Mesmo com divergências políticas, inauguração da Ponte da Vitória — ligando Matinhos e Guaratuba — marca um novo capítulo para o Litoral do Paraná
| Foto: Geraldo Bubniak/AEN |
Há uma honestidade necessária — e cada vez mais rara — em reconhecer conquistas, mesmo quando elas não vêm do campo político com o qual se caminha lado a lado. O Sulpost é, sim, um espaço de pensamento progressista, crítico, muitas vezes em oposição ao governo estadual. Mas há momentos em que o fato fala mais alto que a disputa.
E esse é um deles.
Na última sexta-feira, 1º de maio, a entrega da ponte que liga Guaratuba a Matinhos não foi apenas uma inauguração. Foi o encerramento de um ciclo de promessas — algumas com mais de meio século — e o início de uma nova lógica para o Litoral paranaense.
“Hoje é um dia daqueles que marcam a vida de gerações. É o dia onde a perseverança venceu aquilo que era considerado impossível”
A frase pode soar protocolar. Mas, nesse caso, encontra eco na realidade.
Durante décadas, a travessia dependia de ferry boat. Filas longas, espera imprevisível, impacto direto na vida de moradores, trabalhadores e no fluxo turístico. Agora, com 1.240 metros de extensão, quatro faixas de tráfego, ciclovia e passagem para pedestres, o deslocamento cai para cerca de dois minutos.
Dois minutos.
É o tipo de mudança que não aparece apenas em planilhas — ela altera rotinas, reorganiza territórios, redesenha expectativas. Se com a ferry a travessia dependia da sorte, com a ponte a sorte chegou.
Entre o atraso histórico e a pressa do presente
A obra, que custou mais de R$ 400 milhões, foi entregue antes do prazo previsto. Segundo o governo, foram 1 ano, 11 meses e 29 dias de execução, com cerca de mil trabalhadores atuando em regime contínuo.
Mas o tempo da construção não conta toda a história.
Antes disso, houve décadas de entraves: disputas ambientais, impasses técnicos, interesses econômicos conflitantes, burocracias acumuladas. A ponte virou, ao longo dos anos, um símbolo clássico daquilo que o Brasil promete — e não entrega.
Até agora.
Entre as presenças na inauguração, também chamou atenção a participação do ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado, conselheiro Fabio Camargo, que acompanhou etapas importantes do projeto.
“A Ponte de Guaratuba representa um marco importante para o litoral do Paraná. Uma obra aguardada há décadas, que vai trazer mais mobilidade, segurança e desenvolvimento para a região, impactando diretamente a vida de quem vive, trabalha e circula por ali. Tive a oportunidade de estar presente em um momento importante desse projeto: a assinatura do termo para sua construção. Hoje, ver esse avanço se concretizando reforça a importância de iniciativas que pensam no longo prazo e no impacto real para a sociedade.”
A fala reforça um ponto que atravessa governos e gestões: obras estruturantes raramente são fruto de um único momento político — elas são construídas ao longo do tempo, com decisões que se acumulam.
O impacto que já começou
Mesmo antes da inauguração, os efeitos começaram a aparecer.
Segundo o governo, mais de 40 edifícios estão em construção em Guaratuba, além de novos empreendimentos em Matinhos. O discurso oficial aponta para um ciclo de crescimento: mais turismo, mais comércio, mais serviços.
É aqui que entra o olhar crítico — necessário.
Crescimento não é sinônimo automático de desenvolvimento equilibrado. A pressão imobiliária, a transformação urbana acelerada e os impactos ambientais no Litoral exigem vigilância constante. A ponte resolve um problema histórico de mobilidade, mas também abre portas para desafios que precisam ser acompanhados de perto.
Ainda assim, negar o salto estrutural seria desonesto.
Menos muros, mais pontes — no concreto e na política
Talvez o símbolo mais forte dessa inauguração não esteja apenas no que ela conecta geograficamente, mas no que ela sugere em tempos de polarização.
Reconhecer uma obra pública relevante não significa abrir mão de crítica. Significa maturidade política.
A Ponte de Guaratuba é, acima de tudo, uma vitória da população do Paraná. Dos trabalhadores que dependem do deslocamento, dos moradores que enfrentavam filas, dos pequenos empreendedores que vivem do fluxo turístico.
E, nesse caso, sim — é justo reconhecer o papel do governo estadual na entrega. E, sim, a ponte dá sorte. Quando passar nela a primeira vez, faça um pedido.
Porque, no fim, o mundo precisa de menos muros.
E, às vezes, de mais pontes — literalmente. E, se sorte, cada um faz a sua, as pontes ligam essas pessoas.














