Monitor do PIB mostra alta de 0,7% em maio, impulsionada principalmente pelos brasileiros que continuam consumindo, enquanto indústria e exportações começam a perder força
Foto: Rafa Nepomuceno/Agência |
Contrariando o discurso de narrativas falsas geradas pela polinização política da extrema direita, a economia brasileira voltou a ganhar ritmo em maio. Depois de um abril marcado por uma leve retração, a atividade econômica acelerou novamente e registrou crescimento de 0,7%. O dado, divulgado nesta segunda-feira (20) pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV), confirma que o mercado interno continua sustentando boa parte da expansão do país.
Mais do que um simples indicador estatístico, o resultado ajuda a contar uma história conhecida por milhões de brasileiros. Mesmo diante de juros elevados, crédito caro e um cenário internacional ainda incerto, as famílias continuam movimentando o comércio, contratando serviços e mantendo a economia em funcionamento.
Mas a fotografia completa mostra nuances importantes. Se, por um lado, o consumo segue forte, por outro começam a aparecer sinais de perda de fôlego em setores estratégicos da atividade econômica.
O brasileiro continua movimentando a economia
Segundo o Monitor do PIB, o consumo das famílias cresceu 3,3% no trimestre móvel encerrado em maio, alcançando o melhor desempenho desde o último trimestre de 2024.
Mais de 60% desse avanço veio dos setores de serviços e de bens duráveis, indicando que a demanda interna permanece aquecida. É o consumidor que continua mantendo lojas abertas, restaurantes cheios, viagens acontecendo e diversos segmentos da economia em atividade.
De acordo com entrevista da economista Juliana Trece, coordenadora da pesquisa, à EBC, esse foi o principal fator responsável pelo crescimento observado em maio.
Nem todos os motores estão funcionando
Apesar do resultado positivo, a FGV faz um alerta importante.
A agropecuária voltou a crescer depois de uma sequência de retrações, mas a indústria praticamente ficou estagnada, mostrando perda de dinamismo. O setor de serviços foi o único que apresentou desempenho mais consistente.
Na avaliação da instituição, essa concentração do crescimento em apenas um componente — o consumo das famílias — revela uma economia menos equilibrada do que aparenta à primeira vista.
Quando investimentos, indústria e exportações deixam de acompanhar esse movimento, o crescimento tende a perder intensidade ao longo do tempo.
Exportações desaceleram
As vendas brasileiras para o exterior continuaram crescendo, mas em velocidade menor.
O avanço foi de 4,3%, o menor desde o segundo trimestre de 2025. Segundo a FGV, essa desaceleração foi influenciada principalmente pela redução do ritmo das exportações da indústria extrativa mineral, um dos segmentos que mais vinha contribuindo para o desempenho externo do país.
Enquanto isso, as importações aumentaram 8,9%, registrando o terceiro trimestre móvel consecutivo de expansão.
Investimentos dão sinais de recuperação
Nem tudo, porém, inspira preocupação.
A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), indicador que mede os investimentos realizados em máquinas, equipamentos, construção e infraestrutura, apresentou crescimento de 2% no trimestre móvel. Foi a segunda alta consecutiva após quatro períodos seguidos de retração.
A taxa de investimento chegou a 18,6% do PIB em maio, a segunda maior registrada em 2026, atrás apenas de fevereiro.
Embora ainda distante do nível considerado ideal para acelerar o crescimento econômico de longo prazo, o resultado indica que empresas começam, lentamente, a recuperar parte da confiança para investir.
Um ano de crescimento moderado
O comportamento da economia ao longo de 2026 mostra um avanço gradual, ainda que sem grandes acelerações.
- Janeiro: 0,7%
- Fevereiro: 0,5%
- Março: 0%
- Abril: -0,1%
- Maio: 0,7%
No trimestre móvel encerrado em maio, a economia cresceu 1,9% em relação ao mesmo período do ano passado.
Já no acumulado de 12 meses, a expansão ficou em 1,7%. Embora positiva, ela mostra perda de intensidade. Em março, esse indicador era de 3%. Um ano antes, alcançava 3,8%.
É justamente essa desaceleração gradual que desperta a atenção dos economistas.
PIB oficial sai em setembro
O Monitor do PIB da FGV funciona como um importante termômetro da atividade econômica brasileira, antecipando tendências antes da divulgação oficial.
O resultado definitivo será apresentado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulgará o PIB do segundo trimestre de 2026 no próximo dia 1º de setembro.
Enquanto isso, as expectativas continuam relativamente otimistas. O mercado financeiro, segundo o Boletim Focus do Banco Central, projeta crescimento de 1,99% para a economia brasileira neste ano. Já o Ministério da Fazenda trabalha com uma estimativa mais elevada, de 2,3%.
Entre o otimismo e a cautela
Os números divulgados pela FGV reforçam uma percepção que vem se consolidando ao longo de 2026: a economia brasileira continua crescendo, mas em velocidade moderada.
O consumo das famílias segue sendo o grande sustentáculo dessa expansão, demonstrando resiliência mesmo em um ambiente de juros elevados. Ao mesmo tempo, indústria, exportações e parte dos investimentos ainda caminham em ritmo mais lento, limitando uma recuperação mais robusta.
O desafio dos próximos meses será justamente ampliar os motores desse crescimento. Se mais setores voltarem a ganhar força, a economia poderá entrar em uma trajetória mais consistente. Caso contrário, os sinais de desaceleração apontados pela FGV tendem a se tornar cada vez mais visíveis.
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