terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Ligações que não cessam: quando o telefone vira fonte de ansiedade para milhões de brasileiros

Telemarketing agressivo, cobranças automatizadas e golpes com números mascarados transformam um gesto simples — atender o telefone — em um momento de dúvida, interrupção e desgaste cotidiano

O telefone toca. Mais uma vez.

Quem está do outro lado já não é uma curiosidade — é uma incerteza. Pode ser silêncio, uma gravação, uma oferta insistente, uma cobrança repetida ou, pior, uma tentativa de golpe se alguém tentando se passar por  instituição bancária. Para milhões de brasileiros, essa sequência se repete todos os dias, atravessando trabalho, refeições, descanso e tempo em família. Uma verdadeira tortura.

O que antes era eventual tornou-se rotina. Há quem silencie o aparelho. Há quem atenda por obrigação. Existem os que vão bloqueando números à medida que as ligações vão chegando, mas parece que as operadoras se associaram a esse tipo de "serviço" que tira o sono, a vida particular, o trabalho e até causa problemas familiares para tanta gente no Brasil.

Relatórios de consumo, dados regulatórios e o volume crescente de reclamações mostram que o país convive com uma presença constante de chamadas indesejadas. Não se trata de um único fenômeno, mas de um ecossistema: telemarketing agressivo, pessoas que dizem representar escritórios de advocacia ou bancos, discadores automáticos, cobranças insistentes e operações fraudulentas que utilizam números mascarados.

No cotidiano, a diferença entre contato legítimo e perturbação deixou de ser clara para o cidadão comum. As ligações telefônicas indesejadas viraram território sem lei, sem regulamentação e ninguém parece dar a mínima. As pessoas simplesmente já não atendem mais ligações convencionais, pois reina a desconfiança onde deveria haver segurança.

Empresas podem ligar — isso é parte da dinâmica econômica. Mas quando a frequência se torna excessiva, quando o número muda a cada chamada e quando a identificação não existe, o telefone deixa de ser canal de comunicação e passa a ser fonte de desgaste mental ao ponto de gerar sofrimento emocional.

O cidadão e a cidadã se sentem impotentes perante esse rolo compressor de ligações em massa. É nesse ponto que a experiência individual se transforma em debate público.

Nos últimos anos, o problema passou a ser tratado de forma mais explícita pelo Estado. A atuação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) incluiu bloqueios de robocalls de curtíssima duração, regras de identificação para telemarketing — como o prefixo 0303 — e a implantação gradual de mecanismos técnicos para autenticação de chamadas. Mesmo assim as reclamações crescem de maneira assustadora e o desgaste emocional do povo parece está gerando até síndrome de tourette na população.

Quando as pessoas ficam impotentes fazem o quê? Começam a soltar impropérios e a xingar quem perturba. Autodefesa é um instinto humano. Mas por que o governo permite que isso continue quando a população sofre?

As medidas produziram efeito. Parte do telemarketing massivo formal diminuiu. Ainda assim, a sensação social de que “não para” permanece. É uma verdadeira violação da vida privada cidadã, um total desrespeito ao próximo. Um tiro no pé para as operadoras de telefonia móvel e fixa.

A explicação é estrutural. A tecnologia para disparar chamadas em massa é barata e escalável. Números podem ser trocados rapidamente. Chips descartáveis são comuns. A origem pode ser mascarada. Na prática, a inovação técnica avança mais rápido que a capacidade de controle, exigindo constante atualização.

Existe também uma zona cinzenta. Ligações classificadas como cobrança, relacionamento ou atualização cadastral nem sempre seguem as mesmas regras de identificação. Especialistas apontam que essa fronteira — legítima em alguns casos — também cria espaço para abordagens insistentes e para a confusão do consumidor no que hoje se trata da maioria dos casos de spam telefônico no Brasil.

No campo criminal, a resposta costuma chegar depois do dano. A polícia atua quando há fraude comprovada, mas a ligação insistente isoladamente tende a gerar responsabilização administrativa ou civil. Esse descompasso ajuda a explicar por que a percepção de impunidade se espalha. Fazendo com que pareça criminosa a pessoa que está sendo vítima dos perturbadores e não os próprios spammers, que parecem querer atravessar a linha tênue do stalking, crime de perseguição segundo o Código Penal.

No Congresso Nacional, o tema permanece em discussão. Propostas incluem autenticação obrigatória universal de chamadas, responsabilização mais clara de empresas e operadoras e endurecimento contra o uso de identificação falsa, ou não identificação. É um debate técnico, econômico e político — e, ao mesmo tempo, profundamente cotidiano, mas a Constituição Federal prevê que é livre a expressão do pensamento, sendo vedado o anonimato.

Porque, no fundo, a questão não é apenas regulatória. É humana. São seres humanos sendo perseguidos por robôs representantes de empresas que parecem transitar na obscuridade, no limbo do sistema jurídico e financeiro do país. Como se a telefonia 5G no Brasil tivesse sido implantada para se tornar um velho oeste, uma terra de ninguém.

Quando o telefone toca dez vezes por dia sem explicação, a interrupção não é só sonora. Ela afeta concentração, gera desconfiança e altera a relação das pessoas com uma ferramenta essencial da vida moderna. É perturbadora.

Colocar em xeque esse modelo não significa rejeitar a comunicação comercial. Significa perguntar quais limites tornam essa comunicação aceitável. Transparência, consentimento real, limites de frequência e autenticação técnica aparecem como caminhos possíveis — e urgentes.

Não adianta ver um site do governo federal que você se cadastra para não receber ligações mas mesmo assim continua a receber através de números apócrifos, de maneira muito semelhante com usada por spammers no disparo de e-mails em massa, sem optout, ou seja, sem escapatória.

Até que essas mudanças se consolidem, o país convive com um paradoxo silencioso: o telefone continua sendo um dos instrumentos mais importantes de conexão — e, ao mesmo tempo, uma das fontes mais persistentes de perturbação. Ano de eleição todo mundo sabe que é difícil surgir legislação que combata isso, então fica a pergunta: até quando vão abusar da nossa paciência?

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Emergência climática expõe tragédia em sequência no Brasil: chuvas extremas deixam mortos, desabrigados e cidades em colapso

Eventos extremos simultâneos em Minas Gerais e no litoral paulista reforçam que a crise climática deixou de ser alerta científico e passou a ser realidade cotidiana — com impactos humanos, sociais e econômicos imediatos

O Brasil amanheceu sob o peso de mais uma tragédia climática. Em diferentes regiões, chuvas intensas transformaram ruas em rios, casas em escombros e rotinas em incerteza. O saldo provisório é de mortes, centenas de desabrigados e cidades inteiras em estado de emergência — um retrato cada vez menos excepcional e mais recorrente do tempo em que vivemos.

Em Juiz de Fora e Ubá, na Zona da Mata mineira, o número de mortos chegou a 22 após temporais descritos como históricos. A Defesa Civil estima cerca de 440 pessoas fora de casa somente em Juiz de Fora, entre desabrigados e desalojados. Diante da magnitude dos danos, a prefeitura decretou calamidade pública e suspendeu as aulas em toda a rede municipal.

No estado de São Paulo, a sequência de eventos extremos também deixa marcas profundas. Em Natividade da Serra, um homem de 67 anos morreu após desaparecer durante a tempestade — o corpo foi localizado no dia seguinte. Com esse caso, o total de mortes associadas às chuvas no estado chega a 19.

Já no litoral, Peruíbe enfrenta um cenário descrito pelas autoridades como caótico. Mais de 300 pessoas estão desabrigadas após alagamentos e deslizamentos registrados nas últimas 24 horas, enquanto municípios vizinhos também relatam danos severos.

De acordo com a Agência Brasil, os balanços são provisórios e as equipes seguem em campo, em operações de resgate, assistência e avaliação de danos.

Uma emergência climática que deixou de ser previsão

Os eventos não são isolados. Eles se encaixam em um padrão cada vez mais evidente: chuvas mais intensas, concentradas e destrutivas.

O que antes era tratado como evento extremo passou a ocorrer com frequência. Cientistas apontam que o aquecimento global aumenta a capacidade da atmosfera de reter umidade, potencializando tempestades violentas — especialmente em países tropicais como o Brasil.

Na prática, isso significa mais enchentes repentinas, mais deslizamentos, mais perdas humanas e mais deslocamento forçado de famílias. A crise climática deixou de ser um tema ambiental abstrato. Ela é social, econômica e profundamente humana.

Carbono, decisões políticas e responsabilidade imediata

Os episódios reforçam a urgência de rever a liberação de carbono na atmosfera — principal motor do aquecimento global. O debate não é mais apenas sobre metas futuras, mas sobre decisões imediatas que moldam o presente.

Redução acelerada de emissões, transição energética real, proteção de florestas e planejamento urbano resiliente deixaram de ser agenda técnica para se tornar agenda de sobrevivência.

Sem isso, tragédias como as registradas entre ontem e hoje tendem a se tornar rotina.

Quando o clima extremo também atinge o campo

Além da devastação urbana, há uma camada menos visível que começa a aparecer nos dias seguintes: os prejuízos no campo.

Chuvas intensas provocam perda de lavouras por encharcamento, erosão do solo, interrupção de colheitas, danos a estradas rurais e aumento de custos para produtores. O impacto se espalha pela cadeia de alimentos e pode pressionar preços nos próximos meses.

O agronegócio brasileiro depende da previsibilidade climática. Quando o clima perde previsibilidade, o risco deixa de ser pontual e passa a ser estrutural — reforçando que a emergência climática também é econômica.

O Brasil na linha de frente

O Brasil está entre os países mais vulneráveis a eventos climáticos extremos, não apenas pela geografia, mas pela desigualdade urbana histórica. Áreas de risco, ocupação irregular e infraestrutura insuficiente transformam chuvas intensas em crises humanitárias.

O que se vê em Minas Gerais e no litoral paulista é um retrato ampliado do que pode se repetir em outras regiões.

A emergência climática já chegou — não como projeção científica, mas como experiência vivida por milhares de brasileiros.

A pergunta que permanece não é mais se o desastre virá, mas com que frequência e quão preparados estaremos quando ele chegar.

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Segurança pública: projeto mira dinheiro do crime e gera embate político

Deputado federal Zeca Dirceu alerta que mudanças no texto aprovado no Senado podem enfraquecer combate às facções ao reduzir confisco de bens e financiamento da investigação

Está em disputa, mais uma vez, a estratégia central do Brasil no enfrentamento ao crime organizado: seguir o dinheiro.

O deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR) fez um alerta público após a aprovação, no Senado, de um projeto de origem do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltado ao combate às facções criminosas. Para o parlamentar, a proposta representa uma mudança de lógica — menos foco apenas no aumento de penas e mais ênfase na asfixia financeira das organizações.

Segundo ele, o texto é “firme e moderno” justamente por atingir o que sustenta o crime organizado: sua estrutura econômica.

Cortar o dinheiro, não apenas aumentar penas

A proposta fortalece mecanismos de bloqueio e confisco do patrimônio acumulado por organizações criminosas, incluindo empresas de fachada e ativos financeiros.

Na avaliação de Zeca Dirceu, sem esse instrumento o Estado “enxuga gelo”, pois as facções continuam operando com capital, logística e capacidade de reinvestimento.

“O texto não aposta só em aumentar pena. Ele ataca o que realmente sustenta as facções criminosas: o dinheiro.”

O deputado argumenta que retirar ou suavizar o perdimento de bens significa manter intacta a engrenagem econômica do crime.

Recursos permanentes para a segurança

Outro eixo central do projeto é a criação de uma fonte contínua de financiamento para a segurança pública com recursos provenientes das apostas eletrônicas.

A medida prevê destinação de valores para inteligência, tecnologia, investigação e melhoria estrutural das forças de segurança — áreas historicamente apontadas como gargalos no combate ao crime organizado.

Na fala, o parlamentar destaca que sem investimento em rastreamento financeiro e estrutura investigativa, o combate ao crime se torna apenas retórico.

“Sem dinheiro para investigar, sem estrutura para rastrear movimentação financeira, o combate ao crime vira só discurso.”

Disputa política sobre mudanças no texto

Zeca Dirceu criticou tentativas de alterar pontos que considera centrais da proposta — especialmente o bloqueio de patrimônio e a destinação de recursos estruturantes.

Para ele, enfraquecer esses mecanismos pode produzir o efeito oposto ao desejado.

“Se enfraquecer o perdimento e retirar recursos estruturantes da segurança, quem ganha são as organizações criminosas.”

O deputado defende que o país precisa de uma legislação “eficaz, moderna e constitucionalmente segura” e afirma que o texto aprovado no Senado caminha nessa direção.

Segurança pública como estratégia de Estado

O debate revela uma tensão recorrente na política de segurança brasileira: endurecimento penal versus inteligência financeira.

A proposta reforça uma abordagem que vem ganhando espaço internacionalmente — tratar o crime organizado como um sistema econômico, e não apenas policial.

Na leitura do parlamentar, retroceder nesse ponto significa manter intacta a capacidade operacional das facções.

“Retroceder agora é facilitar a vida dos criminosos.”

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Artemis II e a cautela da ciência: a nova corrida espacial também é uma pauta ambiental

Retirada do foguete da plataforma revela o rigor técnico da missão que pode inaugurar uma nova era de exploração sustentável - afinal a Lei de Murphy foi criada pela NASA



Existe um momento raro na história em que o mundo volta a olhar para cima. Não por medo, não por tragédia, mas por futuro.

A missão Artemis II — primeira viagem tripulada ao redor da Lua desde a era Apollo — atravessa exatamente esse instante. E, paradoxalmente, é a cautela que aproxima o lançamento.

A NASA avalia retirar o foguete SLS (Space Launch System) da plataforma 39B para investigar um sistema de hélio da etapa superior. Não se trata de um atraso comum. Trata-se de procedimento. Em missões dessa magnitude, segurança não é detalhe — é condição de existência.

Espaço e meio ambiente: uma narrativa que começa a mudar

Durante décadas, a exploração espacial foi associada a alto impacto ambiental. A nova geração de foguetes começa a alterar essa percepção.

O SLS utiliza principalmente hidrogênio líquido e oxigênio líquido como propelentes. Quando queimados, produzem essencialmente vapor d’água. Isso não significa impacto zero — a cadeia industrial existe —, mas comparado às aeronaves comerciais e militares que cruzam diariamente os céus, a poluição é mínima.

O hélio não é combustível. É um gás inerte utilizado para pressurização e segurança dos tanques.

Lua, mineração e a promessa de menos pressão sobre a Terra

A exploração lunar não é apenas simbólica. É estratégica. A presença humana na Lua pode abrir caminho para o acesso a minerais raros — elementos essenciais para baterias, eletrônica e tecnologias de energia limpa. O debate ainda é científico, regulatório e ético, mas a lógica é clara: reduzir parte da pressão extrativa sobre ecossistemas terrestres.

Entre minerais raros a Lua possui elementos como tântalo, nióbio, zircônio, berílio e urânio. Em 2020 a China descobriu um novo mineral no lado oculto do nosso satélite natural, o Changesite-(Y). Sua utilização potencial - ainda teórica - está no fato de conter hélio-3, um isótopo raro que pode ser usado como combustível para fusão nuclear limpa.

Para ser comprovada, a teoria depende ainda de avanços em tecnologia de mineração lunar e fusão nuclear, mas desperta interesse para futuras tecnologias de energia sustentável. Mas, ao menos por enquanto ainda é coisa de ficção científica.

Não existe planeta B.

Mesmo que nas próximas décadas surjam colônias humanas fora da Terra, a casa comum continua sendo aqui. A exploração espacial, nesse contexto, deixa de ser fuga e passa a ser ferramenta de preservação.

Tal qual no renascentismo surgiram as grandes navegações, em busca de especiarias, hoje o Sistema Solar começa a ser visto como fonte de vários materiais utilizados na Terra. A presença de água, em estado sólido na Lua, também favorece o estabelecimento de bases lunares.

Cautela extrema: quando a engenharia precisa dizer esperar

O possível retorno do foguete ao edifício de montagem não frustra a missão — protege. A história da exploração espacial é construída sobre uma regra silenciosa: nenhuma falha é pequena demais para ser ignorada.

A cultura de engenharia consagrou uma ideia conhecida como Lei de Murphy — se algo puder dar errado, eventualmente dará. Em missões tripuladas, essa premissa não é pessimismo. É método.

Por isso a NASA desacelera. Porque acelerar sem certeza nunca foi ciência. Foi risco. E a missão Artemis é grande demais para depender de sorte. Se ocorreram um acidente, a gigante estatal norte-americana pode levar anos até construir e lançar outra nave, pois novamente teremos a carga mais preciosa que já enviamos à Lua. Seres humanos.

A nova renascença e as grandes navegações do espaço

Se o Renascimento levou a humanidade aos oceanos, esta nova renascença aponta para o espaço. As grandes navegações transformaram mapas, economia, ciência e cultura. A exploração espacial possui potencial semelhante. Talvez maior.

Há algo profundamente humano nisso: a necessidade de olhar além do cotidiano. Depois de décadas, o mundo pode voltar a parar para olhar para o céu — não para escapar da realidade, mas para abrir novos horizontes.

Olhar para cima sempre foi um gesto de curiosidade. Agora volta a ser também um gesto de responsabilidade, com a ciência e a evolução da humanidade. O céu já não é mais o limite. É a direção de um futuro que já começou.

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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Brasil e Índia firmam acordos estratégicos em saúde, tecnologia e minerais críticos

Parcerias assinadas por Luiz Inácio Lula da Silva e Narendra Modi ampliam cooperação, garantem medicamentos contra o câncer no SUS e reforçam uma agenda de soberania produtiva, desenvolvimento tecnológico e integração entre Sul Global

Foto: Ricardo Stuckert/PR

A viagem presidencial de Lula e da primeira-dama Janja à Índia não foi apenas simbólica nem restrita ao debate sobre inteligência artificial (IA). Nos bastidores — e também nas reuniões e atos oficiais — o que se viu foi a construção de uma agenda concreta, com impacto direto na vida das pessoas.

Entre reuniões diplomáticas, fóruns empresariais e encontros bilaterais, Brasil e Índia assinaram acordos que atravessam saúde pública, indústria farmacêutica, tecnologia e minerais estratégicos. É uma agenda que fala menos de promessas e mais de capacidade produtiva — um tema central quando o assunto é autonomia nacional.

Medicamentos contra o câncer: produção nacional e acesso no SUS

O ponto mais sensível — e talvez o mais transformador — foi a assinatura de três Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo que garantem a oferta de medicamentos oncológicos utilizados no tratamento de câncer de mama, pele e leucemias.

O investimento previsto é de R$ 722 milhões já no primeiro ano. Em dez anos, a projeção chega a R$ 10 bilhões.

Mas o dado mais relevante não está apenas no volume financeiro. Os acordos preveem transferência de tecnologia e produção no Brasil — um movimento que reduz dependência externa, dá estabilidade ao abastecimento e amplia o acesso a terapias de alta complexidade no SUS.

Na prática, isso significa algo simples e profundo: menos incerteza para pacientes e mais segurança para o sistema público de saúde do povo brasileiro.

A cooperação inclui ainda vacinas, biofabricação, biológicos, saúde digital, telessaúde e inteligência artificial aplicada ao setor — áreas que definem o futuro da saúde pública no mundo.

Ciência, regulação e soberania sanitária

Os acordos também avançam em um campo menos visível, mas decisivo: a infraestrutura científica e regulatória.

Memorandos assinados ampliam a troca de informações sobre medicamentos, dispositivos médicos e processos regulatórios, além de abrir espaço para pesquisa, desenvolvimento e produção de medicamentos estratégicos.

Trata-se de fortalecer a engrenagem que sustenta o SUS — da pesquisa ao acesso — e não apenas a etapa final do tratamento.

Para o governo brasileiro, a cooperação com a Índia consolida uma parceria histórica na defesa do acesso a medicamentos, especialmente genéricos, e no fortalecimento da soberania em saúde pública.

Minerais críticos e terras raras: tecnologia e geopolítica

Outro eixo central da missão envolve minerais críticos e terras raras — insumos essenciais para transição energética, indústria tecnológica, defesa, logística e cadeias globais de suprimento.

O acordo firmado entre os dois países busca construir cadeias produtivas mais resilientes e menos dependentes de poucos fornecedores globais.

O Brasil possui uma posição estratégica nesse cenário, com uma das maiores reservas mundiais desses recursos. A aproximação com a Índia amplia possibilidades de investimento, cooperação industrial e desenvolvimento tecnológico bilateral.

Mais do que exportar recursos, a discussão passa a incluir processamento, inovação e agregação de valor — um debate antigo da política industrial brasileira que volta ao centro da agenda.

Parceria que vai além do comércio

A Índia já figura entre os principais parceiros comerciais do Brasil na Ásia, especialmente no setor farmacêutico. Em 2024, as importações de fármacos vindos do país asiático chegaram a US$ 7,3 bilhões.

Agora, o movimento sinaliza uma nova etapa: sair da lógica de dependência para uma lógica de coprodução, como exige o multilateralismo que é o maior propulsor do progresso das nações.

A ampliação do acordo entre Mercosul e Índia aparece como prioridade estratégica e pode redefinir fluxos comerciais, investimentos e inovação nos próximos anos.

Multilateralismo

Há viagens diplomáticas que produzem imagens, ou cenas de isolamento em um país que já quase foi considerado pátria paria. Outras, como estamos observando, produzem estruturas erigidas sobre alicerces sólidos.

Os acordos firmados na Índia indicam um esforço para reconstruir capacidade produtiva — na saúde, na indústria e na tecnologia — a partir de parcerias entre países do Sul Global.

Quando medicamentos passam a ser produzidos no país, quando minerais deixam de ser apenas exportados e quando ciência atrelada à inteligência entra na equação econômica, o debate deixa de ser técnico e se torna político no sentido mais amplo da palavra: o direito de decidir o próprio futuro.

É nesse ponto que a missão presidencial ganha dimensão real. Não como evento, mas como direção. O Brasil dos últimos 3 anos deixou de fazer apenas jogo de cena para se tornar um grande player num mundo que ao nosso ver caminha finalmente em direção à paz, construindo mais pontes, ao invés de muros e barreiras. Se os Estados Unidos caminham no viés do unilateralismo, o Brasil abraça todas as nações com o multilateralismo.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Greve na Brose expõe denúncia de violação do direito de greve e prisão de dirigente sindical na Grande Curitiba

Paralisação iniciada em janeiro segue em fevereiro na multinacional alemã em São José dos Pinhais; sindicato denuncia práticas antissindicais e repressão, enquanto PM afirma ter garantido direito ao trabalho e à manifestação

Na porta da fábrica, barracas, faixas e trabalhadores que insistem em permanecer. A greve na Brose do Brasil, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), entrou na terceira semana e transformou um conflito trabalhista em debate sobre direitos constitucionais.

Organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC), o movimento começou em 28 de janeiro de 2026 e segue mobilizado em fevereiro, com trabalhadores reivindicando um Acordo Coletivo de Trabalho (ACT-2026) que contemple reajuste salarial com aumento real, melhoria no vale-mercado e implantação de plano de carreira.

O envio de um relato por liderança sindical no dia 19 de fevereiro reforça que a paralisação continua, com trabalhadores acampados e cobrança por negociação direta com a empresa.

Multinacional estratégica, conflito local

A unidade brasileira integra a cadeia global da multinacional alemã Brose Group, fornecedora de sistemas mecatrônicos para a indústria automotiva mundial.

Segundo dados institucionais, a empresa está presente em dezenas de países, emprega cerca de 31 mil trabalhadores e possui produtos em aproximadamente um terço dos veículos novos no mundo, com faturamento anual na casa dos bilhões de euros - em 2024 a Brose faturou 7,7 bilhões.

No Paraná, a operação funciona como fornecedora direta de montadoras, o que torna qualquer paralisação sensível para a cadeia produtiva regional.

Reivindicações e impasse

O sindicato afirma que a greve foi deflagrada após impasse nas negociações do ACT. Entre as reivindicações estão reajuste salarial com ganho real, melhoria do vale-mercado — citado anteriormente em torno de R$ 500 —, implantação de plano de carreira e denúncias de assédio moral.

Também há críticas à escolta de ônibus e ao clima de pressão interna. De acordo com a entidade, outras empresas da região firmaram acordos recentes, enquanto a Brose teria resistido a negociar pontos específicos.

Relatos sindicais sustentam ainda que, durante a paralisação, a empresa teria mantido contratações, o que é apontado como possível prática antissindical — interpretação que pode ser objeto de análise judicial.

Prisão de dirigente e versão do sindicato

O episódio mais sensível ocorreu em 4 de fevereiro, quando um protesto em frente à fábrica terminou com a detenção do vice-presidente do sindicato, Nelson Silva de Souza, conhecido como “Nelsão da Força”.

A entidade classificou a ação como truculenta e denunciou repressão ao movimento, afirmando que a prisão ocorreu no contexto de uma mobilização legítima.

O relato enviado à reportagem indica que trabalhadores permanecem mobilizados, cobrando diálogo e denunciando recusa da empresa em participar de mediações institucionais. Segundo denuncia dos trabalhadores a empresa está demitindo e voltou a contratar durante o periodo greve, numa ameaça clara ao direito de greve - artigo 9º da Constituição Federal de 1988.

A versão da Polícia Militar

Em nota, a Polícia Militar do Paraná informou que foi acionada para atender ocorrência relacionada à manifestação sindical em frente à empresa.

Segundo a corporação, havia concentração de manifestantes na entrada da unidade, o que teria restringido o acesso de trabalhadores às dependências da fábrica. A PM afirma que buscou garantir simultaneamente o direito constitucional ao trabalho e o direito de greve, oferecendo inclusive escolta para quem desejasse entrar.

A polícia declarou que o dirigente detido teria desacatado a equipe e desobedecido orientação para liberação da entrada, sendo preso por suspeita de desacato, atentado contra a liberdade de trabalho e resistência. A corporação afirma que o uso da força ocorreu de forma seletiva e proporcional para encaminhamento à delegacia.

Por sua vez Nelsão está denunciando abuso de autoridade, violência, coação, cerceamento do direito de greve e possível aparelhamento do Estado em proteção de uma empresa privada.

Direito de greve e disputa jurídica

O direito de greve é garantido pela Constituição Federal e estabelece que cabe aos trabalhadores decidir quando exercê-lo e quais interesses defender.

Especialistas apontam que conflitos como este costumam girar em torno de dois eixos: possível prática antissindical por parte da empresa e limites da atuação estatal em manifestações trabalhistas.

Quando há alegação de violação, o caso pode envolver atuação do Ministério Público do Trabalho e da Justiça do Trabalho, com possibilidade de liminares, multas ou reparações. Também há limites legais: a greve não pode envolver violência, e a Justiça pode declarar abusividade em determinadas circunstâncias, o que não parece ser o caso.

Até onde nos consta, a greve que ocorre na Boese do Brasil é perfeitamente legítima, bem como as demandas dos trabalhadores e a atuação sindical.

Greve prolongada e impacto regional

Greves em empresas sistemistas — fornecedoras diretas de montadoras — tendem a ganhar relevância econômica rapidamente, pois afetam o ritmo de produção da cadeia automotiva.

Na RMC, polo industrial estratégico, conflitos desse tipo costumam ter repercussão política, sindical e econômica. Mais de três semanas após o início da paralisação, o cenário descrito é de impasse. A empresa mantém um silêncio ensurdecedor por conta de seu grande poder econômico, industrial e político.

O que diz a empresa

Até o momento, a Brose do Brasil não publicou nota oficial detalhando sua posição sobre a greve iniciada em 28 de janeiro de 2026 na unidade de São José dos Pinhais.

Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, a empresa tem se recusado a negociar pontos centrais do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT-2026), que incluem reajuste salarial, melhoria no vale-mercado — citado em cerca de R$ 500 — e implantação de plano de carreira.

Relatos sindicais e cobertura local indicam que, durante a paralisação, a empresa teria solicitado apoio policial para garantir o acesso de trabalhadores e ônibus à unidade, cenário que antecedeu o episódio que resultou na detenção a força do vice-presidente do SMC, no último dia 4.

Entidades sindicais também acusam a empresa de adotar práticas consideradas antissindicais, como escolta de ônibus, pressão interna e dificuldades para realização de assembleias na porta da fábrica — alegações que podem ser objeto de análise na esfera trabalhista.

A paralisação ocorre em meio à reivindicação pelo fechamento do ACT 2026. Trabalhadores apontam defasagem salarial — com remunerações mencionadas em torno de R$ 2,5 mil — e ausência de plano de carreira como fatores centrais do impasse.

A reportagem permanece aberta para manifestação da empresa.

Entre o portão e a negociação

Na prática, a cena ainda é a mesma: trabalhadores mobilizados, direção sindical pressionando por diálogo e uma multinacional inserida numa disputa que ultrapassa salários e entra no campo dos direitos.

O desfecho da greve — e a interpretação jurídica dos episódios — deve definir não apenas o ACT da empresa, mas também o tom das relações de trabalho em um dos principais polos automotivos do país.

Artemis II avança após teste decisivo e reacende expectativa por nova viagem humana à Lua

Ensaio completo de abastecimento do foguete SLS confere aval técnico à missão Artemis e marca início da fase final antes do lançamento da cápsula espacial rumo à Lua

De pé na plataforma, o foguete não é apenas tecnologia. É promessa. É memória. É futuro.

O ensaio geral de abastecimento da missão Artemis II — etapa conhecida como wet dress rehearsal — foi concluído com sucesso no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, e coloca a humanidade mais perto de retomar voos tripulados rumo à Lua.

Mais de 700 mil galões de propelente criogênico foram carregados no SLS (Space Launch System), enquanto equipes simularam as etapas finais da contagem regressiva. O procedimento incluiu o fechamento das escotilhas da cápsula Orion e duas execuções completas da fase terminal da contagem, momento crítico que antecede qualquer lançamento real.

Na prática, não foi apenas um teste técnico. Foi a confirmação de que a missão está madura — e pronta para dar o próximo passo.

O teste mais sensível

Um dos pontos de maior atenção era o abastecimento com hidrogênio líquido, que havia provocado desafios em campanhas anteriores. Desta vez, os níveis de concentração de gás permaneceram dentro dos limites de segurança, reforçando a confiança nos novos selos instalados no sistema de abastecimento.

Durante a operação, houve uma perda temporária de comunicação no Centro de Controle de Lançamento. Equipes migraram para sistemas de backup e mantiveram o carregamento com segurança até a normalização dos canais. O equipamento responsável já foi identificado e isolado.

Na exploração espacial, pequenos eventos são tratados com seriedade absoluta. Cada teste bem-sucedido reduz incertezas — e aproxima o momento do lançamento.

Quatro astronautas e um significado maior

A Artemis II levará quatro astronautas para uma viagem ao redor da Lua e de volta à Terra — a primeira missão tripulada do programa.

  • Reid Wiseman (comandante)
  • Victor Glover (piloto)
  • Christina Koch (especialista de missão)
  • Jeremy Hansen (especialista de missão da Agência Espacial Canadense)

Eles acompanharam parte do ensaio diretamente do Centro de Controle da Missão. É um detalhe simbólico: quem irá voar começa a ver, em tempo real, a missão deixar o papel e ganhar forma.

Não é apenas uma tripulação. É uma narrativa de cooperação internacional, diversidade e continuidade histórica.

O silêncio antes do lançamento

Enquanto engenheiros analisam os dados do teste, a tripulação inicia outro ritual clássico da exploração espacial: a quarentena pré-lançamento, em Houston.

A agência espacial ainda não definiu uma data oficial, mas o início do isolamento — cerca de 14 dias — preserva a flexibilidade da janela de lançamento prevista para março.

Esse período costuma ser silencioso para o público, mas é intenso para as equipes. Ajustes finais, revisões e decisões estratégicas acontecem longe das câmeras.

Lições que encurtam caminhos

Nos próximos dias, técnicos instalarão plataformas de acesso temporárias para alcançar partes superiores do foguete e realizar testes no sistema de segurança de terminação de voo.

A novidade é resultado direto das lições aprendidas na Artemis I: agora é possível realizar testes completos na própria plataforma, sem necessidade de retornar o foguete ao prédio de montagem.

Menos deslocamento. Menos tempo. Mais eficiência.

Na exploração espacial, avanços muitas vezes acontecem assim — discretos, técnicos e profundamente estratégicos.

Mais que uma missão lunar

O programa Artemis representa um ciclo mais amplo: o retorno sustentável à Lua e a preparação para missões humanas a Marte.

O ensaio concluído não é o lançamento, mas é o momento em que a expectativa se torna concreta. Quando a engenharia confirma o que a imaginação já vinha desenhando.

Se tudo seguir como planejado, a Artemis II marcará um novo capítulo da presença humana no espaço profundo — não como repetição do passado, mas como continuação.

Porque toda grande viagem começa antes da decolagem. Começa quando a humanidade decide que ainda vale a pena ir mais longe.

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Lula defende governança global da IA sob liderança da ONU em cúpula na Índia

Em Nova Délhi, presidente alerta para riscos democráticos, disputa geopolítica e necessidade de regras multilaterais para a inteligência artificial

Em Nova Délhi, presidente Lula alerta para riscos democráticos, disputa geopolítica e necessidade de regras multilaterais para a inteligência artificial
Foto: Ricardo Stuckert/PR - Legendas: Sulpost

Na capital da Índia, Nova Délhi, o debate sobre o futuro da inteligência artificial deixou de ser apenas tecnológico — tornou-se político, econômico e civilizatório. Foi nesse cenário que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, nesta quinta-feira (19), um modelo de governança global da inteligência artificial liderado pela Organização das Nações Unidas (ONU).

O posicionamento foi apresentado durante a Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial — encontro internacional que reúne chefes de Estado, executivos do setor tecnológico e organismos multilaterais para discutir segurança, regulação e desenvolvimento da IA.

A Agência Brasil, informou hoje pela manhã que ao discursar, Lula situou a tecnologia no centro de uma transformação histórica.

“A Quarta Revolução Industrial avança rapidamente enquanto o multilateralismo recua perigosamente. É nesse contexto que a governança global da inteligência artificial assume um papel estratégico.”

Para o presidente, toda inovação tecnológica de grande impacto possui caráter dual — capaz de gerar benefícios coletivos, mas também riscos éticos, políticos e sociais.

ONU no centro das regras globais

Durante a fala, Lula citou iniciativas internacionais já em curso, como a proposta chinesa de uma organização internacional de cooperação em IA voltada a países em desenvolvimento e a Parceria Global em Inteligência Artificial criada no âmbito do G7.

Mas reforçou que nenhum desses fóruns substitui a legitimidade universal da ONU.

“Nenhum desses foros substitui a universalidade das Nações Unidas para uma governança internacional da inteligência artificial que seja multilateral, inclusiva e orientada ao desenvolvimento.”

A posição brasileira acompanha uma linha crescente no Sul Global: evitar que a arquitetura da IA seja definida apenas por grandes empresas ou por um pequeno grupo de países.

Benefícios, riscos e democracia

O presidente reconheceu que a revolução digital e a inteligência artificial já ampliam produtividade industrial, serviços públicos, medicina e segurança alimentar e energética. Ao mesmo tempo, alertou para impactos sociais sensíveis.

Entre eles, a amplificação de discursos de ódio, desinformação e violência de gênero, além do risco direto aos processos eleitorais.

“Conteúdos falsos manipulados por inteligência artificial distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia. Os algoritmos não são apenas aplicações de códigos matemáticos que sustentam o mundo digital.”

Segundo Lula, a governança global precisa reconhecer diferentes trajetórias nacionais e garantir que a tecnologia fortaleça democracia, soberania e coesão social.

O peso geopolítico do debate

A cúpula realizada na Índia integra o chamado Processo de Bletchley — série de reuniões intergovernamentais iniciada em 2023 no Reino Unido para discutir segurança e governança da inteligência artificial.

Mais do que um encontro técnico, trata-se de uma disputa sobre quem define as regras do futuro digital.

A participação brasileira ocorre em um momento de expansão da cooperação tecnológica entre países emergentes e de busca por uma arquitetura internacional menos concentrada nas big techs e nas potências tradicionais.

O que está em jogo para o Brasil

Nos bastidores, a agenda da visita inclui cooperação digital, minerais críticos, ampliação de comércio e parcerias tecnológicas entre Brasil e Índia — sinalizando que a governança da IA não é apenas regulação, mas também economia e desenvolvimento.

Para o Brasil, o debate conecta soberania tecnológica, infraestrutura digital e o papel estratégico da energia limpa na nova economia dos dados.

Datacenters, computação em nuvem e modelos de inteligência artificial demandam enorme consumo energético — o que coloca o país em posição potencialmente relevante no cenário global.

Uma disputa sobre o futuro

O discurso brasileiro parte de uma premissa clara: a inteligência artificial definirá não apenas mercados, mas relações de poder.

Quem controla dados, algoritmos e infraestrutura tecnológica influencia economia, informação e democracia.

Ao defender regras multilaterais sob liderança da ONU, o Brasil tenta posicionar o debate fora de uma lógica exclusivamente corporativa e dentro de uma governança global.

Em outras palavras, a discussão sobre inteligência artificial já não é sobre tecnologia — é sobre projeto de mundo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Marinha mobiliza o Navio Oceanográfico Antares na costa norte e reforça soberania científica na Amazônia Azul

Em 75 estações distribuídas entre Maranhão, Pará e Amapá, embarcação coleta dados estratégicos do mar que impactam a segurança energética, a ciência e o futuro do Brasil

Em 75 estações distribuídas entre Maranhão, Pará e Amapá, embarcação coleta dados estratégicos do mar que impactam a segurança energética, a ciência e o futuro do Brasil

Enquanto o Brasil acorda, trabalha e segue sua rotina em terra firme, há um movimento silencioso acontecendo no mar. Longe das câmeras e do barulho político, o Navio Oceanográfico Antares, da Marinha do Brasil, cumpre uma missão estratégica na costa norte do país — uma missão que não produz manchetes sensacionalistas, mas produz futuro.

A embarcação está posicionada na margem equatorial brasileira coletando dados físicos do oceano em 75 estações distribuídas ao longo do litoral do Maranhão, Pará e Amapá. Não é apenas uma operação técnica. É ciência aplicada à soberania nacional.

São medições de temperatura, salinidade, correntes marítimas e variáveis ambientais que, analisadas em conjunto, ajudam o Brasil a compreender melhor o comportamento do Atlântico sob sua jurisdição. E compreender. É proteger. É decidir com responsabilidade. É tomar decisões e aplicar recursos com sabedoria.

Ciência que antecipa riscos e constrói segurança

A missão integra o projeto Rede de Modelagem e Observação Oceanográfica (REMO), fruto de uma parceria entre a Marinha, a Petrobras e a Fundação Nacional de Pesquisa. A iniciativa fortalece a capacidade nacional de produzir modelos oceanográficos cada vez mais precisos.

Esses dados serão assimilados por sistemas de modelagem que permitem prever dinâmicas do mar com maior confiabilidade. Isso impacta diretamente:

  • A segurança das operações de exploração de petróleo e gás;
  • O planejamento logístico marítimo;
  • A prevenção de acidentes ambientais;
  • O avanço das pesquisas científicas sobre o litoral brasileiro.

Num país que depende do mar para energia, comércio e biodiversidade, informação qualificada não é luxo. É necessidade estratégica.

A Amazônia Azul como horizonte

Quando a Marinha fala em Amazônia Azul, fala de uma imensidão marítima que guarda riquezas naturais, biodiversidade única e reservas energéticas decisivas para o desenvolvimento nacional. A margem equatorial, onde o Antares atua neste momento, é uma das regiões mais sensíveis e debatidas do país.

Antes de qualquer decisão de grande impacto econômico ou ambiental, é preciso conhecer profundamente o ambiente marinho. E conhecer exige método, paciência e presença constante.

Cada estação de coleta é um ponto no mapa da soberania brasileira. E com isso não se brinca.

Presença que afirma o país

O projeto REMO demonstra que a pesquisa oceanográfica brasileira não é improviso — é política de Estado. É planejamento de longo prazo. Sai do discurso e parte para a ação.

Em tempos de polarização acelerada e discursos superficiais, há algo profundamente simbólico no trabalho do Antares: ele opera sem ruído, mas com impacto duradouro. O oceano não responde a pressões ideológicas. Ele responde a dados, ciência e responsabilidade. Fatores imprescindíveis para o desenvolvimento saudável da nação.

Hoje, enquanto muitos discutem o Brasil nas redes, o Brasil está sendo medido, estudado e compreendido em nossa faixa costeira e mar territorial do Atlântico Norte. O mundo inteiro está nos observando e está interessado em vir fazer negócios com o Brasil. E entender o mar é entender o nosso próprio país.

Cada dado coletado na margem equatorial é um gesto silencioso de construção nacional — um passo firme rumo à segurança energética, ao avanço científico e à afirmação da nossa soberania. Podemos mostrar ao mundo que exploramos as nossas reservas energéticas com segurança, sem ameaçar a biodiversidade maninha e o futuro da vida no planeta Terra.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Energia que flutua: tubos “insubmersíveis” podem transformar o oceano em usina limpa

Tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos reacende debate sobre o potencial das ondas e marés, enquanto pesquisas brasileiras avançam na geração elétrica a partir do mar

Tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos reacende debate sobre o potencial das ondas e marés, enquanto pesquisas brasileiras avançam na geração elétrica a partir do mar

O oceano sempre esteve ali — vasto, misterioso, vivo e fascinante. Durante milenios foi rota de comércio, fonte de alimento, fronteira de descobertas. Agora, volta ao centro das atenções como promessa energética. Em um mundo pressionado pela emergência climática e pela necessidade urgente de transição para fontes limpas, o mar pode deixar de ser apenas paisagem para se tornar potência energética.

Pesquisadores da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, desenvolveram tubos de alumínio capazes de flutuar indefinidamente, mesmo sob condições extremas. A ideia é simples na aparência, mas sofisticada na essência: estruturas microscópicas gravadas na superfície do metal impedem que a água penetre, aprisionando bolhas de ar no interior. O resultado é um material praticamente “insubmersível”.

De acordo com o The New York Times, os tubos permanecem flutuando mesmo quando perfurados ou submetidos à água salgada e ambientes com algas. A técnica explora a chamada superhidrofobicidade — a extrema repelência à água — fenômeno inspirado na natureza, como nos pelos das aranhas mergulhadoras e nos exoesqueletos de formigas capazes de sobreviver a enchentes, formando verdadeiras jangadas vivas.

O oceano como usina do futuro

A proposta dos cientistas é emparelhar esses tubos sobre a superfície marinha, criando plataformas resistentes e capazes de capturar a energia das ondulações. Diferentemente dos painéis solares ou das turbinas eólicas, que dependem da incidência dos raios do sol ou da constância dos ventos, o mar oferece um movimento com ritmo permanente e previsível.

O Brasil, com mais de 7.400 quilômetros de litoral, não está fora dessa equação. Pesquisadores da COPPE/UFRJ desenvolvem há anos estudos sobre conversão de energia das ondas em eletricidade. Um dos projetos pioneiros foi instalado no Porto do Pecém, no Ceará, com tecnologia nacional voltada a testar a viabilidade da geração a partir da movimentação marítima.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadores investigam o potencial das correntes oceânicas e marés como fontes energéticas complementares à matriz brasileira. Já grupos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mantêm estudos de hidrodinâmica aplicada à geração elétrica offshore.

Segundo estimativas da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o potencial técnico brasileiro para energia das ondas pode alcançar dezenas de gigawatts, especialmente ao longo das regiões Nordeste e Sul.

Resistência em alto-mar: o desafio estrutural

Um dos maiores obstáculos para a energia oceânica sempre foi a durabilidade dos equipamentos. O ambiente marinho é implacável: salinidade elevada, corrosão constante, impacto das ondas e acúmulo de organismos marinhos (cracas) nas estruturas.

É justamente nesse ponto que a inovação desenvolvida nos EUA chama atenção. Os tubos resistem à corrosão porque a água não permanece na superfície interna. Mesmo com perfurações, a estrutura mantém sua flutuabilidade. Se a tecnologia se provar escalável, poderá reduzir custos de manutenção e ampliar a vida útil de plataformas marítimas — fator decisivo para tornar a energia das ondas economicamente competitiva.

Brasil: potência renovável ainda subexplorada

A matriz elétrica brasileira já é majoritariamente renovável, sustentada principalmente por hidrelétricas, além do crescimento consistente da energia eólica e solar. No entanto, eventos climáticos extremos e períodos de estiagem reforçam a necessidade de diversificação.

A energia das ondas e das marés não substituiria outras fontes, mas poderia atuar como complemento estável e previsível. Para o trabalhador brasileiro que acorda cedo e depende de energia confiável — seja na indústria, no comércio ou no campo — investir em inovação é também investir em segurança energética e desenvolvimento econômico.

O desafio, como sempre e infelizmente acontece no Brasil, é transformar pesquisa em política pública. O Brasil possui conhecimento técnico, universidades capacitadas e litoral estratégico, a polarização política tem destruído as chances de progresso do país. Além de boa vontade política, falta continuidade institucional e prioridade orçamentária para consolidar o mar como vetor energético.

Entre ciência e futuro

A história desses tubos de alumínio pode parecer um detalhe técnico — microestruturas invisíveis que repelem água. Mas simbolicamente representa algo maior: a capacidade humana de aprender com a natureza para enfrentar a emergência climática.

Os oceanos da Terra não são apenas cenário de cartão-postal. São reservatórios energéticos ainda pouco explorados. Se a tecnologia internacional avançar e dialogar com a pesquisa brasileira, poderemos assistir a uma nova etapa da transição energética global.

O mar, que já foi caminho, pode se tornar solução. E talvez o futuro da eletricidade esteja justamente ali, nas ondas que insistem em nunca parar.

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Milícias: entre fantasmas do passado e riscos do presente

Curitiba não pode repetir o caminho que transformou as milícias em poder paralelo como aconteceu no Rio, no Espírito Santo e em Minas Gerais

Curitiba não pode repetir o caminho que transformou as milícias em poder paralelo como aconteceu no Rio, no Espírito Santo e em Minas Gerais

Houve um tempo em que bastava pensar diferente para ser perseguido. Na Europa medieval, mulheres eram queimadas sob acusação de bruxaria. No século XX, regimes fascistas transformaram divergência política em crime. Em comum, o mesmo mecanismo: o medo organizado e a crença de que alguém precisava agir “em nome da ordem”, acima das instituições.

A história ensina que os maiores retrocessos começam quando grupos passam a se sentir autorizados a agir por conta própria — movidos por convicções morais, religiosas ou ideológicas — e colocam sua própria noção de justiça acima da lei.

É com serenidade, mas também com responsabilidade, que fazemos este alerta. Não estamos acusando ninguém, apenas relatando o que está registrado na história para que não se repita jamais.

No Brasil, as milícias paramilitares surgiram principalmente a partir da atuação de agentes e ex-agentes de segurança pública que passaram a controlar territórios e impor regras próprias. O discurso inicial era o da proteção. O resultado, em muitos casos, foi extorsão, violência e poder paralelo — especialmente no Rio de Janeiro, com registros também no Espírito Santo e em Minas Gerais.

A pergunta que Curitiba precisa se fazer é simples: e se grupos organizados, formados por pessoas com treinamento militar ou experiência em segurança, começarem a atuar politicamente ou “em nome da ordem” fora do comando legal?

A Constituição estabelece que as Forças Armadas se organizam com base na hierarquia e na disciplina. Militares da ativa não podem se organizar politicamente nem atuar coletivamente fora das missões autorizadas. Fora de operações oficiais — como Garantia da Lei e da Ordem ou ações humanitárias determinadas pelo comando — não existe atuação institucional legítima.

Quando surgem articulações paralelas, quando a autoridade simbólica da farda passa a ser utilizada para pressionar instituições ou influenciar a sociedade, o risco deixa de ser abstrato. Por exemplo: um policial em serviço ser pressionado por um policial aposentado a obedecer uma ordem que não é legítima, ou alguém das forças armadas, fora dos quartéis, tentar usar suas credenciais, o histórico de serviços prestados a nação, para pressionar o poder público.

Começa assim, e depois que se estabelecem geralmente exploram serviços ilegais como internet, entrega de gás, segurança privada e até tráfico de drogas.

Curitiba é uma cidade plural, politicamente ativa e com forte presença de forças de segurança. Ainda é uma cidade relativa ou aparentemente segura, e isso, por si só, não é problema. O problema nasce quando discursos de “defesa da ordem” começam a justificar organização paralela, pressão institucional ou atuação coletiva armada fora do controle legal. 

Quando ao invés de de desmilitarizar, é aplicada a militarização que transforma cidadãos e cidadãs em subordinados do poder público, organizações paralelas ao estado ou grupos de justiceiros e justiceiros paramilitares. Fazer justiça com as próprias mãos é justiça nenhuma e ainda, ao nosso ver, pode até ser qualificado como crime.

Não se trata de ideologia. Trata-se de Estado Democrático de Direito!

O que não queremos é ver acontecer em Curitiba o que já ocorreu em outras regiões do Brasil: grupos organizados assumindo funções típicas do Estado, controle informal de territórios, influência política sustentada por intimidação e a naturalização de uma “ordem” paralela.

Democracias sólidas exigem instituições fortes, forças de segurança treinadas, profissionais e apartidárias, obedientes à Constituição Federal do Brasil. A força pertence ao Estado — e o Estado pertence à Constituição. Esta é a única garantia da lei da ordem com a qual podemos contar de forma legítima em tempos de paz. 

Se cada grupo decidir agir “em nome da lei” por conta própria, quem definirá o que é a lei? Quem controlará a força? Quem garantirá a liberdade de quem pensa diferente? A liberdade de consciência ou seja de pensamento é uma garantia constitucional, violar ou tentar violar esta liberdade individual de cada cidadão e cidadã é crime.

A história mostra que as rupturas começam pequenas, muitas vezes toleradas ou romantizadas, como aconteceu com o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha.

Curitiba precisa permanecer atenta. A vigilância democrática não é hostilidade às instituições; é a defesa delas contra qualquer tentativa de instrumentalização política ou corporativa. Não existe religião e ideologia, conceitos e preceitos de que ordem for, superiores à Constituição Federal do Brasil, promulgada em 1988.

Como cidadão, se você perceber a atuação de algum agente do Estado ou o cidadão tentando praticar justiça ou fazer justiça com as próprias mãos, através de grupos de pressão, organizações paramilitares, ou milícias, denuncie. 

Serviço

Justiça Militar da União (JMU)
Reclamações podem ser feitas à Ouvidoria do Superior Tribunal Militar (STM) por:
• Formulário eletrônico no site oficial;
• E-mail: ouvidoria@stm.jus.br;
• Aplicativo “Ouvidoria-STM”;
• Telefones: (61) 3313-9445 / 9460.

Ministério Público Militar (MPM)
Denúncias podem ser encaminhadas por e-mail ou pelo sistema Fala.BR, com garantia de sigilo, se necessário.

Denúncias gerais no Paraná
Atividades criminosas, inclusive envolvendo Polícia Militar ou Polícia Civil, podem ser denunciadas pelo:
• Disque Denúncia 181 (anônimo, das 8h às 23h);
• Site: www.denuncia181.pr.gov.br.

Ouvidoria Geral do Estado do Paraná
Reclamações, sugestões ou elogios:
• Telefone: 0800 041 1111 ou acesse o site.

Consulte também, e salve o atalho em seu dispositivo móvel, a Constituição Federal do Brasil.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Lula: entre narrativas de impopularidade e realidade nas ruas

Do frevo ao samba: Lula percorre Recife, Salvador e Rio e expõe distância entre narrativas de impopularidade criadas pela extrema direita e a realidade nas ruas

Após ser aplaudido por cerca de 2 milhões de foliões no Galo da Madrugada, presidente acompanha o Carnaval de Salvador e já está no Rio para os desfiles na Sapucaí.

Após ser aplaudido por cerca de 2 milhões de foliões no Galo da Madrugada, presidente acompanha o Carnaval de Salvador e já está no Rio para os desfiles na Sapucaí.

Recife / Salvador / Rio de Janeiro — A política brasileira é feita de narrativas. Algumas ganham força nas redes sociais, outras ecoam em discursos de adversários. Nos últimos anos, uma delas foi repetida à exaustão: a de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não poderia sair às ruas sem ser vaiado ou hostilizado.

Neste fim de semana de Carnaval, porém, a realidade respondeu com imagens — e com multidões.

Na manhã de sábado (14), Lula participou do tradicional Galo da Madrugada, no Recife, considerado o maior bloco carnavalesco do mundo, que reúne cerca de 2 milhões de pessoas. Ao lado da primeira-dama Janja da Silva, o presidente foi recebido com aplausos, acenos e palavras de incentivo. Não houve registro de vaias generalizadas. O que se viu foi celebração.

Mais cedo, o próprio presidente compartilhou em seu perfil oficial na rede X um vídeo ao lado de Janja, celebrando a presença na capital pernambucana:

A postagem viralizou rapidamente. Mas o roteiro do dia estava longe de terminar.

De Recife a Salvador: segunda parada da folia

Na tarde do mesmo sábado, Lula seguiu para Salvador, onde acompanhou o Carnaval no circuito Campo Grande. Segundo reportagem do Jornal Grande Bahia (JGB), o presidente chegou por volta das 14h30 e foi recepcionado pelo governador Jerônimo Rodrigues e pela primeira-dama do Estado, Tatiana Velloso.

No camarote do governo baiano, Lula esteve ao lado de Janja, da ministra da Cultura Margareth Menezes e do ministro da Casa Civil, Rui Costa. Durante a passagem pelo circuito, assistiu aos trios elétricos e interagiu com atrações como a banda BaianaSystem, em meio à multidão que ocupava as ruas da capital baiana 0.

Era a segunda capital em menos de 24 horas. Dois dos maiores carnavais do planeta. E novamente, o que se viu foi presença, integração e registros festivos compartilhados nas redes sociais.

Destino final: a Marquês de Sapucaí

Da Bahia, Lula seguiu para o Rio de Janeiro, onde já se encontra para acompanhar o primeiro dia de desfiles das escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Na capital fluminense, o presidente participa da agenda cultural do Carnaval e será homenageado pela escola Acadêmicos de Niterói, cujo samba-enredo faz referência à sua trajetória política.

Em três capitais, três multidões, três palcos simbólicos da cultura popular brasileira — Recife, Salvador e Rio.

Entre o discurso e o asfalto

A tese de que Lula estaria impedido de circular em público por conta de impopularidade sempre foi mais performática do que comprovada. Repetida por adversários como estratégia de desgaste político, ela encontra pouco respaldo quando confrontada com registros amplamente documentados.

O que este Carnaval expõe é um contraste difícil de ignorar: enquanto a retórica fala em isolamento, a prática mostra presença; enquanto a narrativa sugere rejeição massiva, as imagens revelam acolhimento em eventos que reúnem milhões de pessoas.

Isso não significa ausência de críticas ou polarização — o Brasil continua dividido politicamente. Mas a presença contínua do presidente em grandes eventos populares, em diferentes regiões do país, enfraquece a ideia de que ele estaria apartado das ruas.

No frevo pernambucano, no trio elétrico baiano e agora sob as luzes da Sapucaí, Lula percorre o país em plena temporada pré-eleitoral. E, até aqui, a resposta das ruas tem sido menos hostil do que previam seus opositores.

Às vezes, a política se mede em pesquisas. Outras vezes, em aplausos que ecoam entre pontes, avenidas e sambódromos.

- Ampliada com tuíte do presidente Lula em 16 de fevereiro as 08h48.
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sábado, 14 de fevereiro de 2026

“Foi minha terra, não foi só água”

Estado brasileiro e Itaipu reconhecem violações contra o povo Avá-Guarani e anunciam medidas de reparação histórica no oeste do Paraná

Indios Avá-Guarani - IHU/Reprodução

Quando as águas do Rio Paraná começaram a subir no início da década de 1980, não foi apenas a paisagem que desapareceu sob o reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Junto com as árvores, trilhas e roçados, foram submersas memórias, cemitérios ancestrais, espaços sagrados e parte da própria identidade do povo Avá-Guarani.

Mais de quatro décadas depois, o Estado brasileiro, representado pela União, pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), ao lado da Itaipu Binacional (margem esquerda), reconheceu publicamente as violações cometidas contra as comunidades indígenas durante a construção da hidrelétrica, nas décadas de 1970 e 1980, e formalizou um pedido de desculpas.

O documento oficial admite que, naquele período, foram adotadas medidas que desconsideraram os direitos territoriais, culturais e espirituais dos Avá-Guarani. O processo de colonização agrícola no oeste do Paraná já havia reduzido drasticamente seus territórios desde o início do século XX. A construção de Itaipu aprofundou essa ruptura.

Com a formação do reservatório, comunidades foram deslocadas, áreas sagradas foram inundadas — incluindo referências espirituais históricas da região — e modos tradicionais de subsistência, como a pesca, a caça e o cultivo, foram desestruturados.

“Reconhecemos os impactos ocasionados às comunidades indígenas Avá-Guarani antes e durante o processo de idealização e construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu”, afirma o texto oficial divulgado pela Itaipu. “Expressamos publicamente tudo que foi suportado pelas comunidades indígenas, submetidas a deslocamentos, perda de territórios sagrados e impactos em suas formas de vida e expressões culturais.”

O reconhecimento foi homologado judicialmente no âmbito da Ação Cível Originária nº 3.555, no Supremo Tribunal Federal (STF), resultado de um acordo construído com participação do Ministério Público Federal e das próprias comunidades indígenas.

O texto reconhece que a formação do lago e a expropriação territorial contribuíram para desestruturar formas tradicionais de vida e subsistência, provocando impactos sociais, econômicos e culturais significativos. Em linguagem direta, admite que houve violação de direitos humanos.

“Divulgamos esses fatos à sociedade no intuito de honrar a memória das vítimas que tiveram sua dignidade, identidade cultural e existência sistematicamente negadas”, registra o documento.

Reparação concreta

Além do pedido público de desculpas, o acordo prevê medidas de reparação. Entre elas, a aquisição emergencial de aproximadamente 3 mil hectares de terras para reassentamento de comunidades Avá-Guarani no oeste do Paraná. O investimento pode alcançar até R$ 240 milhões com recursos da Itaipu Binacional.

Duas áreas já foram adquiridas no município de Terra Roxa (PR), onde famílias indígenas iniciam um processo de reconstrução territorial. O acordo também prevê ações de infraestrutura, acesso à água potável, energia elétrica, saneamento, saúde, educação e fortalecimento cultural.

Para lideranças indígenas, o gesto é histórico — mas não encerra a luta. As comunidades seguem reivindicando demarcação plena de seus territórios tradicionais e políticas permanentes de proteção.

“Palavras são importantes. Mas nossa vida está na terra”, resume uma liderança Avá-Guarani da região. “A terra é nossa memória, nossa escola, nossa espiritualidade.”

Memória e não repetição

O Estado brasileiro e a Itaipu Binacional afirmaram ainda o compromisso de preservar a memória histórica dos acontecimentos como mecanismo de não repetição, fortalecendo o Estado Democrático de Direito.

Para os Avá-Guarani, a memória nunca deixou de existir. Ela resistiu nas histórias contadas ao redor do fogo, nas cantigas transmitidas às crianças e na luta constante pelo reconhecimento. O pedido de desculpas não devolve o passado — mas inaugura uma possibilidade de futuro em que o desenvolvimento não se construa mais sobre o silenciamento dos povos originários.

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