Audiência pública convocada por Arilson Chiorato reúne sindicatos e parlamentares; debate liga redução da jornada à luta dos metalúrgicos da Brose em São José dos Pinhais
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| A tribuna da ALEP lotou de parlamentares, trabalhadores e sindicalistas, que pedem o fim da jornada 6x1 - Divulgação/SMC |
O plenário da Assembleia Legislativa do Paraná amanheceu diferente nesta terça-feira (10). O tema que ecoava no salão não era apenas técnico, jurídico ou parlamentar. Era humano.
Falava-se de tempo — algo que milhões de trabalhadores brasileiros sentem escapar pelas mãos. Tempo para descansar. Tempo para viver. Tempo para estar com a família.
Convocada pelo deputado estadual Arilson Chiorato, líder da oposição na Casa, a audiência pública reuniu centrais sindicais, trabalhadores, movimentos sociais e parlamentares para discutir o fim da jornada 6×1, modelo que impõe seis dias de trabalho para apenas um dia de descanso.
Mas o debate ganhou ainda mais peso quando a discussão sobre jornada de trabalho se conectou a um conflito real que está acontecendo na Região Metropolitana de Curitiba: a greve dos trabalhadores da Brose do Brasil.
A greve que virou símbolo
A multinacional de autopeças Brose, instalada em São José dos Pinhais, vive uma paralisação de trabalhadores metalúrgicos que reivindicam melhores salários, benefícios e condições dignas de trabalho.
A mobilização começou após negociações frustradas entre sindicato e empresa. Segundo dirigentes sindicais, cerca de 300 trabalhadores participam da paralisação.
O conflito ganhou repercussão quando houve presença policial durante manifestações em frente à fábrica. Em um desses episódios, o dirigente sindical conhecido como Nelsão da Força chegou a ser detido durante o protesto.
Foi essa experiência — ainda viva na memória dos trabalhadores — que apareceu no microfone da audiência pública na Assembleia.
“Não é só sobre trabalho. É sobre dignidade.”
Ao tomar a palavra, o dirigente sindical Nelsão da Força denunciou o que classificou como tentativas de intimidação contra trabalhadores mobilizados.
“Colocam drone, polícia, batalhão de choque para pressionar e humilhar os trabalhadores.”
Em outro momento, o sindicalista lembrou que o tempo da burocracia muitas vezes ignora a urgência da vida real.
“O prazo que a Justiça tem para investigar não é o mesmo prazo que o pai e a mãe de família têm para colocar comida na mesa, pagar medicamento, pagar luz e água”, declarou Nelsão sobre a greve na Brose do Brasil, na RMC. "24 milhões só em imposto ... uma empresa alemã. Cada três carros produzidos no Brasil, três usam componentes e eles não, não querem negociar...", completou o líder sindical.
A fala arrancou aplausos no plenário e conectou duas dimensões da mesma luta: a defesa do direito de greve e a defesa do tempo de vida dos trabalhadores.
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| Momento da fala do Nelsão da Força na ALEP - Divulgação |
O debate sobre o tempo de viver
A audiência na Assembleia não discutia apenas um modelo de jornada. Discutia uma pergunta cada vez mais presente no mundo do trabalho: até que ponto a vida pode ser organizada apenas em função da produtividade?
Na escala 6×1, trabalhadores passam seis dias consecutivos trabalhando e têm apenas um dia de descanso semanal. Na prática, esse único dia costuma ser consumido por tarefas acumuladas da semana — resolver pendências, cuidar da casa, enfrentar filas, recuperar o corpo do desgaste.
Sobra pouco ou nenhum espaço para:
- educação
- cultura
- lazer
- convivência familiar
- cuidado com a saúde
Requião Filho: qualidade de vida também é política pública
O deputado estadual Requião Filho, presente na audiência e citado como um dos nomes da frente progressista para a disputa do governo do Paraná, afirmou que o debate sobre jornada de trabalho precisa ser enfrentado com coragem política.
Segundo ele, trabalhar menos não significa produzir menos — significa permitir que as pessoas tenham mais qualidade de vida.
Para o parlamentar, garantir mais tempo livre significa também permitir que as pessoas estudem, participem da vida cultural e fortaleçam suas comunidades.
Arilson Chiorato: a vida não pode caber em um único dia
Ao abrir a audiência pública, o deputado Arilson Chiorato afirmou que o debate sobre jornada de trabalho precisa sair do plenário e chegar à sociedade.
Para ele, a discussão sobre o fim da escala 6×1 é parte de uma transformação maior nas relações de trabalho.
“A vida do trabalhador não pode caber em um único dia de descanso.”
Segundo o parlamentar, a audiência foi organizada justamente para ouvir trabalhadores e construir propostas a partir da realidade de quem enfrenta essa rotina todos os dias.
O tempo virou pauta política
Ao final da audiência, uma percepção parecia unir os diferentes discursos. A discussão sobre a escala 6×1 não é apenas sindical. Não é apenas econômica. É civilizatória.
Num país onde milhões de pessoas passam a maior parte da semana trabalhando, cresce a percepção de que a luta do século XXI talvez não seja apenas por salário.
Mas por algo ainda mais profundo: o tempo que temos de vida é o tempo que temos para cuidar da nossa própria vida e das pessoas que são importantes para nós.
- Atualizada às 16h00 e 16:52 com a fala do Nelsão







