Nova área dez vezes maior deve garantir dignidade a famílias Avá-Guarani expulsas de suas terras desde a construção da usina
| Às terras destinadas aos índios - Anderson Gibathe/Itaipu Binacional |
O chão ainda é o mesmo Oeste do Paraná — terra vermelha, horizonte aberto, silêncio cortado pelo vento. Mas, para dezenas de famílias Avá-Guarani, algo muda de forma concreta: o espaço para existir começa, enfim, a se ampliar.
Com recursos da Itaipu Binacional, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) adquiriram uma nova área para reassentar a comunidade indígena na região Oeste do Paraná — um passo que carrega mais do que hectares: carrega décadas de atraso histórico.
Novo território, outro começo
A área, com 107 hectares, fica entre os municípios de São José das Palmeiras e Santa Helena, a cerca de 120 quilômetros de Foz do Iguaçu, na região da Tríplice Fronteira.
A antiga Fazenda América será rebatizada como Tekoha Pyahu — expressão que, na língua guarani, aponta para algo mais profundo do que um endereço: um lugar de vida.
O território é dez vezes maior do que o atual. Hoje, cerca de 27 famílias — aproximadamente 90 pessoas — vivem comprimidas em apenas 9 hectares, em uma área de proteção do reservatório da usina, com estrutura precária. A mudança deve ocorrer em até dois meses.
“A mudança será importante para nossa comunidade, especialmente para as crianças. Teremos um local adequado para viver, com escola, posto de saúde e outros direitos que vamos conquistar lá”, afirmou o cacique Dioner à EBC.
Reparação que chega tarde
O movimento faz parte de um acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em março de 2025, envolvendo, além da Itaipu, o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), a Funai, o Incra e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
O objetivo é direto: reparação histórica. Na década de 1970, durante a ditadura militar, a construção da usina e o represamento do rio Paraná alagaram territórios tradicionais dos Avá-Guarani. Comunidades inteiras foram deslocadas, sem garantia de direitos básicos.
“Trata-se de respeito, de reparação histórica e de promoção de condições de vida digna”, destacou o diretor-geral brasileiro da Itaipu, Enio Verri.
Meta ambiciosa, avanço gradual
O acordo prevê a aquisição de pelo menos 3 mil hectares, com investimento estimado em R$ 240 milhões. Até agora, mais de 700 hectares já foram adquiridos, com investimento de R$ 84,7 milhões. A área recém-comprada custou R$ 17,6 milhões.
Além da terra, o compromisso inclui restauração ambiental, acesso à água, energia e saneamento, além de serviços de saúde e educação. Também estão em andamento iniciativas de fortalecimento cultural, linguístico e produtivo das comunidades.
O que muda, de fato
Para quem olha de fora, são números — hectares, milhões, cronogramas. Para quem vive ali, é outra escala. É a possibilidade de plantar sem medo de remoção. De ver as crianças crescerem em espaço suficiente. De reconstruir, ainda que lentamente, uma relação interrompida com a terra.
O cacique Dioner resume com precisão desconfortável: o que está sendo feito agora é “o mínimo”. E talvez seja exatamente isso que torna a notícia relevante — não por grandiosa, mas por necessária.











