14.8.26

José Baka Filho morre aos 63 anos após luta contra o câncer

Ex-prefeito de Paranaguá e comunicador do Litoral estava internado em Curitiba para tratamento de um câncer no pâncreas; morte provoca manifestações de pesar entre amigos, políticos e pessoas que acompanharam sua trajetória

Ex-prefeito de Paranaguá e comunicador do Litoral estava internado em Curitiba para tratamento de um câncer no pâncreas; morte provoca manifestações de pesar entre amigos, políticos e pessoas que acompanharam sua trajetória


A notícia chegou nesta sexta-feira, 14 de agosto, soube do acontecido pelo companheiro e parceiro do blog, Nelsão da Força. Logo cedo ele me passou uma notícia que trouxe silêncio para muita gente que conheceu José Baka Filho, acompanhou sua trajetória e, de alguma maneira, cruzou sua história com a de Paranaguá.

O ex-prefeito de Paranaguá, comunicador e dirigente de veículos de comunicação do Litoral morreu aos 63 anos, depois de enfrentar nas últimas semanas uma batalha contra um câncer no pâncreas.

Baka estava internado no Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, onde realizava o tratamento. Em julho, quando decidiu falar publicamente sobre a doença, procurou principalmente tranquilizar as pessoas que vinham acompanhando sua situação.

Naquele momento, dizia que a recuperação estava evoluindo bem. Agradeceu as mensagens, as orações e o carinho que vinha recebendo e contou que cada manifestação de apoio fazia diferença.

Também revelou que, no início, a família havia escolhido manter o diagnóstico em sigilo. Era uma decisão tomada para preservar sua privacidade e permitir que ele enfrentasse os primeiros dias do tratamento com mais tranquilidade.

A esperança durante o tratamento

A esperança, naquele momento, ainda estava presente. Baka falava em concluir o tratamento, voltar gradualmente às atividades e seguir trabalhando nos projetos que vinha construindo para a política parnanguara.

Antes de descobrir a doença, segundo relato divulgado durante o tratamento, ele continuava envolvido nas articulações políticas e nos projetos para as eleições de 2026.

Era uma demonstração de que, mesmo diante de uma situação delicada, continuava olhando para frente.

Uma vida ligada a Paranaguá

Nascido em Paranaguá, em 27 de novembro de 1962, José Baka Filho construiu praticamente toda a sua trajetória pública ligada à cidade e ao Litoral.

Engenheiro civil formado pela Universidade Federal do Paraná, iniciou sua carreira profissional ligado à Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina.

Na política, chegou à Prefeitura de Paranaguá pelo PDT e comandou o município por dois mandatos consecutivos, entre 2005 e 2012.

Mas a política nunca foi a única dimensão de sua vida pública. Baka também construiu uma relação muito próxima com a comunicação, especialmente com o rádio, tornando-se uma figura conhecida dos meios de comunicação do Litoral.

Nos últimos anos, atuava como diretor da Massa FM Litoral e continuava presente no cotidiano político e social de Paranaguá. Foi, portanto, uma dessas figuras que acabam se confundindo com a própria história de uma cidade.

Para alguns, era o prefeito. Para outros, o político do PDT. Para muitos, era o homem do rádio, da comunicação, das conversas e dos encontros que fazem parte da vida de uma comunidade.

Uma despedida em meio à dor

O Blog Papo Reto com o Nelsão, em nome de Nelsão e de toda a sua família, recebe com profundo pesar a notícia da morte de José Baka Filho.

Neste momento de dor, a solidariedade se estende principalmente aos familiares, amigos, companheiros de caminhada política, colegas de trabalho, colaboradores e a todos aqueles que tiveram a oportunidade de conviver com Baka.

A morte encerra uma trajetória, mas não apaga as histórias construídas ao longo dela.

Paranaguá perde hoje uma personalidade que esteve por décadas presente na vida pública, política e na comunicação do Litoral.

Nelsão e sua família manifestam seus mais sinceros sentimentos e pedem a Deus que conforte o coração de todos os que sofrem com esta perda. Que a família encontre força para atravessar este momento.

Que os amigos encontrem nas lembranças um pouco do conforto que agora parece faltar.

E que a história de José Baka Filho permaneça viva na memória daqueles que caminharam ao seu lado.

Descanse em paz, companheiro Baka.

Apuração: Blog Papo Reto com o Nelsão / Sulpost. Informações sobre o tratamento contra o câncer e a internação foram confrontadas com publicações da imprensa do Litoral divulgadas em julho de 2026.

Seis meses depois, Nelsão ainda pergunta: quem vai responder pela violência da PM do Paraná na greve da Brose?

Agressão contra dirigente sindical ganhou repercussão nacional, chegou a Brasília e deixou uma pergunta sem resposta: o que foi feito para apurar a atuação da Polícia Militar durante a greve?

Há imagens que não deveriam ser esquecidas. E algumas delas, graças à tecnologia, já não podem ser apagadas. Podem, no máximo, cair no silêncio enquanto outras notícias ocupam seu lugar.

Uma dessas cenas aconteceu em 4 de fevereiro de 2026, diante da fábrica da Brose, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Trabalhadores estavam em greve quando uma intervenção da Polícia Militar do Paraná (PMPR), terminou com a imobilização e a prisão do dirigente sindical Nelson Silva de Souza, o Nelsão da Força. Vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC) e Força Sindical Paraná.

As imagens, da truculência policial, circularam por todo o país. Todas as Centrais Sindicais denunciaram a violência policial e o cerceamento do direito de greve. Trabalhadores relataram o uso de spray de pimenta. Outros dirigentes também denunciaram truculência. Nelson foi algemado com tiras de nylon que poderiam até ter causado uma gangrena em suas mãos, de tão apertadas.

A PM apresentou sua versão para a ocorrência. Os trabalhadores e sindicalistas apresentaram outra. É justamente por isso que, seis meses depois, a pergunta continsindicalistasssária: houve uma investigação efetiva e independente sobre o que aconteceu?

A greve terminou. A pergunta não cala

A paralisação dos funcionários e funcionárias da Brose terminou em março, mas o caso, as perguntas e a indignação não terminaram com ela. O Ministério Público do Trabalho no Paraná (MPT-PR) ajuizou uma Ação Civil Pública contra a empresa, apontando práticas antissindicais durante a greve e pedindo, entre outras medidas, R$ 1 milhão por dano moral coletivo.

É uma resposta institucional importante. Mas diz respeito à conduta da empresa. E a atuação da Polícia Militar? Essa é uma questão vital e que precisa ser apurada separadamente. Mas até agora nada apareceu e não se sabe se algo foi feito, sequer se foi aberto um inquérito pelo serviço reservado da própria PMPR, ou denúncia do Ministério Público do Paraná (MPPR).

Nelsão quer saber se a Corregedoria da PMPR abriu procedimento. Quer saber se a Secretaria de Estado da Segurança Pública tomou alguma providência. Quer saber se o Ministério Público do Paraná recebeu a denúncia e acompanhou o caso. E, acima de tudo, quer saber se houve responsabilização. Afinal, quem deu a ordem?

Não foi apenas Nelsão

A denúncia nunca envolveu somente a agressão sofrida pelo dirigente sindical. Outros sindicalistas, trabalhadoras e trabalhadores também relataram violência e truculência durante os conflitos registrados ao longo da greve. Há inclusive imagens comprovando as denúncias.

Por isso, a questão ultrapassa a experiência pessoal de Nelsão. Se houve abuso, é preciso saber quem praticou, quem autorizou, quem fiscalizou e quais medidas foram tomadas. A apuração se faz assaz, para impedir que algo semelhante volte a acontecer.

Não se trata de condenar antecipadamente nenhum policial ou cadeia de comando. Trata-se de investigar. Inclusive o suposto aparelhamento da Polícia Militar pela empresa. E, que se a investigação concluir que não houve irregularidade na ação policial, que isso também seja informado publicamente. Pois as pessoas que ficaram traumatizadas com o episódio, gente tinha desconfiava na polícia mas agora tem medo. Merece uma explicação do Estado.

As marcas das algemas nos braços do Nelsão

Quando a notícia também bate à porta de casa

Há uma razão pessoal para que esta discussão também me atravesse como jornalista. Na mesma época dos acontecimentos da Brose, minha própria casa recebeu diversas visitas policiais. Em uma delas, a porta foi arrombada. Em outra, houve ameaça de arrombamento caso minha companheira não abrisse a porta.

Sou jornalista, sou pessoa com deficiência e já tenho uma certa idade. Até hoje, ninguém apareceu para pagar sequer o caixilho que ficou danificado. Nunca antes disso tinha acontecido na minha vida, e olha que eu já briguei com gente grande porque aprendi que o sol, a lua e a verdade não se esconde para sempre.

Considero aquilo um abuso e continuo também esperando uma resposta. Foram dezenas de vezes a polícia de pistola engatilhada na porta da minha casa. Poucas equipes foram cordiais. Na maioria considero que foi abuso, ainda mais que todas aconteceram depois das 18 horas.

Não trago essa experiência para substituir provas ou investigação. Apesar do trauma, não guarda mágoa ou rancor. Mas carrego comigo essa experiência terrível, e agora trago à tona porque é impossível discutir abuso de autoridade sem lembrar que, do outro lado da ocorrência, existe sempre uma pessoa.

Existe uma casa. Existe uma família. Existe alguém que precisa continuar vivendo depois que a viatura vai embora. Quando é levado dentro da viatura também preciso voltar para casa, mesmo local aonde trabalho, carregando esse estigma comigo.

Existe uma pergunta que demorou para ser feita ser feita: quem fiscaliza quem tem o monopólio da força? Meu pai, assim como o meu avô, que também eram jornalistas aqui nessa mesma cidade, sempre me disseram: a tropa é reflexo do comandante.

Trabalhador, sindicalista e jornalista não são inimigos do Estado

Quando um trabalhador está em greve, ele continua sendo cidadão. Ser trabalhador não é crime.

Quando um sindicalista está na porta de uma fábrica, continua protegido pela Constituição. Sindicalismo não é crime.

Quando um jornalista denuncia aquilo que considera errado, também continua tendo seus direitos fundamentais preservados. Jornalismo não é crime.

Da mesma forma, qualquer cidadão abordado pelo Estado tem direito à dignidade, à integridade física, à presunção de inocência e ao devido processo legal. E, em caso de abuso você não merece reparação moral e material, deveria ao menos haver um pedido oficial de desculpas.

Por isso, não podemos aceitar como normal a ideia de que alguém possa ser tratado como culpado antes de qualquer investigação ou julgamento. Ninguém pode ser levado em suposto flagrante forjado através de denúncia caluniosa. Perturbação da paz inclusive, que hoje em dia é muito alegada por essa corporação, está regulada por lei e tem aferição do Inmetro. Não ultrapassar 95 decibéis durante o dia. Não ultrapassar 90 decibéis após as 22h00.

Armas existem para proteger vidas e enfrentar situações de risco. Não podem se transformar em instrumento de intimidação contra cidadãos que exercem direitos. Não podem ser engatilhadas contra pessoas inocentes que estão dentro da privacidade do lar ou na porta das fábricas e não oferece ameaça alguma ao próximo, a si mesmo e muito menos às autoridades.

Chega de trabalhador ser tratado como inimigo porque fez greve. Chega de sindicalista ser tratado como ameaça porque organizou sua categoria. E chega de jornalista ser tratado como criminoso simplesmente porque fez uma denúncia, ou esbraveja indignado contra sistemas obscuros supostamente com motivação financeira e ideológica.

O exercício do pensamento é livre. A livre expressão é garantida pela Constituição Federal sendo vedado apenas o anonimato. Qualquer manifestação pode ser feita em qualquer lugar público, desde que avisado antes e que não fruste outra marcada anteriormente.

A polícia tem uma função essencial na democracia. Justamente por isso, precisa ser protegida de práticas que possam comprometer a confiança da sociedade. Durante quase 55 anos da minha vida, confiei na polícia. Hoje tenho medo da polícia. E olha que nesse meio tempo morei 11 anos no Rio de Janeiro. Mas foi aqui no Paraná, durante o governo Ratinho Junior, que a polícia realmente me deu medo.


De São José dos Pinhais a Brasília

Voltando ao caso da Brose, que saiu dos portões da fábrica e ganhou repercussão nacional, mobilizando entidades sindicais e chegando às instituições do Paraná e de Brasília. Podemos perceber que a denúncia não desapareceu.

Mas também aumenta a responsabilidade das autoridades em oferecer uma resposta. Só a verdade pode esclarecer os fatos. E, isso só pode ser obtido através de investigação pelas instituições competentes. O caso precisa ser apurado e uma resposta precisa ser dada.

Não cabe a uma reportagem antecipar conclusões sobre eventual responsabilidade individual. Todos são inocentes até se prove o contrário. Cabe às instituições investigar, ouvir os envolvidos, analisar as imagens e apresentar suas conclusões. É preciso coragem. É assim que funciona um Estado Democrático de Direito.

As perguntas continuam sem resposta

Por isso, o blog Sulpost faz publicamente as perguntas que permanecem depois de seis meses:

  • O que foi feito para investigar a atuação policial durante a greve da Brose?
  • A Corregedoria da PMPR abriu procedimento administrativo?
  • A Secretaria de Segurança Pública instaurou alguma investigação?
  • O Ministério Público do Paraná recebeu a denúncia?
  • Os policiais envolvidos foram identificados e ouvidos?

  • As imagens da ocorrência foram incorporadas a algum procedimento?

  • Os policiais usavam câmeras corporais?
  • Se houve investigação, houve conclusão?
  • Algum agente foi responsabilizado?
  • Se não houve responsabilização, qual foi a conclusão que levou a isso?

  • Que medidas serão adotadas para evitar que trabalhadores em greve voltem a ser submetidos a situações semelhantes?

  • Que medidas serão adotadas para que o local de trabalho e moradia de um jornalista não seja invadido na calada da noite?

Investigar não é atacar a Polícia Militar

Essa talvez seja a parte mais importante desta discussão. Investigar uma denúncia de abuso de autoridade não significa atacar a Polícia Militar. Muito pelo contrário, significa inclusive inocentar bons policiais e identificar de onde veio a ordem, para poder se saber se foi uma ação policial ou um comando realizado dentro, ou fora da legalidade.

Uma instituição forte é aquela que também aceita ser fiscalizada. Os bons policiais, que são a grande maioria, aqueles que trabalham corretamente e respeitam a lei, também ganham quando eventuais abusos são apurados. A responsabilização de quem eventualmente ultrapassa os limites da autoridade não enfraquece a corporação.

Uma investigação completa sobre todos esses acontecimentos, inclusive, protege a instituição. Protege quem veste a farda corretamente. E protege, principalmente a sociedade, os mais vulneráveis, os trabalhadores e trabalhadoras, cidadãos e cidadãs, aqueles que para quem entra para as forças policiais, jura servir e proteger.

Da mesma maneira, uma denúncia não transforma automaticamente o denunciado em culpado. É justamente a investigação que deve separar fato, suspeita, excesso, erro e responsabilidade. E, se forem constatadas irregularidades o inquérito deve evoluir, naturalmente, penso eu, para a esfera administrativa e judicial cabível.

Para que não aconteça novamente

A greve da Brose acabou. A ação trabalhista continua. Mas as pessoas que passaram por aquela situação vexatória e desumana também continuam carregando suas marcas.

Algumas ficam no corpo. Outras permanecem na memória. E há aquelas que atingem algo mais difícil de reconstruir: a confiança. Talvez algumas pessoas tenham procurado a Justiça. Talvez outras tenham desistido por medo, inclusive medo de que aconteça alguma coisa com a sua própria família, pelo cansaço ou pela sensação de que ninguém iria ouvi-las.

É justamente por isso que a cobrança precisa continuar. E chega aqui, preto no branco, tornando-se indelével. Sem medo da verdade. Sem medo de perguntar. Sem medo de exigir respostas. Não se trata de escolher entre trabalhadores e policiais.

Trata-se de escolher entre o silêncio e a transparência; entre a impunidade, os possíveis abusos por parte das autoridades, as falsas denúncias que levam a polícia ao erro, à lei e ao Estado Democrático de Direito.

Se houve excesso, ele precisa ser apurado. Se aconteceu alguma espécie de abuso, que haja investigação e responsabilização. Se não houve irregularidade, que a investigação demonstre isso e traga a todas e todos, que se sentiram machucados, feridos em seus direitos pelo Estado, uma resposta.

O que não pode acontecer é uma denúncia de violência contra trabalhadores desaparecer simplesmente porque os meses passaram. Então esquentamos a falta, e trazemos fatos novos ao conhecimento público.

A Brose já responde a uma ação na Justiça do Trabalho. Agora é preciso saber o que aconteceu com as denúncias relacionadas à atuação policial. Inclusive na minha casa e local de trabalho, que se tornou truculenta justamente na mesma época dos fatos ocorridos com o Nelsão.

Porque uma sociedade democrática não pode pedir ao trabalhador que esqueça aquilo que o Estado ainda não explicou. A greve acabou. O Nelsão está lá na casa dele, com a família, aguardando eu mandar o link para ele ler essa reportagem, que resolvemos escrever juntos. Eu continuo vivo, ainda bem que nenhuma pistola disparou ou não usaram um fazer contra uma pessoa que tem problemas em um dos ramos do coração.

A pergunta, não cala e exige resposta. O governo Ratinho Júnior não pode simplesmente terminar sem que essas respostas apareçam. Mesmo que tentem nos oprimir ou criminalizar com o poder do Estado, a publicação está feita. A história dirá quem errou, quem acertou, quem eram os bons ou os maus, ou talvez até, simplesmente esclareça os fatos pois existem trabalhadores e famílias com a dignidade ferida pelo Estado.

Nem eu, nem o Nelsão, nem o movimento sindical e muito menos os trabalhadores, trabalhadoras, companheiros e companheiras, vão deixar essas perguntas cairem no esquecimento.

Os danos não ficaram apenas registrados nas imagens daquele dia na Brose é nas noites em claro, que passei com medo de ter a porta novamente arrombada pela polícia do Estado do Paraná.

As marcas ficaram no corpo, na memória e na confiança de pessoas que talvez antes enxergassem a polícia como proteção e hoje sintam medo quando encontram uma farda ou veem uma viatura passar.

E talvez seja justamente aí que esteja a questão mais importante de todas: se queremos uma sociedade mais segura e justa, precisamos também de instituições nas quais o cidadão possa confiar. Se a polícia fiscaliza os cidadãos, quem fiscaliza a polícia?

Por isso, seis meses depois, continuamos perguntando:

  • O que aconteceu depois daquela prisão?
  • Quem investigou?
  • Qual foi o resultado?

E o que o Estado do Paraná fará para garantir que aquilo, O que é isso não aconteça novamente? Da minha parte continua esperando alguém pagar o caixilho da minha porta e me pedir desculpas perante a todos aos quais me senti humilhado por ser tratado de forma desumana como fizeram com a Nelsão. Uma coisa terrível, um absurdo, tentando manchar histórias e reputação construída ao longo de décadas.

Assusta ser levado preso de dentro de casa, durante a noite, justamente quando o filme brasileiro que faz mais sucesso no exterior, inclusive premiado com o Oscar, fala sobre um jornalista levado por militares da sua casa, que nunca mais voltou. Mas eu ainda estou aqui. E o companheiro Nelsão também, lutando pelo que para nós é certo, através das nossas garantias constitucionais. Cada um na sua área de atuação.

Nota editorial: A existência de denúncias e imagens da ocorrência não significa antecipar culpa individual. O objetivo desta reportagem é cobrar que as autoridades competentes investiguem os fatos, esclareçam o que ocorreu e, caso sejam constatadas irregularidades, adotem as medidas cabíveis previstas em lei.

Os relatos do Nelson e pessoais apresentados nesta reportagem são resultado de experiência do autor - Ronald Sanson Stresser Jr - e não como prova de outros casos. Por isso costumo dizer que o mesmo calçado mal feito, aperta o calcanhar de um, a bolha no pé do outro, e o calo de outrem.

A presunção de inocência, o contraditório, a ampla defesa e os direitos fundamentais previstos na Constituição Federal valem para todos — trabalhadores, sindicalistas, jornalistas, policiais, empresas e autoridades públicas. E também sempre é preciso observar o estatuto do deficiente, garantido a preservação da dignidade justamente daqueles que mais precisam da proteção do Estado.

Investigar não é condenar. Investigar é garantir que a verdade possa ser conhecida. Porque, como dizia o Buda: existem três coisas que não se escondem para sempre, o sol, a lua e a verdade. Mesmo que estejamos vivendo dias nublados, tenho certeza de que a verdade há de voltar a raiar no horizonte do Paraná.

Basta! Sindicalismo não é crime. Ideologia política progressista não é crime. Jornalismo não é crime. Deficiência ou neurodivergência, além de não ser crime é sinônimo de respeito. Para isso existem as leis.

Lembrando que a perseguição feroz para cima da minha pessoa como cidadão, da minha família, do meu posicionamento político e do meu trabalho, não começou este ano. Os registros da Polícia Militar do Estado do Paraná talvez contem melhor a parte da história que ainda me é oculta. A primeira vez que fui levado preso, após arrombamento da porta da minha residência durante a noite sem que houvesse flagrante algum, foi em junho de 2025.

13.8.26

Alexandre Guimarães oficializa candidatura à Alep e coloca Campo Largo no centro da disputa de 2026

Presidente da Câmara de Campo Largo confirma pelo PDT uma candidatura que pretende transformar sua experiência política local em uma nova representação da cidade na Assembleia Legislativa do Paraná 

 
Presidente da Câmara de Campo Largo confirma pelo PDT uma candidatura que pretende transformar sua experiência política local em uma nova representação da cidade na Assembleia Legislativa do Paraná

Campo Largo voltou a olhar para a estrada que leva a Curitiba, ao progresso do município e de toda a região. Depois de semanas em que seu nome circulava como possibilidade, Alexandre Guimarães confirmou nesta quarta-feira (12) que vai disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Paraná pelo PDT. O anúncio foi feito pelo próprio vereador e presidente da Câmara de Campo Largo em um vídeo publicado em suas redes sociais.

“Hoje, um passo importante na nossa caminhada”, disse Alexandre.

A frase é simples. Mas, para quem acompanha a política de Campo Largo, ela representa uma mudança de patamar. A partir de agora, a disputa deixa de ser apenas uma conversa de bastidores e passa a ter nome, rosto e projeto.

Alexandre volta a colocar seu futuro político em uma eleição estadual — e, com isso, Campo Largo volta a buscar espaço próprio na Alep.

Um discurso que começa pela vida das pessoas

No vídeo de lançamento, Alexandre escolheu não começar falando de números, obras ou cargos.

Falou de gente.

Citou a família, a educação, a saúde, o empresário, o empreendedor e o trabalhador. E terminou defendendo uma sociedade em que ninguém fique pelo caminho.

“O Paraná que queremos é aquele que fortalece a família, que dá uma educação de qualidade, uma saúde acessível, que dá condições ao empresário e ao empreendedor de investir, e que assiste o trabalhador”

Depois, resumiu sua visão de futuro:

“Uma sociedade justa, equilibrada, pujante, é aquela onde todas as pessoas se sentem incluídas. Este é o Paraná que nós queremos.”

É nesse ponto que a candidatura começa a ganhar uma identidade própria. Mais do que apresentar uma lista de promessas, Alexandre tenta construir uma conversa com diferentes setores da sociedade.

É um discurso que procura aproximar quem trabalha, quem empreende, quem precisa do serviço público e quem espera encontrar no Estado condições para melhorar a própria vida.

A política estadual não é novidade para Alexandre

A volta à disputa estadual também não acontece por acaso. Alexandre Guimarães já conhece os corredores da Assembleia Legislativa. Em 2014, foi eleito deputado estadual pelo PSC com 24.357 votos, resultado que encerrou um período de 24 anos sem Campo Largo ter um representante no Legislativo estadual.

Na eleição seguinte, em 2018, tentou renovar o mandato pelo PSD. Recebeu 6.601 votos somente em Campo Largo, mas não conseguiu retornar à Assembleia. Depois, voltou a concentrar sua atuação na política municipal.

Em 2024, foi novamente eleito vereador de Campo Largo, desta vez pelo PDT, com 1.116 votos, ficando entre os 15 parlamentares escolhidos para a Câmara Municipal. Hoje, ele preside o Legislativo municipal. E, é justamente dessa trajetória que nasce a nova tentativa de chegar à Assembleia.

De Campo Largo para o Paraná

Há uma diferença importante entre disputar uma eleição para vereador e buscar uma cadeira de deputado estadual. Na Câmara Municipal, o território político é a cidade. Na eleição para a Assembleia, é preciso atravessar as fronteiras municipais e construir uma votação regional.

Alexandre já viveu essa experiência. Agora, porém, retorna a uma disputa estadual depois de anos de atuação política mais próxima da realidade de Campo Largo. O desafio será transformar conhecimento da política local, experiência parlamentar e alianças partidárias em uma rede capaz de alcançar diferentes municípios não apenas da Região Metropolitana de Curitiba (RMC), mas de todo o estado.

E isso muda também o papel de Campo Largo na eleição. A cidade deixa de ser apenas o ponto de partida de uma candidatura. Passa a ser parte de uma estratégia maior.

Uma candidatura dentro de um projeto político mais amplo

Alexandre também não estará sozinho nesse caminho. O PDT do Paraná oficializou Requião Filho como candidato ao Governo do Estado e confirmou apoio à candidatura de Gleisi Hoffmann ao Senado. No plano nacional, o partido também confirmou apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A composição começou a ganhar forma ainda em maio, quando Alexandre participou do ato “Vozes do Paraná”, em Curitiba, que reuniu lideranças do PDT, PT, PCdoB, PV, PSOL e Rede, Federação formada em torno das pré-candidaturas de Requião Filho (PDT), Gleisi Hoffmann (PT) e da reeleição do presidente Lula.

Agora, com a candidatura de Alexandre colocada oficialmente na rua, essa articulação ganha uma dimensão ainda mais concreta. O eleitor de Campo Largo terá diante de si uma eleição em que a escolha para deputado estadual estará conectada também às disputas pelo Governo do Paraná, pelo Senado e pela Presidência da República.

O trabalhador entra na conversa

Um dos pontos mais interessantes do anúncio de Alexandre está justamente na maneira como ele aproxima o empreendedor do trabalhador. Ao defender condições para que empresários e empreendedores possam investir, o candidato imediatamente acrescenta a necessidade de assistência ao trabalhador.

Essa combinação também conversa com os apoios que começam a se formar em torno de sua candidatura em Campo Largo. Entre eles estão o de Nelsão da Força e da sua companheira, a Fernanda do Nelsão, lideranças ligadas ao movimento sindical e à Federação formada pelos partidos do Campo Progressista Paranaense.

O resultado é uma candidatura que tenta construir pontes entre diferentes mundos da cidade com a capital e toda a região leste do Estado. De um lado, quem produz, empreende e gera atividade econômica. De outro, quem vive do próprio trabalho e depende de serviços públicos que funcionem de verdade.

No meio disso tudo está uma cidade que conhece Alexandre há bastante tempo e que agora terá de decidir se quer levá-lo novamente para a política estadual. É a força do povo de Campo Largo, dos trabalhadores da RMC, novamente na Assembleia Legislativa do Paraná.

O passado ajuda, mas o presente faz acontecer

A experiência anterior certamente faz parte do patrimônio político, do currículo de Alexandre Guimarães. Mas eleição não é repetição automática do passado, é luta, é ir de casa em casa visitando o eleitorado, é ouvir o trabalhador e a trabalhadora, conversar com as pessoas e conhecer suas demandas.

Também no cenário político, o Paraná de 2026 é outro. Os partidos mudaram, as alianças mudaram, os nomes mudaram e o eleitor também mudou. A própria trajetória de Alexandre Guimarães mostra isso. Em 2014, chegou à Assembleia pelo Partido Social Cristão (PSC). Em 2018, tentou permanecer no Legislativo estadual pelo Partido Social Democrata (PSD). E, em 2024, retornou à Câmara de Campo Largo pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT).

Agora, em 2026, apresenta-se novamente ao eleitor paranaense, desta vez integrado a um projeto político estadual conduzido pelo PDT e Federação Brasil da Esperança. A tarefa será transformar essa trajetória em uma nova votação estadual.

Campo Largo volta a olhar para a Assembleia

Existe, portanto, algo maior acontecendo do que simplesmente o lançamento de uma candidatura a deputado estadual. Campo Largo volta a entrar de maneira mais evidente no cenário da eleição 2026 para a Assembleia Legislativa.

Alexandre conhece a política municipal, já passou pelo Legislativo estadual e hoje preside a Câmara. Essa experiência será colocada à prova novamente diante dos eleitores. E o apoio de quem acredita na trajetória e nas obras de Alexandre Guimarães é essencial, pois a disputa não será pequena.

Outros grupos políticos também trabalham para apresentar seus nomes e seus projetos ao eleitorado campo-larguense e ajacências. O município, ocupa uma posição muito importante na Região Metropolitana de Curitiba, estratégica, e tende a ser novamente um território muito disputado nas eleições que se avizinham.

Para Alexandre, a questão será transformar presença política em votos dentro e fora dos limites da cidade. Para Campo Largo, a questão é ainda mais direta: decidir se, em 2026, quer voltar a ter uma voz própria na Assembleia. A voz de Alexandre Guimarães.

“Este é o Paraná que nós queremos”

No fim do vídeo, Alexandre não fala apenas de Campo Largo. Ele é mais uma Voz do Paraná. E talvez seja justamente neste ponto que esteja o principal diferencial da nova etapa da caminhada deste político campolarguense. O vereador que até aqui tinha sua atuação concentrada na cidade passa a precisar conversar com um Estado inteiro.

Família. Educação. Saúde. Trabalho. Empreendedorismo. Inclusão. São as palavras escolhidas pelo candidato para apresentar essa sua nova caminhada rumo ao legislativo paranaense.

A candidatura está oficialmente colocada. Agora começa a parte menos simples da política: caminhar, conversar, ouvir, construir alianças e transformar uma trajetória construída em Campo Largo numa candidatura capaz de alcançar o Paraná por inteiro.

Para a cidade, começa também uma nova disputa pelo espaço que um dia já foi ocupado por um representante local na Assembleia. E, desta vez, Campo Largo não estará apenas assistindo à eleição. Vai estar novamente no centro dela.


Sulpost — Jornalismo independente sobre Curitiba, Paraná e os assuntos que movimentam a política e a vida pública no estado.

Bets na mira da PF: operação investiga suposto esquema de lavagem de dinheiro de até R$ 1,1 bilhão

Ação mira grupo ligado ao mercado de apostas em cinco estados; Justiça determinou o bloqueio de até R$ 1,1 bilhão e PF investiga possível lavagem de dinheiro, evasão de divisas e crimes contra o sistema financeiro

O dinheiro que circula nas apostas esportivas, cassino on-line e slots voltou a entrar no radar das autoridades brasileiras — e, desta vez, a investigação alcança uma estrutura empresarial que movimentava recursos em diferentes estados da federação e até fora do país.

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (13) a Operação Arena, para investigar suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e crimes contra o sistema financeiro nacional relacionados à exploração de bets.

A operação ocorre na Paraíba, Sergipe, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, com a participação do Ministério Público Federal e da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Ao todo, são 17 mandados de busca e apreensão.

A Justiça também determinou o sequestro de até R$ 1,1 bilhão em bens e valores, além da quebra dos sigilos bancário e telemático dos investigados. A operação é resultado de muito trabalho investigativo por parte das autoridades e deve trazer outros desdobramentos à luz.

Segundo as informações divulgadas até agora, a investigação apura suposta estrutura usada para movimentar recursos viltuosos, inclusive por meio de operações internacionais, com o objetivo de ocultar a origem do dinheiro e dar aparência legal aos valores.

Entre os alvos está o advogado Nelson Wilians. A defesa do advogado afirma que a relação de seu escritório com a PixBet é exclusivamente profissional e decorrente da prestação de serviços jurídicos.

Em nota, o escritório ressaltou que a atuação dos advogados se limita ao exercício regular da profissão e não se confunde com as atividades empresariais de seus clientes. Também pediu cautela para que o exercício da advocacia não seja associado automaticamente a eventuais condutas atribuídas aos representados.

É importante lembrar: ser alvo de uma investigação não significa sentença transitada em julgado. A Operação Arena ainda está em andamento. Agora caberá aos investigadores da PF esclarecer quem efetivamente participou das eventuais irregularidades, quais valores foram movimentados e qual foi a origem dos recursos.

O caso chama atenção porque revela uma questão que vai muito além das apostas: até onde vai o dinheiro das bets depois que o apostador faz um Pix? Quem movimenta esses recursos, por onde eles passam e quem se beneficia? É justamente isso que a Polícia Federal do Brasil tenta descobrir.

O Sulpost acompanha o caso e vamos trazer novas informações à medida às investigações avançarem e houver divulgação. Buscamos por mais informações no site da Polícia Federal mas o mesmo estava fora do ar no fechamento da postagem. Nota editada com base em informações da Agência Brasil (EBC), atualizada às 9h26 para inclusão do posicionamento de um dos investigados na operação da PF.

Amorim tem razão sobre a soberania, mas o Brasil não pode fechar os olhos para a ameaça terrorista

Em audiência na Câmara, diplomata criticou a classificação de PCC e Comando Vermelho pelos EUA e alertou para riscos de interferência

O Brasil deve combater suas organizações criminosas com toda a força da lei. Mas deve fazê-lo como Estado soberano, dentro de seu território e sob o comando de suas próprias instituições. É justamente nesse ponto que a fala do embaixador Celso Amorim, nesta quarta-feira (12), em sessão da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, merece atenção.

O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais afirmou que o combate ao crime organizado é uma prioridade nacional, mas questionou os ganhos concretos da decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Para Amorim, o Brasil já dispõe de instrumentos de cooperação internacional suficientes para combater lavagem de dinheiro, tráfico, evasão de criminosos, recuperação de ativos e compartilhamento de inteligência.

O Brasil não é uma nação beligerante. Não tem histórico de guerras de conquista, não participa de aventuras militares no exterior e mantém, historicamente, uma política externa baseada na solução pacífica de controvérsias. Isso, porém, não significa que o território brasileiro esteja imune à atuação de organizações criminosas internacionais ou mesmo de estruturas relacionadas ao terrorismo.

E é justamente aqui que o debate precisa ser tratado com seriedade, sem negar a realidade e sem transformar o combate ao crime em justificativa para uma intervenção estrangeira.

O caso Al-Qaeda, um sinal de alerta

Em julho, a Operação Hawala, conduzida pela Polícia Civil do Rio de Janeiro e pelo Ministério Público do Estado (MPRJ), revelou uma investigação de grande importância para a segurança nacional.

Segundo as investigações, uma organização suspeita de movimentar cerca de R$ 100 milhões teria prestado serviços financeiros a integrantes do PCC, do Comando Vermelho e do Terceiro Comando Puro. Durante a apuração, os investigadores também identificaram uma possível conexão financeira internacional com um integrante de uma estrutura de financiamento da Al-Qaeda.

Não se deve exagerar o que a investigação demonstrou. Não há, até o momento, comprovação pública de que PCC ou Comando Vermelho sejam organizações subordinadas à Al-Qaeda ou mantenham uma aliança terrorista formal com o grupo. Mas seria igualmente irresponsável ignorar o que foi descoberto.

A investigação encontrou conexões financeiras que passam por organizações criminosas brasileiras e por uma pessoa apontada como integrante de uma estrutura ligada à Al-Qaeda. O próprio Departamento do Tesouro dos Estados Unidos havia designado, em 2021, Haytham Ahmad Shukri Ahmad Al-Maghrabi como integrante de uma rede de apoio à Al-Qaeda baseada no Brasil.

Portanto, a realidade é mais complexa do que simplesmente afirmar que “não existe terrorismo no Brasil”. O negacionismo é perigoso não apenas para a direita, pois existe, sim, histórico de presença e atuação de indivíduos associados a estruturas terroristas em território brasileiro.

O que não existe é autorização para que uma potência estrangeira transforme esse fato em justificativa para violar a soberania brasileira. São duas coisas completamente diferentes.

Combater o crime é dever do Brasil

O tamanho do território brasileiro torna o desafio ainda maior. São milhares de quilômetros de fronteiras terrestres, uma extensa costa marítima, regiões de difícil fiscalização e uma posição geográfica que conecta diferentes rotas internacionais de drogas, armas, contrabando e movimentação financeira ilícita.

A Tríplice Fronteira, por exemplo, aparece novamente nas investigações da Operação Hawala. Segundo a apuração policial, pessoas investigadas mantinham relações e circulação naquela região, considerada estratégica para a movimentação internacional de recursos. Portanto, o Brasil não pode adotar uma postura ingênua face às redes terroristas internacionais.

Mas também não precisa importar modelos estrangeiros ou aceitar que Washington determine unilateralmente como o Estado brasileiro deve tratar sua segurança interna. A resposta deve ser brasileira. E precisa ser muito mais sofisticada.

Fortalecimento da estrutura de inteligência

Talvez a principal lição deste episódio seja justamente a necessidade de fortalecermos a inteligência brasileira. Hoje o país já possui a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), órgão central do Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN). A agência possui estruturas voltadas à inteligência interna e à contrainteligência, com atuação relacionada a ameaças à segurança e à estabilidade do Estado e da sociedade.

O que o Brasil deveria discutir é algo ainda mais abrangente: uma estrutura nacional permanente e altamente especializada para integrar a inteligência contra o crime organizado transnacional, terrorismo, lavagem de dinheiro, financiamento ilícito, tráfico de armas, segurança de fronteiras, ameaças cibernéticas e interferência estrangeira.

Essa estrutura poderia integrar, sob rígidos controles legais e institucionais, informações da ABIN, Polícia Federal, Receita Federal, Forças Armadas, órgãos de inteligência financeira e demais instituições responsáveis pela proteção das fronteiras e do território nacional.

O objetivo não seria criar uma polícia política, tampouco ampliar indiscriminadamente poderes de vigilância. O modelo estaria mais para uma polícia técnica, mas também com autonomia e poder para operações em todo território nacional. Uma Força Tarefa, no modelo dos GAECOs estaduais, mas federal, com participação da Polícia e Receita Federal, bem como da ABIN.

O Estado brasileiro precisa urgentemente ter a capacidade técnica para saber o que está acontecendo dentro de suas próprias fronteiras antes que outros países descubram primeiro. Também a capacidade operacional, para desmantelar e levar a justiça possíveis grupos terroristas que ousem atuar em solo nacional.

Soberania não é complacência

Esse é o ponto que não pode ser perdido no debate. Defender a soberania brasileira não significa defender o PCC, o Comando Vermelho, TCP, as milícias cariocas ou qualquer outra organização criminosa. Significa defender que quem combate essas organizações dentro do Brasil é o próprio Estado brasileiro.

A fala de Amorim na Câmara dos Deputados, em nossa visão, caminhou justamente nessa direção. O diplomata afirmou que a defesa da soberania não pode ser utilizada como escudo para minimizar a gravidade das facções. O raciocínio dele é correto.

O Brasil deve ser implacável contra o crime organizado. Deve perseguir seus líderes, bloquear seu dinheiro, desmontar suas estruturas, controlar suas fronteiras, combater o tráfico de armas e drogas e impedir qualquer tentativa de conexão com organizações terroristas internacionais.

Mas nosso país deve fazer isso sem abrir mão da nossa soberania. Uma coisa não exclui a outra. Quem se diz cidadã ou cidadão brasileiro e torce por uma intervenção dos Estados Unidos em nosso país, nada mas é que traidor da pátria. A cooperação é bem-vinda. O que não pode é a gente estrangeiro, agindo em solo nacional, sem a devida autorização das instâncias competentes.

O caso do embaixador americano

Amorim também criticou a maneira como Washington conduziu a indicação de Daniel Perez para a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. O nome foi anunciado antes da conclusão do processo de agrément brasileiro, e posteriormente o Senado americano confirmou Perez para o cargo.

O problema diplomático, portanto, não é a existência de um novo indicado, mas a sequência dos procedimentos e a decisão de Washington de avançar publicamente antes da concordância formal do país anfitrião.

O agrément existe justamente para que o país receptor possa avaliar previamente se aceita aquele representante. Não é uma formalidade decorativa, é uma exigência da diplomacia internacional.

Por isso, quando Celso Amorim chama atenção para a quebra do rito diplomático, há uma questão institucional relevante em jogo. Ainda mais porque a indicação ocorre em meio a uma relação bilateral já deteriorada, tarifaços e às vésperas das eleições 2026.

O governo brasileiro, por sua vez, sinalizou que não pretende acelerar a decisão. Washington tem o direito de escolher seus representantes. Brasília tem o direito soberano de decidir quem será aceito para representá-lo em seu território. É assim que funciona uma relação entre países independentes e soberanos.

O Brasil não precisa escolher entre soberania e segurança

O debate colocado pela classificação americana das facções brasileiras revela uma questão maior. O Brasil precisa abandonar a falsa escolha entre duas posições igualmente ruins: de um lado, aceitar qualquer ação estrangeira em nome do combate ao crime; de outro, minimizar a dimensão internacional das organizações criminosas que operam no país.

O caminho é outro. O Brasil deve combater o crime organizado com máxima eficiência e, simultaneamente, impedir qualquer violação de sua soberania, inclusive monitorando e realizando operações contra integrantes de organizações terroristas.

Investigações recentes revelam que as fronteiras entre crime organizado, lavagem de dinheiro, tráfico internacional e estruturas terroristas podem ser mais porosas e interligadas do que muitos imaginavam. A Operação Hawala é um exemplo que não pode ser ignorado.

Mas esse exemplo deve produzir mais inteligência brasileira, mais cooperação internacional e mais capacidade de investigação — e não uma licença para intervenção estrangeira. Não podemos permitir que uma nação estrangeira atravessa nossas fronteiras e realize qualquer tipo de operação aqui sem autorização das instituições e instâncias competentes.

O Brasil é grande demais, estratégico demais e soberano demais para terceirizar sua segurança. Entra governo, sai governo, mas nossas instituições continuam fortes e funcionando. Se há uma ameaça internacional atuando em território brasileiro, cabe ao Estado brasileiro identificar, investigar e combater. Cooperação internacional, sim. Submissão, jamais.

E talvez seja justamente esse o momento de o país discutir seriamente o fortalecimento de uma estrutura nacional de inteligência integrada, com capacidade tecnológica e operacional para enfrentar o crime organizado transnacional e o terrorismo sem abrir mão das garantias democráticas.

Soberania sem segurança é fragilidade. Mas segurança sem soberania deixa de ser segurança nacional. Precisamos fazer a lição de casa e mostrar serviço nessa área, justamente para evitar as críticas unilaterais e injustas que os Estados Unidos da América tem feito ao nosso país. 

Também não podemos esquecer que lá não é diferente daqui. Entra governo, sai governo, mas as instituições funcionam e são fortes. Não vai ser administração Trump, que vai manchar a história das relações saudáveis, em todos os aspectos, mantidas entre Brasil e EUA há séculos. 

Outro ponto que cabe lembrar é justamente o terrorismo nacional. Quem não lembra do grupo que tentou explodir um caminhão tanque ao lado da pista do aeroporto de Brasília? E o homem bomba, que detonou explosivos na praça do STF, antes de explodir a si próprio? E os atos do 8 de janeiro? Também são células terroristas, que precisam ser monitoradas constantemente, na mesma lista aonde os Estados Unidos colocam as demais.

12.8.26

STF determina suspensão de verbas indenizatórias acima dos limites e devolução de valores no TJPR

STF suspende verbas indenizatórias fora do limite e manda devolver valores pagos pela AGU a magistrados de 7 estados e do DF

 

Foto: Carlos Moura/STF

De acordo com liberação de imprensa do Supremo Tribunal Federal (STF), a Corte determinou, nesta quarta-feira (12), a suspensão imediata do pagamento de verbas indenizatórias a magistrados de sete Tribunais de Justiça, entre eles o Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), quando os pagamentos estiverem em desacordo com os parâmetros estabelecidos pelo Supremo. A decisão também determina a devolução de valores pagos acima dos limites fixados.

No caso do Paraná, o STF informou que 73 magistrados do TJPR receberam mais de R$ 100 mil em abril. Os pagamentos estão entre os dados analisados pelos ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, após a Corte receber informações detalhadas sobre as folhas de pagamento dos tribunais referentes aos meses de abril, maio, junho e julho.

Pela determinação do Supremo, o TJPR deverá identificar os beneficiários dos pagamentos e encaminhar a relação ao STF no prazo de 72 horas. Também deverá providenciar a devolução dos valores que ultrapassem o limite global estabelecido pela Corte. O tribunal terá cinco dias para comprovar nos autos a suspensão dos pagamentos e as respectivas devoluções.

Limite de 70% do teto

A decisão aplica os parâmetros definidos pelo STF em março deste ano para o cumprimento do teto constitucional da remuneração de magistrados e membros do Ministério Público. A Corte estabeleceu um limite global de 70% do teto constitucional para determinadas parcelas, sendo 35% destinados à parcela de valorização por antiguidade e outros 35% às verbas indenizatórias autorizadas.

A Corte fixou expressamente as verbas devidas aos magistrados e aos membros do Ministério Público e determinou que os pagamentos observem os limites estabelecidos nas decisões.

Repercussão para o TJPR

A determinação coloca sob revisão os pagamentos realizados pelo TJPR no período analisado pelo STF. O levantamento da Corte apontou que, somente em abril, 73 magistrados receberam valores superiores a R$ 100 mil.

A medida não se restringe ao Paraná. Também alcança os Tribunais de Justiça de Goiás, Maranhão, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rondônia e do Distrito Federal.

Além da suspensão dos pagamentos considerados irregulares, os presidentes dos tribunais deverão prestar informações e cumprir as determinações de restituição dos valores que excederem os limites fixados pelo Supremo.

Fiscalização

O corregedor nacional de Justiça, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), deverá ser comunicado para fiscalizar o cumprimento da decisão, inclusive a vedação de pagamentos superiores aos autorizados pelo STF.

A Corregedoria também poderá apurar eventual responsabilidade administrativa e disciplinar dos presidentes dos Tribunais de Justiça pelos pagamentos realizados anteriormente em desacordo com as determinações da Corte.

Fonte: Supremo Tribunal Federal (STF) — “STF suspende pagamento de verbas indenizatórias fora dos limites e determina devolução de valores”, publicada em 12 de agosto de 2026. Texto editado pelo Sulpost.

Discord terá lives suspensas no Brasil após decisão da ANPD

Medida preventiva dá três dias úteis para a plataforma interromper transmissões ao vivo e recursos equivalentes. Caso envolvendo a morte de uma adolescente de 13 anos colocou no centro do debate os limites da proteção de menores na internet

 
Medida preventiva dá três dias úteis para a plataforma interromper transmissões ao vivo e recursos equivalentes. Caso envolvendo a morte de uma adolescente de 13 anos colocou no centro do debate os limites da proteção de menores na internet

Por alguns anos, o Discord ocupou um lugar meio difícil de explicar na vida digital brasileira. Para uns, era o espaço onde amigos se encontravam depois da escola. Para outros, uma extensão das comunidades de jogos, uma sala de estudos, um lugar para conversar durante a madrugada ou simplesmente uma praça pública particular. Entretanto sempre algo de estranho e obscuro no uso do aplicativo, pessoas de má fé escondidas atrás de uma tela, um avarar e, muitas vezes, de um apelido.

É justamente nesse território, onde convivem amizade, anonimato (que é vedado pela CF de 88), comunidades fechadas e comunicação em tempo real, que uma crise de segurança ganhou proporções nacionais. Investigações revelaram cenários escabrosos, por trás dessa aparentemente ingênua plataforma de comunicação em tempo real.

Hoje, quarta-feira (12), a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou que o Discord suspenda, em todo o território nacional, sua funcionalidade de transmissões ao vivo. A empresa terá três dias úteis para cumprir a determinação da ANDP.

A medida também alcança recursos considerados equivalentes de compartilhamento de vídeo e deverá permanecer em vigor, ao menos até que a plataforma adote medidas consideradas eficazes para proteger crianças e adolescentes.

É importante começar por uma distinção: não se trata de um banimento do Discord no Brasil. E essa diferença interessa diretamente a quem abre o aplicativo todos os dias. Pois não há nada de mal na plataforma em si, mas sim em que ela permita a usuários anônimos, muitas vezes se passando por crianças ou adolescentes, praticar ou induzir à prática de crimes, sugestionados muitas vezes em forma de desafios.

O que muda para quem usa o Discord

A decisão da ANPD atinge diretamente a empresa, não o usuário comum. Na prática, depois que a determinação for implementada, quem tentar iniciar uma transmissão ao vivo no Discord deverá, obrigatoriamente, encontrar a função indisponível ou bloqueada.

A decisão não estabelece que o usuário será multado, processado ou terá sua conta automaticamente suspensa por tentar transmitir. Também não determina o desligamento indistinto de todas as chamadas de voz, videochamadas ou do próprio Discord. O foco está nas transmissões ao vivo e em recursos equivalentes de compartilhamento de vídeo.

Por isso, é preciso cuidado com interpretações que tratem a decisão como se ela tivesse determinado o bloqueio individual de todas as funções técnicas do aplicativo, pois isso não é verdade. A forma exata como o Discord fará essa implementação caberá à própria plataforma, implantar dentro do prazo os limites estabelecidos pela ANPD.

Mensagens, servidores, canais e comunicação por voz, por exemplo, não foram transformados em atividades proibidas pela medida preventiva.

Uma história que começou com uma família e chegou a Brasília

Por trás da linguagem burocrática de uma decisão administrativa existe uma história muito mais dolorosa. A fiscalização e a pressão contra o Discord, ganharam ainda mais força depois da morte de uma adolescente de 13 anos, em julho deste ano. Segundo informações relatadas pelas autoridades, ela teria sido influenciada por integrantes de um grupo no Discord a praticar automutilação e suicídio, em uma situação que envolveu transmissão ao vivo.

O caso passou a ser investigado pela Polícia Civil e pelo Ciberlab, laboratório de operações cibernéticas ligado à Secretaria Nacional de Segurança Pública. A própria ANPD deixou claro que sua atuação é complementar às investigações criminais. Essa distinção é fundamental.

A investigação administrativa da ANPD não significa, por si só, que a agência tenha concluído que o Discord foi responsável pela morte da adolescente. Também não significa que todas as acusações contra a plataforma já estejam comprovadas.

A pergunta feita pela autoridade brasileira é outra: os mecanismos de segurança existentes são suficientes para prevenir, detectar e interromper situações de risco envolvendo crianças e adolescentes? É justamente essa resposta que a fiscalização pretende encontrar.

O que a ANPD está cobrando do Discord

A investigação examina a capacidade da plataforma de impedir instantaneamente que crianças e adolescentes sejam expostos a conteúdos capazes de induzir, incitar, instigar ou auxiliar práticas de automutilação e suicídio.

Entre os pontos analisados estão:

  • mecanismos de aferição de idade;
  • prevenção e detecção de conteúdos perigosos;
  • capacidade de identificar e remover conteúdos que violem as regras;
  • interrupção de situações consideradas de risco;
  • comunicação de casos às autoridades competentes;
  • medidas específicas de proteção para crianças e adolescentes.

Antes da determinação desta quarta-feira, a ANPD já havia aberto um processo de fiscalização contra o Discord e dado à empresa cinco dias úteis para apresentar informações sobre seus mecanismos de proteção.

Agora, a investigação ganhou uma consequência prática. Enquanto a plataforma não demonstrar que adotou providências consideradas suficientes, as transmissões ao vivo deverão permanecer suspensas.

A tecnologia já vinha mudando

Ainda existe outro detalhe importante para ser observado nessa história. O Discord já vinha modificando seus mecanismos de verificação de idade no Brasil por causa do ECA Digital, que entrou em vigor em março de 2026.

A plataforma passou a utilizar recursos como estimativa de idade por reconhecimento facial a partir de selfie em vídeo e envio de documento, isso em determinadas situações e para determinados conteúdos. Também foram alteradas configurações de segurança e restrições relacionadas à idade dos usuários.

Isso significa que a discussão não começou nesta quarta-feira. A nova legislação brasileira elevou as responsabilidades das plataformas digitais na proteção de crianças e adolescentes. Entre as preocupações está justamente a necessidade de mecanismos mais efetivos de aferição de idade, em vez de depender apenas da declaração feita pelo próprio usuário.

Um levantamento do Cetic.br apontou que, antes da entrada em vigor das novas regras, 84% dos 25 serviços digitais analisados não verificavam a idade durante a criação da conta. No caso do Discord, porém, a questão agora ficou mais profunda.

Não basta saber que existe uma pessoa menor de idade do outro lado da tela. É preciso saber se a plataforma consegue impedir que ela seja colocada diante de uma situação perigosa ou até traumatizante. País precisam estar atentos.

O problema não começou nas lives

É tentador colocar toda a discussão sobre o Discord em cima de uma única ferramenta: a transmissão em tempo real. A realidade é mais complexa. Uma plataforma comunitária pode reunir, no mesmo ambiente, grupos privados, convites, comunicação direta, anonimato, produção de conteúdo em tempo real e comunidades que podem permanecer praticamente invisíveis para quem está fora delas.

É aí que reside uma parte importante do problema. Uma criança pode entrar em um servidor por indicação de um amigo. Pode encontrar uma comunidade aparentemente inofensiva. Pode começar uma conversa privada. E, pouco a pouco, chegar a um ambiente completamente diferente daquele que seus pais imaginam que ela esteja frequentando.

A tela continua sendo a mesma e as pessoa do outro lado dela também, mas o ambiente mudou. Reportagens anteriores já haviam levantado questionamentos sobre a moderação do Discord no Brasil. A ANPD agora transforma essas preocupações em uma apuração administrativa formal, dentro das obrigações de proteção estabelecidas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital.

O Discord, por sua vez, afirma manter equipes especializadas para identificar grupos envolvidos em atividades violentas, remover conteúdos que violem suas regras e colaborar com autoridades.

Sobre o caso que desencadeou a atual crise, a empresa afirmou que havia identificado e desativado anteriormente um servidor privado relacionado à automutilação, embora não tenha detalhado quando isso ocorreu nem quantas pessoas estavam envolvidas.

O Discord pode ser multado?

Sim, pode. Se a fiscalização concluir que houve descumprimento das obrigações previstas no ECA Digital, a ANPD poderá determinar medidas corretivas e aplicar as sanções previstas na legislação.

Entre elas está a possibilidade de multa de até R$ 50 milhões por infração, conforme o enquadramento jurídico e as conclusões da apuração. Mas é importante não misturar as coisas.

A suspensão das lives é uma medida preventiva. Não representa, por si só, uma conclusão definitiva sobre todas as responsabilidades do Discord. Uma eventual sanção dependerá do resultado da fiscalização e do processo administrativo na ANPD.

E quando as lives poderão voltar?

Essa talvez seja a pergunta que mais interessa a quem utiliza o Discord para transmitir conteúdo. A resposta, neste momento, é: não existe uma data automática para o retorno. A lógica estabelecida pela ANPD é que as transmissões permaneçam suspensas até que o Discord demonstre a adoção de medidas efetivas de proteção de crianças e adolescentes.

Portanto, não se trata simplesmente de esperar três dias úteis e apertar novamente o botão de transmissão. Os três dias são o prazo para a implementação da determinação.

O retorno depende de outra etapa: a demonstração de que os problemas que levaram à intervenção foram enfrentados de maneira considerada suficiente pela autoridade.

E o usuário, fica como?

Para quem utiliza o Discord para conversar com amigos, estudar, jogar ou participar de comunidades, a plataforma continua funcionando. O que muda especificamente é o acesso às transmissões abrangidas pela determinação.

Para quem produz conteúdo, entretanto, o impacto pode ser maior. Criadores que utilizavam o Discord para transmitir partidas, apresentações, encontros ou atividades de suas comunidades terão de encontrar alternativas enquanto a suspensão estiver em vigor. E existe uma dimensão humana nessa história que não aparece nos termos jurídicos.

Para muita gente, uma live no Discord não era apenas uma ferramenta tecnológica. Era o lugar onde uma comunidade se reunia. Era onde amigos se encontravam depois de um dia inteiro longe do computador. Era onde alguém transmitia uma partida para meia dúzia de conhecidos. Era onde uma pequena comunidade tinha seu próprio espaço.

É por isso que o debate precisa escapar dos extremos. De um lado, existem famílias que passaram a olhar para as plataformas digitais com medo depois de descobrir como comunidades podem influenciar crianças e adolescentes de maneira silenciosa.

Do outro, existem milhões de usuários que utilizam essas mesmas ferramentas de maneira legítima, cotidiana e afetiva.

Uma coisa não apaga a outra.

O que acontece agora

Nos próximos dias, o foco estará no cumprimento da determinação e na resposta da plataforma.

12 de agosto: a ANPD determina a suspensão das transmissões ao vivo no Brasil.

Prazo de três dias úteis: o Discord deverá implementar a suspensão determinada pela agência.

Durante a suspensão: lives e recursos equivalentes abrangidos pela ordem deverão permanecer indisponíveis.

Paralelamente: continua a fiscalização sobre os mecanismos de proteção de crianças e adolescentes.

Depois: caso a plataforma demonstre a adoção de medidas eficazes, a situação poderá ser reavaliada. Se forem constatadas irregularidades, outras medidas corretivas e novas sanções poderão ser adotadas.

Enquanto isso, o Discord continua funcionando como plataforma. O Brasil não determinou, nesta decisão, que o aplicativo inteiro seja desligado no país. Mas este capítulo da história está longe de terminar. Porque, no fundo, a discussão sobre o Discord não é apenas sobre uma ferramenta chamada “live”. É sobre o que acontece quando uma tela deixa de ser apenas uma tela.

A discussão em pauta é sobre quando um servidor deixa de ser apenas um servidor. E sobre quando uma conversa aparentemente banal se transforma em uma porta para um ambiente que pais, professores e até a própria plataforma talvez não consigam enxergar a tempo.

E existe uma pergunta ainda maior por trás de toda essa discussão:

Quanto uma empresa de tecnologia precisa enxergar, prevenir e fazer antes que uma situação de risco chegue a uma criança?

Talvez essa seja a questão que ficará depois que as lives voltarem — ou enquanto continuarem suspensas. Porque, do outro lado de cada conexão, de cada perfil e de cada avatar, existe alguém de verdade.

E, quando essa pessoa é uma criança, ou alguém vulnerável, a responsabilidade de quem construiu o ambiente digital também precisa ser real.


SULPOST
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Em campanha, Gleisi está com o pé na estrada — e o Paraná vai junto

Gleisi Hoffmann está percorre o estado, defendendo um projeto para o Paraná e carrega consigo uma história que pouca gente lembra: foi dela a iniciativa que acabou com os antigos 14º e 15º salários dos parlamentares

 

Gleisi Hoffmann está percorrendo o estado, ele defende um projeto para o Paraná e carrega consigo uma história que pouca gente lembra: foi dela a iniciativa que acabou com os antigos 14º e 15º salários dos parlamentares
Gleisi Hoffmann e Requião Filho, candidata ao Senado e candidato ao Governo do Paraná, caminham lado a lado pela Federação Progressista rumo às eleições 2026 - Foto: PDT Paraná/Reprodução.

Há momentos em que a política deixa de ser apenas disputa de nomes e passa a ser também disputa de memória. Disputa de serviços e projetos colocados em prática para o bem do Paraná e do Brasil. Uma história de luta pelo que é certo e pelas pessoas que mais precisam, que agora percorre todo o estado.

Gleisi Hoffmann está novamente com o pé na estrada. Deputada federal pelo Paraná, ex-ministra e candidata ao Senado em 2026. Gleisi vem ampliando a presença no estado numa verdadeira maratona de encontros, reuniões, articulações e conversas políticas.

Não é uma caminhada pequena. O Paraná é grande, gigante, as distâncias são enormes. São 399 municípios, e a eleição para o Senado tem uma característica particular: são duas vagas, muitos candidatos e um eleitor que, na maioria das vezes, de acordo com pesquisas eleitorais recentes, ainda está longe de ter decidido seus dois votos, em especial no cenários de pesquisa espontânea, quando não são citados os nomes dos candidatos.

Nas pesquisas mais recentes, Gleisi aparece no grupo que disputa diretamente uma das vagas. A Genial/Quaest divulgada em julho mostrou Álvaro Dias na liderança e uma disputa embolada pela segunda cadeira, com Alexandre Curi, Deltan Dallagnol, Filipe Barros e Gleisi tecnicamente empatados dentro da margem de erro.

Agora, com a desistência de Álvaro Dias, de acordo com especialistas, ela deve aparecer em primeiro lugar nas próximas sondagens. E, outros levantamentos também colocaram a petista no pelotão de frente.

Uma mulher que conhece o caminho

Gleisi não está começando agora. Ela já foi senadora pelo Paraná, presidiu o PT nacional, comandou a Casa Civil no governo Dilma Rousseff, ocupou a Secretaria de Relações Institucionais do governo Lula e atualmente exerce mandato de deputada federal.

Sua trajetória é conhecida. Suas bandeiras e posicionamentos políticos também. O que às vezes fica esquecido, porém, são algumas decisões importantes tomadas por ela no exercício dos mandatos.

E uma delas merece ser lembrada.

Logo no começo de sua passagem pelo Senado, em fevereiro de 2011, Gleisi apresentou o Projeto de Decreto Legislativo 71/2011, propondo acabar com o pagamento dos chamados 14º e 15º salários aos deputados e senadores. Na época, o benefício era pago no início e no final de cada ano legislativo.

Gleisi foi a primeira a questionar justamente qual seria a justificativa para aquele dinheiro extra. A argumentação dela foi simples e eficientes. Ela teve a coragem de ser a primeira a dizer que as condições e a carga de trabalho dos parlamentares já não correspondia à realidade que havia originado o benefício.

E o Congresso acabou votando

Em maio de 2012, o Senado aprovou o projeto proposto por Gleisi. Meses depois, em 27 de fevereiro de 2013, a Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade, o fim dos chamados 14º e 15º salários. A medida acabou sendo promulgada em março daquele ano.

O dinheiro que antes era pago duas vezes por ano deixou de existir como remuneração extraordinária. A ajuda de custo passou a ter outra finalidade, vinculada ao início e ao final do mandato para despesas de mudança.

É uma história que merece ser contada porque revela uma coisa simples: algumas pautas populares não nascem de discurso de campanha. Nascem de decisões tomadas quando ainda não se sabe qual será o retorno político delas. E, naquele caso, Gleisi resolveu comprar uma briga dentro da própria instituição que integrava.

Política também tem memória

É claro que não dá para transformar isso numa explicação para todos os capítulos da carreira política de Gleisi. Afinal ela talvez seja a maior parlamentar que o Paraná já produziu até hoje.

Também seria incorreto afirmar, sem comprovação documental, que ela deixou de ser eleita ou sofreu uma derrota eleitoral por causa dessa iniciativa. 

O que os fatos mostram é outra coisa: Gleisi apresentou a proposta, o Senado a aprovou, a Câmara confirmou e o benefício acabou. E isso é suficiente para recolocar a discussão no lugar certo. Em tempos em que muita gente promete cortar privilégios, vale olhar para quem efetivamente apresentou propostas para fazê-lo, foi lá e fez.

Agora, outra vez, o Paraná

A Gleisi de 2026 é diferente daquela senadora que chegou ao Congresso em 2011. O devir agiu em sua vida. Ela acumulou experiência, enfrentou crises políticas, ocupou espaços importantes no governo federal e passou a conhecer por dentro os corredores onde as grandes decisões nacionais são tomadas.

Agora ela quer voltar ao Senado. E sua campanha vem ganhando o Paraná. Nos últimos meses, sua agenda pelo estado passou por diferentes regiões e combinou encontros políticos, defesa de investimentos federais, desenvolvimento, infraestrutura, energia, tecnologia, fiscalização de entregas do Governo Federal e a própria relação do Paraná com o governo federal.

A candidatura também foi incorporada ao projeto do campo progressista para 2026. Gleisi aparece como um dos principais nomes do palanque que reúne diferentes forças políticas em torno da candidatura de Requião Filho ao governo estadual e da estratégia de reeleição do presidente Lula, que também de acordo com pesquisas recentes pode estar muito próximo de vencer no primeiro turno.

Não é apenas uma eleição para o Senado

Há algo maior em jogo. O Senado Federal já é, e continuará a ser, uma das arenas centrais da disputa política brasileira nos próximos anos. É ali que estarão discussões sobre orçamento, políticas públicas, direitos sociais e humanos, desenvolvimento, infraestrutura, segurança, energia, relações federativas e, inevitavelmente, os rumos da democracia brasileira.

Para o Paraná, eleger seus representantes significa também escolher quem terá voz diante dessas decisões. Gleisi apresenta uma característica que poucos candidatos conseguem reunir: conhece o estado, conhece Brasília, já viajou por todo o Brasil e conhece o funcionamento do governo federal.

As pessoas podem concordar ou discordar de suas posições políticas. Isso faz parte de toda democracia saudável. Mas é difícil negar que ela conhece o caminho e realmente sabe como fazer as coisas acontecerem.

Uma mulher que não foge de pegar a estrada

Talvez seja justamente por isso que a imagem desta campanha esteja cada vez mais associada à estrada. Dia após dia, cidade após cidade, reunião após reunião. Gente diferente, sotaques diferentes, problemas diferentes.

O Paraná não termina na Região Metropolitana de Curitiba, como também não começa em Brasília. Nosso Estado está junto com o trabalhador e a trabalhadora que pega ônibus de madrugada, na pequena empresária que tenta manter as portas abertas, no agricultor que depende da infraestrutura, no jovem e na jovem que procura seu primeiro emprego, na mãe que espera atendimento de saúde e no aposentado que faz contas antes de ir ao supermercado.

É para esse Paraná que uma candidatura ao Senado precisa olhar. E é nesse território que Gleisi está tentando construir sua volta ao Senado. Ela é um exemplo para toda mulher, paranaense e brasileira, que é candidata nessas eleições de 2026.

Gleisi é Bicho do Paraná

Há paranaenses que ganharam projeção nacional e acabaram ficando distantes de sua terra. Gleisi fez o caminho contrário. Sempre próxima às suas bases. Quanto maior foi o espaço que ocupou em Brasília, maior também se tornou a cobrança para que levasse o Paraná consigo. Agora, de volta à estrada, ela volta a transformar experiência nacional em busca da confiança e do voto da família paranaense.

Não é uma campanha fácil. A disputa pelas duas cadeiras do Senado promete ser uma das mais acirradas do estado. Mas Gleisi já demonstrou que sabe enfrentar eleições difíceis e, principalmente, que não costuma fazer política olhando apenas para o caminho mais confortável.

Em 2011, quando ainda começava sua passagem pelo Senado, decidiu enfrentar uma tradição que beneficiava os próprios parlamentares. Hoje, quinze anos depois, a paranaense volta a pedir, para os cidadãos e os cidadãs do seu estado, uma nova oportunidade para voltar a fazer acontecer a vontade popular no Senado Federal.

Talvez seja essa a parte da história que vale lembrar. Porque política também é memória. Antigamente dizia-se que o povo não tem memória, isso agora não é mais desculpa porque todos carregam a internet no bolso.

E, quando uma mulher que já ocupou alguns dos cargos mais importantes da República decide colocar novamente os pés na estrada, para disputar uma vaga pelo seu estado, vale prestar atenção.

Sim, Gleisi é uma figura central política nacional. Mas continua sendo uma mulher do Paraná. Uma paranaense que trabalha e sonha como qualquer outra. Que luta pela igualdade de gêneros, que quer trabalhar para cuidar das pessoas do nosso Estado.

E, para quem nasceu, cresceu e fez sua trajetória política por aqui, talvez não haja reconhecimento maior do que dizer: Gleisi Hoffmann é Bicho do Paraná.


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11.8.26

De “volte para o Ceará” a uma crise que ameaça o mandato: como o caso Tathiana Guzella escalou em Curitiba

Numa cidade construída por muitas gentes, a acusação de xenofobia contra vereadora do PL transformou fala no plenário em indignação e processos que podem resultar até em cassação do mandato


Numa cidade construída por pessoas que chegaram de outros lugares para recomeçar, a acusação de xenofobia contra uma vereadora transformou fala no plenário em denúncia criminal, pedidos de cassação e mais uma crise política para a Câmara de Curitiba

Há frases que terminam quando o som da voz desaparece. Outras continuam ecoando na memória de quem as ouviu — sobretudo quando atingem justamente aquilo que alguém precisou deixar para trás para construir uma nova vida, suas origens.

Curitiba conhece bem histórias como essa. A capital paranaense foi e continua sendo uma cidade de muitas gentes: pessoas que chegaram de outros estados, de outras regiões e de outros países carregando sotaques, costumes, afetos e, muitas vezes, a coragem necessária para começar outra vez.

Para quem migra, ouvir que não pertence ao lugar onde trabalha, mora, cria os filhos ou exerce sua cidadania não é apenas uma ofensa. Pode reabrir a ferida de quem passou anos tentando transformar uma cidade nova em lar.

É nesse ponto que o episódio envolvendo as vereadoras Tathiana Guzella (PL) e Vanda de Assis (PT) ganhou uma dimensão que ultrapassou a disputa política.

O que começou com um confronto durante discurso, numa sessão da Câmara Municipal de Curitiba, em 5 de agosto, transformou-se, em poucos dias, em uma denúncia criminal do Ministério Público do Paraná (MPPR).

A denúncia do MPPR, somada à repercussão nacional do caso, gerou uma sequência de representações por quebra de decoro e, nesta terça-feira (11), em mais um pedido formal de cassação — desta vez apresentado pelo presidente estadual do PT, deputado Arilson Chiorato.

A Lei 7.716/1989 estabelece que crimes resultantes de discriminação ou preconceito também podem estar relacionados à procedência nacional. O artigo 20 criminaliza a prática, indução ou incitação de discriminação ou preconceito por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

O caso, portanto, deixou de ser apenas uma briga entre duas parlamentares. Tornou-se uma questão sobre os limites do discurso político, a responsabilidade de quem ocupa um mandato eletivo e o lugar que Curitiba deseja reservar para quem veio de fora.

5 de agosto — a frase que detonou a crise

A discussão começou durante o debate de um projeto de lei, que prevê a criação de um cadastro municipal para pessoas em situação de rua. Vanda de Assis participava do debate, foi quando durante a fala de Vanda, Tathiana Guzella pediu um aparte.

O confronto subiu de tom e Guzella questionou a origem cearense da colega. Segundo a gravação da sessão e os relatos que embasaram a denúncia do MPPR, a vereadora perguntou por que Vanda não voltava para o Ceará. Guzella teria afirmado ainda que Vanda tinha vindo para Curitiba para “encher o saco”.

A fala agressiva da vereadora do PL provocou reação imediata. Vanda acusou a colega de xenofobia, e a sessão acabou marcada pelo bate-boca.

O episódio é especialmente simbólico porque Vanda de Assis nasceu em Campos Sales, no Ceará, e é a primeira mulher nordestina a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Curitiba, segundo manifestação divulgada pelo presidente do PT-PR, Arilson Chiorato.

A partir daquele momento, a discussão deixou de ser apenas sobre o projeto em debate. A origem regional de uma parlamentar passou a ocupar o centro do conflito.

A pergunta que vem dos curitibanos é: até onde pode ir a linguagem num embate político antes que a crítica passe a atingir a dignidade de uma pessoa por sua origem?

6 de agosto — a reação da Câmara e do Ministério Público

No dia à fala xenofoba, a resposta começou a se organizar em duas frentes. Vanda de Assis protocolou representação na Câmara de Curitiba contra Tathiana Guzella. O documento pede a apuração de possível quebra de decoro parlamentar e a cassação do mandato. Também houve representação apresentada por um coletivo de advogadas e advogados.

A Câmara de Curitiba informou posteriormente que, após o episódio, cinco representações haviam sido protocoladas relacionadas ao caso: quatro contra Tathiana Guzella e uma contra Vanda de Assis.

No mesmo dia, o caso ganhou também uma dimensão criminal. O MPPR apresentou denúncia contra Guzella pela suposta prática de discriminação ou preconceito em razão da procedência nacional. A acusação foi enquadrada no artigo 20 da Lei 7.716/1989.

Na denúncia, segundo as informações divulgadas sobre a peça, a Promotoria afirma que a manifestação teria tido a intenção de ofender e humilhar Vanda e de menosprezar, de forma mais ampla, pessoas de origem cearense.

É importante fazer uma distinção: denúncia do Ministério Público não é condenação. O MP apresenta ao Judiciário a acusação que entende existir; cabe à Justiça analisar se a recebe e, a partir daí, garantir à acusada o direito de defesa e o devido processo legal.

7 de agosto — a crise política ganha volume

A denúncia criminal não ficou isolada. Enquanto o debate sobre a responsabilização penal avançava, os pedidos para que Guzella perdesse o mandato começaram a se multiplicar.

Reportagens publicadas nesse período apontaram quatro pedidos de cassação contra a vereadora. Um deles partiu da própria Vanda de Assis; outro foi apresentado por um coletivo de advogadas e advogados. Ao mesmo tempo, Guzella também apresentou representação contra Vanda, mostrando que o conflito político havia adquirido uma dimensão própria dentro da Câmara.

A disputa, portanto, passou a caminhar por duas estradas diferentes: uma judicial, conduzida a partir da denúncia do MPPR, e outra político-disciplinar, dentro da Câmara Municipal. Para complicar ainda mais a situação da vereadora há uma circunstância particularmente delicada nessa segunda frente.

Tathiana Guzella é a corregedora da Câmara de Curitiba, cargo para o qual foi eleita em junho. Entre as atribuições da Corregedoria estão justamente a manutenção do decoro, da ordem e da disciplina no Legislativo e a realização de sindicâncias sobre denúncias de ilícitos ou infrações ético-disciplinares envolvendo vereadores. Veja no site da Câmara Municipal de Curitiba. Como todo mundo sabe, ninguém pode julgar sobre própria causa.

8 de agosto — acusação passa a envolver também reparação financeira

Com a denúncia criminal, o MPPR não pediu apenas a responsabilização penal de Guzella. A Promotoria requereu que a Justiça estabeleça uma indenização mínima de 20 salários mínimos para Vanda de Assis, pelos danos atribuídos à conduta.

Também pediu mais 40 salários mínimos por dano moral coletivo. Segundo as informações divulgadas sobre a denúncia, o valor seria destinado ao Fundo Estadual de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, para financiar políticas públicas de promoção da igualdade. Somados, os dois pedidos chegam a R$ 97.260.

A dimensão coletiva do pedido chama atenção porque revela que, para o Ministério Público, a discussão não se resume à relação pessoal entre duas vereadoras. A questão colocada pela Promotoria é se uma manifestação dirigida a uma parlamentar por sua origem pode também atingir, simbolicamente, um grupo inteiro.

10 de agosto — as duas vereadoras voltam ao plenário

Na segunda-feira (10), as duas parlamentares voltaram a se manifestar publicamente na Câmara, na primeira sessão após o episódio. Vanda falou sobre as providências que havia tomado e agradeceu as manifestações de solidariedade recebidas de Curitiba, do Paraná e, especialmente, de outras partes do país e do Nordeste. A mensagem foi direta: segundo ela, não se deve aceitar a prática de xenofobia contra ninguém.

Tathiana, por sua vez, negou que tenha cometido xenofobia. A vereadora afirmou que sua fala foi interrompida antes que pudesse concluir o raciocínio e sustentou que pretendia fazer uma comparação entre políticas públicas e indicadores do Paraná e do Ceará. Também disse que jamais teve a intenção de atacar o povo nordestino.

Essa versão passou a integrar a própria disputa sobre o episódio: de um lado, a interpretação de que a origem de Vanda foi usada para desqualificá-la; de outro, a alegação de Guzella de que o contexto de sua fala teria sido interrompido.

A decisão sobre o significado jurídico da manifestação, entretanto, não cabe às partes nem à imprensa, ou a este modesto blogueiro. No âmbito criminal, será da Justiça quem vai decidir. Já no âmbito político, cebe à Câmara de Curitiba, agora decidir. Quem vai analisar representações e decidir sobre os procedimentos previstos? Dependendo da decisão, a fala infeliz da vereadora pode culminar numa eventual responsabilização por quebra de decoro.

11 de agosto — presidente do PT pede cassação

Nesta terça-feira (11), a crise ganhou um novo capítulo. Um reforço do presidente do partido de Vanda no Paraná. O presidente do PT-PR e deputado estadual Arilson Chiorato protocolou um pedido de cassação do mandato de Tathiana Guzella.

Na representação, segundo o documento divulgado pelo parlamentar, a conduta atribuída à vereadora poderia caracterizar quebra de decoro por ser incompatível com a dignidade do cargo. O pedido se apoia nas regras do Código de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara de Curitiba, que prevê diferentes sanções disciplinares, entre elas a cassação.

Chiorato classificou a fala da vereadora do PL como xenófoba e afirmou que manifestações dessa natureza não podem ser normalizadas no exercício de um mandato parlamentar. O argumento político também toca numa característica que Curitiba conhece profundamente: a cidade não pertence exclusivamente a quem nasceu nela. 

“Curitiba” é uma palavra que, para milhares de pessoas, significa justamente o lugar onde a vida foi reconstruída. E na língua nativa local, "lugar de muito pinhão", pois antes do primeiro português chegar aqui era uma aldeia indígena. Mais uma história que dá esperança há milhares de pessoas que escolheram a capital do Paraná como um novo lar.

O mandato de Guzella está em xeque?

Neste momento, é preciso separar o peso político do peso jurídico de cada acontecimento. A denúncia do MPPR coloca Guzella diante de uma acusação criminal formal, mas isso não significa que ela tenha sido condenada. A Justiça ainda deverá analisar a peça acusatória.

Já os pedidos de cassação abrem uma frente político-disciplinar na Câmara de Curitiba. Eles podem resultar em investigação e, dependendo do andamento dos procedimentos e das conclusões alcançadas, em processo que poderá discutir a perda do mandato da vereadora. Mulher que mesmo tendo nascido em Santa Catarina, fez carreira na polícia em Curitiba, como delegada, e através do voto popular conquistou uma cadeira no parlamento municipal.

Há ainda um elemento institucional que torna o caso particularmente sensível: Guzella ocupa a Corregedoria, órgão que tem entre suas funções justamente zelar pelo decoro parlamentar e apurar denúncias envolvendo vereadores. Entretanto isso não significa, por si só, que o mandato da peelista esteja perdido.

Significa que a vereadora passou a enfrentar uma combinação incomum de pressões. Denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público, múltiplas representações dentro da Câmara e, agora, um pedido de cassação formulado pelo presidente estadual de um partido que cinco vezes já elegeu o Presidente da República. Mas o desfecho está em aberto.

Uma cidade de muitas origens

Talvez seja esse o ponto que ultrapasse o destino político e a visão de uma única vereadora. Curitiba foi construída por pessoas que chegaram até aqui. Algumas vieram de longe. Outras atravessaram o país. Muitas trouxeram consigo uma palavra que, em determinados momentos, revela mais do que qualquer documento de identidade: o sotaque.

O migrante sabe que reconstruir uma vida é também conquistar o direito de dizer “esta cidade é minha casa”. E, certamente Vanda de Assis, assim como Guzella, já são radicadas curitibanas.

Por isso, quando alguém ouve que deveria “voltar” para o lugar de onde veio, a frase pode carregar um significado dolorido e muito maior do que aquele percebido por quem a pronuncia. Ainda mais na casa de leis da cidade. Ela pode transformar pertencimento em suspeita e cidadania em favor.

É justamente por reconhecer esse perigo que o ordenamento jurídico brasileiro protege as pessoas contra discriminação e preconceito por procedência nacional. A Lei 7.716/1989 expressamente inclui essa categoria entre as condutas abrangidas pela legislação antidiscriminatória.

No caso de Tathiana Guzella, caberá à Justiça dizer se a fala atribuída à vereadora preenche os requisitos do crime apontado pelo Ministério Público. À Câmara caberá, por sua vez, examinar se houve quebra de decoro parlamentar.

Mas, antes mesmo dessas decisões, permanece uma questão que é de toda a cidade: quem chega a Curitiba para trabalhar, morar, criar os filhos ou exercer um mandato precisa primeiro provar alguma coisa? Ao nosso ver, a resposta de uma cidade feita de muitas gentes deveria ser inequívoca: não. 

Curitiba é terra de muitas gentes! Quem falava Jaime Lerner, disse Roberto Requião, assim como falou Rafael Greca. Vamos ver agora, também, qual será a posição do atual prefeito, Eduardo Pimentel (PSD) e de sua bancada na Câmara de Curitiba.

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