Pesquisas mostram presidente americano com apenas 35% de aprovação, a maioria dos americanos rejeita o aumento de tarifas - muitos brasileiros sentem cada vez mais os efeitos políticos e econômicos da reunião entre Flávio e Donald
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| Imagem: reprodução da internet |
Há momentos em que uma disputa internacional deixa de ser apenas uma disputa entre governos. Ela atravessa fronteiras, chega ao supermercado, ao preço da gasolina, ao emprego, à mesa das famílias e, no caso do Brasil, acaba entrando também na campanha eleitoral.
É exatamente o que começa a acontecer com Donald Trump. O presidente americano voltou à Casa Branca prometendo força, prosperidade e uma política externa capaz de colocar os Estados Unidos novamente no centro das decisões mundiais. Mas, oito meses depois do início de seu segundo mandato, as pesquisas mostram uma realidade bem menos confortável.
A aprovação de Trump está em 35%, segundo a pesquisa Reuters/Ipsos divulgada no início de agosto. É apenas um ponto acima do pior índice registrado durante seu atual mandato. E há um detalhe especialmente importante: pela primeira vez em quase uma década, os americanos passaram a confiar mais nos democratas do que nos republicanos para cuidar da economia — 37% contra 36%.
Não é uma diferença enorme. Mas, politicamente, é um sinal. Principalmente porque a economia sempre foi apresentada por Trump como uma de suas principais credenciais.
O tarifaço também não é tão popular assim
É aqui que a história começa a ficar ainda mais interessante. A política de tarifas de Trump, vendida como instrumento para proteger empregos americanos e pressionar parceiros comerciais, não conta com o apoio da maioria da população dos Estados Unidos.
Pesquisa do Pew Research Center mostrou que 60% dos americanos desaprovamvam o aumento substancial das tarifas, enquanto 37% aprovavam. Apenas 13% diziam aprovar fortemente a política dos tarifaços.
É verdade que existe uma divisão partidária muito forte. A base republicana tende a apoiar Trump e suas decisões com muito mais intensidade. Mas Trump não governa apenas para os republicanos.
E quando o consumidor americano começa a perceber que uma tarifa sobre produtos estrangeiros pode acabar incorporada ao preço pago dentro dos EUA, a conversa deixa de ser ideológica e passa a ser doméstica. A medida resulta mais em inflação do que na alegada proteção de mercado.
É o velho problema da política econômica: quem anuncia a tarifa pode até falar em punição ao estrangeiro. Quem está no caixa do supermercado quer saber como e quem vai pagar a conta, para poder manter o padrão de vida tão valorizado pelos estadunidenses.
O Brasil está no meio da disputa
A relação entre Brasília e Washington, infelizmente, vem se deteriorando rapidamente. Após os Estados Unidos imporem novas tarifas sobre produtos brasileiros, o governo Lula reagiu acionando a Lei da Reciprocidade. Brasília também voltou a pedir negociação com as autoridades comerciais americanas, enquanto deixou aberta a possibilidade de medidas de resposta.
O que deveria ser uma negociação comercial acabou ganhando uma dimensão política extraordinária. E isso acontece justamente em um ano eleitoral no Brasil. Não é pouca coisa.
Uma recente Pesquisa Datafolha mostrou que 52% dos brasileiros acreditam que as tarifas americanas têm também o objetivo de ajudar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Entre os eleitores de Lula, essa percepção chega a 73%.
O tiro acabou saindo pela culatra
Há outro dado que merece atenção. Uma pesquisa divulgada pela Reuters mostrou que 42% dos brasileiros disseram que as tarifas americanas os aproximaram de Lula, enquanto apenas 27% afirmaram que a medida os aproximou de Flávio Bolsonaro.
É uma reação política que provavelmente não estava no roteiro de Washington. Aqui preciso fazer uma distinção importante. Não significa que todo brasileiro tenha passado a apoiar Lula por causa de Trump. Significa que uma parcela do eleitorado pode interpretar a pressão estrangeira como uma questão de soberania nacional — e, diante dela, preferir cerrar fileiras em torno do governo brasileiro.
Trump e Lula: números que contam uma história
A comparação entre os Estados Unidos e o Brasil também é interessante. Trump tem hoje 35% de aprovação entre os americanos, segundo a Reuters/Ipsos. No Brasil, a pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto de 2026 mostra Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 31% de Flávio Bolsonaro.
Ronaldo Caiado e Renan Santos aparecem com 4% cada, Romeu Zema e Augusto Cury têm 2%, e Samara Martins aparece com 1%. Indecisos somam 10%, enquanto brancos e nulos chegam a 8%.
No segundo turno, Lula aparece com 43% contra 40% de Flávio Bolsonaro — uma diferença de apenas três pontos percentuais, dentro da margem de erro de dois pontos. Talvez efeito ainda da mesma polarização provocada nos Estados Unidos, que acabou elegendo Donald Trump.
A comparação não é perfeita. Estamos falando de aprovação presidencial nos Estados Unidos contra intenção de voto para uma eleição que ainda vai acontecer no Brasil. São indicadores diferentes e não devem ser tratados como se fossem equivalentes. Certo é que a imagem do bolsonaro ficou diretamente ligada a Donald Trump e suas políticas, tanto econômicas quanto sociais, bastante questionáveis.
Entretanto achei interessante comparar esses números, eles ajudam a enxergar o ambiente político. Trump governa com aprovação de apenas 35%. É hoje um dos presidentes mais impopulares da América do Norte.
Lula, por sua vez, aparece hoje com 38% no primeiro turno e 43% em um cenário de segundo turno contra seu principal adversário.
E Flávio Bolsonaro, justamente o candidato brasileiro mais associado politicamente ao trumpismo, aparece com 31% no primeiro turno e 40% no segundo. Ou seja, a impopularidade de Donald trump pode acabar puxando para baixo também a popularidade do candidato trumpista aqui no Brasil.
O Brasil que os americanos conhecem
Existe ainda uma dimensão humana nessa história que costuma desaparecer quando governos começam a trocar tarifas e ameaças. Brasileiros e americanos têm uma relação muito maior do que aquela que aparece nos comunicados oficiais de Washington e Brasília.
Há brasileiros vivendo nos Estados Unidos, americanos vivendo no Brasil, estudantes, trabalhadores, turistas, empresários, pesquisadores, famílias e comunidades inteiras conectadas pela relação entre os dois países.
Por isso, seria precipitado afirmar que “os americanos estão revoltados com o tarifaço contra o Brasil”. Não há, até o momento, uma pesquisa nacional recente que faça exatamente essa pergunta e permita sustentar essa conclusão. O que as pesquisas mostram é algo diferente — e talvez até mais importante.
Os americanos, em sua maioria, não estão entusiasmados com o aumento das tarifas de Trump.
E o desgaste do presidente não acontece apenas entre seus adversários políticos. A pesquisa Reuters/Ipsos mostra que o problema começa a atingir justamente áreas nas quais os republicanos tradicionalmente levam vantagem, como no caso da economia.
Ou seja: não é apenas o Brasil. É um desgaste mais amplo da maneira como Trump está conduzindo a política americana.
A conta ainda não chegou ao fim
O episódio Brasil–Estados Unidos está longe de terminar. O governo Lula abriu, de maneira legítima, processo de reciprocidade contra Washington. Os americanos seguem avaliando os efeitos das tarifas sobre preços e economia. E, no Brasil, a oposição tenta transformar a pressão americana em argumento eleitoral enquanto o governo procura apresentar o conflito como uma questão de soberania.
No fundo, há uma pergunta simples por trás de tudo isso: até onde o eleitor americano está disposto a pagar o preço das escolhas de Donald Trump?
E existe uma segunda pergunta, talvez ainda mais interessante para nós: até onde o eleitor brasileiro aceitará que uma potência estrangeira entre, direta ou indiretamente, na disputa pela Presidência da República do Brasil?
A resposta vai aparecer nas urnas brasileiras, nas eleições que se aproximam. Mas uma coisa parece estar se tornando evidente. Trump queria mostrar força, poder diante do Brasil. Ele tentou nos humilhar, assim como está fazendo com outros países, inclusive com o seu vizinho Canadá.
Por enquanto, o que o Presidente americano conseguiu foi produzir uma crise diplomática, provocar uma reação de Brasília, alimentar o debate eleitoral brasileiro e, dentro dos próprios Estados Unidos, continuar convivendo com índices de popularidade que além de muito baixos, sinalizam continuar caindo.
Às vezes, na política internacional, a maior dificuldade não é impor uma tarifa. É convencer o próprio povo de que vale a pena pagar por ela. Enquanto isso, no Brasil quem fez questão de associar sua imagem ao trampismo ainda vai ter que se explicar muito, durante os debates com os candidatos à presidência da república. Porque a soberania nacional não se questiona, não está em votação.
O Brasil é um país soberano e não necessita de tutela Americana. Talvez, inclusive, eles precisem mais de nós do que nós deles. Trump precisa entender que o nosso país não está à venda. E certamente quem usa um boné que diz: Make América Great Again (Fazer a América Grande Novamente), talvez já devesse ter se mudado para lá. Não concorda?
Fontes das Pesquisas: Reuters/Ipsos, Pew Research Center, Datafolha, Quaest e Reuters.
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