quarta-feira, 27 de maio de 2026

PF aperta cerco sobre Cláudio Castro, Banco Master e Planner — e conexões políticas do bolsonarismo começam a convergir no Rio

Nova operação da Polícia Federal aprofunda suspeitas sobre aportes bilionários do Rioprevidência no Banco Master e reacende debate sobre a proximidade entre Daniel Vorcaro, aliados do PL e o núcleo político bolsonarista no Rio de Janeiro

 
Ato "Pró anistia", no Rio: Tarcísio, Flávio, Castro (alvo da investigação) e Bolsonaro (hoje preso em Brasília)
Redes Sociais/Reprodução 

O caso Banco Master começa a ganhar contornos cada vez mais políticos — e cariocas — de deixar de boca aberta até os criadores do seriado "House of Cards", da Netflix.

A nova operação da Polícia Federal (PF) autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), colocou novamente no centro da investigação o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), além de dirigentes do Rioprevidência e operadores financeiros ligados ao Banco Master e à corretora Planner.

Segundo a investigação, a Planner teria sido usada como uma espécie de “ponte” dentro do esquema envolvendo aplicações bilionárias do fundo previdenciário estadual em produtos financeiros ligados ao Banco Master.

A PF afirma que o credenciamento do banco e da corretora teria sido feito com base em documentação fraudulenta e que a corretora funcionaria como intermediária para ampliar taxas de corretagem e operacionalizar pagamentos aos operadores do esquema.

A investigação também aponta que a primeira operação intermediada pela Planner, em fevereiro de 2024, ocorreu sem justificativa técnica registrada, apesar de o Rioprevidência já possuir relação direta com o Banco Master.

Na prática, o que a Polícia Federal parece tentar entender agora é se houve uso político da máquina pública, para direcionar bilhões de reais da previdência estadual às operações financeiras privadas, cercadas de favorecimento, influência política e possíveis vantagens indevidas.

Mas o caso começa a chamar atenção também por outro detalhe: as conexões pessoais e políticas entre os personagens envolvidos.

Cláudio Castro não é apenas um governador do PL. É um aliado histórico da família Bolsonaro. No Rio político, a proximidade entre Castro e o bolsonarismo vem desde muito antes do Palácio Guanabara — desde os tempos em que, segundo relatos conhecidos nos bastidores cariocas, Castro tocava violão em ambientes frequentados pelo grupo político ligado aos Bolsonaro, incluindo a tradicional churrascaria Porcão.

Hoje, décadas depois, os nomes voltam a aparecer orbitando um mesmo escândalo financeiro. Uma mesma bodega. De um lado, o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, já citado em reportagens recentes sobre relações próximas com figuras do bolsonarismo e do PL.

Vieram à tona recentemente mensagens, divulgadas pelo site The Intercept Brasil, envolvendo negociações milionárias com Flávio Bolsonaro, com pedidos de cifras elevadas, que ultrapassa os 100 milhões de reais, para projetos político/midiáticos ligados ao grupo. No caso o longa-metragem "Dark Horse", uma produção de Mário Frias, que fala da vida do ex-presidente Bolsonaro, hoje detido no presídio da Papuda, em Brasília.

Do outro lado da mesma investigação, surge justamente Cláudio Castro, governador do mesmo partido, aliado político próximo do núcleo bolsonarista no Rio e agora alvo de nova ofensiva da Polícia Federal. O crime parece rondar o Partido Liberal (PL), aonde até o presidente do partido já usou tornozeleira eletrônica.

As pontas começam a se ligar. No imaginário popular e nas conversas políticas do Rio, o caso já começa a ganhar um apelido informal: “BolsoMaster”. Um nome que não aparece oficialmente na investigação, mas que traduz a percepção crescente de que existe uma rede de relações políticas, financeiras e pessoais muito mais integrada do que parecia inicialmente.

A sensação é a de que o escândalo deixou de ser apenas um caso de mercado financeiro. Cada um ali se supõe que sabia o que o outro fez no verão passado e inclusive parece que muitas vezes fizeram juntos. 

Uma turma, que passa pela geografia clássica do poder carioca: Barra da Tijuca, praia do Pepê, encontros de sábado na pizzaria mais badalada do Leblon, mesas de feijoada no Porcão e círculos onde banqueiros, operadores, empresários e políticos convivem há décadas em uma mistura permanente entre amizade, negócios e poder.

A pergunta inevitável começa a ecoar:

“Seria tudo uma turma só?”

O avanço da investigação da PF sugere que talvez essa hipótese esteja deixando o terreno das especulações políticas para entrar definitivamente no campo das apurações criminais.

E há uma ironia política impossível de ignorar. Os grupos que durante anos construíram discurso público de combate radical à corrupção agora começam a aparecer ligados, por múltiplas conexões, a um dos casos financeiros mais explosivos surgidos no país nos últimos tempos.

A Policia Federal ainda investiga o alcance total do esquema, mas uma coisa já parece evidente: o caso Banco Master deixou de ser apenas um problema bancário. Ele se transformou numa investigação sobre relações de poder baseadas na suposta promiscuidade, e nas possíveis ligações ilícitas de seus  integrantes.

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terça-feira, 26 de maio de 2026

Fé, ciência e tecnologia: a encíclica de Leão XIV recoloca o ser humano no centro da era digital

“Magnifica Humanitas” chega num momento em que algoritmos já influenciam trabalho, política, guerra, memória e até a percepção da realidade

 
Fé, ciência e tecnologia: primeira encíclica de Leão XIV recoloca o ser humano no centro da era digital. “Magnifica Humanitas” chega num momento em que algoritmos já influenciam trabalho, política, guerra, memória e até a percepção da realidade

Existe uma pergunta silenciosa atravessando o nosso tempo: quem está moldando o futuro da humanidade — as pessoas ou os sistemas que criamos?

A nova encíclica do papa Leão XIV, intitulada Magnifica Humanitas, entra exatamente nesse território delicado onde fé, ciência, tecnologia e poder começam a se misturar. E faz isso sem cair nem no negacionismo tecnológico nem no encantamento do brilho cego típico do Vale do Silício.

O documento, publicado oficialmente pelo Vaticano neste mês de maio de 2026, propõe uma reflexão profunda sobre inteligência artificial, digitalização, robótica e o futuro da condição humana.

Para quem acompanha o Sulpost, o tema não é novo. Ao longo dos últimos anos, nossa linha editorial vem insistindo numa ideia simples — mas cada vez mais urgente: ciência e tecnologia são conquistas humanas extraordinárias, porém deixam de servir à civilização quando passam a operar sem ética, sem responsabilidade social e sem compromisso com a dignidade humana. A encíclica parece dialogar diretamente com essa tensão contemporânea que está remodelando a sociedade.

Nem tecnofobia, nem idolatria digital

Um dos pontos mais interessantes do texto está justamente no Vaticano não ver na tecnologia uma inimiga da humanidade, como pensam alguns setores mais conservadores do cristianismo.

Leão XIV reconhece que os avanços científicos ampliaram a qualidade de vida, conectaram sociedades, aceleraram diagnósticos médicos e abriram possibilidades inéditas para educação, comunicação, preservação ambiental e democratização do conhecimento.

Mas o documento também alerta para algo que debato frequentemente aqui no Sulpost: a tecnologia nunca é neutra e tem trazido com ela um considerável custo ambiental e social.

Ela está sendo desenvolvida como um produto, que visa o lucro e muitas vezes pensa em estratégias de mercado para vender, e apenas depois verificar o custo social. Como produto comercial, ela carrega os interesses de quem a financia, programa, regula e controla.

A encíclica afirma que o risco da atual revolução digital não está apenas nas máquinas, mas na concentração de poder em torno delas. E talvez esteja aí o ponto mais importante do texto. A preocupação central não parece ser “a IA vai destruir o mundo”, numa tola narrativa hollywoodiana. O alerta principal é outro: uma humanidade que transfere decisões humanas fundamentais para sistemas automatizados pode acabar terceirizando também sua consciência moral.

A nova Torre de Babel

O Papa usou uma metáfora poderosa. Segundo a encíclica, a humanidade está diante de duas possibilidades: construir uma nova Torre de Babel — marcada por arrogância tecnológica, uniformização cultural e concentração de poder — ou reconstruir uma Jerusalém simbólica baseada em convivência, dignidade e fraternidade.

É uma imagem antiga, uma analogia milenar que pode ser perfeitamente aplicada a um problema extremamente contemporâneo. Porque a discussão sobre inteligência artificial já não pertence apenas aos laboratórios. Ela está no mercado de trabalho, nos tribunais, nas campanhas políticas, nos sistemas militares, nas escolas e nas redes sociais. A IA está presente em todo lugar onde há um dispositivo telemático conectado à internet.

Quando algoritmos passam a decidir quais informações enxergamos, quais empregos desaparecem, quais rostos são monitorados e quais narrativas recebem alcance, ou não, a discussão deixa de ser tecnológica e passa a ser civilizatória.

Neste ponto inclusive existe uma convergência importante entre fé e ciência, uma união que muita gente ainda insiste em tratar como incompatível.

Fé e ciência não precisaram ser inimigas

Há uma caricatura, um conceito persistente segundo o qual religião e ciência vivem em permanente conflito. A realidade histórica é outra, e bem mais complexa.

A própria Igreja Católica, através da Biblioteca do Vaticano, participou da preservação de conhecimento científico ao longo de séculos. O mesmo conhecimento que cientistas de diferentes tradições religiosas ajudaram a construir ao longo dos anos, na medicina, astronomia, física e matemática modernas.

O problema para a igreja nunca foi a ciência. O problema sempre foi o uso do conhecimento sem responsabilidade humana.

Quando abordo em meu blog assuntos como tecnologia, inteligência artificial ou transformação digital, minha visão e do meu veículo, jamais parte do medo do progresso. Parte da defesa de um progresso que continue humano.

A encíclica toca exatamente nesse ponto ao afirmar que a técnica pode aliviar sofrimentos e ampliar possibilidades, mas não pode substituir aquilo que torna o ser humano singular: sua capacidade de consciência, relação, compaixão e amor.

O risco do “homem aperfeiçoado”

Outro trecho relevante do documento critica correntes transumanistas que enxergam o futuro como uma superação biológica do próprio ser humano através de implantes, algoritmos e integração homem-máquina.

A crítica não é contra pesquisa científica. Ela é contra a ideia de que vulnerabilidade, limite e fragilidade humanas seriam “defeitos” a serem eliminados.

Essa talvez seja uma das discussões filosóficas mais profundas do século XXI. Porque existe uma diferença entre usar tecnologia para curar doenças e usar tecnologia para redefinir o que significa ser humano.

A pergunta não é apenas “o que conseguimos fazer”. A pergunta é: “o que vamos fazer?”

A humanidade ainda precisa decidir quem controla quem

Num momento em que empresas privadas concentram volumes inéditos de dados, influência política e capacidade computacional, a encíclica surge quase como um chamado internacional por regulação ética da inteligência artificial.

E isso não vem apenas do campo religioso. Pesquisadores, cientistas e especialistas em tecnologia também vêm alertando sobre riscos ligados à concentração algorítmica, desinformação automatizada, substituição massiva de empregos e militarização da IA.

Talvez a grande contribuição de Magnifica Humanitas esteja justamente em recolocar uma palavra esquecida no centro do debate tecnológico: humanidade.

Num tempo em que quase tudo é convertido em métrica, dado, engajamento e performance, lembrar que pessoas não são apenas números talvez seja uma das tarefas mais importantes da nossa época.

E isso vale para governos, empresas, igrejas, universidades, jornalistas — e também para as próprias inteligências artificiais. Afinal, como pergunta numa música a banda australiana AC/DC: who made who (quem fez quem)?

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El Niño volta a crescer no Pacífico — e encontra um planeta já em estado de emergência climática

Fenômeno climático reaparece em meio à emergência climática global e pode intensificar secas, enchentes, ondas de calor e eventos extremos no Brasil e no mundo

 
Aquecimento dos oceanos (abril de 2026) - INMET/Divulgação 

O Pacífico Equatorial começou novamente a dar sinais que a humanidade já enfrentou ao longo dos séculos. As águas estão aquecendo. Os ventos atmosféricos mudam lentamente de comportamento. E meteorologistas de diferentes partes do planeta acompanham com atenção a formação de um novo ciclo do El Niño — um fenômeno natural antigo, poderoso e capaz de alterar o clima da Terra em escala global. Mas existe algo diferente desta vez. O planeta que recebe esse novo El Niño já está superaquecido.

Durante séculos, o fenômeno deixou marcas profundas na história humana. Grandes secas, ondas de calor, crises agrícolas, colapsos econômicos e epidemias estiveram associados aos períodos mais intensos do aquecimento das águas do Pacífico. Há registros históricos que relacionam episódios severos do El Niño a fome em larga escala nas regiões tropicais ainda no século XIX, além de impactos climáticos que atravessaram continentes inteiros.

Agora, cientistas observam o retorno do fenômeno em um contexto completamente diferente: a atmosfera global já opera sob pressão extrema causada pelo aquecimento climático acelerado. Isso significa que eventos que antes eram considerados severos podem se tornar ainda mais destrutivos.

Um planeta mais quente, uma reação mais violenta

O El Niño modifica padrões de vento e temperatura dos oceanos, alterando a circulação atmosférica em diversas partes do mundo. Seus efeitos nunca são distribuídos de maneira uniforme. Enquanto algumas regiões recebem chuva excessiva, outras mergulham em secas prolongadas. Em certos locais do planeta, o fenômeno reduz as temporadas de furacões. Em outros, amplia ondas de calor, incêndios florestais, seca e colapsos hídricos.

No Sul da América do Sul, incluindo parte do Brasil, o padrão clássico costuma favorecer aumento das chuvas e tempestades mais frequentes. Já áreas da Amazônia, do Norte e do Nordeste brasileiro frequentemente enfrentam a redução de precipitação, estiagens severas e temperaturas acima da média.

O problema é que a lógica climática tradicional já não responde da mesma maneira. Os mares da Terra já estão mais quentes. A atmosfera acumula mais vapor d’água. Ondas de calor se tornaram mais longas e intensas. Eventos extremos deixaram de ser raridade. Em outras palavras: o El Niño encontra um sistema climático já tensionado.

A formação do fenômeno EL Niño, e sua atividade em maio deste ano - Fonte: NOAA 

O Brasil está novamente na zona de risco

Os primeiros efeitos atmosféricos já começam a ser observados no Brasil antes mesmo da consolidação completa do fenômeno. No Sul do país, segundo o INMET, modelos meteorológicos indicam tendência de aumento da instabilidade climática entre o inverno e a primavera, com maior frequência de tempestades, acumulados elevados de chuva e risco ampliado para enchentes, deslizamentos e transbordamento de rios.

O alerta tem ganhado forte repercussão, as pessoas ainda tem frescas na memória as tragédias climáticas recentes que devastaram cidades inteiras no Rio Grande do Sul, deixando marcas profundas na memória da região e de todo o país. O clima extremo é uma realidade, está constantemente sendo televisionado.

No Norte do Brasil, o cenário previsto pelos institutos de meteorologia aponta para risco elevado de seca na Amazônia, redução dos níveis dos rios e agravamento das queimadas florestais. Em anos de El Niño intenso, o enfraquecimento das chuvas amazônicas costuma produzir impactos ambientais e sociais que atravessam toda a região.

O Nordeste também entra em estado de atenção. Áreas do semiárido podem enfrentar períodos mais prolongados de estiagem, pressão sobre reservatórios e dificuldades para agricultura familiar e abastecimento hídrico.

No Centro-Oeste e em parte do Sudeste, meteorologistas monitoram a possibilidade de ondas de calor persistentes, queda de umidade relativa do ar e aumento da ocorrência de incêndios florestais.

O agronegócio brasileiro acompanha os mapas climáticos com apreensão. O excesso de chuva no Sul pode comprometer plantio, logística e colheitas. Já a falta de precipitação em outras regiões ameaça produtividade agrícola, reservatórios e geração de energia.

O temor global vai além do fenômeno natural

O novo El Niño preocupa porque surge justamente em um momento em que o planeta já enfrenta uma sequência quase contínua de extremos climáticos.

Mesmo sem a presença plena do fenômeno, os últimos anos foram marcados por recordes sucessivos de temperatura, incêndios históricos, enchentes urbanas violentas, secas prolongadas e eventos atmosféricos de comportamento cada vez mais imprevisível.

Por isso, o temor internacional não está apenas no retorno do El Niño. O verdadeiro alerta está na combinação entre um fenômeno naturalmente poderoso e um planeta que já acumula calor demais e eventos cada vez mais potentes.

Na prática, isso significa que regiões vulneráveis podem sofrer impactos ainda mais severos do que os registrados em décadas anteriores. Chuvas tendem a se tornar mais concentradas e destrutivas. Ondas de calor encontram cidades asfaltadas e densamente urbanizadas. Secas prolongadas já pressionam sistemas hídricos com a capacidade dos reservatórios abaixo da média.

E a sensação crescente entre pesquisadores climáticos é que a humanidade começa a entrar em uma nova fase da crise ambiental global: aquela em que eventos extremos deixam de ser exceção e passam a fazer parte da rotina do planeta.

Temos que estar atentos, o Pacífico ainda está aquecendo. E o mundo inteiro observa, mais uma vez, até onde o próximo El Niño poderá chegar.

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Fim da escala 6x1 avança em Brasília e mobiliza trabalhadores em todo o país

Proposta prevê duas folgas semanais, redução gradual da jornada para 40 horas e descanso preferencial aos domingos. Debate já é tratado como uma das maiores mudanças trabalhistas das últimas décadas

 
Fim da escala 6x1 avança em Brasília e mobiliza trabalhadores em todo o país. Proposta prevê duas folgas semanais, redução gradual da jornada para 40 horas e descanso preferencial aos domingos. Debate já é tratado como uma das maiores mudanças trabalhistas das últimas décadas
Imagem meramente ilustrativa - projeto Sulpost

O tema tomou conta das redes sociais, dos corredores das fábricas, dos aplicativos de mensagem e das mesas de almoço Brasil afora. Em um país onde milhões de trabalhadores convivem há décadas com a rotina exaustiva da escala 6x1 — seis dias de trabalho para apenas um de descanso — a possibilidade de mudança começou a ganhar forma concreta nesta semana, em Brasília. E a espectativa é geral.

A Comissão Especial da Câmara dos Deputados recebeu nesta segunda-feira (25) o parecer do relator da PEC 221/19, deputado federal Léo Prates (Republicanos-BA), que propõe oficialmente o fim da escala 6x1 no Brasil. O texto prevê redução gradual da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem corte salarial, além da garantia de dois dias de descanso por semana.

O debate se transformou rapidamente em um dos temas políticos e sociais mais comentados do país. Para muitos trabalhadores, especialmente mulheres, jovens e profissionais do comércio e serviços, a proposta representa algo simples e ao mesmo tempo profundo: tempo para viver.

Como ficará a nova jornada

Pelo relatório apresentado na Câmara, a mudança ocorreria em duas etapas:

  • 60 dias após a promulgação da PEC: a jornada cairia de 44 para 42 horas semanais e passaria oficialmente para o modelo 5x2 — cinco dias de trabalho e dois de descanso.
  • Após 12 meses: a jornada seria reduzida novamente, chegando às 40 horas semanais, limitadas a oito horas diárias.

Outro ponto importante do texto estabelece que um dos dias de descanso deverá ocorrer, preferencialmente, aos domingos.

Segundo o relator Léo Prates, a transição gradual busca evitar impactos bruscos na economia e permitir adaptação das empresas.

“Com a implementação progressiva, estamos permitindo que empresas e setores planejem investimentos em tecnologia e reorganização operacional”, afirmou o deputado no relatório apresentado à comissão.

O grito que veio das ruas

A pressão popular pelo fim da escala 6x1 cresceu fortemente nos últimos meses. Em manifestações, sindicatos, movimentos sociais e trabalhadores passaram a relatar aumento do adoecimento físico e emocional causado pela rotina sem descanso adequado.

Durante o anúncio do acordo político construído entre governo e Câmara, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, destacou que a reivindicação ganhou força especialmente entre mulheres e jovens trabalhadores.

“Nós estamos adoecendo, nós não estamos aguentando mais. Nós precisamos de pelo menos duas folgas na semana”, declarou o ministro, reproduzindo o sentimento que chegou ao governo federal.

O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou que o acordo tenta equilibrar os interesses da classe trabalhadora e do setor produtivo.

“Isso atende um apelo da classe trabalhadora, mas também escuta o setor produtivo. Dá um tempo para que os setores possam se organizar”, disse.

O que muda para empresas e categorias específicas

O texto também cria regras diferenciadas para alguns setores e contratos públicos.

Empresas poderão negociar mecanismos de compensação de jornada por meio de acordos e convenções coletivas. Microempreendedores Individuais (MEIs), microempresas e pequenas empresas poderão receber regras transitórias específicas por meio de legislação complementar.

Outro trecho que chamou atenção envolve os chamados trabalhadores “hipersuficientes” — profissionais com ensino superior e renda acima de duas vezes e meia o teto do INSS, atualmente em R$ 8.475,55.

Nesses casos, a redução da jornada diária poderá depender de negociação individual ou coletiva, embora a escala 5x2 continue prevista.

O relator argumenta que a medida também tenta enfrentar a chamada “pejotização”, quando trabalhadores acabam migrando para contratos como pessoa jurídica.

Próximos passos

A expectativa em Brasília é de votação do texto na Comissão Especial ainda nesta semana. Depois disso, a proposta seguirá para análise no plenário da Câmara e, posteriormente, no Senado.

Aprovada, a PEC vai mudar profundamente a rotina de milhões de brasileiros, que vão ganhar em qualidade, em tempo de vida.

Para quem vive há anos preso à lógica de trabalhar praticamente a semana inteira para descansar apenas um dia, o debate deixou de ser apenas técnico ou político. Virou conversa de ônibus, de fábrica, de supermercado, de cozinha e de família.

E talvez seja exatamente por isso que o tema tenha explodido com tanta força no país: porque, no fundo, ele mexe com algo que nenhum trabalhador consegue recuperar depois que perde — o próprio tempo.

  • Com informações das reportagens de Lucas Pordeus León e Luciano Nascimento, da Agência Brasil.

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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Tecpar mostra a força da ciência pública — e reacende temor sobre privatizações no Paraná

Novo investimento do Estado em pesquisa veterinária reforça importância estratégica das empresas públicas paranaenses em meio às críticas da oposição ao avanço das privatizações

Tecpar mostra a força da ciência pública — e reacende temor sobre privatizações no Paraná
Giselle Nocera gerente do Centro de Insumos para Diagnóstico Veterinário do TECPAR
Foto: Hedeson Alves/TECPAR

Há projetos que passam despercebidos na correria política do dia a dia. E há projetos que revelam o tipo de Estado que um governo escolhe construir. Enquanto o debate sobre privatizações e a reestatização da Copel continua avançando no Paraná, uma iniciativa do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) mostra, na prática, o peso que uma empresa pública pode ter no desenvolvimento científico, econômico e sanitário do país.

O Tecpar iniciou uma pesquisa para produção nacional de insumos usados no diagnóstico da brucelose bovina — uma doença que afeta rebanhos, ameaça a segurança alimentar e pode atingir seres humanos. Hoje, mais de 70% desses antígenos são importados. O objetivo do instituto é reduzir essa dependência externa e transformar o Paraná em referência nacional no setor.

O investimento do Governo do Estado ultrapassa R$ 70 milhões entre construção do novo Centro de Insumos para Diagnóstico Veterinário (CIV), equipamentos e estrutura tecnológica. A futura planta terá capacidade para produzir até 40 milhões de doses por ano.

Em um estado que figura entre os maiores produtores de proteína animal do Brasil, a iniciativa não é pequena. Ela toca diretamente a cadeia do leite, da carne, da exportação e da segurança sanitária nacional. E é justamente aí que o debate político reaparece.

Ciência pública não nasce da lógica do lucro imediato

O Tecpar carrega uma característica rara no Brasil contemporâneo: é uma instituição pública especializada em ciência aplicada, com pesquisadores permanentes e capacidade técnica acumulada ao longo de décadas. Governos passam. Pesquisadores ficam. Conhecimento permanece.

Na avaliação de setores da oposição ao governo Ratinho Junior, iniciativas como essa demonstram por que empresas estratégicas não deveriam ser tratadas apenas como ativos financeiros negociáveis.

Nos últimos anos, o Paraná avançou em uma ampla agenda de privatizações, concessões e desestatizações. A venda da Copel, a privatização da Copel Telecom, os movimentos envolvendo a Celepar, concessões de rodovias, discussões sobre Ferroeste, portos e outros serviços públicos passaram a ocupar o centro do debate estadual e um dos temas centrais na disputa pelo Governo do Estado, em outubro.

A oposição paranaense sustenta que o Estado vem reduzindo sua presença em áreas consideradas estratégicas e entregando patrimônio público ao mercado financeiro.

O fantasma da Copel ainda paira sobre o debate estadual

Entre todos os casos, a privatização da Copel talvez tenha se tornado o principal símbolo político dessa disputa. Parlamentares oposicionistas afirmam que, após a privatização, consumidores passaram a relatar piora no atendimento, aumento da percepção de instabilidade no fornecimento e temor de reajustes maiores nas tarifas.

A oposição também questionou judicialmente o processo de venda da companhia e apontou críticas relacionadas ao modelo adotado para a alienação do controle acionário.

Já o governo Ratinho Junior defende que as desestatizações modernizam estruturas, atraem investimentos e tornam o Paraná mais competitivo economicamente.

Celepar, Sanepar, transporte público e Porto de Paranaguá entram no radar

O avanço da agenda liberal no Paraná também alimenta receios sobre o futuro de outras estruturas públicas. A possível privatização da Celepar provocou forte reação por envolver uma empresa responsável pelo armazenamento e processamento de dados estratégicos dos paranaenses.

Ao mesmo tempo, setores da oposição alertam para movimentos de mercado envolvendo a Sanepar, o transporte coletivo de Curitiba e até o Porto de Paranaguá.

Para esses grupos, serviços essenciais e empresas lucrativas deveriam permanecer sob controle público, especialmente em áreas como saneamento, energia, logística e tecnologia.

O Paraná que produz ciência

No meio desse embate ideológico e econômico, o novo projeto da Tecpar acaba funcionando como um lembrete silencioso.

Enquanto boa parte do país depende da importação de tecnologia e insumos estratégicos, uma empresa pública paranaense prepara laboratórios NB-3 de alta biossegurança, automatiza sistemas de cultivo microbiológico e desenvolve capacidade nacional para atender o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose, do Governo Federal.

De acordo com a AEN, os municípios das regiões Oeste e Campos Gerais — polos históricos da produção leiteira paranaense — devem ser diretamente beneficiados pela iniciativa.

Entre eles estão Castro, Carambeí, Toledo, Cascavel, Dois Vizinhos, Francisco Beltrão, Palotina, Marechal Cândido Rondon e Santa Helena.

É o tipo de investimento que dificilmente produz dividendos imediatos para acionistas. Mas produz soberania científica, segurança sanitária e independência tecnológica. E talvez seja exatamente por isso que o debate sobre o futuro das estatais paranaenses esteja longe de terminar.

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Deputado pede suspensão de decreto por colocar socioeducação em risco no Paraná

Projeto apresentado na Alep questiona mudanças na educação dentro dos CENSEs e alerta para impactos na ressocialização de adolescentes privados de liberdade

 
Projeto apresentado na Alep questiona mudanças na educação dentro dos CENSEs e alerta para impactos na ressocialização de adolescentes privados de liberdade. Deputado pede suspensão de decreto por colocar socioeducação em risco no Paraná

O silêncio dos corredores dos Centros de Socioeducação do Paraná carrega histórias tristes, interrompidas cedo demais. Jovens afastados das famílias, da escola regular e da convivência social encontram, muitas vezes, nas salas de aula dentro dos CENSEs, a primeira chance concreta de reconstruir a própria trajetória, de se reintegrar à sociedade.

É justamente esse ambiente pedagógico que voltou ao centro do debate político no Paraná. O deputado estadual Arilson Chiorato (PT) apresentou na última terça-feira (19), na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), um projeto de decreto legislativo para suspender os efeitos do Decreto Estadual nº 12.665/2026, publicado em 5 de fevereiro deste ano e já em vigor.

A proposta surgiu após professores que atuam diretamente na socioeducação alertarem para riscos provocados pelas mudanças na oferta educacional destinada a adolescentes privados de liberdade.

Educação além da punição

Educadores que trabalham dentro dos Centros de Socioeducação afirmam que as escolas dessas unidades não funcionam apenas como espaços formais de ensino. São ambientes de acolhimento, criação de vínculos e reconstrução de perspectivas de vida.

Segundo o projeto apresentado na Alep, o novo decreto estadual cria exigências burocráticas e operacionais que podem comprometer justamente essa dinâmica pedagógica construída ao longo dos anos, através da experiência única, adquirida pelos profissionais que atuam na área.

De acordo com o deputado Arilson, as mudanças desconsideram as particularidades do sistema socioeducativo e aproximam o funcionamento das unidades do modelo aplicado às escolas regulares.

“As novas regras podem dificultar matrículas, interromper a continuidade das aulas e aumentar a rotatividade de professores, já que o decreto altera a forma de vinculação dos profissionais da educação às unidades”, afirmou o parlamentar, que é líder da Oposição na Alep e presidente estadual do PT.

Críticas ao novo modelo

O texto protocolado também critica a retirada de critérios considerados essenciais para atuação dentro da socioeducação, como experiência prévia e conhecimento específico sobre o atendimento a adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas.

Na avaliação apresentada pelo deputado, o impacto mais grave recai diretamente sobre o direito à educação desses jovens. O projeto sustenta que o excesso de burocracia pode transformar a internação em uma medida apenas punitiva, não orientativa, que enfraquece o caráter pedagógico previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e no Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE).

O documento ainda aponta possíveis consequências jurídicas caso o decreto seja mantido, incluindo ações judiciais, sanções administrativas e responsabilização do Estado por descumprimento de normas constitucionais relacionadas ao acesso à educação.

Ressocialização em debate

Para profissionais da área, a educação dentro dos CENSEs é uma das ferramentas mais importantes no processo de reintegração social. Em muitos casos, é ali que adolescentes retomam a alfabetização, descobrem talentos e voltam a acreditar em possibilidades fora da violência e da exclusão.

“A educação tem um potencial imenso de transformar vidas. Não podemos permitir que uma ferramenta tão valiosa seja negligenciada. Mais do que isso: ignorada no processo de ressocialização de adolescentes”, declarou Arilson.

O debate agora deve avançar dentro da Assembleia Legislativa do Paraná, enquanto professores, educadores e entidades ligadas aos direitos da infância acompanham os desdobramentos da proposta.

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Ponte da Vitória vira palco de desfile histórico de carros antigos e fortalece mito da “ponte da sorte” no litoral do Paraná

Mais de 500 veículos cruzaram a nova Ponte de Guaratuba em um encontro marcado por nostalgia, turismo, solidariedade e histórias que já alimentam uma nova tradição popular no litoral paranaense

 
Mais de 500 veículos cruzaram a nova Ponte de Guaratuba em um encontro marcado por nostalgia, turismo, solidariedade e histórias que já alimentam uma nova tradição popular no litoral paranaense

O sábado amanheceu nublado na costa leste do Paraná, mas bastou os primeiros motores antigos darem seu ronco, em Matinhos, para o cenário ganhar brilho próprio. Cromados espelhando o céu fechado, pinturas impecáveis atravessando décadas e famílias inteiras acompanhando emocionadas o desfile transformaram a nova Ponte de Guaratuba — batizada como Ponte da Vitória — em palco de um momento que dificilmente será esquecido por quem esteve ali.

Mais de 500 carros antigos e motos participaram do 1º Encontro e Passeio de Carros Antigos e Motos Ponte de Guaratuba, evento promovido pela Secretaria de Estado do Esporte para incentivar o turismo no litoral após a inauguração da estrutura, no último dia 1º de maio.

O comboio saiu do Beach Club Águas Claras, em Matinhos, percorreu cerca de 20 quilômetros e atravessou os 1,2 quilômetros da ponte que encerrou uma espera de mais de 60 anos pelo fim do ferry boat entre Guaratuba e Matinhos.

A ponte que virou símbolo

Mas o encontro deste fim de semana acabou revelando algo maior que um simples desfile automobilístico. Aos poucos, nasce no litoral uma espécie de folclore moderno em torno da ponte estaiada.

Antes mesmo da inauguração da estrutura, o bruxo curitibano Chik Jeitoso já dizia que a travessia se transformaria em uma “ponte da sorte”. Desde então, moradores passaram a relatar histórias de pessoas que fizeram pedidos durante a primeira passagem sobre a Baía de Guaratuba e, após alcançarem graças pessoais, retornaram para realizar doações beneficentes.

O curioso é que o próprio encontro de carros antigos acabou reforçando esse simbolismo. Além do turismo e da celebração, o evento teve caráter solidário, arrecadando alimentos para as Apaes de Matinhos e Guaratuba. A praça de alimentação também foi explorada pela entidade guaratubana, que atende mais de 140 crianças.

“Precisamos de um mundo com menos muros e mais pontes.”

A frase parece resumir perfeitamente o sentimento vivido no litoral neste sábado. E talvez não seja coincidência que, em várias partes do mundo, algumas pontes também tenham se transformado em símbolos de sorte, esperança ou renovação.

Em cidades da Europa e da Ásia existem tradições populares ligadas a travessias consideradas especiais, onde moradores fazem pedidos, deixam fitas, cadeados ou simplesmente atravessam acreditando em novos ciclos. Guaratuba parece começar a construir sua própria versão dessa história.

Motores, memórias e gerações

Entre os veículos que cruzaram a ponte, segundo liberação de imprensa da AEN, estava um Oldsmobile 1956 levado pelo comerciante César Botelho, de Curitiba. O carro, adquirido da mesma família que ele admirava desde adolescente, chamou atenção durante o desfile.

Já a servidora pública Luciana de Paula emocionou visitantes ao atravessar a ponte com um Dodge Magnum 1979 herdado do pai. Para ela, o momento representava fazer parte de um capítulo histórico do Paraná.

Já a servidora pública Luciana de Paula emocionou visitantes ao atravessar a ponte com um Dodge Magnum 1979 herdado do pai. Para ela, o momento representava fazer parte de um capítulo histórico do Paraná.

Também teve Fusca, Opala, motos clássicas e viaturas históricas da Polícia Militar do Paraná. Em comum, todos carregavam não apenas motores antigos, mas lembranças familiares, histórias de estrada e afetos atravessando gerações.

Muitos participantes descreviam a travessia quase como um ritual coletivo. Alguns fotografavam lentamente o momento sobre a baía. Outros apenas observavam em silêncio o horizonte cinza enquanto cruzavam aquilo que, até poucos meses atrás, parecia impossível para boa parte da população do litoral.

Novos tempos para o litoral

A nova Ponte de Guaratuba recebeu investimento superior a R$ 400 milhões e reduziu para cerca de três minutos um trajeto que antes podia levar horas em dias de filas no ferry boat.

Mas o impacto vai além da mobilidade. O evento deste sábado mostrou o potencial da estrutura para transformar o turismo e movimentar a economia regional durante todo o ano, especialmente fora da temporada de verão.

Hotéis movimentados, restaurantes cheios e famílias ocupando as ruas de Guaratuba reforçaram o sentimento de que a ponte já começa a redefinir a dinâmica do litoral paranaense.

Os organizadores prometem repetir o encontro ao menos uma vez por ano. E depois do sucesso deste primeiro desfile, pouca gente parece duvidar de que ele realmente, mesmo que em sua primeira edição, já virou tradição.

Quando os últimos carros antigos deixaram a cidade no fim da tarde, ficou no ar aquela sensação rara de acontecimento histórico vivido em tempo real. Como se cada veículo tivesse levado consigo um pouco da memória do passado — e atravessado a ponte rumo a um novo tempo para o litoral do Paraná.

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domingo, 24 de maio de 2026

Elas não param — e ninguém vê: o desafio diário das mães de famílias atípicas

Enquanto o Brasil debate o fim da escala 6x1, mães atípicas seguem vivendo jornadas que não cabem em relógio — sustentadas por amor, exaustão e silêncio

 
Elas não param — e ninguém vê: o desafio diário das mães de famílias atípicas. Enquanto o Brasil debate o fim da escala 6x1, mães atípicas seguem vivendo jornadas que não cabem em relógio — sustentadas por amor, exaustão e silêncio
Imagem meramente ilustrativa - gerada por IA

Tem homem que sai cedo de casa, encara trânsito, pressão, chefe, meta — e volta dizendo que o dia foi pesado, e muitas vezes ainda reclamando. Agora imagina não voltar. Não porque você ficou preso no trabalho — mas porque o trabalho te acompanha dentro de casa, dentro da noite, dentro do sono. Porque ele não tem ponto final — é em tempo integral e sem descanso.

Essa é a vida de milhares de mulheres no Brasil. Mães atípicas. São mulheres que cuidam de filhos com autismo, síndromes raras ou outras condições que exigem atenção constante. Não é cuidado eventual — é presença integral. É vigilância contínua. É reorganizar a vida inteira em função de alguém que depende delas para quase tudo.

Segundo reportagem publicada hoje na DW Brasil, muitas são mães solo. Outras até têm alguém ao lado, mas boa parte ainda segue sozinha na prática. São elas que aprendem sobre terapias, enfrentam filas, brigam com plano de saúde, adaptam rotina, seguram crises, reorganizam o mundo.

Como é viver sem pausa

O dia começa antes do sol e termina quando o corpo desiste. Entre uma consulta e outra, cabe o trabalho — quando ainda é possível trabalhar. Muitas reduzem a carreira. Outras abandonam completamente.

As contas, no entanto, não diminuem. Terapias, medicamentos, cuidadores, escola, transporte. Em muitos casos, o custo mensal ultrapassa qualquer planejamento possível. E quando o dinheiro não dá, entra a luta judicial. Quando não há rede de apoio, entra o improviso. Quando não há alternativa, entra o desgaste, mas elas seguem lutando.

Onde o corpo sente — e a alma paga

Existe um ponto em que o cansaço deixa de ser físico. Vira mental. Vira emocional. Vira silêncio. Mães atípicas vivem, muitas vezes, em estado permanente de alerta. Dormem leve, comem rápido, pensam o tempo todo no próximo passo. Ansiedade, exaustão, isolamento — não são exceção, são rotina.

E no meio disso tudo, acontece algo quase invisível: elas vão desaparecendo. Deixam de ser mulher, profissional, amiga. Passam a ser função. Passam a ser cuidado. Doam a vida àqueles a quem deram a vida.

Para quem tudo isso existe

Existe um motivo para tudo isso continuar. Um olhar que encontra o dessas guerreiras. Um gesto pequeno que vira conquista gigante.

Um “te amo” que talvez demore mais para chegar — mas quando chega, sustenta tudo. É amor. Mas não aquele amor romantizado. É amor verdadeiro, puro, mas que cansa. Amor que exige. Amor que cobra preço alto. A sociedade não pode fechar os olhos para essas mulheres, para essas famílias.

Um recado para quem acha que entende o que é trabalhar demais

Talvez você, homem, esteja cansado. E isso é legítimo. Eu mesmo estou aqui, escrevendo quando poderia estar dormindo nessa tarde chuvosa de Curitiba. Mas adivinha quem está cuidando do almoço?

Se para a minha companheira às vezes já é difícil  — olha que eu não dou trabalho  — penso na das que têm um tipo de jornada que não termina no fim do expediente. Que não tem folga no domingo. Que exige estar sempre em estado de alerta, sem poder desligar totalmente nunca. E muitas vezes, ela acontece dentro da mesma casa — sem que você perceba.

Cuidado também é trabalho. Cuidado também esgota. E, acima de tudo, cuidado também precisa ser dividido. Porque nenhuma mulher deveria precisar se anular, deixar de ter vida própria, para sustentar tudo sozinha. Nós, homens, devemos dar apoio total a elas, sem discutir. No caso das famílias atípicas, não é diferente e, se o casal divide as tarefas, não ambos têm tempo de viver. 

Mas já passou da hora da sociedade civil organizada, empresários, políticos, instituições religiosas e personalidades se mobilizarem por essas mulheres, mãe solo, que também tem o mesmo direito de viver que qualquer pessoa. E você pai, como se sente com relação a tudo isso?

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Trump afirma que guerra no Irã pode estar perto do fim após avanço em negociações

Presidente dos Estados Unidos diz que acordo de paz está “largamente negociado”, enquanto autoridades iranianas falam em cessar-fogo amplo e reabertura do Estreito de Ormuz

 
Trump afirma que guerra no Irã pode estar perto do fim após avanço em negociações. Presidente dos Estados Unidos diz que acordo de paz está “largamente negociado”, enquanto autoridades iranianas falam em cessar-fogo amplo e reabertura do Estreito de Ormuz

O relógio corre em Teerã, os mercados observam em silêncio e o mundo tenta entender se, finalmente, a guerra no Irã começa a perder força. Na manhã deste domingo (24), uma sinalização inesperada partiu de Washington — e mexeu com a geopolítica internacional.

Segundo reportagem publicada pelo jornal The New York Times, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que um acordo para encerrar a guerra entre Irã, Israel e aliados “está próximo” e já teria sido “largamente negociado”.

A declaração foi feita por meio da rede Truth Social, onde Trump afirmou ter conversado com líderes árabes sobre um memorando “relacionado à PAZ”. O republicano disse ainda que os “aspectos finais e detalhes do acordo” seguem em discussão e devem ser anunciados em breve.

“Os aspectos finais e detalhes do acordo estão sendo discutidos neste momento e serão anunciados em breve”, escreveu Donald Trump.

Apesar do tom otimista da Casa Branca, ainda existe uma grande névoa sobre o conteúdo real do possível entendimento. Autoridades americanas e iranianas apresentaram versões diferentes sobre os pontos centrais das negociações.

De acordo com integrantes do governo dos EUA ouvidos pelo jornal norte-americano sob condição de anonimato, uma das exigências seria o abandono, por parte do Irã, de seus estoques de urânio altamente enriquecido — um dos principais focos de tensão da guerra.

Já autoridades iranianas disseram ao New York Times que o memorando não trata diretamente do programa nuclear do país neste momento. Segundo elas, essa discussão ficaria para uma nova rodada de negociações dentro de 30 a 60 dias.

Cessar-fogo amplo e reabertura de Ormuz

As fontes iranianas afirmam que Teerã concordou com uma proposta que prevê a interrupção dos combates em todas as frentes, incluindo os confrontos no Líbano, além da reabertura do estratégico Estreito de Ormuz — rota fundamental para o transporte global de petróleo e gás.

O estreito havia sido praticamente fechado desde os primeiros meses da guerra, provocando uma disparada internacional nos preços da energia e ampliando o temor de uma recessão global.

O possível acordo também incluiria o fim do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos ao Irã e a liberação de cerca de US$ 25 bilhões em ativos iranianos congelados no exterior.

Nos bastidores diplomáticos, líderes árabes e países de maioria muçulmana pressionaram Washington a aceitar o entendimento, temendo uma nova escalada militar no Oriente Médio.

Netanyahu e Hezbollah seguem como incógnitas

Trump também revelou ter conversado com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. O governo israelense, no entanto, ainda não comentou oficialmente o possível acordo.

Uma das principais dúvidas gira em torno do Hezbollah, grupo apoiado pelo Irã e envolvido em confrontos frequentes com Israel no Líbano. Não está claro se o entendimento proposto conseguiria encerrar também esses embates paralelos.

O cessar-fogo firmado no início de abril já havia reduzido a intensidade da guerra após mais de um mês de ataques contínuos. Ainda assim, episódios de tensão seguiram acontecendo nas últimas semanas, mantendo o cenário instável.

Agora, o que se desenha é uma tentativa de transformar uma trégua frágil em algo mais duradouro. Mas, no Oriente Médio, onde alianças mudam rapidamente e desconfianças históricas atravessam décadas, até mesmo anúncios de paz costumam ser recebidos com cautela.

Fonte: The New York Times

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Raízes Agroecológicas fortalece sementes crioulas e une comunidades do Nordeste em resposta às mudanças climáticas

Projeto trinacional apoiado pela União Europeia quer alcançar 5 mil famílias agricultoras no Brasil, Argentina e Paraguai, valorizando guardiãs e guardiões de sementes e ampliando corredores agroecológicos no Semiárido

 
Raízes Agroecológicas fortalece sementes crioulas e une comunidades do Nordeste em resposta às mudanças climáticas. Projeto trinacional apoiado pela União Europeia quer alcançar 5 mil famílias agricultoras no Brasil, Argentina e Paraguai, valorizando guardiãs e guardiões de sementes e ampliando corredores agroecológicos no Semiárido.
Oficina de implantação de corredor agroecológico na comunidade Dispensa, em Itabaianinha (SE), no âmbito do Projeto Raízes Agroecológicas (GP-SAEP) - Foto: © Saulo Coelho

Em meio ao avanço das mudanças climáticas e da pressão sobre a agricultura tradicional, comunidades rurais do Nordeste brasileiro estão transformando resistência em projeto de futuro. O Raízes Agroecológicas vem articulando agricultores, movimentos populares, pesquisadores e instituições públicas em torno de uma missão que mistura ciência, ancestralidade e soberania alimentar: proteger sementes crioulas e fortalecer sistemas agroecológicos capazes de manter o campo vivo.

Financiado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), com recursos da União Europeia em uma doação de 4 milhões de euros, o projeto é executado pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), com liderança técnica da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

De acordo com a Agência de Notícias das Nações Unidas, a iniciativa pretende alcançar 5 mil famílias agricultoras nos três países participantes — Brasil, Argentina e Paraguai. Só no território brasileiro, cerca de 2,6 mil famílias devem ser atendidas em 15 municípios da Bahia e de Sergipe, com possibilidade de expansão ao longo da implementação.

Guardiões da biodiversidade

Mais do que incentivar a produção agrícola, o projeto busca reconhecer o trabalho silencioso de guardiãs e guardiões de sementes crioulas, responsáveis por preservar variedades adaptadas às condições locais ao longo de gerações.

“A proposta conecta organizações da sociedade civil, instituições de pesquisa e comunidades rurais para fortalecer a conservação da agrobiodiversidade e ampliar a autonomia produtiva diante das mudanças climáticas.”

Em Sergipe, a implementação acontece por meio do Movimento Camponês Popular (MCP-SE) e da Associação de Camponesas e Camponeses do Estado de Sergipe (ACCESE). Já na Bahia, o trabalho reúne a Associação Regional de Convivência Apropriada ao Semiárido (ARCAS), o Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP) e o Movimento dos Pequenos Agricultores/Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa da Bahia (MPA/CPC).

Corredores agroecológicos ganham força

Uma das estratégias centrais do Raízes Agroecológicas é a implantação de corredores agroecológicos — espaços vivos de aprendizagem, experimentação e multiplicação de sementes crioulas.

Inicialmente, estão previstos 26 corredores na Bahia e 18 em Sergipe. Nessas áreas, os cultivos são organizados em faixas intercaladas que combinam alimentos como milho e feijão com plantas de adubação verde, entre elas crotalária juncea, feijão-de-porco e feijão guandu.

O sistema ajuda a recuperar a fertilidade do solo, melhora o manejo natural de pragas e fortalece a conservação ambiental. Bioinsumos produzidos pelas próprias famílias agricultoras também fazem parte da metodologia.

“Os corredores funcionarão como polos permanentes de observação e seleção genética, permitindo que agricultoras e agricultores recuperem sementes que vêm se perdendo ao longo do tempo.”

O trabalho está ligado ao chamado Melhoramento Genético Participativo descentralizado, desenvolvido pela Embrapa, permitindo que agricultores observem, selecionem e recuperem variedades mais resistentes às realidades locais.

Conhecimento construído coletivamente

Entre os dias 12 e 15 de maio, cerca de 50 participantes — entre agricultores, movimentos sociais, equipes técnicas e instituições públicas — participaram de oficinas em Aracaju, Itabaianinha e Riachão do Dantas, em Sergipe.

As atividades incluíram diagnósticos participativos da agrobiodiversidade, ferramenta que identifica espécies existentes, práticas tradicionais de manejo, variedades locais e prioridades definidas pelas próprias comunidades.

Pelo terceiro ano consecutivo, corredores agroecológicos foram implementados em Itabaianinha e Riachão do Dantas, consolidando espaços permanentes de observação e seleção genética conduzidos pelas próprias famílias agricultoras.

Agroindústria fortalece renda e alimentação

Um dos momentos mais simbólicos da programação foi a visita à agroindústria comunitária de flocão de milho crioulo do Movimento Camponês Popular, em Riachão do Dantas.

A estrutura, em fase final de implantação, integra produção, beneficiamento e comercialização do milho crioulo, fortalecendo canais como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e as feiras agroecológicas.

O projeto também apoia a futura Unidade de Beneficiamento de Sementes (UBS) crioulas, que ampliará o aproveitamento da produção, inclusive para fabricação de ração animal. O Raízes Agroecológicas contribui com maquinários e com a construção do galpão de beneficiamento.

Na prática, a experiência mostra como tecnologias adaptadas à agricultura familiar podem gerar renda, fortalecer territórios e ampliar o acesso da população a alimentos saudáveis — do campo à mesa.

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sábado, 23 de maio de 2026

ONU alerta para desaceleração global e impacto social da crise no Oriente Médio

Relatório das Nações Unidas aponta aumento da desigualdade, pressão sobre países endividados e risco de retrocesso nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030

 
Porto de Lagos, na Nigéria. Relatório da ONU aponta desaceleração do crescimento global em 2026, com previsão de PIB mundial em 2,5%, abaixo das estimativas anteriores e dos níveis pré-pandemia. Foto: © mtcurado/Getty Images Signature.

O mundo entrou em 2026 carregando um peso econômico maior do que o previsto. Em Nova Iorque, durante a apresentação do novo relatório da ONU sobre a situação da economia mundial, o clima foi menos de projeção otimista e mais de alerta silencioso. Entre gráficos, índices e previsões revisadas para baixo, o que emergiu foi um retrato inquietante: a economia global continua crescendo — mas cada vez mais devagar, mais desigual e mais vulnerável.

O documento divulgado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (DESA) mostra que os efeitos da crise no Oriente Médio já começam a atravessar fronteiras e contaminar cadeias produtivas, preços de energia, inflação e capacidade de reação dos governos.

“O aumento dos custos de empréstimos e a renovação das pressões de fluxo de capital arriscam aprofundar as vulnerabilidades da dívida e restringir os recursos disponíveis para o desenvolvimento sustentável em um momento crítico.”
— Li Junhua, subsecretário-geral de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU

A declaração foi feita durante a apresentação oficial do relatório “Situação e Perspectivas da Economia Mundial — Atualização de maio de 2026”, na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque.

O impacto mais severo aparece na Ásia Ocidental, especialmente no Oriente Médio. A região deve despencar de um crescimento de 3,6% em 2025 para apenas 1,4% em 2026. E não se trata apenas de petróleo mais caro. A ONU fala em infraestrutura destruída, interrupções na produção, comércio abalado e colapso parcial do turismo.

Crescimento desigual pelo planeta

Enquanto algumas economias conseguem absorver parte do impacto, outras enfrentam desaceleração mais dura.

Nos Estados Unidos, a expectativa ainda é de relativa estabilidade. A economia americana deve crescer cerca de 2% em 2026, sustentada pelo consumo interno e pelos investimentos contínuos em tecnologias avançadas, especialmente inteligência artificial.

Já a Europa enfrenta um cenário mais delicado. A forte dependência de energia importada pressiona famílias, empresas e governos. O crescimento da União Europeia deve cair de 1,5% para 1,1%, enquanto o Reino Unido pode desacelerar ainda mais, recuando de 1,4% para 0,7%.

Na China, o governo consegue amortecer parte da turbulência graças às reservas estratégicas e à diversificação da matriz energética. Ainda assim, o crescimento previsto cai de 5% para 4,6%.

A Índia segue entre as economias que mais crescem no mundo, com previsão de expansão de 6,4%. Mesmo assim, a desaceleração em relação aos 7,5% registrados em 2025 evidencia o peso dos custos maiores de energia e das condições financeiras mais rígidas.

Na África, a média continental mascara uma divisão profunda. Países exportadores de petróleo conseguem algum alívio com os preços elevados da energia. Já os importadores enfrentam inflação mais pesada, pressão fiscal crescente e dificuldade para manter programas sociais.

A América Latina e o Caribe aparecem como relativamente menos expostos ao choque direto, mas presos num crescimento baixo e persistente. A previsão é de desaceleração de 2,5% para 2,3%, limitada por investimentos fracos e pouco espaço para políticas públicas de reação.

O relatório afirma que os governos mais pressionados pela crise são justamente os que têm menor capacidade de proteger suas populações, devido ao aumento da dívida pública, à queda da ajuda internacional e ao encarecimento dos custos sociais.

A crise chega à mesa das famílias

O relatório insiste que os números frios não contam toda a história. Por trás das projeções econômicas, cresce também a insegurança alimentar, a pobreza e a desigualdade social.

Os preços mais altos de alimentos e energia atingem especialmente famílias de baixa renda, que passam a gastar uma parcela ainda maior da renda apenas para sobreviver. Em muitos países, os salários não acompanham a inflação, aprofundando a vulnerabilidade social.

A ONU também alerta para riscos ambientais importantes. O encarecimento persistente da energia pode estimular, no curto prazo, uma volta maior ao uso de combustíveis fósseis mais poluentes — justamente num momento em que o planeta tenta acelerar a transição energética.

Inteligência artificial e produtividade

Outro alerta importante aparece no campo da produtividade mundial. Segundo o relatório, o crescimento da produtividade global já vinha desacelerando desde a crise financeira internacional e agora enfrenta novos obstáculos: tensões geopolíticas, fragmentação econômica, restrições fiscais e redução dos fluxos comerciais.

A inteligência artificial surge no documento como uma ferramenta capaz de acelerar ganhos econômicos importantes — mas também como um fator de risco para aprofundar desigualdades, já que os benefícios tendem a se concentrar em poucos países com maior capacidade tecnológica.

No fim do relatório, a mensagem da ONU é clara: sem cooperação internacional consistente, abertura comercial e financiamento mais acessível para países vulneráveis, o mundo corre o risco de transformar uma crise regional em um ciclo prolongado de retrocessos sociais e econômicos.

O relatório completo “World Economic Situation and Prospects — Mid-2026 Update” pode ser consultado no portal oficial das Nações Unidas.

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Lula promete vetar disparos em massa nas eleições e alerta para avanço dos “robôs” na política

Em entrevista ao Sem Censura, presidente criticou minirreforma eleitoral aprovada na Câmara e disse que inteligência artificial não pode decidir o rumo da democracia brasileira

 
O presidente Lula deu entrevista ao Sem Censura na noite dessa sexta (22) - Tânia Rêgo/Agência Brasil

O estúdio da TV Brasil parecia mais silencioso que o habitual na noite desta sexta-feira (22). Em meio às luzes do programa Sem Censura, apresentado por Cissa Guimarães, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a tocar num tema que vem crescendo nos bastidores de Brasília — e também no centro das redes sociais: o poder dos algoritmos sobre a política.

Ao comentar a minirreforma eleitoral aprovada pela Câmara dos Deputados na última terça-feira (19), Lula afirmou que pretende vetar o trecho que autoriza o envio automatizado de mensagens em massa para eleitores previamente cadastrados. O texto ainda precisa passar pelo Senado.

O receio do Planalto

O ponto mais sensível da proposta aprovada pela Câmara permite que partidos e campanhas façam disparos automatizados de mensagens sem que isso seja considerado irregular, desde que os destinatários estejam cadastrados previamente.

Na prática, críticos da medida enxergam uma abertura maior para campanhas digitais massivas operadas por sistemas automatizados — especialmente em um cenário onde inteligência artificial, manipulação de conteúdo e disseminação acelerada de desinformação já fazem parte da disputa política global.

“As bancadas aprovaram uma coisa que vai fomentar o uso de robôs na eleição. Eu certamente vetarei. Primeiro, vou trabalhar para o Senado não aprovar, e depois eu vetarei.”

A declaração ocorreu durante entrevista especial na TV Brasil, emissora da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), com participação da influenciadora Nath Finanças, da jornalista Luciana Barreto e do criador de conteúdo Muka.

Lula afirmou que o avanço dessas ferramentas precisa encontrar limites.

“A inteligência artificial vale para muita coisa, mas ela não pode valer na disputa eleitoral para escolher um prefeito, um governador, um deputado.”

O presidente também disse enxergar um ambiente político mundial mais agressivo e emocionalmente fragmentado.

“O mundo tá diferente, nervoso, polarizado.”

Durante a conversa, Lula citou os Estados Unidos como exemplo do aprofundamento das divisões políticas e afirmou que os algoritmos das redes sociais passaram a influenciar diretamente a convivência humana.

“Eu não quero perder o humanismo que tem dentro do ser humano, porque estamos sendo vítimas dos algoritmos.”

Fundos eleitorais e “promiscuidade” política

Outro trecho que repercutiu em Brasília foi a crítica do presidente ao atual modelo de financiamento político.

Lula afirmou que mudou de posição sobre os fundos partidário e eleitoral após observar o crescimento do volume de recursos públicos controlados por parlamentares e partidos.

“Eu era favorável a fundo partidário, a fundo eleitoral, hoje eu sou contra, porque levou à promiscuidade na política.”

Segundo ele, o excesso de recursos públicos disponíveis através de emendas parlamentares também contribuiu para distorções dentro do sistema político.

“Um deputado hoje tem R$ 50 milhões, R$ 60 milhões de emendas por ano.”

Debate deve seguir no Senado

A minirreforma eleitoral foi aprovada em votação simbólica e sem registro nominal no painel da Câmara, movimento que acelerou a tramitação do texto e gerou reação de organizações da sociedade civil preocupadas com possíveis brechas para campanhas digitais menos transparentes.

Agora, o projeto segue para análise do Senado Federal. Nos bastidores do governo, a expectativa é tentar barrar o trecho ainda antes de eventual sanção presidencial.

Enquanto isso, o debate sobre inteligência artificial, manipulação algorítmica e os limites das campanhas digitais começa a ocupar um espaço cada vez maior no centro da política brasileira — e deve ganhar ainda mais força conforme as próximas eleições se aproximam.

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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Lula rejeita transição lenta para fim da escala 6x1: “É brincar de fazer redução”

Presidente defende corte imediato da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, e cobra posicionamento público do Congresso sobre a proposta

 
O presidente Lula, no programa Sem Censura, da noite desta sexta (22) - Tânia Rego/Agência Brasil 

BRASÍLIA — O debate sobre o fim da escala 6x1 entrou definitivamente no centro da política brasileira. E desta vez sem muito espaço para meias palavras. Em entrevista exibida nesta sexta-feira (22) no programa Sem Censura, da TV Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a possibilidade de uma transição longa para reduzir a jornada de trabalho no país.

Para Lula, a redução precisa acontecer de maneira direta: sair das atuais 44 horas semanais para 40 horas, sem redução salarial e sem um cronograma diluído ao longo de vários anos.

“Nós defendemos que a redução seja de uma vez, de 44 horas para 40 horas. E fim de papo, sem reduzir salário.”

A declaração acontece enquanto avança na Câmara dos Deputados a proposta de emenda constitucional que reduz a jornada semanal e extingue oficialmente a escala 6x1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias para descansar apenas um.

A PEC estabelece limite máximo de escala 5x2, garantindo ao menos dois dias de descanso semanal remunerado. O tema ganhou força nos últimos meses nas redes sociais, entre sindicatos e movimentos trabalhistas, transformando a discussão em uma das pautas mais populares do Congresso.

Nos bastidores de Brasília, porém, o cenário segue dividido. Parte do empresariado e parlamentares ligados ao mercado defendem uma adaptação gradual, alegando impactos econômicos e aumento de custos operacionais.

Lula demonstrou irritação com a ideia de uma redução “parcelada”.

“Não dá para aceitar ficar quatro anos para fazer, meia hora por ano, uma hora por ano. Aí é brincar de fazer redução.”

Segundo o presidente, haverá uma reunião no início da próxima semana com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e com o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, para avaliar o ambiente político da votação.

A comissão especial que analisa o texto adiou para segunda-feira (25) a apresentação do parecer do relator, deputado Leo Prates (Republicanos-BA). A expectativa é que a votação no colegiado aconteça na quarta-feira (27), com possível análise em plenário ainda antes do fim da semana.

Durante a entrevista, Lula afirmou ainda que os parlamentares contrários à proposta deveriam assumir publicamente essa posição diante da população.

“Vota contra quem quiser, mas vamos mostrar para o povo quem é quem nesse país.”

Para o presidente, a redução da jornada terá impacto direto não apenas no descanso dos trabalhadores, mas também na saúde física, mental e até no desempenho educacional da população.

“O dado concreto é que será um benefício para a saúde, para a educação.”

A entrevista também abordou outros temas do governo. Lula afirmou que a equipe econômica trabalha para conter abusos nos preços dos combustíveis, defendeu fiscalização rigorosa contra reajustes considerados excessivos e fez um apelo para que o Senado vote rapidamente a PEC da Segurança Pública.

O presidente ainda prometeu vetar o projeto de lei que autoriza disparos em massa de mensagens durante campanhas eleitorais. Assista a seguir a íntegra da entrevista com Lula.

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