Projetos urbanos e comunitários do Brasil ganham reconhecimento internacional ao provar que planejamento participativo, justiça social e respeito à natureza podem caminhar juntos
| Capela de Nsa Sra das Neves - Nilton Sousa/Prefeitura de Salvador |
Por onde o Brasil insiste em ser esquecido, brotam soluções. Na Ilha de Maré, um bairro-ilha de Salvador cravado na Baía de Todos-os-Santos, o futuro começou a ser desenhado a partir da escuta. Ali, onde vivem cerca de 4 mil pessoas distribuídas em 12 comunidades — seis delas reconhecidas como quilombolas —, um projeto de desenvolvimento sustentável mostrou que planejamento urbano não se faz apenas com pranchetas de desenho e mapas, mas também com histórias, vínculos e pertencimento.
Liderado pela Prefeitura de Salvador, o Planos de Bairro reuniu líderes comunitários, poder público, universidades e organizações locais em um processo coletivo de diagnóstico e construção de propostas. O objetivo era claro: enfrentar desigualdades históricas, fortalecer o território e pensar soluções que respeitassem a vida como ela é vivida ali, entre o mar, o mangue e a memória ancestral.
Segundo a Agência Brasil quem traduz isso em palavras simples é a pescadora quilombola Marizélia Lopes, moradora da Ilha de Maré. Para ela, não existe separação entre natureza e sobrevivência.
“A gente não enxerga a natureza só como um espaço de exploração. A gente tem uma relação. Não consegue desassociar o que é natureza da gente, da vida da gente. Então a gente é a natureza”, afirma.
Essa visão — que desafia modelos predatórios e tecnocráticos de desenvolvimento — é justamente o que colocou a experiência baiana no radar internacional.
Da Bahia para todo o Sul Global
O projeto da Ilha de Maré integra uma seleção de 16 iniciativas brasileiras escolhidas em uma parceria entre o governo brasileiro e o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat). A proposta é que essas experiências sirvam de inspiração para outros países do chamado Sul Global, que compartilham desafios semelhantes: desigualdade, urbanização acelerada, crise climática e exclusão social.
A seleção faz parte do Programa Simetria Urbana, lançado em 2023, no qual o Brasil é representado pela Agência Brasileira de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores (ABC/MRE). A chamada pública reuniu projetos de governos locais, instituições públicas, organizações da sociedade civil e comunidades, todos alinhados ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 11, da ONU — que trata de cidades e comunidades sustentáveis.
Natureza como aliada, não como obstáculo
Entre os projetos selecionados está também uma iniciativa do Recife que mostra como a natureza pode ser solução — e não problema — para os centros urbanos. No Parque do Caiara, na zona norte da capital pernambucana, foram implantados Jardins Filtrantes na foz do Riacho do Cavouco.
Executado pela Agência Recife para Inovação e Estratégia (Aries), o projeto ocupa uma área de cerca de 7 mil metros quadrados e utiliza 7,5 mil plantas aquáticas nativas para formar um sistema natural de filtragem da água antes que ela chegue ao Rio Capibaribe.
Além do impacto ambiental positivo, a intervenção devolveu o espaço à população. Para a moradora Gabriela Machado, o parque ganhou novo significado.
“O Jardim do Caiara, inaugurado e renovado, é um espaço que posso curtir do lado da minha casa. Um lugar da minha região, que traz valor para minha região”, relata.
Cidades sustentáveis também se constroem com igualdade
Outro eixo central das iniciativas selecionadas é a igualdade de gênero. Em Salvador, o programa Marias na Construção mostra como políticas públicas podem romper ciclos de violência e exclusão por meio da qualificação profissional e da geração de renda.
Voltado a mulheres em situação de violência doméstica, familiar ou outras vulnerabilidades sociais, o programa já formou mais de 600 mulheres em dois anos, oferecendo cursos na área da construção civil.
Uma dessas mulheres é Janaína dos Santos, que vê na formação uma porta aberta para o futuro.
“Já terminei um curso agora e vou começar outros dois. Aprendi muita coisa. Quero crescer na área. Futuramente, quero fazer um curso técnico, se Deus permitir, fazer uma faculdade e ser uma grande mulher na construção”, planeja ela com os pés firmes no chão.
Boas práticas que atravessam fronteiras
Para a arquiteta urbanista Laura Lacastagneratte de Figueiredo, analista de programas do ONU-Habitat, a publicação Simetria Urbana tem um papel estratégico: transformar experiências bem-sucedidas em ferramentas concretas de cooperação internacional.
“Ao sistematizar soluções que já apresentaram resultados, amplia o potencial dessas experiências como referências para a cooperação e como modelos adaptáveis e inspiradores de políticas públicas, capazes de dialogar com realidades semelhantes”, explica ela.
Para Laura, a meta é estimular intercâmbios, projetos conjuntos e o fortalecimento de capacidades locais, acelerando a implementação de ações efetivas de desenvolvimento urbano sustentável em diferentes contextos.
Um Brasil que aponta caminhos
Além da Ilha de Maré, do Recife e de Salvador, o conjunto de soluções mapeadas inclui iniciativas como a formação de jovens cearenses para projetos socioambientais; centros comunitários em territórios vulneráveis no Recife; design de interiores para habitação social em Niterói (RJ); e até o desenvolvimento de ônibus híbrido elétrico-hidrogênio, em Maricá (RJ).
Em comum, todas essas experiências revelam um Brasil que pensa a cidade a partir das pessoas, do cuidado com o território e da justiça social. Um Brasil que, longe dos holofotes, constrói respostas reais para problemas globais — e mostra que o futuro sustentável não se importa em começar pequeno, desde que comece junto, justo no tempo.

















