Relatório global aponta que áreas reconhecidas pela UNESCO somam mais de 13 milhões de km² e concentram biodiversidade essencial — com o Parque Nacional do Iguaçu entre os destaques
O som das quedas d’água ecoa antes mesmo de aparecer no horizonte. Em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, a força das cataratas não é apenas espetáculo — é também símbolo de resistência ambiental em escala global.
No Parque Nacional do Iguaçu, a paisagem impressiona e sustenta. São cerca de 275 quedas d’água, distribuídas em quase três quilômetros, despencando de até 80 metros de altura. Ao redor, uma floresta subtropical densa abriga mais de 2 mil espécies de plantas, cerca de 400 espécies de aves e dezenas de mamíferos — entre eles, a onça-pintada, o tamanduá-bandeira e o jacaré.
Esse patrimônio natural, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1986, integra uma rede global que, segundo relatório divulgado nesta terça-feira (21), vem ganhando importância estratégica diante da crise ambiental.
O estudo People and Nature in UNESCO Sites: Global and Local Contributions analisa pela primeira vez, de forma integrada, todos os territórios reconhecidos pela organização — incluindo Patrimônio Mundial, Reservas da Biosfera e Geoparques.
O resultado revela uma escala expressiva: mais de 2.260 sítios espalhados pelo planeta, cobrindo uma área superior a 13 milhões de quilômetros quadrados — maior do que a soma territorial de países como China e Índia.
Refúgios de biodiversidade
Os dados mostram um contraste importante. Enquanto as populações de animais selvagens despencaram cerca de 73% no mundo desde 1970, nas áreas protegidas pela UNESCO elas permanecem relativamente estáveis.
No Brasil, além de Iguaçu, um exemplo recente é o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, incluído na lista em 2024. A região abriga espécies ameaçadas como o guará, a lontra-neotropical, o gato-do-mato e o peixe-boi-marinho — reforçando o papel dessas áreas como refúgios ecológicos.
Regulação climática
Mais do que preservar espécies, esses territórios desempenham funções ambientais críticas. Segundo o relatório:
- abrigam mais de 60% das espécies mapeadas no planeta;
- concentram cerca de 40% de espécies exclusivas;
- armazenam aproximadamente 240 gigatoneladas de carbono;
- respondem por cerca de 15% da absorção anual de carbono pelas florestas globais.
Na prática, funcionam como reguladores naturais do clima, ajudando a conter o avanço do aquecimento global.
Pressão crescente
Apesar da relevância, o alerta é direto. Quase 90% desses sítios enfrentam níveis elevados de estresse ambiental, e os riscos ligados às mudanças climáticas aumentaram cerca de 40% na última década.
O cenário futuro preocupa: mais de um em cada quatro sítios pode atingir pontos críticos de degradação até 2050, com impactos potencialmente irreversíveis — como colapso de ecossistemas, escassez hídrica e perda de biodiversidade.
Pessoas e território
Esses espaços também são territórios vivos. Cerca de 900 milhões de pessoas vivem dentro ou no entorno dos sítios da UNESCO — o equivalente a 10% da população mundial.
Mais de mil línguas são faladas nessas regiões, e ao menos um quarto delas inclui terras de povos indígenas. Em áreas como América Latina e África, essa proporção é ainda maior.
O relatório destaca que onde há participação das comunidades locais, os resultados de conservação tendem a ser mais consistentes e duradouros.
Um chamado à ação
Para a UNESCO, esses territórios devem ser vistos como ativos estratégicos no enfrentamento da crise climática e da perda de biodiversidade.
No entanto, ainda há um descompasso: enquanto a maioria dos planos globais de biodiversidade considera esses sítios, apenas uma pequena parcela das políticas climáticas os incorpora de forma efetiva.
A recomendação é clara: ampliar investimentos, restaurar ecossistemas, fortalecer a cooperação internacional — especialmente em áreas de fronteira, como Iguaçu — e integrar essas regiões às estratégias climáticas globais.
No fundo, a mensagem é direta. Proteger esses territórios não é apenas preservar paisagens — é garantir que os sistemas naturais que sustentam a vida continuem funcionando.












