica, lado a lado com o companheiro e a companheira que trabalha na mesma fábrica. A história de Butka, Nelsão e dos diretores do SMC mostra que as conquistas coletivas nascem de três palavras: organização, confiança e unidade.

E, pelo que temos observado aqui na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), quando trabalhadores e sindicato estão juntos, a luta continua — e a vitória vem.

O Brasil onde trabalhar ficou caro demais: salário mínimo, transporte e o abandono de quem paga a conta

Enquanto o custo de vida pesa cada vez mais no orçamento, milhões de brasileiros chegam ao fim do mês entre o salário, que não acompanha todas as despesas, as dívidas e a perda de poder aquisitivo

 
Enquanto o custo de vida pesa cada vez mais no orçamento, milhões de brasileiros chegam ao fim do mês entre o salário, que não acompanha todas as despesas, as dívidas e a perda de poder aquisitivo

Há uma pergunta que os governos estaduais do Brasil deveriam fazer com mais frequência — e responder com menos discursos que sequer o povo consegue compreender: quanto custa, hoje, simplesmente viver e trabalhar no Brasil?

A resposta não cabe apenas em uma planilha, não se pode tratar as pessoas apenas como números, estatística. Ela aparece no caixa do supermercado, quando o carrinho volta para casa mais vazio a cada mês que passa. Aparece no aplicativo bancário do seu telefone, quando a fatura do cartão chega. Aparece na catraca do transporte coletivo. Aparece no aluguel, na conta de luz, na farmácia e, principalmente, naquele momento do mês em que o salário começa a acabar antes de as contas fecharem.

O salário mínimo nacional foi fixado em R$ 1.621 em 2026. O valor representa o piso oficial de remuneração, mas está muito distante daquilo que o próprio DIEESE estima como necessário para uma família de quatro pessoas manter as despesas básicas. Em maio, o instituto calculou esse valor em R$ 7.999,44. Valor que representa praticamente cinco salários mínimos.

A diferença ajuda a dimensionar o tamanho do problema. Mas os números, sozinhos, ainda não contam a história inteira, pois pessoas, vidas, famílias, comunidades inteiras, não são apenas números. Somos almas humanas, todas e todos temos necessidades que vão além da alimentação.

Existe também uma parcela de milhões de brasileiros que não vivem apenas com o salário mínimo. Ganham um pouco mais no fim do mês. Mas todo mundo têm um emprego, empreende ou recebe comissão além de salário. São vários os cenários, mas todos nós pagamos impostos. Alguns têm financiamento imobiliário da casa propria, outros pagam prestação do sonhado carro novo. Muitos de nós temos filhos para sustentar.

E, mesmo quem ganha mais de um salário mínimo, ainda assim, vive no limite. Inclusive no limite do crédito mais caro do mundo. É essa parcela, a chamada classe média, que vai sendo espremida entre uma renda que parece razoável no contracheque ou no lucro do negócio próprio, e um custo de vida em escalada contante que, na prática, não deixa sobrar quase nada no final das contas.

O orçamento acaba antes do mês

O levantamento do DIEESE aponta que em maio de 2026, o salário mínimo necessário para uma família de quatro pessoas foi estimado em R$ 7.999,44, considerando despesas como alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência. O valor equivalia a 4,93 vezes o salário mínimo oficial de R$ 1.621. Na mesma pesquisa, a cesta básica de São Paulo custava R$ 952,20, quando todos sabemos que a cesta básica é o mínimo para uma pequena família sobreviver durante um mês.

Em outras palavras: somente a alimentação básica pesquisada pelo DIEESE representava 63,5% do salário mínimo líquido considerado no levantamento. Isso sem levar em conta o aluguel, a conta de água e de energia elétrica. Despesas com remédios e transporte, vestuário e material escolar, gás e aquela despesa inesperada que não estava no orçamento.

É nesse ponto que a discussão sobre custo de vida deixa de ser uma abstração econômica e passa a ser uma pergunta bastante simples: quanto dinheiro sobra depois que uma pessoa paga suas contas para continuar vivendo?

O trabalhador também paga para conseguir trabalhar

O transporte coletivo talvez seja uma das expressões mais claras dessa contradição. Em Florianópolis, a tarifa paga em cartão transporte, dinheiro, Pix ou QR Code chegou a R$ 7,70 em 2026. Para alguém que utiliza duas passagens por dia durante 22 dias úteis, a conta chega a R$ 338,80 por mês. Isso equivale a cerca de 21% de um salário mínimo. Não é pouco. É caro.

Quando já descontado do contracheque, é dinheiro que sai antes mesmo de o trabalhador comprar comida, pagar aluguel ou colocar uma conta em dia. Em Curitiba, onde a tarifa foi mantida em R$ 6 durante 2026, duas passagens por dia em 22 dias úteis representam R$ 264 por mês — cerca de 16,3% do salário mínimo. A Prefeitura também mantém programas específicos, como a tarifa reduzida aos domingos e a Tarifa Zero a Caminho do Emprego.

Em São Paulo, a tarifa municipal de ônibus está em R$ 5,30. No mesmo cálculo de duas viagens diárias durante 22 dias úteis, o trabalhador gastaria R$ 233,20 por mês, ou aproximadamente 14,4% do salário mínimo.

As contas parecem simples. Mas não. São contas que ajudam a mostrar uma coisa que muitas vezes desaparece nas discussões sobre mobilidade: o trabalhador não usa o transporte apenas para se deslocar. Ele paga para chegar ao próprio emprego.

É claro que transporte coletivo tem custo. Há combustível, manutenção, veículos, trabalhadores, terminais, infraestrutura e contratos. Os sistemas também recebem subsídios públicos em diferentes níveis. Explicar o custo das tarifas é necessário, más explicar não resolve a conta de quem precisa pagá-la mês após mês.

A cidade pode prosperar enquanto o trabalhador aperta o orçamento

Existe outro panorama panorama importante de se observar. As cidades que concentram atividade econômica, empregos e serviços, como capitais e cidades polo, que produzem mais, paradoxalmente apresentam custos mais elevados de moradia, alimentação, transporte e outros serviços. É uma combinação particularmente difícil para quem vive do trabalho, e sabe que o seu trabalho está gerando riqueza para outros, entender.

Uma cidade pode ter restaurantes sofisticados, condomínios valorizados, escritórios modernos e um mercado imobiliário aquecido. Entretanto quem cuida da limpeza e manutenção esses prédios, dirige os ônibus, serve nos restaurantes, trabalha em supermercados e mantém os serviços funcionando, igualmente precisa morar, comer, se deslocar, ter acesso à saúde, cultura e educação. Mas quem ainda consegue acessar todas essas necessidades básicas, nem sempre consegue fazer isso com tranquilidade.

Enquanto a cidade prospera, o trabalhador que contribui com essa prosperidade não consegue acompanhá-la no que diz respeito à qualidade de vida. Talvez aí possa ser observada uma das contradições mais silenciosas do Brasil contemporâneo. Embora a fome tenha sido mais uma vez erradicada no país, ainda vivemos em um profundo abismo social.

Quando o salário não basta, entra o crédito

Quando a renda não acompanha as despesas, o leque de escolhas da classe trabalhadora vai ficando menor. Quando o cinto começa a apertar, primeiro se corta o consumo, em seguida vem o adiamento para pagar uma conta. Então começam os parcelamentos, nas contas, nas compras, nos boletos. As pessoas usam o cartão de crédito, entram no rotativo, pedem um empréstimo. Excedem o limite da conta.

Para cerca de metade da população brasileira, pouco a pouco, o crédito deixa de ser uma ferramenta para comprar alguma coisa e passa a funcionar como extensão do salário. Um dinheiro que custa mais de 400% de juro ao ano.

É bem neste ponto que o endividamento começa a mudar de natureza. O Serasa registrou 83,3 milhões de brasileiros inadimplentes em abril de 2026. O número correspondia a 50,81% da população adulta e representava o maior volume da série histórica do levantamento. Blogueiro também não escapa, eu também faço parte dessa maioria.

Mas isso não significa que todas essas pessoas tenham chegado à inadimplência pelo mesmo motivo. Há quem tenha perdido emprego, clientes e renda. Há quem tenha acumulado compromissos - na tentativa de manter o mesmo padrão de qualidade de vida. Existem as pessoas que enfrentaram ou estão enfrentando uma emergência familiar e muitos que acabaram recorrendo ao crédito, simplesmente para manter o orçamento funcionando.

Existe aí uma diferença que hoje percebe-se como fundamental. Uma coisa é contrair uma dívida para comprar um bem. Outra, muito mais preocupante, é recorrer ao crédito para pagar despesas que deveriam caber na renda mensal: comida, energia elétrica, despesas com moradia, transporte, remédios, etc...

Quando a dívida chega neste patamar, ela não está mais financiando sonhos ou projetos, ela passou a financiar a própria sobrevivência.

A classe média perdeu seu fôlego?

É aqui que o debate sobre custo de vida tem que sair da velha alegoria, que divide a sociedade entre ricos e pobres. Há uma parcela enorme da população que não se considera pobre, mas que também não consegue mais se sentir financeiramente segura.

É o trabalhador que tem emprego, mas depois que paga aluguel não lhe resta o suficiente para manter o mesmo padrão alimentar. É o casal que tem renda, mas a maior parte dela está comprometida com o financiamento da casa. Existe aquela pessoa, aquela família que têm carro, mas não sabe de onde vai tirar o dinheiro quando surge uma manutenção inesperada.

No meio de tudo isso também estão os profissionais que recebem acima do salário mínimo, mas vêem a escola dos filhos, supermercado, plano de saúde, transporte, impostos, acesso à cultura e moradia consumirem tudo o que ganham.

Essa população não aparece nas estatísticas de extrema pobreza. Mas isso não significa que a classe média brasileira esteja confortável. Está sim é se tornando vulnerável. E, a vulnerabilidade financeira, não surge necessariamente no extremo, quando chega ao absurdo da falta comida na mesa.

A vulnerabilidade financeira da classe média, às vezes só começa a aparecer quando simplesmente desaparece qualquer economia para um imprevisto, para uma emergência. Pode ser uma geladeira quebrada, um problema no carro, doença na família, demissão. Ela surge quando comerciantes e profissionais liberais deixam de ter apenas mês ruim e se veem cercados por contas em atraso e dívidas.

Sem reserva financeira, qualquer uma dessas situações pode empurrar uma família para o crédito. E o crédito, quando já existe outra divida em atraso, pode virar uma armadilha, ou uma espécie de areia movediça. As pessoas se veem desesperançadas.

Governos precisam olhar para a conta que chega ao trabalhador

Nenhum governo controla sozinho todos os preços. A prefeitura não determina o valor do supermercado. O governo estadual não fixa sozinho o preço do aluguel. A União não administra cada despesa que aparece no orçamento doméstico.

Mas governos municipais, estaduais e federal recolhem taxas e impostos, portanto têm responsabilidades importantes sobre as condições que determinam o custo de vida da população.

Por isso, não deveria bastar apresentar bons números fiscais, inaugurar obras ou anunciar investimentos. Nas planilhas tudo parece maravilhoso mas a realidade é outra.

Os governantes precisam olhar também para a outra ponta da equação: quanto custa viver na cidade, no estado e no país que eles administram?

As políticas públicas deveria ser examinadas também por uma pergunta muito menos abstrata: depois de pagar as despesas essenciais, quanto sobra no bolso do trabalhador e da trabalhadora? Quanto sobra no orçamento doméstico da família? Quando sobra pouco, existe um problema. Se não sobra nada, existe uma emergência.

As contas não tem ideologia

O custo de vida também precisa ser discutido além da velha estratégia de tentar colocar a todos acreditar nas armadilhas de marketing, que transforma cada número em munição partidária.

As cidades brasileiras, os Estados da Federação, têm governos de diferentes partidos, ideologias e orientações políticas. Algumas políticas seja de qual partido foi, dão certo, outras precisam ser revistas. Há avanços de uma administração que podem ser preservados pelo governo seguinte e problemas que atravessam diferentes e diversos mandatos.

A vida real é mais complicada do que as etiquetas partidárias e as planilhas com estatísticas. O trabalhador não paga a passagem com ideologia. Paga com dinheiro vindo do próprio trabalho. Feijão com arroz e bife não se compra com discurso político, custa dinheiro.

Planilha com números ajuda no planejamento, mas não se paga aluguel com promessa eleitoral. Paga-se com dinheiro. É justamente por isso que governos de diferentes espectros políticos deveriam ser cobrados por uma régua comum: a relação entre o custo e a qualidade real da vida de quem trabalha ou depende da aposentadoria para viver.

O país precisa olhar para quem está no limite

O Brasil não pode tratar como normal uma situação em que trabalhar durante todo o mês não garante, para milhões de pessoas, a possibilidade de construir sequer uma pequena reserva financeira. E neste caso o Paraná, nosso estado, já atravessou o sinal vermelho. Aqui temos o segundo custo de vida mais alto do país, atrás apenas do Distrito Federal.

Não deveria se tornar natural que uma parcela tão grande da população, mais da metade dela, esteja endividada ou inadimplente.

Também não podemos aceitar como normal que o transporte consuma uma fatia significativa da renda, justamente das pessoas que dependem dele para chegar ao emprego.

O pedágio da estrada não pode consumir o benefício da própria viagem. Da mesma forma não podemos aceitar que o aumento nominal do salário seja comemorado, sem que se observe quanto esse reajuste desaparece frente aos custos com alimentação, moradia e serviços.

Quando uma família deixa de comprar alguma coisa porque o dinheiro acabou, não é apenas aquela família que sente. O comércio também sente, assim como o pequeno prestador de serviços e toda economia local.

Quando uma pessoa deixa de fazer uma manutenção preventiva porque não tem dinheiro, o problema é adiado e pode ficar maior depois.

Cada vez que uma família entra no crédito, para pagar despesas básicas, compromete sua própria renda futura. É assim que um problema aparentemente doméstico e localizado vai ganhando dimensão econômica e social. Me parece assustador que no estado maior produtor de tilápia do mundo, 800g de filé de tilápia, custem perto de R$40,00 no supermercado.

A escada social não pode virar esteira

Durante muito tempo, a ideia de ascensão social esteve associada a uma sequência relativamente simples: estudar, trabalhar, melhorar a renda, comprar uma casa, formar uma reserva e oferecer aos filhos uma condição melhor do que aquela recebida dos pais.

Para alguns, essa trajetória ainda é possível. Mas não por incompetência ou gastar demais ou trabalhar menos ou mais, fato é que para milhões de pessoas, ela ficou mais difícil. Muitas pessoas perdem o sono com o temor de não conseguir deixar os filhos em melhor situação futura, através do próprio trabalho.

Quem começa a vida sem patrimônio, sem reserva financeira e com renda baixa enfrenta uma distância enorme até o primeiro degrau. Os que conseguem ou conseguiram subir alguns degraus, também podem descobrir que não estão tão protegidos quanto imaginavam.

Basta perder o emprego, surgir uma doença. Contrair uma dívida quando os juros e a inflação apertam. É o aluguel ou prestação da casa própria que sobe, é o custo com transporte que pesa.

O resultado parece estar numa sensação cada vez mais presente: a de que a escada social, que deveria permitir a subida, às vezes parece funcionar como uma esteira — a pessoa trabalha, trabalha, trabalha e permanece sempre no mesmo lugar.

A discussão sobre custo de vida é menos sobre números e mais sobre dignidade humana. Porque o verdadeiro indicador de uma economia não está apenas no tamanho do PIB, na arrecadação, no número de empregos ou no resultado das contas públicas.

Esta é uma questão presente na vida concreta de quem acorda cedo, enfrenta o trânsito ou o ônibus, trabalha o dia inteiro e volta para casa fazendo e refazendo contas, sem conseguir chegar no resultado que seja no mínimo satisfatório.

Onde viver pesa mais no bolso

O custo de vida não é igual para quem mora em diferentes regiões do Brasil. Uma pesquisa da Serasa em parceria com o Opinion Box, realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, mostrou diferenças expressivas no valor médio mensal do custo de vida no Brasil.

O Distrito Federal (DF) aparece no topo, seguido pelo Paraná (PR) e São Paulo (SP). A pesquisa considerou gastos com moradia, contas recorrentes, supermercado, transporte, saúde, educação, lazer, alimentação, compras e serviços pessoais.

Posição UF Unidade da Federação Gasto médio mensal
DF Distrito Federal R$ 4.920
PR Paraná R$ 4.300
SP São Paulo R$ 4.270

Fonte: Serasa/Opinion Box. Pesquisa realizada entre 22 de dezembro de 2025 e 6 de janeiro de 2026. A média nacional de despesas apontada pelo levantamento foi de R$ 3.520 mensais. Os valores representam estimativas médias de gastos e não um índice oficial de custo de vida.

Os dados chamam atenção especialmente no caso do Paraná. O estado aparece na segunda posição, com uma despesa média mensal de R$ 4.300 — cerca de R$ 780 acima da média nacional apontada pelo levantamento divulgado em janeiro deste ano.

O levantamento ajuda a colocar em perspectiva uma contradição que muitas vezes passa despercebida: estados e cidades que oferecem mais empregos, serviços e moradia, também podem cobrar mais caro por aquilo que o trabalhador precisa para viver. As contas não fecham, o trabalhador acaba pagando para trabalhar e usando crédito para viver.

E não basta olhar apenas para quanto entra no contracheque, na venda diária, ou serviço prestado. É preciso olhar para quanto sobra depois de pagar as contas e comprar comida, para a própria vida.

Afinal, quanto custa viver? Quanto precisa ganhar uma pessoa para que trabalhar não seja apenas uma maneira de sobreviver - como uma espécie de escravidão remunerada - e volte a ser também uma forma de construir alguma coisa. Ter o poder de transformar sonhos em realidade, não deveria ser artigo de luxo.

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