18.8.26

Conhecimento indígena e ciência revelam biodiversidade da Terra Panará, na Amazônia

Inventário colaborativo já registrou 14.823 animais de 602 espécies em território de 500 mil hectares entre Pará e Mato Grosso

 
© André Villas Bôas/ISA

Uma iniciativa que une o conhecimento ancestral do povo Panará à ciência acadêmica está ajudando a revelar a biodiversidade da Terra Indígena (TI) Panará, na Amazônia. O primeiro inventário colaborativo realizado no território, que possui cerca de 500 mil hectares na divisa entre Pará e Mato Grosso, já registrou 14.823 animais pertencentes a 602 espécies.

A pesquisa ganhou novos contornos depois que seus resultados foram apresentados, em junho, durante o Seminário Saberes e Conservação de Territórios Indígenas, realizado na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém. As informações atualizadas mostram que o trabalho, iniciado a partir da integração entre pesquisadores indígenas e acadêmicos, também identificou espécies que até então não eram conhecidas pelos próprios Panará.

A reportagem original sobre a iniciativa foi publicada pela Agência Brasil, que acompanhou o trabalho de pesquisa e conservação no território.

O projeto é promovido pela Conservação Internacional (CI-Brasil) em parceria com a Rede Xingu+, a Associação Indígena Iakiô, universidades públicas e outras organizações. Entre as instituições envolvidas estão a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

A iniciativa integra uma estratégia de conservação da biodiversidade em uma região submetida à pressão do garimpo ilegal, da expansão de atividades agropecuárias e de outras ações irregulares. O inventário também busca produzir informações que possam fortalecer a proteção do território e o monitoramento de seus recursos naturais.

Ciência e conhecimento tradicional

Pesquisadores indígenas e das universidades trabalham juntos em trilhas pelo território, realizando registros fotográficos, coleta de amostras de espécies e de água do rio Iriri, afluente do Xingu que atravessa a Terra Indígena, além da inclusão de informações no inventário.

A proposta é combinar ferramentas científicas e tecnológicas com o conhecimento acumulado pelos Panará sobre a floresta, os animais, os rios e os ciclos naturais do território.

“Foi muito bom trabalhar junto com pesquisadores não indígenas. Um ensinou ao outro”, afirma o pesquisador Kiarysy Kaiabi Panará, conhecido como Cutia.

Segundo Renata Pinheiro, diretora do programa Povos Indígenas e Comunidades Locais da Conservação Internacional Brasil, declarou à repórter Fabíola Sinimbú, da Agência Brasil, os pesquisadores acadêmicos contribuem principalmente com ferramentas tecnológicas de catalogação, enquanto os pesquisadores indígenas oferecem um conhecimento detalhado do território construído ao longo de gerações.

“Os Panará sabem ler a floresta de um jeito que nenhum instrumento científico consegue substituir. Eles conhecem a alimentação de cada animal, como se movimenta, e esse conhecimento alimenta diretamente a ciência que construímos juntos”, destaca Renata.

Tecnologia ajuda a revelar espécies

Para a coleta de dados, pesquisadores indígenas receberam capacitação para utilizar GPS, aplicativos de catalogação e câmeras de armadilha, conhecidas como camera traps. Os equipamentos são acionados pelo movimento ou calor emitido pelos animais que passam diante dos sensores.

A tecnologia permitiu registrar animais difíceis de serem observados diretamente na floresta e ampliar o conhecimento sobre a fauna existente no território.

“Quando as câmeras capturaram os bichos de pelo, a gente conseguiu identificar mais bichos do que a gente conhece. Depois disso, eu também fiquei muito feliz em conhecer essa parte da pesquisa com a tecnologia”, diz a pesquisadora Pentê Panará.

Escolhida pelos integrantes da aldeia Panará Sõnkârãsãn, onde vive, Pentê também destaca a importância da participação das mulheres na pesquisa.

“Toda vez que eu voltava do trabalho de pesquisa, as outras mulheres me perguntavam sobre o que estávamos fazendo e como era trabalhar com essa parte de tecnologia. Acho que outras mulheres Panará também gostariam de participar”, afirma.

602 espécies e animais ameaçados

O levantamento registrou 602 espécies e identificou a presença de animais ameaçados ou vulneráveis. Entre eles estão o macaco-zogue-zogue (Plecturocebus vieirai) e o tatu-canastra (Priodontes maximus).

De acordo com os resultados divulgados durante o seminário da UFPA, também foram encontradas espécies que não faziam parte do conhecimento tradicional registrado pelos próprios Panará, entre elas a perereca-de-vidro e a maria-leque.

A pesquisa permitiu ainda acompanhar espécies ameaçadas e coletar informações sobre a qualidade da água do rio Iriri, elemento fundamental para a vida das comunidades indígenas e para o equilíbrio ecológico do território.

Árvore “Já” pode ser nova para a ciência

Uma das descobertas mais significativas está no estudo da flora. Conhecida pelos Panará como “Já”, uma árvore encontrada durante o levantamento passou a ser analisada pelos botânicos por apresentar características que indicam que pode se tratar de uma espécie ainda não descrita pela ciência.

Durante o estudo botânico, que examinou quase 500 árvores em uma parcela de um hectare de floresta, pesquisadores identificaram características particulares nas folhas da planta. Segundo informações divulgadas pela UFPA, a análise aponta uma probabilidade estimada em cerca de 90% de que se trate de uma nova espécie para a ciência.

A confirmação científica, porém, ainda depende de novas coletas. Os pesquisadores precisam encontrar novamente o indivíduo durante o período de floração ou frutificação para obter material suficiente para a descrição formal da espécie.

O pesquisador Domingos Cardoso, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e coordenador da plataforma Flora e Funga do Brasil, explicou que, até o momento, foram analisadas principalmente as folhas da planta. A identificação definitiva ainda precisa seguir os procedimentos científicos de descrição e revisão botânica.

Pesquisa ainda precisa ser concluída

Segundo a Conservação Internacional, os resultados apresentados em junho correspondem a três anos de trabalho de inventário. A pesquisa, entretanto, ainda não chegou ao fim.

A Agência Brasil informou que o trabalho foi interrompido por falta de recursos para uma nova rodada de expedições. A expectativa dos pesquisadores é retomar as atividades para completar o inventário e ampliar o número de registros.

“Durante essa pesquisa, toda vez que a gente andava na mata, a gente encontrava rastro de outros bichos. Dá até pra saber o caminho onde eles andam. Para mim, ainda tem muitos mais”, afirma Pentê Panará.

Conhecimento com autoria indígena

Uma das características centrais do projeto é a preocupação com a autoria e o controle dos conhecimentos produzidos. Ao final do inventário, os dados deverão ser analisados pelos pesquisadores indígenas antes de sua disponibilização no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr), plataforma que reúne registros de ocorrência de espécies, coleções biológicas e conjuntos de dados científicos.

A proposta é que os pesquisadores Panará sejam reconhecidos como detentores e autores dos conhecimentos associados aos registros. Dessa forma, quando outras instituições de pesquisa necessitarem consultar determinadas informações, o acesso deverá considerar a participação dos pesquisadores indígenas.

A Conservação Internacional também desenvolveu um protocolo para a publicação dos trabalhos acadêmicos produzidos a partir da pesquisa. Antes da divulgação, pesquisadores não indígenas apresentam aos Panará, em vídeos ou áudios, quais informações serão utilizadas, qual é o objetivo da publicação e quais aspectos serão abordados.

Depois dessa apresentação, os pesquisadores Panará e a comunidade podem acrescentar sua visão sobre o conteúdo antes da autorização para publicação.

“A gente estabeleceu esse protocolo, e tudo que foi feito até agora vem ao encontro da tradição oral dos povos indígenas, para que todos tivessem esse cuidado de colocar essas informações na oralidade, num vídeo, para que os Panará conseguissem entender e reagir ao que estava sendo colocado ali”, conclui Renata Pinheiro.

Um modelo de pesquisa intercultural

Além dos resultados científicos, a experiência na Terra Indígena Panará apresenta uma metodologia de pesquisa baseada na colaboração entre conhecimento tradicional e ciência acadêmica. Para os envolvidos, a experiência mostra que o conhecimento indígena não é apenas uma fonte complementar de informação, mas parte fundamental da compreensão do território e da definição de estratégias para sua conservação.

A experiência também evidencia como tecnologias de monitoramento podem ser incorporadas ao conhecimento tradicional sem substituir o papel dos povos indígenas na interpretação da floresta e na definição sobre o uso dos dados produzidos.

A atualização dos resultados foi divulgada pela Universidade Federal do Pará e pela Amazônia na COP30/UFPA. Informações sobre o inventário também foram divulgadas pela Conservação Internacional Brasil.

Fonte original: Agência Brasil, reportagem de Fabíola Sinimbú, publicada em 18 de agosto de 2026. Atualização: Sulpost, com informações divulgadas posteriormente pela UFPA, Amazônia na COP30/UFPA e Conservação Internacional Brasil.

Moro e Requião Filho lideram disputa pelo Governo do Paraná; Senado tem corrida aberta por duas vagas

Pesquisa Paraná Pesquisas mostra Moro na liderança, seguido por Requião Filho. No Senado, Deltan Dallagnol aparece na frente, mas situação jurídica pode mudar completamente a disputa

 
Moro e Requião Filho lideram disputa pelo Governo do Paraná; Senado tem corrida aberta por duas vagas

O senador Sergio Moro (PL), do mesmo partido de Flávio Bolsonaro, aparece na liderança da corrida pelo Governo do Paraná, segundo levantamento do Instituto Paraná Pesquisas divulgado nesta semana. No cenário estimulado, Moro soma 46,1% das intenções de voto.

Requião Filho (PDT) aparece em segundo lugar, com 23,4%, enquanto Sandro Alex (PSD) registra 16,5%.

Na sequência aparecem Luiz França (Missão), com 0,9%; Tayná Miessa (UP), com 0,6%; Alexandre Salomão (Missão), com 0,4%; Samuel de Mattos (PSTU), com 0,1%; e Adriano Teixeira (PCO), com 0,0%. Outros 5% não souberam ou não quiseram opinar.

Eleições rumam para 2º turno

O resultado coloca Moro em uma posição confortável na largada da campanha. A diferença para Requião Filho é de 22,7 pontos percentuais, enquanto Sandro Alex aparece 29,6 pontos atrás do peelista.

Candidato Intenção de voto
Sergio Moro (PL) 46,1%
Requião Filho (PDT) 23,4%
Sandro Alex (PSD) 16,5%
Luiz França (Missão) 0,9%
Tayná Miessa (UP) 0,6%
Alexandre Salomão (Missão) 0,4%
Samuel de Mattos (PSTU) 0,1%
Adriano Teixeira (PCO) 0,0%

Com os números atuais, Moro e Requião Filho são os dois candidatos mais bem posicionados para chegar a um eventual segundo turno. A definição, naturalmente, dependerá dos votos válidos e do resultado efetivo da eleição.

Senado: Deltan lidera, mas situação jurídica é decisiva

Se a disputa pelo governo apresenta uma liderança bastante clara, o cenário para o Senado é bem mais apertado. O Paraná elegerá dois senadores em 2026, e a pesquisa mostra quatro nomes competitivos na disputa pelas duas cadeiras.

Deltan Dallagnol (Novo) aparece em primeiro lugar, com 34%. Alexandre Curi (PSD) registra 29,6%, Gleisi Hoffmann (PT) aparece com 28,1%, Filipe Barros (PL) soma 26% e Cristina Graeml (PSD) tem 17,2%.

Candidato Intenção de voto
Deltan Dallagnol (Novo) 34,0%
Alexandre Curi (PSD) 29,6%
Gleisi Hoffmann (PT) 28,1%
Filipe Barros (PL) 26,0%
Cristina Graeml (PSD) 17,2%

A diferença entre Alexandre Curi e Gleisi Hoffmann é de apenas 1,5 ponto percentual. Já Gleisi está somente 2,1 pontos à frente de Filipe Barros. Na prática, portanto, a pesquisa aponta uma disputa bastante aberta pelas duas vagas.

Deltan pode ter candidatura indeferida

O resultado de Deltan exige uma ressalva jurídica importante. O ex-procurador da Operação Lava Jato teve seu registro de candidatura a deputado federal cassado por unanimidade pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2023, em decisão que reconheceu causa de inelegibilidade relacionada à forma como deixou o Ministério Público Federal enquanto havia procedimentos disciplinares em andamento.

Agora, Dallagnol tenta disputar uma das duas vagas do Senado pelo Paraná. Para isso, apresentou à Justiça Eleitoral um Requerimento de Declaração de Elegibilidade, buscando afastar antecipadamente os efeitos da decisão anterior.

A questão, entretanto, está longe de ser pacífica. A discussão jurídica envolve justamente saber se a decisão do TSE de 2023 produz efeitos de inelegibilidade para a eleição de 2026. O TRE-PR deverá analisar a situação no processo de registro da candidatura, e uma eventual decisão poderá ser posteriormente submetida ao TSE.

O ponto central: Deltan lidera a pesquisa para o Senado, mas sua candidatura ainda está sujeita à análise da Justiça Eleitoral. Caso o registro seja definitivamente indeferido, a presença de seu nome na pesquisa não significará necessariamente uma candidatura válida nas urnas.

Votos podem perder validade

Mesmo que um candidato esteja com o registro questionado judicialmente e apareça na urna, isso não significa que seus votos estejam definitivamente garantidos.

A legislação permite, em determinadas circunstâncias, que candidatos com registro sub judice continuem realizando campanha e tenham seus nomes apresentados ao eleitor. Entretanto, a validade dos votos fica condicionada à situação definitiva do registro pela justiça eleitoral.

Assim, se a candidatura de Dallagnol for definitivamente indeferida pela Justiça Eleitoral, os votos eventualmente recebidos por ele poderão não produzir os efeitos de uma candidatura válida. É justamente esse fator que pode alterar completamente a leitura da pesquisa para o Senado.

O que aconteceria sem Dallagnol?

Se Dallagnol for impedido definitivamente de disputar a eleição, o cenário das duas vagas se torna ainda mais relevante. Alexandre Curi e Gleisi Hoffmann aparecem atualmente em segundo e terceiro lugares, respectivamente, com Filipe Barros se aproximando dos primeiros colocados.

Por isso, não seria correto afirmar que Curi e Gleisi já estariam eleitos com base exclusivamente nesta pesquisa. O levantamento mostra uma vantagem numérica para os dois, mas, de acordo com a pesquisa Filipe Barros está praticamente empatado, dentro da margem de erro.

A eventual saída de Dallagnol, portanto, pode provocar uma redistribuição significativa das intenções de voto e transformar a corrida pelas duas cadeiras em uma disputa ainda mais acirrada entre Alexandre Curi, Gleisi Hoffmann e Filipe Barros.

Pesquisa mostra cenários diferentes para governo e Senado

O levantamento apresenta dois retratos bastante diferentes da eleição paranaense. Para o Governo do Estado, Sergio Moro aparece na liderança, enquanto Requião Filho e Sandro Alex disputam a segunda posição.

A mesma pesquisa também nos faz observar que o primeiro, segundo e terceiro colocados na pesquisa têm, pela ordem, praticamente o dobro de votos de quem vem atrás. O cenário mais provável é de um segundo turno entre Moro e Requião Filho.

No Senado, por outro lado, a disputa está muito mais apertada. Deltan lidera numericamente, mas sua situação jurídica pode ser determinante. Logo atrás estão Curi e Gleisi, separados por poucos pontos percentuais.

Portanto, o principal dado político da pesquisa para o Senado não é apenas quem está na frente, mas a possibilidade de uma mudança no cenário caso a Justiça Eleitoral impeça Dallagnol de disputar.

Sobre a pesquisa

O levantamento do Instituto Paraná Pesquisas foi realizado entre os dias 13 e 16 de agosto de 2026, com 1.520 eleitores em 65 municípios do Paraná. A margem de erro é de aproximadamente 2,6 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

Outro ponto bastante relevante que precisa ser observado nesta rodada apresentada pelo Instituto Paraná Pesquisas, é que no cenário espontâneo, quando não é apresentado o nome dos candidatos, 59,5% do eleitorado não conhece ou não sabe em quem votar para o Governo do Estado. Já para o Senado o número é maior, 78,6% do eleitorado não sabe e/ou não opinou.

A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número PR-09048/2026.

17.8.26

"Tempo é o que temos. No piscar, passou...", por Manaoos Aristides

Bom dia: tempo é o que temos. No piscar, passou...

O tempo é o bem mais precioso que recebemos. Ele passa silenciosamente, levando consigo momentos que jamais voltarão.

O hoje é tudo o que temos.

O tempo é o que temos de mais valioso. Ele voa, acelerando os ponteiros do relógio. No piscar de olhos, passou.

E, quando percebemos, descobrimos que o amanhã sequer teve tempo de conhecer o ontem.

Passa rápido. Tudo passa rápido. E o hoje é tudo o que realmente temos. O resto é incerto.

Talvez por isso seja tão importante parar por alguns instantes, respirar e perceber a vida acontecendo diante de nós.

Parar e silenciar também pode ser uma forma de reconhecer aquilo que verdadeiramente importa. É nesse silêncio que muitas vezes encontramos a força para cultivar a amizade, o amor, a fé e os vínculos que dão sentido à nossa caminhada.

“Valorize cada segundo, abrace quem você ama agora e faça da sua vida uma história bonita de paz e alegria.”

Tudo é importante. Mas o tempo não foi feito para seguir os nossos passos. Somos nós que precisamos aprender a caminhar com ele.

E, na perspectiva da fé, nosso Criador usa cada segundo para esculpir, no mármore do universo, o nosso nome. Ele nos ensina, nos transforma e nos abençoa em cada momento da existência.

Por isso, não deixe para depois aquele abraço. Não adie aquela palavra de carinho. Não espere uma ocasião especial para dizer a alguém que você ama o quanto essa pessoa é importante.

O momento é agora.

O ontem já passou. O amanhã ainda não chegou. O que temos é este instante — precioso, único e impossível de repetir.

Que este novo dia nos encontre mais atentos à vida, mais próximos de quem amamos e mais dispostos a construir uma história marcada pela paz, pela alegria, pela amizade e pelo amor.

Texto: Manaoos Aristides

MANAOOS

SULPOST
Jornalismo, reflexão e informação para começar o dia.

Lula larga na pole-position e abre vantagem na largada da campanha

Lula abre a corrida na liderança, com maior mobilização no lançamento e cinco pontos sobre Flávio na primeira pesquisa da campanha

 

A corrida presidencial de 2026 começou oficialmente neste domingo (16) com os principais candidatos levando às ruas estratégias bastante diferentes. E a primeira fotografia da disputa coloca Lula na pole-position.

O presidente abriu sua campanha no estádio Primeiro de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, um dos locais mais simbólicos de sua trajetória política. O ato reuniu, segundo estimativa divulgada pela Folha de S.Paulo, entre 20 mil e 30 mil pessoas.

A escolha do local foi carregada de simbolismo: foi ali que Lula ganhou projeção nacional como líder sindical durante as greves dos metalúrgicos do ABC. O discurso combinou memória, realizações de governo, segurança pública, soberania nacional e propostas para um eventual novo mandato.

Do outro lado da disputa, Flávio Bolsonaro escolheu Copacabana, no Rio de Janeiro, para lançar sua candidatura. O ato teve como eixo a defesa do legado de Jair Bolsonaro, críticas ao governo Lula, segurança pública e oposição ao Supremo Tribunal Federal.

Neste caso, há uma medição independente do público: o Monitor do Debate Político USP/Cebrap estimou 8,9 mil participantes no pico, com intervalo entre 7,8 mil e 9,9 mil pessoas. Como as duas estimativas foram produzidas por metodologias diferentes, a comparação deve ser vista como indicativa, e não como uma medição padronizada entre os dois eventos.

Os outros lançamentos

Ronaldo Caiado iniciou a campanha em Goiás, com missa e carreata pelo Entorno do Distrito Federal. Romeu Zema escolheu Montes Claros, em Minas Gerais, para uma agenda com missa, ato político e caminhada. Já Renan Santos fez seu lançamento em São Paulo, diante da Faculdade de Direito da USP, concentrando o discurso em segurança pública e combate ao crime organizado.

Nenhum desses eventos apresentou, até o momento, uma estimativa independente de público comparável às disponíveis para Lula e Flávio. Isso impede transformar o tamanho das mobilizações em um ranking rigoroso de força eleitoral.

A pesquisa reforça a largada

Divulgada nesta segunda-feira (17), a nova pesquisa BTG/Nexus coloca Lula com 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 36% de Flávio Bolsonaro. Ronaldo Caiado aparece com 5%, enquanto Renan Santos e Romeu Zema registram 4% cada.

A diferença de cinco pontos entre Lula e Flávio está fora da margem de erro de dois pontos percentuais no primeiro turno. O levantamento ouviu 2.003 eleitores entre os dias 14 e 16 de agosto.

A fotografia muda, entretanto, quando se olha para um eventual segundo turno: Lula aparece com 47% contra 44% de Flávio Bolsonaro, resultado considerado empate técnico.

Pole-position, mas corrida aberta

Os primeiros números permitem uma leitura clara: Lula começa a corrida na liderança, tanto nas intenções de voto para o primeiro turno quanto na capacidade de mobilização demonstrada em seu lançamento.

A vantagem, porém, não autoriza cravar uma vitória antecipada. A campanha apenas começou, e ainda haverá debates, propaganda eleitoral, alianças, ataques entre adversários e mudanças na percepção do eleitor.

O dado político mais importante desta largada é outro: Lula começa alguns metros à frente, enquanto Flávio Bolsonaro aparece como seu principal perseguidor. Os demais candidatos iniciam a corrida em um patamar significativamente inferior nas pesquisas.

A bandeirada está distante. Mas, na primeira volta, o carro de Lula saiu da pole.

SULPOST — Jornalismo independente e análise dos fatos.

16.8.26

Pedras preciosas: o brilho e o lado oculto da riqueza brasileira

Do garimpo à joalheria, gemas brasileiras movimentam uma rede legal, mas também aparecem em investigações sobre extração e comércio clandestinos

Do garimpo à joalheria, gemas brasileiras movimentam uma rede legal, mas também aparecem em investigações sobre extração e comércio clandestinos

Além dos milhões de anos que que as pedras preciosas precisam para se formar sob altas pressões, elas também parecem guardar histórias recentes dentro delas.

Antes de chegar a uma joalheria, fazer parte de uma coleção particular ou estar numa feira especializada, uma esmeralda, uma água-marinha, uma turmalina, um topázio ou um diamante pode ter passado por muitas mãos. Primeiro, pela terra, pela rocha de onde é extraída. Depois, pelo trabalho de quem encontrou, ou minerou o mineral, depois vem a seleção, o corte, a lapidação e, finalmente, ela chega ao mercado.

É uma cadeia produtiva que gera emprego, renda, conhecimento, exportações e desenvolvimento regional. Mas existe também o outro lado dessa história. Há anos, as pedras preciosas também são objeto de investigações da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e das polícias estaduais. As investigações envolvem extração sem autorização, transporte sem comprovação de origem, comércio irregular, e, em determinados casos, organizações suspeitas de contrabando.

O Brasil tem riquezas minerais extraordinárias. E justamente por isso existe uma pergunta que merece ser feita: quanto dessa riqueza percorre os caminhos legais e quanto acaba nas mãos de redes clandestinas?

Um país de pedras raras

O território brasileiro reúne uma das maiores diversidades de gemas do mundo. Entre as pedras encontradas no país estão ametista, ágata, água-marinha, esmeralda, turmalina, topázio, opala, granada, rubi, safira e diamante, além de outras variedades utilizadas tanto na joalheria quanto em coleções mineralógicas.

Minas Gerais ocupa um lugar especial nesse mapa. O estado é conhecido por ocorrências de esmeralda, água-marinha, turmalinas e pelo topázio imperial, tradicionalmente associado à região de Ouro Preto.

A Bahia também possui importantes ocorrências de esmeralda e outras gemas. A Paraíba tornou-se mundialmente conhecida pela turmalina Paraíba, de coloração azul ou azul-esverdeada extremamente característica.

O Espírito Santo aparece entre as regiões produtoras de água-marinha. O Rio Grande do Sul é uma referência internacional em ametista e ágata. O Piauí possui tradição na produção de opala.

Goiás, Rio Grande do Norte, Ceará, Pará, Tocantins e outros estados também integram o mapa brasileiro das pedras preciosas e minerais de interesse gemológico. Não existe, portanto, uma única “capital das pedras preciosas” no Brasil. Há uma geografia inteira de minerais, cada qual com características próprias e mercados diferentes.

Da pedra bruta à joia

Uma gema retirada do solo está muito longe de ser aquilo que o consumidor encontra na vitrine. A pedra bruta pode ser cortada, serrada, desbastada e lapidada. Dependendo do mineral, podem ser aplicadas técnicas destinadas a valorizar cor, transparência, brilho, simetria e aproveitamento do material. É nessa transformação que o valor pode mudar radicalmente.

Uma pedra excepcionalmente rara, com boa cor, transparência, tamanho e qualidade de lapidação, pode alcançar valores muito superiores aos de um exemplar comum da mesma espécie mineral.

Por isso, não é tecnicamente correto afirmar simplesmente que existe “a pedra mais cara do Brasil”. O preço depende das características específicas de cada gema, de sua procedência, de seu tratamento, de sua qualidade e do mercado em determinado momento.

Turmalina Paraíba, esmeralda e topázio imperial

Algumas gemas brasileiras alcançaram reconhecimento internacional justamente por sua raridade. A turmalina Paraíba é um dos exemplos mais conhecidos. Sua coloração intensa e a composição química associada ao cobre fizeram com que determinados exemplares alcançassem preços extraordinários no mercado internacional.

A esmeralda também ocupa posição de destaque. Minas Gerais, Bahia e Goiás aparecem entre as áreas produtoras brasileiras. Já o topázio imperial possui uma ligação histórica particularmente forte com Minas Gerais, especialmente com Ouro Preto. O Serviço Geológico do Brasil registra a região como produtora dessa variedade, considerada a mais valiosa entre os topázios.

E há ainda a água-marinha, uma variedade do berilo que encontrou no Brasil alguns de seus exemplares mais conhecidos. A pedra se tornou objeto de desejo na Europa quando um conjunto de joias, de ouro branco com água-marinha, foi presenteado à rainha Elizabeth II, da Inglaterra, pelo também embaixador Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, do Brasil. 

A rainha da Inglaterra inclusive usou essas joias em seu primeiro encontro com o presidente Lula, em 7 de março de 2006, Na ocasião, Lula e a primeira-dama Marisa Letícia foram hospedados no Palácio de Buckingham em Londres.

São riquezas que não aparecem apenas em números de produção. Elas também fazem parte da identidade geológica e cultural de diferentes regiões brasileiras. E A Coroa Inglesa fez questão de mostrar isso, o respeito pelas pedras preciosas brasileiras, na ocasião mencionada.

Existe um mercado legal — e ele é importante

É importante não colocar toda a atividade de pedras preciosas sob suspeita. Existe uma cadeia formal formada por empresas de mineração, cooperativas, garimpeiros legalizados, lapidadores, laboratórios, comerciantes, joalheiros, exportadores e trabalhadores especializados.

O comércio exterior brasileiro também registra oficialmente essa atividade. O Comex Stat, sistema oficial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), permite consultar exportações e importações brasileiras por produto, país, estado, quantidade e valor. A plataforma mantém séries históricas desde 1997.

Isso permite que pesquisadores e jornalistas acompanhem a dimensão econômica do comércio formal de pedras preciosas, inclusive por códigos específicos da Nomenclatura Comum do Mercosul.

Os dados oficiais não devem, entretanto, ser confundidos com uma estimativa do mercado clandestino. Uma coisa é aquilo que foi declarado ao Estado. Outra é aquilo que eventualmente circula fora dos registros.

Quando a riqueza mineral vira crime

A legislação brasileira estabelece uma diferença fundamental: os recursos minerais, inclusive os encontrados no subsolo, pertencem à União. A pesquisa e a lavra dependem de autorização, concessão ou outro título minerário previsto na legislação.

Também existe a Permissão de Lavra Garimpeira, conhecida como PLG, instrumento previsto na legislação para determinadas atividades de garimpagem. Mesmo nesses casos, a atividade está submetida às exigências legais e ambientais.

A Agência Nacional de Mineração é responsável pela regulação e fiscalização do aproveitamento dos recursos minerais pertencentes à União.

A Lei nº 8.176/1991 também estabelece punições para quem explora matéria-prima pertencente à União sem autorização ou em desacordo com o título, alcançando determinadas condutas relacionadas à aquisição, transporte, industrialização, posse e comercialização do produto obtido ilegalmente.

Portanto, retirar uma pedra preciosa do subsolo brasileiro não significa automaticamente ter o direito de vendê-la. Declarar a origem da pedra é essencial.

O crime pode começar muito antes da fronteira

Quando se fala em contrabando, é comum imaginar apenas a pessoa tentando atravessar uma fronteira com pedras escondidas. As investigações mostram uma realidade mais complexa.

Uma cadeia clandestina pode envolver a extração, a intermediação, o transporte, a documentação irregular, a comercialização e, em determinados casos, a tentativa de introduzir a mercadoria no mercado formal ou levá-la ao exterior. Por isso, nem toda apreensão de pedra preciosa significa, automaticamente, que houve contrabando.

Em muitos casos, a investigação começa justamente porque não havia documentação capaz de demonstrar a origem legal do material. Essa distinção é importante. Jornalismo responsável não pode transformar uma suspeita policial em sentença.

As operações que revelam o tamanho do problema

O problema não surgiu agora. Ao longo dos últimos anos, diferentes forças policiais investigaram cadeias de extração e comércio irregular de pedras preciosas.

Em maio de 2020, durante uma ação conjunta, a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal apreenderam 1.590 pedras de diamante escondidas em um compartimento secreto de um veículo blindado em Vilhena, Rondônia. Segundo a PF, as pedras seriam comercializadas na região Sudeste. Dois homens foram presos e a ocorrência envolveu suspeitas de usurpação de bens da União, receptação e associação criminosa.

O episódio é significativo não apenas pelo número de pedras, mas porque mostra como o transporte é uma das etapas fundamentais da cadeia clandestina.

Diamantes e uma rota que chegou ao Paraná

Em outubro de 2023, a Polícia Federal deflagrou a Operação Elusorius, com dez mandados de busca e apreensão em Rondônia e no Paraná. De acordo com a investigação, o grupo era especializado no comércio ilegal de diamantes extraídos da Terra Indígena Roosevelt e transportados, em sua maioria, para o Paraná.

A PF informou que foram apreendidas pedras sem comprovação de origem, além de armas, munições, celulares e equipamentos relacionados ao garimpo. Um dos elementos apontados pela investigação chama atenção: o uso de notas fiscais falsas para tentar conferir aparência legal às pedras.

É nesse ponto que a pedra deixa de ser apenas uma mercadoria irregular e passa a integrar uma estrutura mais sofisticada de ocultação da origem. 

Uma organização internacional

Também em 2023, a Operação Itamarã revelou uma investigação de dimensão internacional. A PF investigou uma organização especializada, segundo a apuração, na exploração, intermediação, comércio e exportação ilegal de pedras preciosas, especialmente diamantes brutos.

Foram cumpridos 42 mandados de busca e apreensão e oito mandados de prisão preventiva em diferentes estados brasileiros, além de medidas de cooperação internacional. A investigação apontou movimentação superior a R$ 30 milhões em aproximadamente sete meses.

Esse número, porém, precisa ser lido corretamente: trata-se do valor atribuído pela investigação à movimentação financeira da organização naquele período, e não de uma estimativa do total do contrabando de pedras preciosas existente no Brasil.

2026: as pedras continuam aparecendo

Os casos mais recentes mostram que o problema não ficou no passado. Em abril de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Itaberaba, em Rondônia e Mato Grosso.

A investigação começou depois da prisão em flagrante de dois suspeitos em Cacoal, com 25 pedras de diamante. Segundo a PF, a análise dos celulares apreendidos levou os investigadores a uma rede de comercialização irregular de pedras provenientes de lavra realizada em terras indígenas sem autorização legal ou licença ambiental.

Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão. A investigação alcançou suspeitos de participar de diferentes etapas da cadeia, da extração à intermediação e comercialização.

Em maio, a Polícia Civil da Bahia também prendeu quatro homens suspeitos de transportar irregularmente pedras de esmeralda em Itaberaba. O material foi encaminhado para perícia, justamente porque a natureza e as características das pedras precisam ser tecnicamente confirmadas.

E em junho, a PRF apreendeu pedras preciosas e joias sem documentação de origem durante uma fiscalização na BR-262, em Juatuba, Minas Gerais. A ocorrência foi encaminhada à Polícia Federal.

O próprio caso demonstra por que é necessário cuidado com a linguagem: a PRF registrou a ausência de comprovação de origem e versões contraditórias apresentadas pelo condutor, mas a investigação posterior é que deve determinar a natureza das irregularidades.

O que os números ainda não conseguem mostrar

Aqui existe uma informação tão importante quanto qualquer estatística: o Brasil não dispõe de uma série nacional pública e consolidada que permita afirmar quanto, em toneladas ou em dinheiro, foi contrabandeado em pedras preciosas entre 2018 e 2026.

Existem apreensões, operações, prisões, investigações e processos espalhados por diferentes instituições. Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, polícias civis, polícias militares, Receita Federal, Ministério Público e Justiça registram suas próprias ocorrências e procedimentos.

Somar esses números indiscriminadamente produziria uma estatística aparentemente precisa, mas metodologicamente frágil. E é justamente isso que não faremos. O Sulpost prefere admitir uma lacuna estatística a preencher o vazio com um número inventado.

O valor que não aparece na vitrine

O prejuízo provocado pela extração clandestina também não se resume ao imposto que eventualmente deixa de ser recolhido. Existe a apropriação irregular de um recurso mineral pertencente à União. Pode existir dano ambiental. Em determinadas situações, pode haver exploração de trabalhadores, invasão de áreas protegidas e pressão sobre territórios indígenas.

E existe ainda o problema financeiro. Uma pedra preciosa é pequena, portátil e pode concentrar grande valor econômico. Essas características tornam as gemas particularmente interessantes para cadeias clandestinas e todo tipo de organização criminosa que procura transportar grandes valores de forma discreta.

Quando uma pedra sem origem é lavrada, recebe documentação fraudulenta e entra no mercado formal, aí o problema passa a envolver também a tentativa de ocultar a procedência do patrimônio mineral brasileiro.

O contraste com a economia legal

É importante olhar para os dois lados da mesma história. O Brasil possui uma cadeia legítima de produção e exportação de gemas. Nossas pedras preciosas são cobiçadas por todo o mercado internacional. O comércio exterior registra essas operações e permite acompanhar sua evolução.

O mercado formal paga impostos, movimenta empresas, emprega profissionais especializados e transforma uma riqueza geológica em produto de maior valor agregado. A ilegalidade faz o caminho inverso. Retira a riqueza sem autorização, reduz a capacidade de fiscalização do Estado, pode causar danos ambientais e tenta inserir o produto em uma cadeia comercial onde sua origem deixa de ser perceptível.

A diferença entre uma pedra legal e uma pedra clandestina pode estar justamente em algo que não aparece a olho nu: a documentação que conta de onde ela veio.

De quem é a riqueza que está debaixo dos nossos pés?

Talvez essa seja a pergunta mais importante desta reportagem. Uma esmeralda pode caber na palma da mão. Um diamante bruto pode parecer apenas um pequeno fragmento de pedra.

Um cristal de turmalina pode passar despercebido para quem não conhece mineralogia. Mas todos podem carregar um valor econômico extraordinário. E, antes de chegarem à vitrine, todos saíram de um mesmo lugar: o subsolo do nosso país.

É por isso que a discussão sobre pedras preciosas não deveria ser tratada apenas como assunto de luxo, joalheria ou colecionismo. É também uma discussão sobre patrimônio público, mineração, fiscalização, meio ambiente, trabalho, comércio exterior e segurança.

O Brasil não precisa esconder suas pedras preciosas. Precisa conhecer melhor sua riqueza, fiscalizar sua origem e garantir que o valor gerado por ela percorra caminhos legais. Porque uma pedra preciosa pode até começar sua história oculta debaixo da terra. Mas a história de quem fica com o valor dela é escrita muito depois que ela é retirada do subsolo.

Lula 3: mais fiscalização, mas ainda falta medir o tamanho do prejuízo

A partir de 2023, o governo federal começou a recompor uma estrutura estatal que havia perdido capacidade de fiscalização ao longo dos anos. O exemplo mais concreto está na própria Agência Nacional de Mineração: em 2025, 216 novos servidores foram nomeados depois de 15 anos sem concursos públicos amplos. A ANM informou que o reforço representa cerca de 30% de aumento do quadro funcional e deve ampliar a capacidade de análise, fiscalização e governança sobre os recursos minerais brasileiros.

Não é uma mudança pequena. Fiscalizar o subsolo brasileiro exige gente, tecnologia, informação e presença no território. Sem estrutura para analisar processos, verificar títulos minerários e acompanhar atividades de mineração, a legislação pode existir no papel e ser pouco efetiva na prática.

Outro avanço ocorreu no combate financeiro às atividades ilegais. Em fevereiro de 2023, a ANM publicou a Resolução nº 129, resultado de uma ação coordenada pela Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (ENCCLA), com participação de órgãos como COAF, Polícia Federal, Ministério Público e a própria ANM. A norma estabeleceu mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo nas atividades de extração mineral.

Isso é particularmente importante para as pedras preciosas. Uma gema tem uma característica que interessa ao crime: concentra muito valor em pouco volume. Uma pequena pedra pode ser transportada com facilidade e, se sua origem não for devidamente documentada, pode entrar em uma cadeia comercial aparentemente legítima.

Por isso, combater o crime não significa apenas apreender a pedra. É preciso descobrir de onde ela veio, quem a extraiu, quem comprou, quem transportou, quem vendeu, quem recebeu o dinheiro e, eventualmente, quem tentou colocá-la no mercado internacional.

Há mais repressão?

Os fatos disponíveis indicam que existe uma atuação repressiva importante. As operações da PF contra o comércio ilegal de diamantes e outras pedras preciosas continuaram durante o terceiro mandato de Lula, inclusive com ações envolvendo Rondônia, Mato Grosso, Paraná e outros estados.

Em 2023, a Operação Elusorius investigou o comércio ilegal de diamantes provenientes da Terra Indígena Roosevelt e apontou o transporte das pedras para o Paraná. No mesmo ano, a Operação Itamarã investigou uma organização que, segundo a PF, movimentou aproximadamente R$ 30 milhões em sete meses com atividades relacionadas ao comércio e à exportação ilegal de pedras preciosas.

Em 2024, a Operação Vertex voltou a atingir uma estrutura de comércio ilegal de diamantes em Rondônia.

E em 2026 a Polícia Federal continuou realizando operações, incluindo a Operação Itaberaba, que começou depois da apreensão de 25 diamantes em Cacoal e alcançou suspeitos de participar de diferentes etapas de uma cadeia de comercialização irregular.

Esses casos não provam, isoladamente, que o contrabando tenha aumentado ou diminuído. Mas mostram que o Estado continua investigando e desarticulando estruturas desse tipo.

E a mineração está trazendo mais resultados para o Brasil? Aqui precisamos ser rigorosos. Os dados oficiais disponíveis permitem acompanhar o comércio exterior brasileiro por produto, valor, quantidade e destino por meio do Comex Stat, mas não permitem atribuir automaticamente qualquer crescimento das exportações de pedras preciosas a uma política específica do governo Lula 3.

Também seria deveras impreciso utilizar o valor das exportações legais como medida do tamanho do mercado clandestino. O que podemos afirmar é que o governo federal ampliou a capacidade institucional da ANM e criou mecanismos mais claros de prevenção à lavagem de dinheiro no setor. Coisa que não existia no governo anterior. A agência também vem trabalhando na modernização de seus processos e na ampliação da fiscalização.

Isso cria condições melhores para que a riqueza mineral seja conhecida, regulada e, quando explorada legalmente, transformada em atividade econômica formal. Mas condições melhores não significam que o problema esteja resolvido. O subsolo não pode ser tratado como terra sem dono. 

Há uma questão que ultrapassa governos. O subsolo brasileiro não é uma fronteira econômica sem lei. Os recursos minerais pertencem à União. Quem extrai uma gema sem autorização não está simplesmente “garimpando por conta própria”. Dependendo das circunstâncias, pode estar se apropriando ilegalmente de patrimônio mineral público e alimentando uma cadeia que envolve outros crimes.

É por isso que combater o comércio clandestino de pedras preciosas interessa ao país inteiro. Não se trata apenas de impedir que uma esmeralda, um diamante ou uma turmalina atravesse ilegalmente uma fronteira.

Trata-se de impedir que uma riqueza que pertence ao Brasil seja retirada sem controle, tenha sua origem ocultada e reapareça no mercado como se tivesse nascido legalmente. O avanço existe. A conta completa ainda não.

O governo Lula 3 apresenta avanços objetivos na recomposição da capacidade da ANM, na regulamentação de mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e na continuidade das operações de inteligência e repressão contra cadeias ilegais e organizações criminosas especializadas no contrabando das riquezas do nosso subsolo.

Mas ainda não existe uma estatística nacional capaz de responder, com precisão, quanto das pedras preciosas brasileiras é extraído ilegalmente, quanto deixa de ser arrecadado e qual é o valor total que sai clandestinamente do país. Essa é uma lacuna que precisa ser enfrentada. É uma informação relevante que precisa de tratamento urgente por parte da União.

Porque não basta apreender algumas cargas, prender intermediários ou fechar um garimpo. O Brasil precisa saber quanto tem, quanto produz, quanto exporta legalmente, quanto perde e quem está ficando com a diferença.

As pedras preciosas brasileiras são patrimônio mineral e também oportunidade econômica. Geram divisas para o nosso país. O desafio do Estado é fazer com que o brilho delas apareça nas estatísticas oficiais, no emprego, na renda, na indústria de lapidação e nas exportações — e não apenas nos cofres de quem consegue retirar riqueza do subsolo brasileiro à margem da lei.

A riqueza está debaixo dos nossos pés. O que precisa mudar é a capacidade de protegê-la. Basta de perdas internacionais.


Fontes e metodologia

Esta postagem foi produzida a partir de informações públicas de órgãos oficiais e bases estatísticas, especialmente Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civil, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Agência Nacional de Mineração, Ministério de Minas e Energia e Serviço Geológico do Brasil.

Para comércio exterior, foi considerada a base oficial Comex Stat. Os dados de exportação não representam o mercado clandestino e não devem ser utilizados como estimativa do contrabando.

Valores e quantidades mencionados em operações policiais correspondem às informações divulgadas pelas próprias autoridades no momento das ações. Suspeitas, investigações e apreensões não equivalem a condenações judiciais.

A legislação mineral brasileira considera os recursos minerais, inclusive os do subsolo, bens da União. A pesquisa e a lavra dependem dos instrumentos legais correspondentes e estão sujeitas à fiscalização do poder público.

Nota editorial do Sulpost
Nosso compromisso é separar fatos comprovados, informações oficiais, investigações em andamento e interpretações. Quando não existe estatística confiável, não inventamos números.

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15.8.26

Sergio Butka participa do Emprega Araucária e destaca importância da saúde do trabalhador

Presidente do SMC participou do 2º Simpósio Municipal do Emprego, Trabalho e Renda, que reuniu trabalhadores, empresários, sindicalistas, estudantes e representantes do poder público

 
Sergio Butka participa do Emprega Araucária e destaca importância da saúde do trabalhador

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Curitiba e Região (SMC), Sergio Butka, participou, nesta quinta-feira (13), do Emprega Araucária, 2º Simpósio Municipal do Emprego, Trabalho e Renda, realizado na sede da Unifacear, em Araucária.

Promovido pela Secretaria Municipal de Trabalho e Emprego, o evento teve como proposta aproximar trabalhadores e empresas, além de promover oportunidades, serviços e debates relacionados ao mundo do trabalho.

Entre as atrações do simpósio esteve a palestra de Carol Costa, CEO e fundadora do Grupo Potencial, que abordou a importância de ambientes de trabalho saudáveis e da atenção às relações entre trabalhadores e equipes.

Durante o evento, também foram discutidos temas relacionados à saúde mental e ao bem-estar dos trabalhadores, questões que ganham cada vez mais espaço nas relações de trabalho e nas políticas de prevenção.

Para Sergio Butka, a discussão sobre saúde do trabalhador precisa estar no centro da atuação sindical.

“Não é só a questão do salário, não é só a questão de condições internas, mas a saúde do trabalhador é o que prevalece.”

O presidente do SMC ressaltou ainda a trajetória da entidade na defesa da saúde dos trabalhadores. Segundo ele, o sindicato atua há mais de quatro décadas nessa área, por meio de seu departamento especializado.

A programação reuniu representantes do poder público, do movimento sindical, empresários, trabalhadores e estudantes, fortalecendo o debate sobre emprego, qualificação profissional, relações de trabalho e saúde.

O evento também marcou a segunda edição do simpósio, que teve uma programação ampliada em relação ao ano anterior.

Serviço

Emprega Araucária — 2º Simpósio Municipal do Emprego, Trabalho e Renda
Realização: Secretaria Municipal de Trabalho e Emprego de Araucária
Local: Unifacear, Araucária
Data: 13 de agosto de 2026

Confira abaixo a participação de Sergio Butka no evento -  🔗 veja a galeria de fotos 🔗


14.8.26

Trump perde força nos Estados Unidos enquanto tarifaço contra o Brasil abre uma crise que também pode custar caro a Washington

Pesquisas mostram presidente americano com apenas 35% de aprovação, a maioria dos americanos rejeita o aumento de tarifas - muitos brasileiros sentem cada vez mais os efeitos políticos e econômicos da reunião entre Flávio e Donald


Imagem: reprodução da internet

Há momentos em que uma disputa internacional deixa de ser apenas uma disputa entre governos. Ela atravessa fronteiras, chega ao supermercado, ao preço da gasolina, ao emprego, à mesa das famílias e, no caso do Brasil, acaba entrando também na campanha eleitoral.

É exatamente o que começa a acontecer com Donald Trump. O presidente americano voltou à Casa Branca prometendo força, prosperidade e uma política externa capaz de colocar os Estados Unidos novamente no centro das decisões mundiais. Mas, oito meses depois do início de seu segundo mandato, as pesquisas mostram uma realidade bem menos confortável.

A aprovação de Trump está em 35%, segundo a pesquisa Reuters/Ipsos divulgada no início de agosto. É apenas um ponto acima do pior índice registrado durante seu atual mandato. E há um detalhe especialmente importante: pela primeira vez em quase uma década, os americanos passaram a confiar mais nos democratas do que nos republicanos para cuidar da economia — 37% contra 36%.

Não é uma diferença enorme. Mas, politicamente, é um sinal. Principalmente porque a economia sempre foi apresentada por Trump como uma de suas principais credenciais.

O tarifaço também não é tão popular assim

É aqui que a história começa a ficar ainda mais interessante. A política de tarifas de Trump, vendida como instrumento para proteger empregos americanos e pressionar parceiros comerciais, não conta com o apoio da maioria da população dos Estados Unidos.

Pesquisa do Pew Research Center mostrou que 60% dos americanos desaprovamvam o aumento substancial das tarifas, enquanto 37% aprovavam. Apenas 13% diziam aprovar fortemente a política dos tarifaços.

É verdade que existe uma divisão partidária muito forte. A base republicana tende a apoiar Trump e suas decisões com muito mais intensidade. Mas Trump não governa apenas para os republicanos.

E quando o consumidor americano começa a perceber que uma tarifa sobre produtos estrangeiros pode acabar incorporada ao preço pago dentro dos EUA, a conversa deixa de ser ideológica e passa a ser doméstica. A medida resulta mais em inflação do que na alegada proteção de mercado.

É o velho problema da política econômica: quem anuncia a tarifa pode até falar em punição ao estrangeiro. Quem está no caixa do supermercado quer saber como e quem vai pagar a conta, para poder manter o padrão de vida tão valorizado pelos estadunidenses.

O Brasil está no meio da disputa

A relação entre Brasília e Washington, infelizmente, vem se deteriorando rapidamente. Após os Estados Unidos imporem novas tarifas sobre produtos brasileiros, o governo Lula reagiu acionando a Lei da Reciprocidade. Brasília também voltou a pedir negociação com as autoridades comerciais americanas, enquanto deixou aberta a possibilidade de medidas de resposta.

O que deveria ser uma negociação comercial acabou ganhando uma dimensão política extraordinária. E isso acontece justamente em um ano eleitoral no Brasil. Não é pouca coisa.

Uma recente Pesquisa Datafolha mostrou que 52% dos brasileiros acreditam que as tarifas americanas têm também o objetivo de ajudar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Entre os eleitores de Lula, essa percepção chega a 73%.

O tiro acabou saindo pela culatra

Há outro dado que merece atenção. Uma pesquisa divulgada pela Reuters mostrou que 42% dos brasileiros disseram que as tarifas americanas os aproximaram de Lula, enquanto apenas 27% afirmaram que a medida os aproximou de Flávio Bolsonaro.

É uma reação política que provavelmente não estava no roteiro de Washington. Aqui preciso fazer uma distinção importante. Não significa que todo brasileiro tenha passado a apoiar Lula por causa de Trump. Significa que uma parcela do eleitorado pode interpretar a pressão estrangeira como uma questão de soberania nacional — e, diante dela, preferir cerrar fileiras em torno do governo brasileiro.

Trump e Lula: números que contam uma história

A comparação entre os Estados Unidos e o Brasil também é interessante. Trump tem hoje 35% de aprovação entre os americanos, segundo a Reuters/Ipsos. No Brasil, a pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto de 2026 mostra Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 31% de Flávio Bolsonaro.

Ronaldo Caiado e Renan Santos aparecem com 4% cada, Romeu Zema e Augusto Cury têm 2%, e Samara Martins aparece com 1%. Indecisos somam 10%, enquanto brancos e nulos chegam a 8%.

No segundo turno, Lula aparece com 43% contra 40% de Flávio Bolsonaro — uma diferença de apenas três pontos percentuais, dentro da margem de erro de dois pontos. Talvez efeito ainda da mesma polarização provocada nos Estados Unidos, que acabou elegendo Donald Trump.  

A comparação não é perfeita. Estamos falando de aprovação presidencial nos Estados Unidos contra intenção de voto para uma eleição que ainda vai acontecer no Brasil. São indicadores diferentes e não devem ser tratados como se fossem equivalentes. Certo é que a imagem do bolsonaro ficou diretamente ligada a Donald Trump e suas políticas, tanto econômicas quanto sociais, bastante questionáveis.

Entretanto achei interessante comparar esses números, eles ajudam a enxergar o ambiente político. Trump governa com aprovação de apenas 35%. É hoje um dos presidentes mais impopulares da América do Norte.

Lula, por sua vez, aparece hoje com 38% no primeiro turno e 43% em um cenário de segundo turno contra seu principal adversário.  

E Flávio Bolsonaro, justamente o candidato brasileiro mais associado politicamente ao trumpismo, aparece com 31% no primeiro turno e 40% no segundo. Ou seja, a impopularidade de Donald trump pode acabar puxando para baixo também a popularidade do candidato trumpista aqui no Brasil.

O Brasil que os americanos conhecem

Existe ainda uma dimensão humana nessa história que costuma desaparecer quando governos começam a trocar tarifas e ameaças. Brasileiros e americanos têm uma relação muito maior do que aquela que aparece nos comunicados oficiais de Washington e Brasília.

Há brasileiros vivendo nos Estados Unidos, americanos vivendo no Brasil, estudantes, trabalhadores, turistas, empresários, pesquisadores, famílias e comunidades inteiras conectadas pela relação entre os dois países.

Por isso, seria precipitado afirmar que “os americanos estão revoltados com o tarifaço contra o Brasil”. Não há, até o momento, uma pesquisa nacional recente que faça exatamente essa pergunta e permita sustentar essa conclusão. O que as pesquisas mostram é algo diferente — e talvez até mais importante.

Os americanos, em sua maioria, não estão entusiasmados com o aumento das tarifas de Trump.

E o desgaste do presidente não acontece apenas entre seus adversários políticos. A pesquisa Reuters/Ipsos mostra que o problema começa a atingir justamente áreas nas quais os republicanos tradicionalmente levam vantagem, como no caso da economia.

Ou seja: não é apenas o Brasil. É um desgaste mais amplo da maneira como Trump está conduzindo a política americana.

A conta ainda não chegou ao fim

O episódio Brasil–Estados Unidos está longe de terminar. O governo Lula abriu, de maneira legítima, processo de reciprocidade contra Washington. Os americanos seguem avaliando os efeitos das tarifas sobre preços e economia. E, no Brasil, a oposição tenta transformar a pressão americana em argumento eleitoral enquanto o governo procura apresentar o conflito como uma questão de soberania.

No fundo, há uma pergunta simples por trás de tudo isso: até onde o eleitor americano está disposto a pagar o preço das escolhas de Donald Trump?

E existe uma segunda pergunta, talvez ainda mais interessante para nós: até onde o eleitor brasileiro aceitará que uma potência estrangeira entre, direta ou indiretamente, na disputa pela Presidência da República do Brasil?

A resposta vai aparecer nas urnas brasileiras, nas eleições que se aproximam. Mas uma coisa parece estar se tornando evidente. Trump queria mostrar força, poder diante do Brasil. Ele tentou nos humilhar, assim como está fazendo com outros países, inclusive com o seu vizinho Canadá.

Por enquanto, o que o Presidente americano conseguiu foi produzir uma crise diplomática, provocar uma reação de Brasília, alimentar o debate eleitoral brasileiro e, dentro dos próprios Estados Unidos, continuar convivendo com índices de popularidade que além de muito baixos, sinalizam continuar caindo.

Às vezes, na política internacional, a maior dificuldade não é impor uma tarifa. É convencer o próprio povo de que vale a pena pagar por ela. Enquanto isso, no Brasil quem fez questão de associar sua imagem ao trampismo ainda vai ter que se explicar muito, durante os debates com os candidatos à presidência da república. Porque a soberania nacional não se questiona, não está em votação.

O Brasil é um país soberano e não necessita de tutela Americana. Talvez, inclusive, eles precisem mais de nós do que nós deles. Trump precisa entender que o nosso país não está à venda. E certamente quem usa um boné que diz: Make América Great Again (Fazer a América Grande Novamente), talvez já devesse ter se mudado para lá. Não concorda?

Fontes das Pesquisas: Reuters/Ipsos, Pew Research Center, Datafolha, Quaest e Reuters.

Sulpost — Jornalismo independente sobre o Paraná, o Brasil e o mundo.

El Niño ganha força e pode estar entre os mais intensos desde 1950; Paraná deve sentir os efeitos no clima e na economia

NOAA eleva para mais de 90% a chance de um El Niño muito forte no fim de 2026. No Paraná, excesso de chuva pode beneficiar algumas lavouras, mas também trazer aumento de pragas, custos e prejuízos no campo

 
NOAA eleva para mais de 90% a chance de um El Niño muito forte no fim de 2026. No Paraná, excesso de chuva pode beneficiar algumas lavouras, mas também trazer aumento de pragas, custos e prejuízos no campo

O oceano parece distante quando olhamos para uma plantação no interior do Paraná. Mas, a história conta que algumas vezes, aquilo que começa a milhares de quilômetros daqui termina aparecendo no céu, no solo, nas estradas rurais e até no preço dos alimentos que chegam à mesa.

É exatamente esse o sinal de atenção que vem do Pacífico.

O El Niño está ganhando força e a nova atualização da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) aumentou significativamente o alerta para os próximos meses. A agência estima probabilidade superior a 90% de que o fenômeno alcance a categoria de muito forte durante o período de maior influência previsto para o fim de 2026.

Mais do que isso: para o trimestre de outubro a dezembro, a NOAA calcula em cerca de 69% a possibilidade de o episódio alcançar uma intensidade histórica, considerando os principais eventos observados desde 1950.

Para entrar nessa faixa excepcional, o aquecimento médio de três meses na região do Pacífico utilizada como referência pela agência precisa atingir pelo menos 2,5°C acima da média.

O oceano está aquecendo — e a atmosfera responde

A história começa bem longe do Paraná. As águas do Pacífico Equatorial já apresentam um aquecimento expressivo. Em julho, as temperaturas da superfície do mar no setor oriental do Pacífico Equatorial ficaram mais de 2°C acima da média. Na região Niño 3.4, uma das principais referências para o acompanhamento do fenômeno, a anomalia chegou a aproximadamente 1,4°C.

Próximo à costa da América do Sul, o aquecimento foi ainda mais acentuado, chegando a cerca de 2,9°C acima da média.

É uma mudança importante porque o oceano e a atmosfera funcionam como um sistema. Quando grandes áreas do Pacífico Equatorial mudam de temperatura, também mudam os padrões de circulação atmosférica, a distribuição de umidade e o comportamento de correntes de vento que ajudam a organizar o regime de chuvas em diferentes partes do planeta.

Por isso, o El Niño não é simplesmente uma história sobre um oceano mais quente. É uma história sobre como essa energia adicional pode reorganizar o clima muito além do Pacífico.

O que isso significa para o Brasil?

É importante fazer uma ressalva antes de qualquer previsão alarmista: o El Niño forte não significa automaticamente mais chuva ou mais calor em todos os lugares.

O fenômeno aumenta a probabilidade de determinados padrões climáticos. Mas cada região responde de maneira diferente, e outros sistemas atmosféricos e oceânicos também participam dessa equação.

No Brasil, a Região Sul costuma estar entre as áreas que mais sentem a influência do El Niño. Em determinados episódios, a circulação atmosférica favorece períodos de chuva mais frequente e volumosa no Sul, enquanto partes do Norte e do Nordeste podem apresentar maior risco de precipitações abaixo da média.

O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) já registrou, em 2026, sinais compatíveis com esse padrão e chamou atenção para a influência do fenômeno sobre as condições de chuva na Região Sul.

Um dos mecanismos envolvidos é o fortalecimento dos chamados jatos de baixos níveis, correntes de vento que transportam umidade e podem contribuir para levar mais vapor d'água para a região.

E o que aconteceu no começo do inverno já oferece uma pequena amostra do problema.

Paraná: quando a chuva ajuda — e quando começa a atrapalhar

No campo paranaense, a questão não pode ser resumida a uma pergunta simples: vai chover mais? A pergunta realmente importante é outra: quando vai chover, quanto vai chover e como essa água será distribuída? Para uma lavoura, chuva pode significar vida.

Em junho, as condições de umidade do solo ajudaram culturas de inverno como trigo e aveia. Em algumas áreas do Paraná, a disponibilidade de água era considerada favorável ao desenvolvimento das plantas.

Mas existe um ponto em que a mesma chuva que ajuda passa a prejudicar.

No início de julho, volumes elevados registrados principalmente no oeste e no sudoeste paranaenses aumentaram a pressão sobre as lavouras de trigo. Segundo o INMET, a elevada umidade favoreceu a ocorrência de doenças fúngicas e manchas foliares.

É uma diferença que pode parecer pequena para quem acompanha apenas a previsão do tempo, mas que pode ser enorme para quem vive da agricultura.

Alguns dias de chuva podem fornecer a água necessária ao desenvolvimento de uma cultura. Uma sequência prolongada de precipitações, solo encharcado e dificuldade para entrar com máquinas no campo representam outro cenário.

Chuva persistente pode aumentar a incidência de doenças, dificultar a aplicação de defensivos, atrasar operações agrícolas, comprometer a qualidade dos grãos e elevar os custos de produção.

Em episódios mais severos, tempestades também podem provocar erosão, alagamentos e danos à infraestrutura rural.

Por outro lado, quando a chuva chega na quantidade e no momento adequados, pode melhorar a disponibilidade de água no solo e favorecer determinadas culturas.

É por isso que a intensidade do El Niño, sozinha, não determina o resultado de uma safra. A distribuição das chuvas será tão importante quanto o volume total acumulado.

Um El Niño muito forte não significa desastre em todo lugar

A própria ciência climática recomenda cautela. Mesmo um El Niño excepcionalmente forte não garante que todos os efeitos tradicionalmente associados ao fenômeno acontecerão da mesma maneira em todas as regiões.

O que aumenta é a probabilidade de determinados padrões. Quanto mais intenso o fenômeno, maior pode ser a confiança em algumas dessas tendências. Mas elas continuam sendo probabilidades, e não uma sentença sobre o tempo que fará em determinado município, dia ou semana.

O clima é muito mais complexo. O El Niño interage com outros sistemas atmosféricos e oceânicos. As condições do Atlântico, por exemplo, também podem modificar a distribuição das chuvas sobre o território brasileiro.

Por isso, para o Paraná, o momento é muito mais de atenção e preparação do que de anunciar um desastre antes que ele aconteça.

E a crise climática, onde entra nessa história?

Aqui existe outra distinção importante. O El Niño é um fenômeno natural do sistema climático da Terra. Ele não foi criado pela atividade humana. Portanto, não é correto afirmar simplesmente que a crise climática "causou" o atual El Niño.

A questão é mais complexa. O planeta está mais quente em razão do aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Isso significa que fenômenos naturais como o El Niño passam a atuar sobre um planeta que já apresenta temperaturas médias mais elevadas.

A ciência ainda investiga exatamente como o aquecimento global poderá alterar a frequência e a intensidade dos episódios de El Niño e La Niña. Existe, porém, maior segurança em relação a outro aspecto: o aquecimento do planeta pode modificar a intensidade dos impactos associados aos eventos climáticos extremos.

É por isso que pesquisadores analisam cada vez mais a interação entre a variabilidade natural do clima e a mudança climática provocada pelas atividades humanas.

Um El Niño muito forte não é, sozinho, sinônimo de crise climática. Mas seus efeitos acontecem em um mundo que já está mais quente e no qual extremos de temperatura, chuva e seca representam riscos crescentes para cidades, agricultura, água, energia e infraestrutura.

Quando o clima chega ao supermercado

Existe ainda uma dimensão dessa história que costuma ficar escondida atrás dos mapas meteorológicos. O clima também é economia.

Uma seca em uma grande região produtora pode reduzir a oferta de determinado alimento. Uma chuva excessiva pode destruir parte de uma safra. Uma quebra de produção pode elevar preços. E, em uma economia globalizada, o problema não necessariamente fica onde a chuva caiu.

Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram que episódios de El Niño podem produzir efeitos importantes sobre preços de commodities, inflação e atividade econômica, embora os impactos sejam muito diferentes entre países e regiões.

O mecanismo é relativamente simples. Se uma seca reduz a produção de uma commodity agrícola importante, a oferta diminui. Se a demanda permanece, a tendência é de pressão sobre os preços.

Trigo, café, arroz, frutas, óleos vegetais e outras commodities podem ser afetados dependendo da região atingida e da intensidade dos impactos.

A energia também entra nessa conta. Mudanças na disponibilidade de água podem afetar a geração hidrelétrica em determinadas regiões. Quando a geração diminui, pode haver maior necessidade de recorrer a outras fontes de energia. No fim dessa cadeia, o consumidor pode sentir os efeitos na inflação.

Não significa que todo El Niño necessariamente provocará aumento generalizado dos preços. Mas existe evidência histórica de que choques associados ao fenômeno podem pressionar commodities e inflação em diferentes economias.

Para o Paraná, o alerta vai muito além da previsão do tempo

É por isso que acompanhar o El Niño interessa não apenas aos meteorologistas. Interessa ao agricultor que precisa decidir quando plantar e aplicar defensivos. Ao produtor de trigo que precisa proteger a lavoura contra doenças. À cooperativa que precisa planejar armazenagem. Ao transportador que depende de estradas em boas condições. À indústria de alimentos que precisa comprar matéria-prima.

E interessa também ao consumidor, que pode sentir no supermercado as consequências de uma safra afetada pelo clima.

No Paraná, onde agricultura e agroindústria têm enorme peso econômico, essa conexão é especialmente evidente.

Se as chuvas forem bem distribuídas, o El Niño poderá favorecer determinadas culturas. Se vierem concentradas, persistentes ou acompanhadas de tempestades, os problemas podem aumentar.

É uma diferença que pode parecer pequena em uma previsão meteorológica, mas que pode ser enorme para quem está trabalhando com uma lavoura.

O que pode acontecer

A NOAA prevê que o El Niño continue se fortalecendo até o fim de 2026. Para o trimestre de outubro, novembro e dezembro, a probabilidade de um episódio muito forte chega a aproximadamente 95% na classificação baseada no índice utilizado pela agência. No trimestre seguinte, de novembro a janeiro, permanece em torno de 90%.

A agência também estima em 69% a chance de que o trimestre outubro-dezembro registre um episódio de intensidade histórica, considerando a série de eventos observados desde 1950.

O próximo boletim mensal da NOAA está previsto para setembro. Até lá, talvez a palavra mais importante não seja medo. É preparação. O clima não pode ser controlado. Mas seus riscos podem ser monitorados e, em muitos casos, reduzidos.

Para o Paraná, isso significa acompanhar de perto as lavouras, os níveis dos rios e reservatórios, as condições das estradas rurais, os sistemas de drenagem e os alertas meteorológicos.

Para o setor produtivo, significa incorporar cada vez mais a informação climática às decisões econômicas. E lutar por um seguro maior para as colheitas dentro do Plano Safra. Muitas lavouras são inteiramente vendidas mesmo antes de serem plantadas. Se a colheita for prejudicada o agricultor precisa ter um plano de seguro.

E, para todos nós, significa compreender que o clima não respeita fronteiras. Quando o oceano muda de temperatura a milhares de quilômetros de distância, a consequência pode aparecer na chuva sobre uma plantação paranaense, na qualidade de uma safra, no preço de uma commodity e, algumas semanas ou meses depois, na conta do supermercado do outro lado do planeta.

O El Niño começa no Pacífico. Seus efeitos, porém, podem chegar muito mais longe. A atmosfera terrestre não tem fronteiras.

Com informações das seguintes agências: Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA); Instituto Nacional de Meteorologia (INMET); Fundo Monetário Internacional (FMI) e Painel El Niño 2026

O Sulpost acompanha os efeitos das mudanças e variações climáticas sobre o Paraná, a agricultura, a economia e a vida das pessoas.

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