Novo relatório da ONU revela que o tratamento de águas residuais não acompanhou o crescimento da demanda por água. No Brasil, os avanços convivem com um déficit histórico de saneamento
A água que desaparece pelo ralo das casas não some. Ela segue um caminho que, quando interrompido pela falta de coleta e tratamento, acaba desembocando em rios, lagos, represas e, muitas vezes, na própria torneira de milhões de pessoas. É um ciclo silencioso que ajuda a explicar por que a crise da água não é apenas um problema de escassez, mas também de poluição.
Esse é um dos principais alertas do novo Relatório Síntese do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6), divulgado pela UN-Water, programa das Nações Unidas responsável pela coordenação das políticas globais sobre água e saneamento. O documento faz um balanço de dez anos de implementação da Agenda 2030 e conclui que, embora o mundo tenha avançado, o ritmo continua insuficiente para garantir água limpa e saneamento para todos até o fim da década.
O esgoto continua sendo um dos maiores inimigos da água
Segundo a ONU, o tratamento das águas residuais melhorou nos últimos anos, mas esse avanço ficou atrás do aumento da geração de esgoto provocado pelo crescimento populacional, pela urbanização e pelo desenvolvimento econômico.
Hoje, apenas 56% das águas residuais domésticas do planeta recebem tratamento seguro, percentual praticamente estagnado desde 2020. Isso significa que quase metade do esgoto produzido no mundo ainda é lançada no meio ambiente sem tratamento adequado, contaminando cursos d'água, degradando ecossistemas e aumentando riscos à saúde pública.
Para a ONU, investir em saneamento deixou de ser apenas uma política de saúde. Tornou-se uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, de proteção da biodiversidade, de segurança alimentar e de desenvolvimento econômico.
O desafio brasileiro
O cenário brasileiro ilustra bem esse contraste entre avanços e desafios. Dados do monitoramento global do ODS 6 mostram que 89% da população brasileira já tem acesso à água potável gerida de forma segura, mas apenas 55% dispõe de serviços de saneamento considerados seguros. No caso do tratamento das águas residuais domésticas, o índice nacional chega a apenas 43%, abaixo da média mundial.
Na prática, isso significa que milhões de brasileiros ainda convivem diariamente com rios transformados em canais de esgoto, contaminação de mananciais, proliferação de doenças e desperdício de um recurso cada vez mais valioso.
Mesmo estados que ampliaram a coleta de esgoto ainda enfrentam dificuldades para universalizar o tratamento, etapa essencial para impedir que a poluição retorne aos rios.
Água e clima caminham juntos
O relatório destaca que a crise climática amplia ainda mais a urgência desses investimentos.
Secas prolongadas reduzem a disponibilidade de água doce, enquanto chuvas extremas sobrecarregam sistemas de drenagem e estações de tratamento. Em muitos casos, a combinação desses fatores aumenta a contaminação dos mananciais justamente quando a população mais precisa deles.
Para a ONU, proteger rios, lagos, aquíferos e áreas úmidas será tão importante quanto ampliar redes de abastecimento e coleta de esgoto nos próximos anos. E, essa preocupação e trabalho das Nações Unidas deve ser também de cada um de nós, não lançando dejetos contaminantes em mananciais e cobrando do poder público o devido o tratamento das águas de esgoto.
Infelizmente no Brasil ainda existem muitos emissários submarinos, em cidades costeiras do país, que lançam toneladas de esgoto nos, oceanos sem nenhuma espécie de tratamento.
O que a ONU propõe
O documento servirá de base para as discussões do Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e também começa a desenhar a agenda internacional que sucederá os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável após 2030.
Entre as prioridades apontadas pela ONU estão:
- Ampliar os investimentos em água e saneamento;
- Acelerar reformas nas políticas públicas;
- Fortalecer a gestão integrada dos recursos hídricos;
- Estimular a reutilização segura da água;
- Promover inovação tecnológica e cooperação internacional.
Segundo a UN-Water, a experiência acumulada ao longo da última década demonstra que metas globais claras ajudam governos a reformar políticas públicas, integrar diferentes setores e acelerar resultados concretos. O desafio agora é transformar esse aprendizado em ações capazes de garantir segurança hídrica para as próximas gerações.
Um recurso finito
Embora o Brasil concentre cerca de 12% da água doce superficial do planeta, essa riqueza está distribuída de forma desigual. Regiões densamente povoadas convivem com pressão crescente sobre os mananciais, agravada pela poluição, pelo desmatamento, pela ocupação irregular e pelas mudanças climáticas.
A mensagem da ONU é direta: não basta captar mais água. É preciso impedir que ela seja contaminada antes de completar seu ciclo. Cada litro de esgoto tratado representa menos doenças, rios mais vivos, maior disponibilidade de água para consumo humano, agricultura e indústria e cidades mais resilientes diante das mudanças do clima.
A próxima década será decisiva. Sem acelerar o saneamento básico e o tratamento das águas residuais, o planeta corre o risco de transformar um recurso essencial à vida em um dos seus maiores desafios ambientais.
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