Saída de Rafael Greca do PSD, avanço de Alexandre Curi e silêncio estratégico de Ratinho Júnior redesenham o futuro político do estado
O Paraná acordou em silêncio nesta penúltima segunda-feira de março — mas não é um silêncio vazio. É daqueles que antecedem decisões grandes. Nos corredores do poder, nos cafés discretos, nas conversas que não chegam às manchetes — mas são a pauta do dia na Boca Maldita — o que se desenha já não é mais hipótese. É movimento, é articulação política forte, realizada pelo grupo político mais poderoso hoje no estado.
Em poucos dias, o tabuleiro político do estado mudou de lugar. E mudou rápido. A orbita foi completa. A saída de Rafael Greca do PSD e sua filiação ao MDB não foi apenas uma troca de partido. Foi um gesto calculado, com peso de reposicionamento. Greca não rompeu — ele se reposicionou dentro do mesmo campo, preservando pontes e ampliando possibilidades.
Ao mesmo tempo, o governador Ratinho Júnior mantém o discurso de tranquilidade. Disse publicamente que está confortável com os nomes que tem à disposição. E, de fato, tem. Mas a tranquilidade, nesse caso, parece menos ausência de dúvida e mais controle do tempo — faltam seis meses e pouco mais de uma semana para às eleições.
Quanto maior a aprovação de um governo, maior o peso da escolha de quem vem depois. E, Ratinho Júnior goza de mais de 80% de aprovação, sendo o governador mais popular da história do Paraná.
A escolha, agora, deixou de ser interna, até poucos dias atrás, a disputa estava concentrada dentro do próprio grupo do governo, com nomes como Alexandre Curi e Guto Silva orbitando o centro das decisões. Era um jogo de equilíbrio interno. Mas a entrada formal de Greca na disputa muda o eixo.
Ele sai de um partido, mas não sai do projeto. Ao declarar apoio a Ratinho Júnior — e mais do que isso, ao sinalizar o governador como um nome nacional — Greca amplia o horizonte da conversa. Ele não fala apenas de 2026. Ele fala de poder.
É nesse ponto que os bastidores começam a ganhar forma mais concreta. Segundo fontes consultadas, a possibilidade de uma composição entre Alexandre Curi e Rafael Greca, que até pouco tempo parecia distante, passa a circular com mais consistência, e inclusive bastante entusiasmo. Não como rumor vazio, mas como alternativa real de equilíbrio político.
De um lado, Curi carrega a força do interior, a articulação construída ao longo dos anos, o trânsito político que atravessa praticamente todos os municípios do estado. É um nome que conhece o Paraná na prática — não apenas no mapa. O único pré-candidato ao governo do estado que já esteve em todos os 399 municípios do Paraná, sendo que em mais da metade deles esteve várias vezes. Sempre esteve junto ao povo do Paraná, realmente próximo do cidadão.
Do outro, Greca traz o peso simbólico da capital, a imagem consolidada de gestor, a herança de um modelo urbano que colocou Curitiba no radar internacional. Um dos maiores urbanistas do Brasil. A capital paranaense é o rosto visível de um projeto de cidade que se tornou referência. É uma Smart City.
Curi e Greca juntos, formariam uma chapa com densidade política e alcance territorial — capital e interior, falando a mesma língua. Falando a língua do povo do Estado do Paraná, que não cai em conto de aventureiro.
Mas há uma variável que ainda segura o desfecho: o tempo de Ratinho Júnior. O governador sabe que sua decisão não é apenas administrativa. É estratégica. Define não só o futuro do estado, mas também o seu próprio caminho político. Ele é um homem paciente, embora cercado de muita gente ansiosa — como este jornalista que vos escreve, por exemplo.
E é por isso que o silêncio, neste momento, vale mais do que qualquer declaração. Enquanto isso, Guto Silva segue no jogo. Com perfil técnico, proximidade com a gestão e forte ligação com o atual governo, ele representa a continuidade mais orgânica do projeto. Não está fora — está dentro, e com espaço. Mas de acordo com interlocutores, e todos sabem, Ratinho Júnior é um grande articulador político. Guto Silva pode, de repente, sair de uma reunião com uma secretaria do estado ou chefia da casa civil garantida, no caso da eleição de Curi e Greca.
O que se vê, portanto, não é uma disputa comum. É um redesenho cuidadoso de forças. Realizada por um homem que atrás do sorriso carrega uma inteligência privilegiada.
O Paraná, que se orgulha de sua estabilidade, pode estar prestes a viver uma das sucessões mais sofisticadas de sua história recente. Sem rupturas evidentes. Sem confrontos abertos. Mas com movimentos precisos, quase cirúrgicos. Mostrando que a polarização pode ser vencida, mesmo que internamente.
Existe algo maior em jogo. O estado começa a se posicionar como vitrine de um modelo político que tenta se apresentar ao país como alternativa: menos ideologia exposta, mais gestão, mais resultado, mais previsibilidade. Construindo pontes que ligam a tudo e a todos.
Se isso vai se confirmar nas urnas, ainda é cedo para dizer. Mas uma coisa já mudou — e mudou de forma irreversível: a sucessão no Paraná deixou de ser especulação. Ela já começou.















