Entre guitarras, amizades de infância e novas histórias, a Capital
Nacional do Rock prova que sua maior riqueza continua sendo a sua
tribo
Por Ronald S. Stresser Jr - jornalista e roqueiro curitibano
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| No momento Empada, celebrando a vida. O bar lotou no sábado (11) - Foto: Sandro |
Tem cidades que têm um sotaque. Curitiba tem um riff. Todo 13 de julho
acontece a mesma coisa. Basta cair a noite para a cidade ganhar outro ritmo.
As guitarras falam mais alto, o baixe a batera marca o compasso do coração
enquanto o rock fala direto na tua cabeça.
Em Curitiba as camisetas pretas, desde o início anos 70 nunca mais deixaram
às ruas, os velhos LPs saem das estantes e uma legião de gente que talvez
nem se conheça sorri e curte a noite junto como se fosse da mesma família. É
por isso que Curitiba carrega com orgulho o título de
Capital Nacional do Rock.
Mais do que uma cena musical, existe aqui uma verdadeira tribo. Temos bandas
incríveis que nasceram nos anos 70, A Chave, que se não me engano nasceu nos
anos 60, em seguida Patrulha do Espaço, a icônica com a banda Blindagem e lá
de Ponta Grossa, o Arrigo Barnabé, que tirava um som incrível com a Tetê
Espíndola e o Carlos Careqa, mas o pessoal mesmo sendo de Ponta Grossa fez
sucesso nacional, a Blindagem tocou no Chacrinha até ... tribo, a gente
sabe, não conhece fronteiras.
Um roqueiro de Curitiba conversa com outro de Londres, Buenos Aires, São
Paulo ou Berlim como se fossem velhos conhecidos. Basta citar Beatles, Black
Sabbath, Pink Floyd, Rolling Stones, Led Zeppelin ou contar para o pessoal a
história das nossas bandas daqui, histórias maravilhosa que sei da Blindagem
em Camboriú, que a conversa já começa com um sorriso. A tribo do rock é
internacional.
O rock mora nas amizades
Este ano resolvi comemorar de um jeito diferente. Segunda-feira costuma ser
o dia em que o corpo cobra a conta do rock do final da semana, afinal já não
sou mais nenhum garoto. Aos 56 anos, preferi celebrar aquilo que o rock tem
de mais valioso: as amizades que sobrevivem ao tempo, digitando essa
postagem.
Enquanto escrevo, assisto aos novos clipes dos Rolling Stones, que com mais
de 80 anos de idade estão lançando disco novo, com músicas inéditas e saindo
numa turnê mundial. Nesse exato momento aliás, enquanto trabalho, estou
ouvindo um clipe do Alpha Blondy no YouTube da TV é do Reggae, mas
somos tribos irmãs. É difícil um roqueiro que não curte reggae de vez em
quando e vice-versa. Jah bless!
Passei boa parte de duas noites, que antecedem o 13 de julho, ao lado do meu
amigo mais antigo, Sandro Lemos. Guitarrista daqueles que fazem a guitarra
cantar de verdade. Daqueles guitarristas que sabem como fazer a guitarra
falar.
Nossa amizade começou quando tínhamos uns oito anos de idade. Foi na casa do
meu primo distante, Paulo Henrique, na Rua Ângelo Sampaio, aqui nas Mercês
bairro onde moro até hoje. O Paulinho morava num prédio, na esquina com a
Martim Afonso e o Sandro em outro, na esquina com a Padre Anchieta.
Praticamente vizinhos. Ali também vivia o inesquecível Digão, que
infelizmente já partiu.
Os dois tinham coleções absurdas de LPs de rock, jazz e rock progressivo.
Foi naquele universo de discos de vinil, capas gigantes, agulhas deslizando
sobre os sulcos e guitarras que pareciam falar, que descobri o bom e velho
rock and roll. Inclusive meu primeiro disco de rock, que eu mesmo comprei
foi dos Rolling Stones, o segundo do Kiss, numa lojinha de discos que tinha
ali na galeria do TUC.
Algumas amizades são como o rock n'roll, atravessam décadas e não morrem
nunca, devido a imensa quantidade de ideias, de sons que propagam, e
histórias que todos vivemos juntos.
O último grande show de rock que fui aqui em Curitiba, foi o do Roger
Watters, com o meu amigo Fábio e a família dele. Qualquer pessoa que esteve
lá na baixada nesse show, sabe as pessoas se olhavam e no olhar parece que
se comunicavam: poxa, somos da mesma família.
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O jornalista Stresser e o especialista em guitarras Sandro, nas
comemorações do Dia do Rock, em Curitiba a capital do rock (e óbvio
que também do heavy metal) - Selfie / RSSJr
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Uma paixão que atravessa gerações
Existe outra coisa que me enche de orgulho neste Dia Mundial do Rock. Meu
filho, que também se chama Ronald Stresser, herdou muito
mais do que o sobrenome. Herdou a paixão pela guitarra. Pelo rock, pelo
progressivo e muito metal. E o cara toca muito.
Nem preciso dizer qual é o estilo musical preferido dele. Rock. Claro.
Imagina que filho ou filha de roqueiro e roqueira não vai curtir rock?
Ver essa paixão atravessando gerações é emocionante. O rock fez parte da
minha infância, marcou minha juventude, continua presente na minha vida
adulta e agora também ecoa nas cordas da guitarra do meu filho.
Existem heranças que não aparecem em cartório. Elas vivem na memória, na
música e no coração. Música é vida.
Crossroads, Empada com Birita e galera do bem
As comemorações começaram antes do dia 13. Na sexta-feira estive no
Crossroads. No sábado, no Empada com Birita. Dois lugares que fazem parte da
história do rock curitibano. O primeiro no Batel, o segundo aqui no alto São
Francisco.
Mas olha que o melhor de tudo nem sempre está em cima do palco. Fomos ao
Empada especialmente para prestigiar a banda do Jordi, outra figura querida
da cena roqueira de Curitiba.
Foi lá que conheci o Alexandre, batera da banda, e sua companheira Anna,
professora. Um casal simplesmente fantástico. Daqueles que bastam alguns
minutos de conversa para parecer que você conhece há décadas. É uma das
magias do rock. Rock n'roll não é só um estilo musical, é um estilo de vida.
É isso que o rock faz. Une pessoas. Cria amizades. Derruba muros. Inspira
pessoas que mudam o mundo. Enquanto muita gente insiste em transformar
diferenças em motivo para brigar, o rock continua aproximando as pessoas.
Vale o ditado dos tempos do Woodstock: faça o amor, não a guerra.
Antigamente diziam que era o futebol que unia todo mundo em um time, em uma
torcida, mas que adorava quebrar o pau com a torcida do time adversário.
Tipo um vizinho metendo a porrada no outro por causa de futebol... coisa de
gente cabeça oca.
Atualmente, e para infelicidade de muitos, a política parece fazer
exatamente a mesma coisa. Falta pouco para virar tiro, porrada e bomba.
Igual essas brigas de torcida icônicas que a gente vê na TV de vez em
quando. As massas, mais uma vez foram enganadas por marqueteiros políticos
hábeis e inescrupulosos.
Nós, da tribo do rock, não gostamos desse tipo de tiro, dessa porrada e
dessa bomba. Às vezes rola uma briga, gente bonita, cerveja gelada, músicas
que disparam neurotransmissores poderosos. Mas geralmente é por causa de
ciúmes bobo, ou efeito de abuso.
O nosso tiro é o da baqueta batendo na caixa da bateria. A nossa porrada vem
dos riffs dedilhados nas cordas das guitarras. E a única bomba que a gente
faz questão, é de ouvir é a explosão dos amplificadores e caixas de som no
máximo volume, durante um show ou apresentação de uma ou mais bandas. Porque
se uma banda faz um show, duas ou três já fazem um festival
Nosso negócio sempre foi outro. Paz. Amor. Amizade. Respeito. Liberdade. Boa
música. Simplesmente, porque arrumar encrenca estraga a diversão. A gente
tem o mais profundo a respeito pela vida. Inclusive a tribo do Rock tem um
amor tão grande pela vida, que impera o ditado: cada um cuida da sua.
O rock sempre incomodou quem tem medo da verdade
Desde que nasceu, o rock aprendeu a fazer perguntas incômodas. Beatles,
Rolling Stones, Pink Floyd, Black Sabbath e tantos outros denunciaram
guerras, autoritarismos, injustiças e governantes, políticos, que preferem
mandar jovens morrerem enquanto permanecem confortavelmente sentados em seus
gabinetes.
No Brasil, ninguém fez isso de maneira tão intensa quanto Cazuza. Continua
sendo, para muita gente, o maior nome do rock nacional. Um artista que teve
uma partida precoce e dolorosa, mas deixou um legado impossível de apagar.
Suas músicas continuam atuais porque falavam daquilo que nunca deixou de
existir: poder, corrupção, hipocrisia e liberdade. O rock nunca foi feito
para agradar poderosos e nem para conquistar a confiança e o amor dos
reacionários. Foi feito para despertar consciências. Abrir portas e janelas.
Construir mais pontes e menos muros. Talvez por isso tenha tanto jornalista
fã de rock n'roll e heavy metal.
Curitiba continua respirando rock
Neste Dia Mundial do Rock, Curitiba voltou a mostrar sua força. A
programação reuniu casas tradicionais como Sheridan's Irish Pub, Belvedere
Bar, Tork n' Roll e Hard Rock Cafe Curitiba, todos celebrando uma das datas
mais importantes do calendário da cultura rock. Como é segunda-feira, os
empresários do ramo decidiram começar com matinê no final da tarde. Pela
manhã saberei de todas as resenhas.
Já no final de semana, milhares de pessoas participaram do World Rock Day,
no Complexo Arena White Hall. A Ópera de Arame também entrou na festa com
apresentações especiais no Vale da Música, enquanto bares históricos como o
Sebas Rock Bar mantiveram viva a chama do rock curitibano.
Uma tribo sem fronteiras
Dizem que hoje o sertanejo é o estilo mais popular do Paraná. Pode até ser.
Mas basta andar por Curitiba no dia 13 de julho para perceber que a tribo do
rock continua gigantesca. Também Reza a lenda que pelo menos metade dos fãs
de música sertaneja também curtem heavy metal e rock n'roll.
E talvez ela seja ainda maior do que imaginam. Porque boa parte de quem ouve
sertanejo também conhece de cor uma música dos Beatles, do Pink Floyd, do
AC/DC, Frank Zapa, Sabbath ou, aqui em Curitiba também a gente não esquece
do Blindagem. Aliás, lembrei agora também da Casa das Máquinas.
No fim das contas, a boa música sempre encontra espaço. Enquanto existirem
amigos reunidos, baixos e guitarras ligadas com o chimbal dando ritmo,
existem discos girando, as bandas fazendo seu som e gente disposta a
celebrar a liberdade, o rock continuará vivo.
E, olhando para tudo o que vivi neste fim de semana, e no final de semana
passado também, acabou se prolongando nesta segunda-feira, quando
reencontrando velhos amigos, fazendo novos.
Hoje, trabalhando aqui na sala e ouvido meu filho tocar guitarra e violão,
ademais conseguindo conciliar seus estudos de música com leitura e
matemática. Percebo que essa tribo continua espalhada pelo mundo inteiro.
Os rockeiros procriam também em estilo, não apenas biologicamente, então só
consigo terminar a postagem de um jeito. Com um voto, que dessa vez não é
para a política: vida longa ao rock n'roll. Vida longa à nossa tribo. E viva Curitiba, a eterna Capital Nacional do Rock.
Homenagem da Mãe Lucília ao Dia do Rock
Encerrando minha crônica do Dia do Rock 2026, na Capital do Rock, público aqui no Sulpost publica uma seleção especial de
fotografias postada no Instagram, pela amiga
Lucila Guimarães, em homenagem ao Dia Mundial do Rock.
As
imagens registram músicos, bandas amigos, amigas e personagens da cena roqueira
curitibana, brasileira e internacional.
A Lucília, que além de fotógrafa profissional também é Mãe de Santo do Terreiro Pai Maneco, eternizou no trabalho dela um pouco da alma de ídolos dessa tribo, que continua fazendo da música
um instrumento de liberdade, amizade e resistência. Aliás Lucília, você é 100% Rock n'Roll!