domingo, 24 de maio de 2026

Trump afirma que guerra no Irã pode estar perto do fim após avanço em negociações

Presidente dos Estados Unidos diz que acordo de paz está “largamente negociado”, enquanto autoridades iranianas falam em cessar-fogo amplo e reabertura do Estreito de Ormuz

 
Trump afirma que guerra no Irã pode estar perto do fim após avanço em negociações. Presidente dos Estados Unidos diz que acordo de paz está “largamente negociado”, enquanto autoridades iranianas falam em cessar-fogo amplo e reabertura do Estreito de Ormuz

O relógio corre em Teerã, os mercados observam em silêncio e o mundo tenta entender se, finalmente, a guerra no Irã começa a perder força. Na manhã deste domingo (24), uma sinalização inesperada partiu de Washington — e mexeu com a geopolítica internacional.

Segundo reportagem publicada pelo jornal The New York Times, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que um acordo para encerrar a guerra entre Irã, Israel e aliados “está próximo” e já teria sido “largamente negociado”.

A declaração foi feita por meio da rede Truth Social, onde Trump afirmou ter conversado com líderes árabes sobre um memorando “relacionado à PAZ”. O republicano disse ainda que os “aspectos finais e detalhes do acordo” seguem em discussão e devem ser anunciados em breve.

“Os aspectos finais e detalhes do acordo estão sendo discutidos neste momento e serão anunciados em breve”, escreveu Donald Trump.

Apesar do tom otimista da Casa Branca, ainda existe uma grande névoa sobre o conteúdo real do possível entendimento. Autoridades americanas e iranianas apresentaram versões diferentes sobre os pontos centrais das negociações.

De acordo com integrantes do governo dos EUA ouvidos pelo jornal norte-americano sob condição de anonimato, uma das exigências seria o abandono, por parte do Irã, de seus estoques de urânio altamente enriquecido — um dos principais focos de tensão da guerra.

Já autoridades iranianas disseram ao New York Times que o memorando não trata diretamente do programa nuclear do país neste momento. Segundo elas, essa discussão ficaria para uma nova rodada de negociações dentro de 30 a 60 dias.

Cessar-fogo amplo e reabertura de Ormuz

As fontes iranianas afirmam que Teerã concordou com uma proposta que prevê a interrupção dos combates em todas as frentes, incluindo os confrontos no Líbano, além da reabertura do estratégico Estreito de Ormuz — rota fundamental para o transporte global de petróleo e gás.

O estreito havia sido praticamente fechado desde os primeiros meses da guerra, provocando uma disparada internacional nos preços da energia e ampliando o temor de uma recessão global.

O possível acordo também incluiria o fim do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos ao Irã e a liberação de cerca de US$ 25 bilhões em ativos iranianos congelados no exterior.

Nos bastidores diplomáticos, líderes árabes e países de maioria muçulmana pressionaram Washington a aceitar o entendimento, temendo uma nova escalada militar no Oriente Médio.

Netanyahu e Hezbollah seguem como incógnitas

Trump também revelou ter conversado com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. O governo israelense, no entanto, ainda não comentou oficialmente o possível acordo.

Uma das principais dúvidas gira em torno do Hezbollah, grupo apoiado pelo Irã e envolvido em confrontos frequentes com Israel no Líbano. Não está claro se o entendimento proposto conseguiria encerrar também esses embates paralelos.

O cessar-fogo firmado no início de abril já havia reduzido a intensidade da guerra após mais de um mês de ataques contínuos. Ainda assim, episódios de tensão seguiram acontecendo nas últimas semanas, mantendo o cenário instável.

Agora, o que se desenha é uma tentativa de transformar uma trégua frágil em algo mais duradouro. Mas, no Oriente Médio, onde alianças mudam rapidamente e desconfianças históricas atravessam décadas, até mesmo anúncios de paz costumam ser recebidos com cautela.

Fonte: The New York Times

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Raízes Agroecológicas fortalece sementes crioulas e une comunidades do Nordeste em resposta às mudanças climáticas

Projeto trinacional apoiado pela União Europeia quer alcançar 5 mil famílias agricultoras no Brasil, Argentina e Paraguai, valorizando guardiãs e guardiões de sementes e ampliando corredores agroecológicos no Semiárido

 
Raízes Agroecológicas fortalece sementes crioulas e une comunidades do Nordeste em resposta às mudanças climáticas. Projeto trinacional apoiado pela União Europeia quer alcançar 5 mil famílias agricultoras no Brasil, Argentina e Paraguai, valorizando guardiãs e guardiões de sementes e ampliando corredores agroecológicos no Semiárido.
Oficina de implantação de corredor agroecológico na comunidade Dispensa, em Itabaianinha (SE), no âmbito do Projeto Raízes Agroecológicas (GP-SAEP) - Foto: © Saulo Coelho

Em meio ao avanço das mudanças climáticas e da pressão sobre a agricultura tradicional, comunidades rurais do Nordeste brasileiro estão transformando resistência em projeto de futuro. O Raízes Agroecológicas vem articulando agricultores, movimentos populares, pesquisadores e instituições públicas em torno de uma missão que mistura ciência, ancestralidade e soberania alimentar: proteger sementes crioulas e fortalecer sistemas agroecológicos capazes de manter o campo vivo.

Financiado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), com recursos da União Europeia em uma doação de 4 milhões de euros, o projeto é executado pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), com liderança técnica da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

De acordo com a Agência de Notícias das Nações Unidas, a iniciativa pretende alcançar 5 mil famílias agricultoras nos três países participantes — Brasil, Argentina e Paraguai. Só no território brasileiro, cerca de 2,6 mil famílias devem ser atendidas em 15 municípios da Bahia e de Sergipe, com possibilidade de expansão ao longo da implementação.

Guardiões da biodiversidade

Mais do que incentivar a produção agrícola, o projeto busca reconhecer o trabalho silencioso de guardiãs e guardiões de sementes crioulas, responsáveis por preservar variedades adaptadas às condições locais ao longo de gerações.

“A proposta conecta organizações da sociedade civil, instituições de pesquisa e comunidades rurais para fortalecer a conservação da agrobiodiversidade e ampliar a autonomia produtiva diante das mudanças climáticas.”

Em Sergipe, a implementação acontece por meio do Movimento Camponês Popular (MCP-SE) e da Associação de Camponesas e Camponeses do Estado de Sergipe (ACCESE). Já na Bahia, o trabalho reúne a Associação Regional de Convivência Apropriada ao Semiárido (ARCAS), o Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP) e o Movimento dos Pequenos Agricultores/Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa da Bahia (MPA/CPC).

Corredores agroecológicos ganham força

Uma das estratégias centrais do Raízes Agroecológicas é a implantação de corredores agroecológicos — espaços vivos de aprendizagem, experimentação e multiplicação de sementes crioulas.

Inicialmente, estão previstos 26 corredores na Bahia e 18 em Sergipe. Nessas áreas, os cultivos são organizados em faixas intercaladas que combinam alimentos como milho e feijão com plantas de adubação verde, entre elas crotalária juncea, feijão-de-porco e feijão guandu.

O sistema ajuda a recuperar a fertilidade do solo, melhora o manejo natural de pragas e fortalece a conservação ambiental. Bioinsumos produzidos pelas próprias famílias agricultoras também fazem parte da metodologia.

“Os corredores funcionarão como polos permanentes de observação e seleção genética, permitindo que agricultoras e agricultores recuperem sementes que vêm se perdendo ao longo do tempo.”

O trabalho está ligado ao chamado Melhoramento Genético Participativo descentralizado, desenvolvido pela Embrapa, permitindo que agricultores observem, selecionem e recuperem variedades mais resistentes às realidades locais.

Conhecimento construído coletivamente

Entre os dias 12 e 15 de maio, cerca de 50 participantes — entre agricultores, movimentos sociais, equipes técnicas e instituições públicas — participaram de oficinas em Aracaju, Itabaianinha e Riachão do Dantas, em Sergipe.

As atividades incluíram diagnósticos participativos da agrobiodiversidade, ferramenta que identifica espécies existentes, práticas tradicionais de manejo, variedades locais e prioridades definidas pelas próprias comunidades.

Pelo terceiro ano consecutivo, corredores agroecológicos foram implementados em Itabaianinha e Riachão do Dantas, consolidando espaços permanentes de observação e seleção genética conduzidos pelas próprias famílias agricultoras.

Agroindústria fortalece renda e alimentação

Um dos momentos mais simbólicos da programação foi a visita à agroindústria comunitária de flocão de milho crioulo do Movimento Camponês Popular, em Riachão do Dantas.

A estrutura, em fase final de implantação, integra produção, beneficiamento e comercialização do milho crioulo, fortalecendo canais como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e as feiras agroecológicas.

O projeto também apoia a futura Unidade de Beneficiamento de Sementes (UBS) crioulas, que ampliará o aproveitamento da produção, inclusive para fabricação de ração animal. O Raízes Agroecológicas contribui com maquinários e com a construção do galpão de beneficiamento.

Na prática, a experiência mostra como tecnologias adaptadas à agricultura familiar podem gerar renda, fortalecer territórios e ampliar o acesso da população a alimentos saudáveis — do campo à mesa.

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sábado, 23 de maio de 2026

ONU alerta para desaceleração global e impacto social da crise no Oriente Médio

Relatório das Nações Unidas aponta aumento da desigualdade, pressão sobre países endividados e risco de retrocesso nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030

 
Porto de Lagos, na Nigéria. Relatório da ONU aponta desaceleração do crescimento global em 2026, com previsão de PIB mundial em 2,5%, abaixo das estimativas anteriores e dos níveis pré-pandemia. Foto: © mtcurado/Getty Images Signature.

O mundo entrou em 2026 carregando um peso econômico maior do que o previsto. Em Nova Iorque, durante a apresentação do novo relatório da ONU sobre a situação da economia mundial, o clima foi menos de projeção otimista e mais de alerta silencioso. Entre gráficos, índices e previsões revisadas para baixo, o que emergiu foi um retrato inquietante: a economia global continua crescendo — mas cada vez mais devagar, mais desigual e mais vulnerável.

O documento divulgado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (DESA) mostra que os efeitos da crise no Oriente Médio já começam a atravessar fronteiras e contaminar cadeias produtivas, preços de energia, inflação e capacidade de reação dos governos.

“O aumento dos custos de empréstimos e a renovação das pressões de fluxo de capital arriscam aprofundar as vulnerabilidades da dívida e restringir os recursos disponíveis para o desenvolvimento sustentável em um momento crítico.”
— Li Junhua, subsecretário-geral de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU

A declaração foi feita durante a apresentação oficial do relatório “Situação e Perspectivas da Economia Mundial — Atualização de maio de 2026”, na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque.

O impacto mais severo aparece na Ásia Ocidental, especialmente no Oriente Médio. A região deve despencar de um crescimento de 3,6% em 2025 para apenas 1,4% em 2026. E não se trata apenas de petróleo mais caro. A ONU fala em infraestrutura destruída, interrupções na produção, comércio abalado e colapso parcial do turismo.

Crescimento desigual pelo planeta

Enquanto algumas economias conseguem absorver parte do impacto, outras enfrentam desaceleração mais dura.

Nos Estados Unidos, a expectativa ainda é de relativa estabilidade. A economia americana deve crescer cerca de 2% em 2026, sustentada pelo consumo interno e pelos investimentos contínuos em tecnologias avançadas, especialmente inteligência artificial.

Já a Europa enfrenta um cenário mais delicado. A forte dependência de energia importada pressiona famílias, empresas e governos. O crescimento da União Europeia deve cair de 1,5% para 1,1%, enquanto o Reino Unido pode desacelerar ainda mais, recuando de 1,4% para 0,7%.

Na China, o governo consegue amortecer parte da turbulência graças às reservas estratégicas e à diversificação da matriz energética. Ainda assim, o crescimento previsto cai de 5% para 4,6%.

A Índia segue entre as economias que mais crescem no mundo, com previsão de expansão de 6,4%. Mesmo assim, a desaceleração em relação aos 7,5% registrados em 2025 evidencia o peso dos custos maiores de energia e das condições financeiras mais rígidas.

Na África, a média continental mascara uma divisão profunda. Países exportadores de petróleo conseguem algum alívio com os preços elevados da energia. Já os importadores enfrentam inflação mais pesada, pressão fiscal crescente e dificuldade para manter programas sociais.

A América Latina e o Caribe aparecem como relativamente menos expostos ao choque direto, mas presos num crescimento baixo e persistente. A previsão é de desaceleração de 2,5% para 2,3%, limitada por investimentos fracos e pouco espaço para políticas públicas de reação.

O relatório afirma que os governos mais pressionados pela crise são justamente os que têm menor capacidade de proteger suas populações, devido ao aumento da dívida pública, à queda da ajuda internacional e ao encarecimento dos custos sociais.

A crise chega à mesa das famílias

O relatório insiste que os números frios não contam toda a história. Por trás das projeções econômicas, cresce também a insegurança alimentar, a pobreza e a desigualdade social.

Os preços mais altos de alimentos e energia atingem especialmente famílias de baixa renda, que passam a gastar uma parcela ainda maior da renda apenas para sobreviver. Em muitos países, os salários não acompanham a inflação, aprofundando a vulnerabilidade social.

A ONU também alerta para riscos ambientais importantes. O encarecimento persistente da energia pode estimular, no curto prazo, uma volta maior ao uso de combustíveis fósseis mais poluentes — justamente num momento em que o planeta tenta acelerar a transição energética.

Inteligência artificial e produtividade

Outro alerta importante aparece no campo da produtividade mundial. Segundo o relatório, o crescimento da produtividade global já vinha desacelerando desde a crise financeira internacional e agora enfrenta novos obstáculos: tensões geopolíticas, fragmentação econômica, restrições fiscais e redução dos fluxos comerciais.

A inteligência artificial surge no documento como uma ferramenta capaz de acelerar ganhos econômicos importantes — mas também como um fator de risco para aprofundar desigualdades, já que os benefícios tendem a se concentrar em poucos países com maior capacidade tecnológica.

No fim do relatório, a mensagem da ONU é clara: sem cooperação internacional consistente, abertura comercial e financiamento mais acessível para países vulneráveis, o mundo corre o risco de transformar uma crise regional em um ciclo prolongado de retrocessos sociais e econômicos.

O relatório completo “World Economic Situation and Prospects — Mid-2026 Update” pode ser consultado no portal oficial das Nações Unidas.

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Lula promete vetar disparos em massa nas eleições e alerta para avanço dos “robôs” na política

Em entrevista ao Sem Censura, presidente criticou minirreforma eleitoral aprovada na Câmara e disse que inteligência artificial não pode decidir o rumo da democracia brasileira

 
O presidente Lula deu entrevista ao Sem Censura na noite dessa sexta (22) - Tânia Rêgo/Agência Brasil

O estúdio da TV Brasil parecia mais silencioso que o habitual na noite desta sexta-feira (22). Em meio às luzes do programa Sem Censura, apresentado por Cissa Guimarães, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a tocar num tema que vem crescendo nos bastidores de Brasília — e também no centro das redes sociais: o poder dos algoritmos sobre a política.

Ao comentar a minirreforma eleitoral aprovada pela Câmara dos Deputados na última terça-feira (19), Lula afirmou que pretende vetar o trecho que autoriza o envio automatizado de mensagens em massa para eleitores previamente cadastrados. O texto ainda precisa passar pelo Senado.

O receio do Planalto

O ponto mais sensível da proposta aprovada pela Câmara permite que partidos e campanhas façam disparos automatizados de mensagens sem que isso seja considerado irregular, desde que os destinatários estejam cadastrados previamente.

Na prática, críticos da medida enxergam uma abertura maior para campanhas digitais massivas operadas por sistemas automatizados — especialmente em um cenário onde inteligência artificial, manipulação de conteúdo e disseminação acelerada de desinformação já fazem parte da disputa política global.

“As bancadas aprovaram uma coisa que vai fomentar o uso de robôs na eleição. Eu certamente vetarei. Primeiro, vou trabalhar para o Senado não aprovar, e depois eu vetarei.”

A declaração ocorreu durante entrevista especial na TV Brasil, emissora da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), com participação da influenciadora Nath Finanças, da jornalista Luciana Barreto e do criador de conteúdo Muka.

Lula afirmou que o avanço dessas ferramentas precisa encontrar limites.

“A inteligência artificial vale para muita coisa, mas ela não pode valer na disputa eleitoral para escolher um prefeito, um governador, um deputado.”

O presidente também disse enxergar um ambiente político mundial mais agressivo e emocionalmente fragmentado.

“O mundo tá diferente, nervoso, polarizado.”

Durante a conversa, Lula citou os Estados Unidos como exemplo do aprofundamento das divisões políticas e afirmou que os algoritmos das redes sociais passaram a influenciar diretamente a convivência humana.

“Eu não quero perder o humanismo que tem dentro do ser humano, porque estamos sendo vítimas dos algoritmos.”

Fundos eleitorais e “promiscuidade” política

Outro trecho que repercutiu em Brasília foi a crítica do presidente ao atual modelo de financiamento político.

Lula afirmou que mudou de posição sobre os fundos partidário e eleitoral após observar o crescimento do volume de recursos públicos controlados por parlamentares e partidos.

“Eu era favorável a fundo partidário, a fundo eleitoral, hoje eu sou contra, porque levou à promiscuidade na política.”

Segundo ele, o excesso de recursos públicos disponíveis através de emendas parlamentares também contribuiu para distorções dentro do sistema político.

“Um deputado hoje tem R$ 50 milhões, R$ 60 milhões de emendas por ano.”

Debate deve seguir no Senado

A minirreforma eleitoral foi aprovada em votação simbólica e sem registro nominal no painel da Câmara, movimento que acelerou a tramitação do texto e gerou reação de organizações da sociedade civil preocupadas com possíveis brechas para campanhas digitais menos transparentes.

Agora, o projeto segue para análise do Senado Federal. Nos bastidores do governo, a expectativa é tentar barrar o trecho ainda antes de eventual sanção presidencial.

Enquanto isso, o debate sobre inteligência artificial, manipulação algorítmica e os limites das campanhas digitais começa a ocupar um espaço cada vez maior no centro da política brasileira — e deve ganhar ainda mais força conforme as próximas eleições se aproximam.

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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Lula rejeita transição lenta para fim da escala 6x1: “É brincar de fazer redução”

Presidente defende corte imediato da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, e cobra posicionamento público do Congresso sobre a proposta

 
O presidente Lula, no programa Sem Censura, da noite desta sexta (22) - Tânia Rego/Agência Brasil 

BRASÍLIA — O debate sobre o fim da escala 6x1 entrou definitivamente no centro da política brasileira. E desta vez sem muito espaço para meias palavras. Em entrevista exibida nesta sexta-feira (22) no programa Sem Censura, da TV Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a possibilidade de uma transição longa para reduzir a jornada de trabalho no país.

Para Lula, a redução precisa acontecer de maneira direta: sair das atuais 44 horas semanais para 40 horas, sem redução salarial e sem um cronograma diluído ao longo de vários anos.

“Nós defendemos que a redução seja de uma vez, de 44 horas para 40 horas. E fim de papo, sem reduzir salário.”

A declaração acontece enquanto avança na Câmara dos Deputados a proposta de emenda constitucional que reduz a jornada semanal e extingue oficialmente a escala 6x1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias para descansar apenas um.

A PEC estabelece limite máximo de escala 5x2, garantindo ao menos dois dias de descanso semanal remunerado. O tema ganhou força nos últimos meses nas redes sociais, entre sindicatos e movimentos trabalhistas, transformando a discussão em uma das pautas mais populares do Congresso.

Nos bastidores de Brasília, porém, o cenário segue dividido. Parte do empresariado e parlamentares ligados ao mercado defendem uma adaptação gradual, alegando impactos econômicos e aumento de custos operacionais.

Lula demonstrou irritação com a ideia de uma redução “parcelada”.

“Não dá para aceitar ficar quatro anos para fazer, meia hora por ano, uma hora por ano. Aí é brincar de fazer redução.”

Segundo o presidente, haverá uma reunião no início da próxima semana com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e com o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, para avaliar o ambiente político da votação.

A comissão especial que analisa o texto adiou para segunda-feira (25) a apresentação do parecer do relator, deputado Leo Prates (Republicanos-BA). A expectativa é que a votação no colegiado aconteça na quarta-feira (27), com possível análise em plenário ainda antes do fim da semana.

Durante a entrevista, Lula afirmou ainda que os parlamentares contrários à proposta deveriam assumir publicamente essa posição diante da população.

“Vota contra quem quiser, mas vamos mostrar para o povo quem é quem nesse país.”

Para o presidente, a redução da jornada terá impacto direto não apenas no descanso dos trabalhadores, mas também na saúde física, mental e até no desempenho educacional da população.

“O dado concreto é que será um benefício para a saúde, para a educação.”

A entrevista também abordou outros temas do governo. Lula afirmou que a equipe econômica trabalha para conter abusos nos preços dos combustíveis, defendeu fiscalização rigorosa contra reajustes considerados excessivos e fez um apelo para que o Senado vote rapidamente a PEC da Segurança Pública.

O presidente ainda prometeu vetar o projeto de lei que autoriza disparos em massa de mensagens durante campanhas eleitorais. Assista a seguir a íntegra da entrevista com Lula.

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Lula volta a abrir vantagem e Flávio Bolsonaro começa a derreter nas pesquisas

Novos levantamentos divulgados nesta semana mostram Lula vencendo no primeiro e no segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro perde força após crise envolvendo áudios onde pede milhões a Vorcaro

 
22 de maio de 2026 - Lula volta a abrir vantagem e Flávio Bolsonaro começa a derreter nas pesquisas de 2026

O clima político mudou rápido em Brasília nesta semana. E mudou principalmente para o lado do Palácio do Planalto.

Depois de meses em que setores da direita tentavam vender a ideia de que a eleição de 2026 caminhava para um empate técnico permanente, as pesquisas divulgadas entre os dias 19 e 22 de maio desenharam outro cenário: Lula voltou a crescer, Flávio Bolsonaro perdeu terreno e a disputa presidencial entrou novamente numa fase favorável ao presidente.

Nos corredores do Congresso, ministros, deputados e assessores governistas passaram os últimos dias repetindo praticamente a mesma frase: “a onda virou”.

A virada aparece nos números.

Segundo o novo levantamento do Datafolha divulgado nesta sexta-feira (22), Lula chegou a 40% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro caiu para 31%. A distância agora é de nove pontos.

Na pesquisa da Futura Inteligência, divulgada também nesta sexta, Lula aparece ainda mais forte: 42,7% contra 35,6% de Flávio.

O dado mais simbólico talvez não seja nem a vantagem em si — mas a mudança de direção. Há poucas semanas, o bolsonarismo comemorava crescimento gradual nas simulações eleitorais. Agora, os números mostram exatamente o contrário: a pré-candidatura de Flávio começa a apresentar sinais claros de desgaste.

E o timing da queda não passou despercebido.

A deterioração coincide com a repercussão dos áudios envolvendo o senador do PL e o banqueiro Daniel Vorcaro — no episódio que  já ficou popularmente  conhecido como "caso BolsoMaster" — abriu uma crise política na direita e produziu desgaste imediato nas redes sociais, na imprensa e até dentro de setores do próprio partido do senador.

Nos bastidores, aliados de Lula avaliam que parte do eleitorado mais moderado começou a recuar diante do aumento da exposição negativa do senador.

Segundo turno ficou mais confortável para Lula

O Datafolha mostra Lula com 47% contra 43% de Flávio Bolsonaro. Já a Futura Inteligência aponta vantagem ainda maior: 47,7% a 42,2%.

Outros institutos divulgados ao longo da semana seguiram a mesma tendência. A AtlasIntel registrou Lula com 48,9% contra 41,8%. A Vox Brasil apontou 46,8% a 38,1%.

Em resumo: praticamente todos os levantamentos capturaram a mesma fotografia política — Lula voltou a crescer e Flávio perdeu fôlego.

Rejeição acende alerta dentro do PL

Dentro do PL, o aumento da rejeição do senador também começou a gerar ruído.

Em alguns levantamentos, Flávio Bolsonaro já aparece como o nome mais rejeitado da disputa, superando os índices históricos do próprio Lula. Michelle Bolsonaro, por outro lado, continua apresentando rejeição menor, o que reacendeu discussões internas sobre quem realmente teria mais viabilidade eleitoral para enfrentar o PT em 2026.

Outro detalhe importante chamou atenção dos analistas: Lula aparece vencendo também outros nomes testados pela direita e centro-direita, como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Michelle Bolsonaro.

“Disparou rumo ao tetra”

Nas redes sociais progressistas, o resultado das pesquisas virou combustível político imediato.

“O homem disparou rumo ao tetra! 🚀 Lula abre 9 pontos de vantagem sobre Flavio Rachadinha no 1º turno, segundo Datafolha”.

A frase foi publicada pelo deputado estadual Arilson Chiorato (PT-PR), que comemorou os novos números nas redes sociais.

Ainda falta muito para a eleição de 2026. A campanha nem começou oficialmente, alianças podem mudar e o cenário econômico continuará pesando fortemente no humor do eleitorado.

Mas a fotografia política desta semana deixou um recado difícil de ignorar: o bolsonarismo entrou em turbulência justamente no momento em que tentava consolidar um sucessor nacional.

E Lula  voltou a respirar com mais tranquilidade na corrida pelo Palácio do Planalto. Ele é mais um vez favorito à reeleição.

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TCE aponta falhas em obra da PR-317 e manda DER revisar trecho entre Maringá e Iguaraçu

Auditoria identificou problemas na execução do pavimento da duplicação da rodovia e Tribunal determinou reparos, nova análise técnica e possível ressarcimento aos cofres públicos

 
O asfalto ainda parece novo para quem passa diariamente pela PR-317. Mas, nos bastidores da obra de duplicação entre Maringá e Iguaraçu, o clima virou de preocupação técnica e cobrança pública.

O asfalto ainda parece novo para quem passa diariamente pela PR-317. Mas, nos bastidores da obra de duplicação entre Maringá e Iguaraçu, o clima virou de preocupação técnica e cobrança pública.

O Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) apontou irregularidades na execução das obras realizadas no trecho de 21,8 quilômetros da rodovia e determinou uma série de providências ao Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR).

A fiscalização foi feita pela 5ª Inspetoria de Controle Externo do Tribunal e encontrou problemas considerados sérios na estrutura do pavimento. Entre eles, deformações fora do padrão previsto no projeto e camadas do asfalto com espessura menor do que a contratada.

Traduzindo para quem não vive o dia a dia da engenharia: partes da pista podem ter sido executadas abaixo do padrão necessário para suportar o tráfego pesado e o desgaste natural do tempo.

Segundo o relator do processo, conselheiro Augustinho Zucchi, as análises técnicas apontam risco de trincas precoces, afundamentos, deformações e redução da vida útil da estrada — além da possibilidade de manutenção antes do esperado.

O Tribunal determinou que o DER-PR faça uma nova avaliação técnica de toda a extensão medida e já paga à empreiteira responsável pela obra. O órgão também deverá abrir processo administrativo para investigar responsabilidades, aplicar possíveis sanções e buscar eventual ressarcimento de recursos públicos.

Outra determinação envolve a correção dos trechos considerados irregulares. O DER terá de reparar, reconstruir ou substituir partes da obra que estejam fora das especificações previstas no projeto executivo.

Durante a tramitação do processo, o próprio DER informou ao Tribunal que houve diversos descumprimentos contratuais por parte da empresa executora — situação que acabou levando à rescisão do contrato.

A decisão foi aprovada por unanimidade pelos conselheiros do TCE-PR e ainda cabe recurso.

Enquanto os documentos falam em “deflexão”, “camadas estruturais” e “parâmetros técnicos”, a discussão chega de forma bem mais simples para quem usa a rodovia todos os dias: uma estrada pública cara, recém-duplicada e que agora precisa passar novamente por revisão para garantir segurança, durabilidade e qualidade da obra entregue.

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UTFPR de Dois Vizinhos recebe investimentos em infraestrutura com apoio de Itaipu e emendas parlamentares

Obras incluem asfaltamento da área da universidade e prolongamento da Avenida das Torres, fortalecendo a educação pública e o desenvolvimento regional


A cerimônia, no Campus da UTFPR, foi bastante concorrida - Divulgação/Tadeu Veneri

A educação pública superior segue no centro das prioridades do mandato parlamentar envolvido na articulação de novos investimentos para o interior do Paraná. Com os deputados federais Tadeu Veneri e Gleisi Hoffman, do PT do Paraná, é assim.

Eles estiveram hoje no Oeste do Paraná, juntamente com a deputada estadual Luciana Rafagnin, o diretor-geral de Itaipu Enio Verri, Carlos Carboni, diretor de coordenação de Itaipu e a ex-ministra Gleisi Hoffmann, junto a representantes políticos e de diversos setores da região.

Eles participaram, no campus da UTFPR, em Dois Vizinhos, da assinatura que libera importantes obras de infraestrutura voltadas à comunidade acadêmica e à população da região.

O deputado federal Tadeu Veneri, assim como a também deputada federal Gleisi Hoffmann, acompanham e fiscalizam as ações de fortalecimento da educação pública e investimentos estruturais no estado.

Entre as obras anunciadas estão o asfaltamento da área da UTFPR e o prolongamento da Avenida das Torres, iniciativas viabilizadas por meio de emendas parlamentares e recursos da Itaipu Binacional.

A medida também segue a diretriz do presidente Lula, de ampliar a participação da Itaipu em projetos estratégicos de desenvolvimento regional, infraestrutura urbana e apoio às universidades públicas.

“É uma determinação do presidente Lula que a Usina de Itaipu ajude no desenvolvimento do nosso Estado.”

Justiça dissolve Conselho Municipal de Saúde de São José dos Pinhais após ação do MP

Decisão aponta “graves irregularidades estruturais”, suspende conferências e afasta presidente do colegiado. Nos bastidores, fontes relatam que o caso também estaria sob análise do GAECO

Decisão aponta “graves irregularidades estruturais”, suspende conferências e afasta presidente do colegiado. Nos bastidores, fontes relatam que o caso também estaria sob análise do GAECO. Justiça desmonta Conselho Municipal de Saúde de São José dos Pinhais após ação do MP.
Posse do Conselho Municipal de Saúde de São José dos Pinhais em 07/05/24, juntamente com a mesa diretora que deveria ocupar o biênio 2024-2026 - Divulgação/Internet

O clima nos corredores da saúde pública de São José dos Pinhais amanheceu diferente nesta quinta-feira. A decisão saiu com peso de intervenção institucional: a Justiça do Paraná determinou a desconstituição provisória de toda a atual composição do Conselho Municipal de Saúde do município, após uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público.

A medida, assinada pelo juiz Siderlei Ostrufka Cordeiro, da Vara da Fazenda Pública de São José dos Pinhais, fala em “graves irregularidades estruturais” no funcionamento do órgão responsável pelo controle social do SUS no município.

Entre os problemas apontados estão denúncias de perseguição política, falhas em processos eleitorais, ausência de transparência, exclusão arbitrária de entidades e possível conflito de interesses envolvendo a presidência do conselho.

“Os elementos probatórios até então produzidos indicam possível afronta às disposições da Lei Federal nº 8.142/1990, da Resolução nº 453/2012 do Conselho Nacional de Saúde, da Lei Municipal nº 1.435/2009 e do próprio Regimento Interno do Conselho Municipal de Saúde.”

Segundo a decisão judicial, o Ministério Público acompanha a situação desde 2023 e reuniu atas, relatórios técnicos, oitivas, registros audiovisuais e documentos administrativos que indicariam violações à legislação federal e às normas do Conselho Nacional de Saúde.

O magistrado considerou haver elementos suficientes para reconhecer, em caráter liminar, risco de comprometimento da legitimidade do conselho e do próprio sistema de participação popular na saúde pública municipal.

Entre os trechos mais duros da decisão está o reconhecimento de “indícios consistentes” de irregularidades na composição do colegiado, ocupação indevida de cadeiras representativas, ausência de alternância entre segmentos e supressão de registros públicos.

O que a Justiça determinou

  • Desconstituição provisória da atual composição do Conselho Municipal de Saúde;
  • Suspensão imediata das pré-conferências e da Conferência Municipal de Saúde;
  • Reorganização do processo eleitoral do conselho;
  • Transferência provisória da condução administrativa ao Conselho Estadual de Saúde;
  • Afastamento cautelar do então presidente do colegiado, Fabrício Alves Tambolo.

Outro ponto sensível envolve um suposto conflito de interesses atribuído ao presidente afastado. A ação menciona vínculos familiares com empresa contratada pelo município para prestação de serviços na área da saúde, situação que, segundo o Ministério Público, poderia afrontar princípios da moralidade e impessoalidade administrativa.

A decisão também alerta para o risco de prejuízo ao repasse de recursos públicos da saúde devido à ausência de deliberação sobre o Relatório Anual de Gestão e à inexistência de um Plano Municipal de Saúde em vigência.

Nos bastidores, fontes ouvidas pelo Sulpost afirmam que o caso também estaria sendo acompanhado pelo GAECO, braço do Ministério Público especializado no combate ao crime organizado e na investigação de estruturas ilícitas envolvendo agentes públicos. Até o momento, porém, não houve confirmação oficial sobre eventual investigação criminal paralela à decisão.

A crise explode justamente num momento delicado da saúde pública em São José dos Pinhais, município que recentemente ampliou estruturas de atendimento do SUS, com aportes consideráveis de dinheiro público,  e vem concentrando debates sobre contratos, terceirizações e gestão da saúde municipal.

A liminar agora fixa prazo de 10 dias para cumprimento das determinações judiciais, sob pena de multa diária de R$ 1 mil, limitada a R$ 60 mil. Até o momento do fechamento desta postagem, as partes citadas não se manifestaram. O espaço permanece aberto para manifestação das pessoas e entidades citadas na matéria.

Veja também: Processo nº 0000237-81.2026.8.16.0202 — Vara da Fazenda Pública de São José dos Pinhais (TJPR).

Dinossauros roubados, ciência saqueada: o Brasil tenta trazer sua memória de volta para casa

Fósseis retirados ilegalmente do país revelam uma velha ferida colonial ainda aberta — e mostram como o patrimônio científico brasileiro virou troféu em museus estrangeiros

Fóssil Ubirajara Jubatus repatriado da Alemanha para o Brasil - Joédson Alves/Agência Brasil
Fóssil Ubirajara Jubatus repatriado da Alemanha para o Brasil - Joédson Alves/Agência Brasil

O sertão do Araripe é como um túnel do tempo, ele guarda histórias de um mundo antigo que se revela em grandes quantidades de fósseis. Debaixo da terra seca do Ceará, Pernambuco e Piauí repousam criaturas que viveram em nosso planeta há mais de 100 milhões de anos. Dinossauros, peixes primitivos, insetos fossilizados, marcas de um mundo pré-histórico, perdido no passado.

Durante décadas, parte dessa memória brasileira atravessou oceanos escondida em caixas, coleções privadas e corredores de museus europeus. Agora, o Brasil tenta trazer de volta aquilo que nunca deveria ter saído daqui. Aquilo que foi roubado do Brasil.

O debate ganhou força com a repatriação do fóssil do dinossauro Ubirajara jubatus, devolvido pela Alemanha em 2023 após intensa pressão diplomática, científica e popular. O animal viveu há cerca de 110 milhões de anos na região da Bacia do Araripe e havia sido levado para a Europa nos anos 1990. Hoje, finalmente, integra o acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, no Ceará.

Mas o Ubirajara é apenas um caso entre muitos. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o Brasil mantém atualmente ao menos 20 negociações internacionais para recuperar fósseis, peças arqueológicas e patrimônios históricos espalhados por pelo menos 14 países. Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Suíça e Japão aparecem entre os destinos mais recorrentes dessas relíquias brasileiras.

O nome dado a esse fenômeno é pesado — e preciso: colonialismo científico. Prática desigual em que pesquisadores de países desenvolvidos exploram os recursos e populações do Brasil, se apoderando de materiais, dados e resultados, sem o devido reconhecimento, participação ativa ou benefício para a comunidade científica local.

Quando a ciência vira extração

A paleontóloga Aline Ghilard, coordenadora do DinoLab da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em entrevista à Agência Brasil, define o problema de maneira direta: países ricos continuam tratando territórios do Sul Global como áreas de coleta.

Museus europeus e universidades estrangeiras acumulam, há décadas, materiais retirados da América Latina, África e Ásia sob relações profundamente desiguais de poder. Não raro, pesquisadores estrangeiros chegam, coletam fósseis, levam para fora e publicam estudos sem participação significativa de cientistas brasileiros.

Um levantamento publicado na revista Palaeontologia Electronica identificou que quase metade das publicações científicas analisadas sobre fósseis da Bacia do Araripe entre 1955 e 2025 foi produzida exclusivamente por pesquisadores estrangeiros, sem coautoria brasileira. Outro estudo mostrou que 88% dos fósseis descritos em pesquisas internacionais entre 1990 e 2020 foram retirados do Brasil e permanecem no exterior.

A consequência disso não é apenas simbólica. Quando os fósseis deixam o país, vão junto oportunidades científicas, investimentos, turismo cultural, formação acadêmica e reconhecimento internacional. Descobertas feitas com patrimônio brasileiro acabam gerando prestígio, recursos e protagonismo para instituições estrangeiras — enquanto museus nacionais lutam com orçamento escasso.

A lei brasileira é clara

No Brasil, fósseis pertencem à União desde 1942, protegidos pelo Decreto-Lei nº 4.146. A venda privada é proibida e a exportação só pode ocorrer mediante autorização oficial do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, normalmente vinculada a cooperação científica formal.

Ainda assim, o tráfico continua.

Em abril de 2025, o Ministério Público Federal passou a investigar o contrabando de ao menos 70 fósseis brasileiros anunciados ilegalmente em sites estrangeiros especializados em rochas e peças paleontológicas. Parte do material, retirada da Chapada do Araripe, era vendida online no Reino Unido por dezenas ou centenas de dólares.

No mesmo período, o Brasil conseguiu recuperar 25 fósseis de insetos levados clandestinamente para o exterior. As peças retornaram ao país após atuação do MPF e devem integrar o acervo do museu de Santana do Cariri.

Outro caso recente envolveu um fóssil de peixe pré-histórico da espécie Rhacolepis buccalis, apreendido na Itália após ser comprado em um antiquário. O exemplar, originário da Bacia do Araripe, voltou ao Brasil em 2025.

O patrimônio que fortalece identidade

O retorno desses fósseis produz impacto imediato nas cidades que os recebem.  Segundo o professor Allysson Pinheiro, a chegada do Ubirajara aumentou o número de visitantes no museu do Cariri e fortaleceu o sentimento de pertencimento da população local — o professor trabalha no Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Araripe (CE).

Não é apenas um osso petrificado numa vitrine. É uma criança do sertão descobrindo que sua terra guarda uma das histórias geológicas mais importantes do planeta. É um território pobre percebendo que possui riqueza científica mundial. É uma comunidade entendendo que sua memória não precisa ficar trancada em outro continente para ter valor.

A Bacia do Araripe, reconhecida pela UNESCO como geoparque mundial desde 2006, concentra alguns dos fósseis mais importantes do período Cretáceo em todo o planeta. Em 2024, a região entrou como candidata à lista oficial de Patrimônio Mundial da Humanidade da ONU.

O saque continua — agora pela internet

Se antes o contrabando acontecia em expedições discretas e acordos obscuros, hoje parte dele ocorre diante dos olhos do mundo. Sites especializados em fósseis exibem peças brasileiras como itens colecionáveis. Redes internacionais de comércio digital facilitaram o trânsito clandestino de materiais retirados ilegalmente do país. Pesquisadores brasileiros frequentemente identificam fósseis nacionais em anúncios online.

Em muitos casos, as próprias instituições estrangeiras alegam desconhecer a origem ilegal das peças. Outras resistem. O caso do Ubirajara mostrou isso com clareza. O museu alemão que mantinha o fóssil negou irregularidades por anos. A virada aconteceu quando brasileiros passaram a pressionar publicamente a instituição nas redes sociais, transformando o tema em constrangimento internacional.

A pressão popular funcionou.

Mais do que fósseis

A discussão vai além da paleontologia. O Brasil também vem tentando recuperar mantos indígenas, arte sacra, documentos históricos e objetos arqueológicos espalhados pelo exterior. Em 2024, um manto Tupinambá do século XVII retornou ao país após permanecer por séculos na Dinamarca.

O debate sobre repatriação ganhou força em todo o mundo nos últimos anos, especialmente diante das críticas aos grandes museus europeus construídos durante o período colonial.

A pergunta deixada no ar é desconfortável:

quantas partes da história brasileira ainda estão guardadas — ou vendidas — longe do Brasil?

E talvez exista outra pergunta ainda mais profunda:

quantas descobertas científicas deixamos de fazer porque nossos próprios fósseis passaram décadas inacessíveis aos pesquisadores brasileiros?

No fundo, recuperar esses patrimônios não é apenas trazer objetos de volta.

É recuperar narrativa. Soberania. Memória. E o direito de um país contar a própria história com as próprias mãos.

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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Natureza vira linha de defesa contra eventos climáticos extremos nas cidades brasileiras

Parceria entre OIM e Fundação Grupo Boticário reúne recomendações para ajudar prefeituras a enfrentar enchentes, secas, ondas de calor e deslocamentos forçados

Natureza vira linha de defesa contra eventos climáticos extremos nas cidades brasileiras. Parceria entre OIM e Fundação Grupo Boticário reúne recomendações para ajudar prefeituras a enfrentar enchentes, secas, ondas de calor e deslocamentos forçados.
Parque Barigui, em Curitiba - PMC/Divulgação - Imagem meramente ilustrativa 

As cidades brasileiras estão cada vez mais expostas aos efeitos das mudanças climáticas — e a resposta pode estar justamente na recuperação da própria natureza. Uma parceria anunciada entre a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza pretende fortalecer políticas públicas municipais voltadas à adaptação climática usando as chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN).

A proposta parte de um cenário que já deixou de ser projeção distante. Enchentes, deslizamentos, secas severas, incêndios florestais e ondas de calor passaram a fazer parte da rotina de milhares de municípios brasileiros — provocando perdas humanas, danos econômicos e deslocamentos forçados de populações inteiras.

O documento elaborado pelas instituições reúne orientações práticas para auxiliar prefeituras na implementação dessas soluções ambientais como forma de prevenção e mitigação dos impactos climáticos.

“Conservar a natureza é investir na proteção das pessoas”, afirmou Débora Castiglione, representante da OIM.

A lógica é simples, embora o desafio seja enorme: restaurar ecossistemas naturais ajuda a conter os efeitos extremos do clima antes que eles se transformem em tragédias urbanas.

Entre as medidas sugeridas estão:

  • recuperação de matas ciliares;
  • conservação e restauração de manguezais;
  • ampliação de áreas verdes urbanas;
  • revegetação de encostas vulneráveis;
  • proteção de nascentes e cursos d’água.

Além de reduzir riscos ambientais, essas ações também podem evitar deslocamentos populacionais causados por desastres naturais.

Municípios têm baixa capacidade de adaptação

Dados da plataforma AdaptaBrasil , divulgados em 2024, mostram que 66% dos municípios brasileiros apresentam capacidade baixa ou muito baixa de adaptação frente aos eventos climáticos extremos.

A gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, Juliana Baladelli Ribeiro, afirma que muitas cidades ainda enfrentam barreiras técnicas e institucionais para colocar esse tipo de política em prática.

“O conhecimento é o primeiro passo para superar barreiras técnicas, institucionais e culturais”, disse ela à Agência Brasil.

O tema também ganhou dimensão econômica global. O Relatório de Riscos Globais 2026, do Fórum Econômico Mundial, incluiu os deslocamentos forçados entre os dez maiores riscos para a economia mundial nos próximos dois anos.

Capacitação de gestores e tecnologia para mapear riscos

A Fundação Grupo Boticário mantém atualmente iniciativas de suporte técnico voltadas a gestores públicos. Uma delas é a Incubadora de Projetos Solução Natureza, desenvolvida em parceria com a C40 Cities Climate Leadership Group, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos e a Aliança Bioconexão Urbana. Hoje, o programa acompanha projetos em 29 municípios brasileiros.

Outra frente é o curso gratuito “Adaptação baseada em Ecossistemas em Instrumentos de Política Pública Municipal”, desenvolvido em parceria com a Fundação Getulio Vargas, a agência alemã GIZ e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O treinamento é oferecido virtualmente pela Escola Nacional de Administração Pública.

A iniciativa também aposta em tecnologia para antecipar riscos climáticos. A plataforma Natureza ON , criada pela Fundação Grupo Boticário em parceria com o MapBiomas e a Google Cloud , cruza dados urbanos e ambientais para identificar áreas vulneráveis e sugerir quais soluções naturais podem ser aplicadas em cada território.

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Requião Filho e Gleisi Hoffmann marcam lançamento oficial de pré-candidaturas no Paraná

Evento em Curitiba deve reunir lideranças políticas, movimentos sociais e apoiadores do PDT e do PT no próximo dia 30 de maio

 
Requião Filho e Gleisi Hoffmann marcam lançamento oficial de pré-candidaturas no Paraná. Evento em Curitiba deve reunir lideranças políticas, movimentos sociais e apoiadores do PDT e do PT no próximo dia 30 de maio.

O cenário político paranaense começa a ganhar contornos mais definidos para 2026. O deputado estadual Requião Filho (PDT) e a deputada federal e ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT) anunciaram o lançamento oficial de suas pré-candidaturas ao Governo do Paraná e ao Senado Federal, respectivamente.

O evento está marcado para o próximo dia 30 de maio, em Curitiba, e deve reunir lideranças políticas, representantes de movimentos sociais, sindicalistas, militantes e apoiadores das duas siglas.

Segundo o convite divulgado pelas equipes políticas, o encontro pretende simbolizar “a política que constrói o Paraná dos paranaenses”, em um movimento de aproximação entre setores progressistas no estado.

Serviço

📅 Data: 30 de maio de 2026 (sábado)

🕙 Horário: 10h

📍 Local: Igloo Super Hall

Rua Dino Bertoldi, 740 – Tarumã, Curitiba

Confirmação de presença

Os organizadores disponibilizaram um formulário online para confirmação de presença:

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Brasil começa a desenhar mercado regulado de carbono e define primeiros setores que terão de informar emissões

Governo quer colocar grandes emissores na rota da descarbonização sem travar a economia; obrigação de reportar gases começa gradualmente a partir de 2027

Brasil começa a desenhar mercado regulado de carbono e define primeiros setores que terão de informar emissões. Governo quer colocar grandes emissores na rota da descarbonização sem travar a economia; obrigação de reportar gases começa gradualmente a partir de 2027.
© Paulo Pinto/Agencia Brasil

O Brasil deu mais um passo na construção do seu mercado regulado de carbono. Em uma medida que pode mudar a forma como grandes empresas lidam com poluição e emissões industriais nas próximas décadas, o Ministério da Fazenda apresentou nesta terça-feira (19) a proposta preliminar que define quais setores da economia serão os primeiros obrigados a relatar emissões de gases de efeito estufa no país.

A iniciativa integra o futuro Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), mecanismo que pretende monitorar, limitar e, futuramente, permitir a negociação de créditos de carbono entre empresas brasileiras.

Na prática, o governo começa agora a montar a engrenagem que deve colocar preço na emissão de carbono no Brasil — algo já adotado em diferentes modelos por países da Europa, Ásia e América do Norte.

A implementação será gradual. No primeiro momento, não haverá cobrança financeira nem obrigação imediata de cortar emissões. As empresas terão apenas de medir, monitorar e informar quanto poluem.

Quem entra primeiro

A primeira etapa começa em 2027 e atinge setores considerados altamente intensivos em carbono:

  • papel e celulose;
  • ferro e aço;
  • cimento;
  • alumínio primário;
  • petróleo e gás;
  • refino;
  • transporte aéreo.

Esses segmentos terão de iniciar processos formais de monitoramento e reporte das emissões de gases de efeito estufa.

Segundo o Ministério da Fazenda, a escolha levou em conta fatores técnicos como intensidade energética, volume de emissões, exposição ao mercado internacional e capacidade operacional das empresas para adaptação ao novo sistema.

Expansão até 2031

O plano prevê ampliação gradual do sistema.

A segunda fase, prevista para 2029, incluirá:

  • mineração;
  • alumínio reciclado;
  • setor elétrico;
  • vidro;
  • alimentos e bebidas;
  • química;
  • cerâmica;
  • resíduos.

Já a terceira etapa, programada para 2031, alcançará os setores de transporte:

  • transporte rodoviário;
  • transporte aquaviário;
  • transporte ferroviário.

Cada fase terá duração de quatro anos.

Como vai funcionar

O modelo desenhado pelo governo tenta evitar choque imediato sobre a indústria brasileira.

No primeiro ano de cada etapa, as empresas terão de apresentar planos de monitoramento das emissões. Nos dois anos seguintes ocorrerá a coleta efetiva dos dados. Só no quarto ano serão definidas as regras de distribuição das cotas de emissão dentro do mercado regulado.

Ou seja: o país ainda está entrando na fase de preparação técnica e construção da base de dados.

A ideia é que, no futuro, empresas que emitirem mais de 10 mil toneladas anuais de dióxido de carbono equivalente sejam obrigadas a reportar emissões.

Já companhias que ultrapassarem 25 mil toneladas poderão ficar sujeitas a limites de emissão e necessidade de compensação via compra de créditos de carbono.

O que muda para as empresas

O novo sistema pode alterar profundamente estratégias industriais, investimentos e até competitividade internacional de empresas brasileiras.

Em mercados globais, especialmente na Europa, cresce a pressão para que produtos industrializados tenham rastreabilidade ambiental e menor pegada de carbono.

Empresas que emitirem menos poderão negociar créditos de carbono. Já aquelas que ultrapassarem os limites definidos futuramente precisarão comprar créditos para compensar a poluição adicional.

A secretária extraordinária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda, Cristina Reis, afirmou que a proposta foi construída levando em conta a realidade produtiva brasileira.

“A proposta de cobertura setorial é um passo essencial para a implementação do mercado regulado de carbono no Brasil.”

Segundo a secretária, a intenção é garantir “uma transição gradual, previsível e baseada em evidências”, permitindo avanço da descarbonização sem perda de competitividade econômica.

Próximos passos

A proposta ainda será analisada pelo Comitê Técnico Consultivo Permanente do SBCE, grupo formado por representantes do governo, setor produtivo, universidades e sociedade civil.

Depois disso, o texto deverá passar por consulta pública em julho.

A expectativa do governo federal é publicar a regulamentação definitiva ainda em 2026, para início da implementação em 2027.

O que é o mercado regulado de carbono

O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões funcionará como uma espécie de mercado de permissões para poluir.

Empresas que conseguirem reduzir emissões abaixo dos limites poderão vender créditos de carbono. Já companhias que excederem as metas precisarão comprar créditos para compensar o excesso.

Segundo o governo, o sistema atingirá principalmente grandes emissores e deve alcançar menos de 0,1% das empresas brasileiras.

A legislação também prevê que 75% dos recursos arrecadados futuramente sejam destinados à adaptação tecnológica e à transição ambiental das próprias empresas participantes.

Fonte: Agência Brasil

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