Ensaio geral revelou desafios técnicos em meio ao frio na Flórida, reforçando a prioridade absoluta da agência: segurança da tripulação
| NASA/Divulgação |
Em silêncio concentrado, sob o frio atípico da Flórida e a vigilância constante de centenas de engenheiros, a NASA deu mais um passo decisivo rumo ao retorno da humanidade à exploração profunda do espaço. Na madrugada de terça-feira (3), a agência concluiu o chamado wet dress rehearsal da missão Artemis II — um ensaio geral que testa, em condições reais, o abastecimento completo do foguete que levará astronautas novamente além da órbita terrestre.
O teste, embora bem-sucedido em seus objetivos centrais, expôs desafios técnicos que levaram a NASA a rever o cronograma. O lançamento, antes cogitado para fevereiro, agora tem março como a janela mais cedo possível.
Mais do que um simples adiamento, a decisão carrega um recado claro: quando vidas humanas estão em jogo, não há espaço para atalhos. Tudo tem que estar 100% ok para o lançamento, pois segundo a lei de Murphy, nascida na própria NASA, se alguma coisa tiver que dar errado vai dar.
Durante cerca de 49 horas, iniciadas às 20h13 do dia 31 de janeiro, equipes acompanharam cada etapa do abastecimento criogênico do Space Launch System (SLS), o foguete mais poderoso já construído pela humanidade. Hidrogênio e oxigênio líquido foram carregados nos tanques do estágio central e do estágio criogênico intermediário, enquanto sensores realizaram o monitoramento e análise do impacto das baixas temperaturas sobre sistemas e equipamentos.
O frio, aliás, foi um personagem central desse ensaio. Algumas interfaces precisaram ser aquecidas antes do início do abastecimento, atrasando o cronograma. Durante o processo, engenheiros enfrentaram um vazamento de hidrogênio líquido em uma conexão crítica do estágio central — um problema sensível, recorrente e que exige extrema cautela.
Para contê-lo, foi necessário interromper o fluxo do combustível, permitir o reaquecimento da interface, reajustar vedações e recalibrar o sistema. O trabalho consumiu horas preciosas, mas permitiu que o teste seguisse adiante.
Mesmo assim, ao se aproximar da contagem regressiva final — faltando cerca de cinco minutos — o sistema automático interrompeu o processo ao detectar um novo aumento na taxa de vazamento. O ensaio foi encerrado ali, exatamente como previsto em um teste cujo objetivo é identificar falhas antes que elas se tornem riscos reais.
Além do vazamento, outros pontos exigiram atenção: uma válvula recém-substituída do módulo de tripulação da cápsula Orion precisou ser reapertada; operações de fechamento levaram mais tempo que o esperado; câmeras e equipamentos foram afetados pelo frio; e falhas intermitentes de comunicação por áudio voltaram a ocorrer entre equipes de solo.
Ainda assim, a NASA destacou avanços importantes. Todos os tanques foram abastecidos com sucesso e uma equipe de cinco pessoas chegou à plataforma de lançamento para concluir os procedimentos finais da Orion. Também foram testados novos protocolos de segurança, incluindo o uso de ar respirável — em vez de nitrogênio gasoso — nas cavidades do módulo de serviço, garantindo condições seguras para os técnicos que auxiliarão os astronautas no dia do lançamento.
Com a mudança no calendário, os quatro tripulantes da Artemis II — Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o astronauta canadense Jeremy Hansen — foram liberados da quarentena iniciada em 21 de janeiro, no Texas. Eles retornarão ao isolamento cerca de duas semanas antes da nova data de lançamento.
Em nota oficial, a agência reforçou que os próximos dias serão dedicados à análise minuciosa de dados, correção de cada falha identificada e novos testes, antes da definição de uma data oficial.
“A segurança da tripulação continua sendo nossa prioridade máxima”, reiterou a NASA, lembrando que a missão Artemis II será o primeiro voo tripulado do programa que pretende levar humanos de volta à Lua — e, mais adiante, a Marte.
Os resultados iniciais do ensaio também foram tema de uma coletiva de imprensa, transmitida ao vivo pelo canal oficial da NASA no YouTube, com a participação de lideranças da agência e uma declaração do administrador Jared Isaacman.
O caminho até a Lua, mais uma vez, mostra que não é feito de pressa, mas de responsabilidade, ciência e respeito absoluto à vida. Cada atraso, nesse contexto, é também garantia de um lançamento, voo e retorno seguro à Terra.













