sexta-feira, 29 de maio de 2026

Entre o combate ao crime e a soberania: a perigosa porta que Flávio Bolsonaro ajudou a abrir

Decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e CV como organizações terroristas reacende debate sobre ingerência estrangeira, interesses econômicos e os limites da cooperação internacional em território brasileiro

Entre o combate ao crime e a soberania: a perigosa porta que Flávio Bolsonaro ajudou a abrir. Decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e CV como organizações terroristas reacende debate sobre ingerência estrangeira, interesses econômicos e os limites da cooperação internacional em território brasileiro.
Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Marcos Rubio, e Flávio Bolsonaro - Reprodução/@pfigueiredo08/X

O anúncio veio de Washington, mas o impacto político atravessou imediatamente Brasília. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, confirmou que os Estados Unidos passarão a designar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras a partir de 5 de junho. A medida foi comemorada publicamente pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que esteve recentemente nos EUA em reuniões com aliados do governo Donald Trump.

O problema não está em combater facções criminosas — nisso há consenso nacional. PCC e CV são responsáveis por assassinatos, tráfico internacional, lavagem de dinheiro, corrupção e terror cotidiano nas periferias brasileiras. O ponto sensível é outro: até onde um parlamentar brasileiro pode incentivar uma potência estrangeira a ampliar mecanismos de intervenção sobre assuntos internos do Brasil?

Nos bastidores diplomáticos, o temor é evidente. Ao enquadrar facções brasileiras na legislação antiterrorismo dos EUA, Washington amplia ferramentas jurídicas, financeiras e operacionais que historicamente já foram utilizadas em outras regiões do mundo para justificar sanções, operações internacionais e pressões econômicas. O debate sobre soberania, portanto, não é paranoia ideológica — é um tema real de Estado.

O que significa a classificação de terrorismo

Pela legislação norte-americana, o terrorismo é definido como atos violentos ou perigosos à vida humana praticados com intenção de intimidar populações civis, influenciar governos ou alterar condutas políticas por meio de assassinatos, destruição em massa ou sequestros. A estrutura legal dos EUA divide o terrorismo em categorias doméstica e internacional.

O Departamento de Estado mantém uma lista oficial de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs), usada para impor sanções financeiras, restrições de visto e mecanismos ampliados de cooperação internacional. O FBI, por sua vez, utiliza o enquadramento para expandir capacidades investigativas e operações conjuntas.

Oficialmente, o discurso americano é o combate ao narcotráfico e às redes internacionais do crime organizado. O próprio comunicado de Rubio afirma que PCC e CV estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil” e possuem influência além das fronteiras brasileiras. A decisão entra em vigor em 5 de junho.

O governo Lula reagiu com cautela. Auxiliares do Planalto e setores diplomáticos brasileiros enxergam risco de abertura para pressões externas futuras e rejeitam qualquer possibilidade de uso do tema como justificativa para interferência estrangeira em território nacional.

Combate ao crime já existe — e é internacional

Existe também uma distorção política no discurso bolsonarista: o Brasil nunca esteve isolado no enfrentamento ao crime organizado. Há décadas a Polícia Federal atua em cooperação com o FBI, DEA e organismos internacionais de inteligência financeira. Operações contra tráfico, armas, lavagem de dinheiro e rotas internacionais já acontecem regularmente.

Nos últimos anos, operações integradas resultaram em bloqueios bilionários, apreensões históricas de drogas e redução do poder financeiro de facções criminosas em diversos estados brasileiros. Especialistas em segurança pública apontam que o combate ao crime organizado depende principalmente de inteligência financeira, cooperação internacional e controle de rotas logísticas — não de espetáculos políticos.

Durante o governo Bolsonaro, inclusive, investigações apontaram o crescimento econômico de organizações criminosas em setores estratégicos, incluindo o mercado de combustíveis. Hoje, forças de segurança brasileiras vêm ampliando operações patrimoniais justamente para desmontar essas estruturas financeiras.

A sombra dos interesses americanos

O histórico internacional dos Estados Unidos naturalmente alimenta desconfianças. O Brasil possui algumas das maiores reservas de biodiversidade do planeta, além de petróleo em áreas estratégicas, água doce, minerais críticos e terras raras cada vez mais cobiçadas pela indústria tecnológica global.

Em diferentes momentos históricos, governos norte-americanos justificaram intervenções externas sob discursos de segurança, combate ao terrorismo ou defesa da estabilidade regional. É justamente esse histórico que leva parte da diplomacia brasileira a tratar o tema com extrema cautela.

Críticos da articulação conduzida por Flávio Bolsonaro afirmam que o senador ultrapassou os limites da oposição política ao buscar apoio externo para pressionar o próprio país em um tema sensível de soberania nacional. Para esses setores, trata-se de uma postura entreguista, subordinada aos interesses geopolíticos de Washington.

A comparação feita por comentaristas políticos é dura: em vez de fortalecer institucionalmente o Estado brasileiro, parte da extrema direita prefere recorrer ao poder estrangeiro para tentar fragilizar o governo eleito internamente. Em um país que conhece o peso histórico das interferências internacionais na América Latina, o tema inevitavelmente desperta memórias incômodas.

O combate ao crime não pode virar pretexto

Ninguém sério defende PCC ou CV. As facções são responsáveis por violência brutal, expansão do narcotráfico e ataques diretos à sociedade brasileira. Mas combater o crime organizado não exige abrir mão da autonomia nacional.

O desafio do Brasil continua sendo fortalecer inteligência, integração policial, controle financeiro, presença social do Estado e cooperação internacional equilibrada — sem terceirizar decisões estratégicas sobre segurança pública para interesses estrangeiros.

A pergunta que permanece no ar é inevitável: ao buscar apoio internacional para transformar facções brasileiras em alvo formal da política antiterrorismo dos EUA, Flávio Bolsonaro ajuda o combate ao crime — ou apenas abre uma porta perigosa para pressões externas futuras sobre o Brasil?


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Lago artificial na CIC ajuda Curitiba a respirar melhor em meio às chuvas e completa dez anos preservando o Rio Barigui

Reservatório na Cidade Industrial de Curitiba virou exemplo silencioso de urbanismo sustentável, ajudando a reduzir alagamentos, proteger a biodiversidade e devolver vida às margens do Barigui

 
Foto: Hedeson Alves/Tecpar

A água desce pesada sobre Curitiba nos dias de chuva forte. Em poucos minutos, ruas mudam de cor, córregos aceleram e o velho temor dos alagamentos reaparece em vários pontos da cidade. No coração da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), porém, existe um espaço que há uma década trabalha quase em silêncio para aliviar parte dessa pressão sobre o Rio Barigui

A água desce pesada sobre Curitiba nos dias de chuva forte. Em poucos minutos, ruas mudam de cor, córregos aceleram e o velho temor dos alagamentos reaparece em vários pontos da cidade. No coração da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), porém, existe um espaço que há uma década trabalha quase em silêncio para aliviar parte dessa pressão sobre o Rio Barigui
Foto: Hedeson Alves/Tecpar

O lago do campus CIC do Tecpar completa dez anos desde sua revitalização, realizada em 2016, e continua exercendo um papel estratégico no controle das águas pluviais da região. Mais do que um cartão-postal discreto no bairro, o reservatório se transformou em uma peça importante da drenagem urbana de Curitiba.

Uma solução que veio antes da tendência

Hoje o mundo fala em “Cidades-Esponja”, conceito criado pelo arquiteto chinês Kongjian Yu para defender cidades capazes de absorver e administrar a água da chuva usando a própria natureza. Mas, antes mesmo de o termo ganhar espaço nos debates ambientais, o lago do Tecpar já colocava essa lógica em prática dentro da capital paranaense.

Na prática, o reservatório funciona como uma grande área de retenção: segura o excesso de água durante as chuvas intensas e libera esse volume gradualmente para o sistema hídrico, reduzindo sobrecargas e diminuindo os impactos sobre a bacia do Rio Barigui.

Em tempos de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, estruturas como essa deixam de ser apenas obras de engenharia e passam a integrar uma estratégia de sobrevivência urbana.

Do abandono à recuperação ambiental

O lago já existia desde a instalação do Tecpar na CIC, ainda na década de 1980. Mas a área enfrentava problemas ambientais sérios, como assoreamento e até o recebimento irregular de esgoto, o que comprometia completamente o equilíbrio ecológico do espaço.

A revitalização iniciada em 2016 mudou esse cenário. Após obras de canalização e recuperação da área, o reservatório teve sua capacidade ampliada, a qualidade da água melhorou e o entorno ganhou paisagismo, pista de caminhada e dezenas de árvores nativas.

Ipê-amarelo, ipê-roxo, araçá, guabiroba e jabuticaba passaram a dividir espaço com aves, anfíbios, peixes e répteis que voltaram a ocupar a região. Garças, socós, marrecas e biguás hoje fazem parte da paisagem cotidiana do lago.

Barigui segue como eixo ambiental de Curitiba

Com aproximadamente 67 quilômetros de extensão, o Rio Barigui corta 18 bairros de Curitiba até encontrar o Rio Iguaçu, no bairro Caximba. Nascido em Almirante Tamandaré, o rio carrega no próprio nome uma herança indígena: “rio do fruto espinhoso”, referência às pinhas das araucárias.

Apesar da importância histórica e ambiental, o Barigui convive há décadas com os efeitos da urbanização acelerada. Por isso, iniciativas de recuperação ambiental e controle hídrico ganham peso cada vez maior dentro da cidade.

Para a bióloga Leila Teresinha Maranho, doutora em Engenharia Florestal e integrante da Divisão de Planejamento e Controle Estratégico do Tecpar, os reflexos positivos da revitalização aparecem diretamente nas margens do rio.

“A criação do lago trouxe redução dos picos de vazão das chuvas e diminuição de processos erosivos que prejudicavam a mata ciliar”, explica.

Infraestrutura que também cuida das pessoas

O diretor-presidente do Tecpar, Eduardo Marafon, afirma que o projeto vai além da infraestrutura urbana e representa uma devolutiva ambiental para quem vive e circula pela região da CIC.

“É uma iniciativa que une responsabilidade ambiental, planejamento urbano e cuidado com as pessoas”, destacou.

Num tempo em que Curitiba discute drenagem urbana, enchentes e adaptação climática, o lago do Tecpar acaba mostrando que soluções ambientais eficientes nem sempre precisam ser grandiosas para fazer diferença. Às vezes, basta permitir que a própria natureza volte a respirar.

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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Lua Azul ilumina o céu no fim de maio e promete espetáculo raro para observadores

Fenômeno acontece no domingo, 31 de maio, e poderá ser visto a olho nu em todo o Brasil se o céu estiver limpo

Lua Azul ilumina o céu no fim de maio e promete espetáculo raro para observadores. Fenômeno acontece no domingo, 31 de maio, e poderá ser visto a olho nu em todo o Brasil se o céu estiver limpo
Lua Cheia em Curitiba - Chede Photo/Facebook 

O céu da noite vai ganhar um brilho especial no próximo domingo, 31 de maio. A última lua cheia do mês será também uma chamada “Lua Azul”, nome dado ao fenômeno que acontece quando duas luas cheias ocorrem dentro do mesmo mês no calendário.

Apesar do nome, a Lua não ficará literalmente azul. O fenômeno é raro justamente pela coincidência entre o calendário lunar e os meses do ano — algo que costuma chamar a atenção de fotógrafos, astrônomos amadores e apaixonados pela observação do céu.

Imagem da Lua Cheia do astrofotógrafo Alexandre Trentini - Astrobin

Se o tempo colaborar em Curitiba e em outras regiões do Paraná, o domingo pode render imagens impressionantes logo após o anoitecer. Mesmo sem equipamentos profissionais, celulares atuais conseguem registrar bons cliques da Lua com alguns cuidados simples.

Uma dica prática é usar o temporizador do smartphone para evitar tremores no momento da foto. Também ajuda procurar locais com pouca iluminação artificial e apoiar o celular em uma superfície firme.

Fenômenos como a Lua Azul ajudam a lembrar que, às vezes, basta olhar para cima para encontrar um espetáculo silencioso acontecendo sobre nossas cabeças.

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Brasil reacende sonho espacial com teste inédito de motor de foguete na UnB

Depois de décadas de avanços interrompidos, País dá passo estratégico rumo à autonomia espacial com tecnologia desenvolvida por empresa brasileira

Propulsor líquido da DeltaV em nova bancada instalada na UnB
AEB/Divulgação

O céu de Brasília ganhou, discretamente, um daqueles acontecimentos que quase passam despercebidos fora dos círculos da engenharia — mas que podem marcar uma virada importante para o futuro tecnológico do Brasil.

Enquanto grande parte do debate público segue consumida pelas crises do cotidiano, pesquisadores, engenheiros e técnicos acompanharam, na Universidade de Brasília (UnB), o primeiro teste nacional de um motor-foguete líquido de 8 kilonewtons movido a etanol e oxigênio líquido.

Parece um detalhe técnico. E é. Mas também é um símbolo. O Brasil passou décadas vendo seu programa espacial avançar lentamente, entre cortes orçamentários, projetos interrompidos e dependência externa. Mesmo tendo uma das bases de lançamento mais estratégicas do planeta, em Alcântara, no Maranhão, o País nunca conseguiu consolidar plenamente uma indústria espacial própria.

Agora, algo começa a mudar. O motor testado foi desenvolvido pela DeltaV Engenharia Espacial, empresa brasileira do setor aeroespacial, com acompanhamento da Agência Espacial Brasileira (AEB) e apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por meio da Finep e do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Mais importante do que o teste em si é o que ele representa: o Brasil volta a investir na construção de conhecimento nacional em propulsão líquida — justamente uma das áreas mais sofisticadas e estratégicas da engenharia aeroespacial moderna.

Até hoje, boa parte da experiência brasileira esteve concentrada em foguetes de combustível sólido, mais simples e limitados. Motores líquidos exigem outro nível de domínio técnico. Envolvem controle preciso de combustão, sistemas criogênicos, segurança operacional e integração extremamente complexa.

É exatamente esse tipo de competência que diferencia os países que apenas sediam lançamentos daqueles que realmente possuem um programa espacial independente.

O ensaio ocorreu na nova bancada de propulsão instalada na Faculdade de Ciências e Tecnologias em Engenharia da UnB, no campus Gama. A estrutura permite testar motores em solo antes de voos reais — etapa fundamental para validar sistemas, reduzir riscos e formar profissionais especializados.

Na prática, trata-se da construção de uma infraestrutura que o Brasil demorou décadas para começar a consolidar.

O detalhe talvez mais importante esteja justamente fora dos holofotes: formação de pessoas.

Programas espaciais não nascem apenas de foguetes. Eles nascem de engenheiros treinados, operadores experientes, técnicos capacitados e continuidade institucional. Foi assim nos Estados Unidos, na China, na Índia e em praticamente todas as potências espaciais modernas.

O Brasil ainda está distante desse nível. Mas programas espaciais não surgem de um único salto gigantesco. Eles avançam em etapas silenciosas — um laboratório, uma bancada de testes, um motor funcionando por alguns segundos, uma equipe aprendendo.

E, pela primeira vez em muito tempo, o País parece voltar a caminhar nessa direção.

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Gleisi transforma vitória histórica da PEC do fim da escala 6x1 em trunfo político para o Senado

Deputada paranaense esteve entre as principais articuladoras da pauta no governo Lula e agora colhe capital político após aprovação histórica da Câmara

 
Gleisi transforma vitória histórica da PEC da escala 6x1 em trunfo político para o Senado. Deputada paranaense esteve entre as principais articuladoras da pauta no governo Lula e agora colhe capital político após aprovação histórica da Câmara.

A madrugada ainda nem havia esfriado em Brasília quando a comemoração começou a ganhar outro significado político no Paraná. A aprovação da PEC que acaba com a escala 6x1, uma das pautas trabalhistas mais populares das últimas décadas, virou também um combustível poderoso para a pré-campanha ao Senado da deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR).

Não foi apenas uma vitória parlamentar. Para aliados da petista, foi a consolidação de uma imagem construída ao longo dos últimos meses dentro do próprio governo Lula: a de uma das principais defensoras da redução da jornada de trabalho no país.

A Câmara dos Deputados aprovou a proposta em dois turnos na noite desta quarta-feira (27). O placar foi amplo: 472 votos favoráveis no primeiro turno e 461 no segundo. Apenas 19 deputados votaram contra.

O texto reduz gradualmente a jornada semanal de 44 para 40 horas, garante dois dias de descanso remunerado por semana e praticamente enterra a escala 6x1, há anos criticada por trabalhadores do comércio, supermercados, farmácias, restaurantes, telemarketing, vigilância e transporte.

Mas nos bastidores de Brasília, muita gente atribui a digital política da proposta à atuação de Gleisi ainda no período em que comandava a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República.

Foi ela quem, ainda no começo do ano, colocou publicamente o tema entre as prioridades do governo Lula para 2026. Na época, afirmou que caberia ao governo “batalhar pela aprovação” da medida e destacou especialmente o impacto da escala 6x1 sobre as mulheres trabalhadoras.

Quatro meses depois, a proposta saiu do discurso e atravessou a Câmara com margem histórica — inclusive recebendo votos favoráveis de setores conservadores que vinham evitando confronto direto com uma pauta apoiada por cerca de 75% da população brasileira.

No Paraná, o resultado ganhou peso simbólico. Nenhum deputado federal do estado apareceu oficialmente votando contra no painel analisado após a sessão. Dos 30 parlamentares paranaenses, 25 registraram voto favorável.

Entre os nomes que votaram “sim” está até mesmo o deputado Filipe Barros (PL-PR), adversário político de Gleisi na corrida ao Senado. O gesto mostrou o tamanho do desgaste que um voto contrário poderia causar diante da pressão popular.

Cinco deputados paranaenses não registraram voto no painel final: Dilceu Sperafico (PP-PR), Padovani (PP-PR), Pedro Lupion (Republicanos-PR), Sergio Souza (MDB-PR) e Tião Medeiros (PP-PR).

Nas redes sociais, Gleisi classificou a aprovação como uma “vitória histórica” dos trabalhadores brasileiros e comparou o avanço da PEC a conquistas como férias remuneradas, 13º salário, descanso semanal e valorização do salário mínimo.

O discurso também buscou associar diretamente a conquista ao campo político do presidente Lula, lembrando a trajetória sindical do petista desde as greves do ABC paulista no fim da década de 1970.

Na prática, a deputada passa a carregar para a disputa do Senado um argumento forte junto ao eleitorado popular: quando a pauta deixou de ser promessa e chegou ao plenário, ela estava entre os nomes que mais pressionaram pela aprovação.

Para o trabalhador comum, a mudança representa mais tempo em casa, mais convivência familiar e menos desgaste físico e mental. Para empresas, começa agora um período de adaptação de contratos, escalas e negociações coletivas.

A PEC ainda precisa passar pelo Senado Federal em dois turnos. Mas a votação na Câmara já entrou para a história política e trabalhista do país — e também pode redefinir parte da disputa eleitoral de 2026 no Paraná.

Como fica a transição da nova jornada

  • Após 60 dias: jornada máxima cai de 44h para 42h semanais;
  • Escala obrigatória passa a ser de 5 dias de trabalho e 2 de descanso;
  • Após 14 meses: jornada máxima será de 40 horas semanais;
  • Salários permanecem integrais;
  • Acordos coletivos poderão definir ajustes específicos.

Deputados federais do Paraná — como votaram

Votaram a favor:

  • Aliel Machado (PV-PR)
  • Beto Preto (PSD-PR)
  • Carol Dartora (PT-PR)
  • Delegado Matheus Laiola (União-PR)
  • Diego Garcia (Republicanos-PR)
  • Filipe Barros (PL-PR)
  • Giacobo (PL-PR)
  • Gleisi Hoffmann (PT-PR)
  • Luciano Ducci (PSB-PR)
  • Luisa Canziani (PSD-PR)
  • Ricardo Barros (PP-PR)
  • Tadeu Veneri (PT-PR)
  • Toninho Wandscheer (PP-PR)
  • Vermelho (PL-PR)
  • Zeca Dirceu (PT-PR)
  • e outros parlamentares da bancada paranaense

Sem voto registrado no painel final:

  • Dilceu Sperafico (PP-PR)
  • Padovani (PP-PR)
  • Pedro Lupion (Republicanos-PR)
  • Sergio Souza (MDB-PR)
  • Tião Medeiros (PP-PR)

Deputados que votaram contra a PEC

  • Adriana Ventura (Novo-SP)
  • Bibo Nunes (PL-RS)
  • Carlos Chiodini (MDB-SC)
  • Caroline de Toni (PL-SC)
  • Daniel Freitas (PL-SC)
  • Daniela Reinehr (PL-SC)
  • Fabio Schiochet (União-SC)
  • Gilson Marques (Novo-SC)
  • Julia Zanatta (PL-SC)
  • Kim Kataguiri (Missão-SP)
  • Lucas Redecker (PSD-RS)
  • Marcel van Hattem (Novo-RS)
  • Mauricio Marcon (PL-RS)
  • Nicoletti (PL-RR)
  • Pezenti (MDB-SC)
  • Ricardo Guidi (PL-SC)
  • Ricardo Salles (Novo-SP)
  • Rosângela Moro (PL-SP)
  • Sérgio Turra (PP-RS)
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Congresso dá passo histórico e aprova fim da escala 6x1 na Câmara

PEC reduz jornada semanal para 40 horas, garante dois dias de descanso e agora segue para votação no Senado

Congresso dá passo histórico e aprova fim da escala 6x1 na Câmara. PEC reduz jornada semanal para 40 horas, garante dois dias de descanso e agora segue para votação no Senado.
Parlamentares comemoram fim da escala 6x1 - Bruno Spada/Agência Câmara

O plenário da Câmara dos Deputados viveu uma daquelas noites que entram para a história da política brasileira. Depois de décadas de pressão sindical, debates sobre saúde mental e desgaste extremo da classe trabalhadora, os deputados aprovaram em dois turnos a PEC que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem redução salarial.

A proposta passou com ampla maioria: foram 472 votos favoráveis no primeiro turno e 461 no segundo. Apenas 19 deputados mantiveram voto contrário à medida. O texto agora segue para análise do Senado Federal.

A PEC prevê duas folgas semanais remuneradas, sendo uma preferencialmente aos domingos, além de uma transição gradual. Sessenta dias após a promulgação, a jornada cai de 44 para 42 horas semanais. Depois de 14 meses, passa definitivamente para 40 horas.

O relator da proposta, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), unificou duas PECs que já tramitavam na Câmara: uma do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) e outra da deputada Erika Hilton (Psol-SP), que defendia inclusive a adoção futura da escala 4x3.

Durante a votação, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), classificou a aprovação como uma mudança histórica para os trabalhadores brasileiros desde a Constituição de 1988.

O tema ganhou enorme apoio popular nas últimas semanas. Pesquisas apontam que cerca de três quartos da população brasileira apoiam o fim da escala 6x1, hoje considerada por especialistas uma das principais causas de adoecimento físico e mental entre trabalhadores do comércio e serviços.

Mesmo diante da pressão popular, alguns parlamentares votaram contra a proposta. Entre eles, a deputada federal Rosângela Moro (PL-SP), esposa do pré-candidato ao governo do Paraná, Sergio Moro (PL-PR), o que pode inclusive mostrar a tendência do voto de Sérgio Moro no senado.

No Paraná, a maior parte da bancada votou favoravelmente à PEC. Parlamentares que vinham sendo criticados por movimentos sindicais e redes sociais acabaram evitando confronto direto durante a tramitação, diante do enorme desgaste político que um voto contrário poderia provocar.

Como fica a transição da nova jornada

  • Após 60 dias: jornada máxima cai de 44h para 42h semanais;
  • Escala passa obrigatoriamente para 5 dias de trabalho e 2 de descanso;
  • Após 14 meses: jornada máxima será reduzida para 40h semanais;
  • Salários permanecem integrais;
  • Acordos coletivos poderão ajustar compensações e escalas específicas.

Deputados federais do Paraná — como votaram

Votaram a favor da PEC:

  • Aliel Machado (PV-PR)
  • Beto Preto (PSD-PR)
  • Carol Dartora (PT-PR)
  • Delegado Matheus Laiola (União-PR)
  • Diego Garcia (Republicanos-PR)
  • Dilceu Sperafico (PP-PR)
  • Filipe Barros (PL-PR)
  • Giacobo (PL-PR)
  • Gleisi Hoffmann (PT-PR)
  • Luciano Ducci (PSB-PR)
  • Luisa Canziani (PSD-PR)
  • Padovani (União-PR)
  • Pedro Lupion (PP-PR)
  • Ricardo Barros (PP-PR)
  • Tadeu Veneri (PT-PR)
  • Toninho Wandscheer (PP-PR)
  • Vermelho (PL-PR)
  • Zeca Dirceu (PT-PR)

Ausências, abstenções ou parlamentares criticados por tentar retardar mudanças:

  • Sargento Fahur (PL-PR)
  • Parlamentares conservadores da bancada do PL e aliados que evitaram exposição direta na votação final
  • Não votaram ou não registraram presença os deputados Sergio Souza (MDB-PR) e Tião Medeiros (PP-PR)

Deputados que votaram contra a PEC do fim da escala 6x1

  • Adriana Ventura (Novo-SP)
  • Bibo Nunes (PL-RS)
  • Carlos Chiodini (MDB-SC)
  • Caroline de Toni (PL-SC)
  • Daniel Freitas (PL-SC)
  • Daniela Reinehr (PL-SC)
  • Fabio Schiochet (União-SC)
  • Gilson Marques (Novo-SC)
  • Julia Zanatta (PL-SC)
  • Kim Kataguiri (União Brasil-SP)
  • Lucas Redecker (PSDB-RS)
  • Marcel van Hattem (Novo-RS)
  • Mauricio Marcon (PL-RS)
  • Nicoletti (PL-RR)
  • Pezenti (MDB-SC)
  • Ricardo Guidi (PL-SC)
  • Ricardo Salles (Novo-SP)
  • Rosângela Moro (União Brasil-SP) - cônjuge do senador Sérgio Moro (PL-PR)
  • Sérgio Turra (PP-RS)
Postagem atualizada às 08h48 - Redação Sulpost
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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Câmara de Curitiba entra em crise após operação contra vereador suspeito de “rachadinha”

Pressão política aumenta sobre Lórens Nogueira (PP) enquanto vídeos, dinheiro apreendido e pedidos de cassação ampliam repercussão da Operação Déjà-Vu

 

Os corredores da Câmara Municipal de Curitiba passaram esta quarta-feira sob um silêncio desconfortável. Um dia depois da deflagração da Operação Déjà-Vu, do Núcleo de Curitiba do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o caso envolvendo o vereador Lórens Nogueira (PP) deixou de ser apenas uma investigação criminal e começou a produzir efeitos políticos concretos dentro do Legislativo curitibano.

O parlamentar é investigado pelo Ministério Público do Paraná (MPPR) por suspeita de participação em um esquema de “rachadinha” — prática ilegal em que assessores devolvem parte dos salários ao agente político responsável pelas nomeações.

A operação cumpriu 13 mandados de busca e apreensão em imóveis ligados ao vereador, incluindo o gabinete dele na Câmara e endereços associados ao Instituto Grupo Solidário, entidade presidida por Nogueira no bairro Xaxim.

As equipes do Gaeco apreenderam celulares, computadores, documentos e duas malas contendo grandes quantias em dinheiro vivo. Parte do valor já contabilizado ultrapassa os R$ 118 mil, segundo informações divulgadas ao longo das últimas horas.

Vídeo elevou pressão pública

A crise ganhou dimensão ainda maior após a divulgação de imagens obtidas durante a investigação. O vídeo, que passou a circular fortemente nesta quarta-feira em portais locais e redes sociais, mostra o vereador conferindo maços de dinheiro entregues por uma assessora investigada.

Segundo o Ministério Público, as imagens fazem parte de uma ação controlada autorizada pela Justiça para acompanhar supostos repasses de salários dentro do gabinete parlamentar.

Nas últimas horas, o material passou a dominar o debate político local e gerou forte repercussão entre servidores, vereadores e lideranças partidárias da capital.

Pedido de cassação já está em andamento

A primeiro reação política concreta veio rapidamente. Vereadores da bancada do Novo protocolaram um pedido formal de cassação do mandato de Lórens Nogueira por quebra de decoro parlamentar. A representação foi encaminhada à Corregedoria da Câmara, que deve analisar os próximos passos nos próximos dias.

Enquanto isso, o vereador pediu afastamento da presidência do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar — justamente o órgão responsável por avaliar condutas parlamentares dentro da Casa.

Nos bastidores, parlamentares admitem reservadamente preocupação com o desgaste institucional provocado pelo caso. Apesar disso, a sessão legislativa desta quarta-feira ocorreu sem manifestações públicas contundentes da maioria dos vereadores sobre a operação.

Defesa evita confronto direto

A defesa de Lórens Nogueira afirmou que analisa o conteúdo da investigação e declarou que qualquer posicionamento será feito “pelas vias legais adequadas”. Os advogados também reforçaram a necessidade de respeito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.

Até o fechamento desta postagem, o vereador ainda não havia concedido entrevista coletiva nem comentado diretamente o conteúdo do vídeo divulgado nas últimas horas.

Quem é Lórens Nogueira

Filiado ao Partido Progressistas (PP), Lórens Nogueira está em seu primeiro mandato como vereador de Curitiba. Ele foi eleito em 2024 com 4.727 votos e ganhou projeção política principalmente em pautas sociais e comunitárias na região sul da capital.

A investigação do Gaeco agora avança para análise do material apreendido, rastreamento financeiro e possível aprofundamento sobre o funcionamento interno do gabinete parlamentar.

O nome da operação, “Déjà-Vu”, foi escolhido pelo Ministério Público em referência à repetição histórica de investigações envolvendo suspeitas semelhantes no poder público brasileiro.

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Guta Stresser volta aos palcos de Curitiba em peça sobre o “analfabetismo emocional”

Depois de décadas entre séries e personagens que conquistaram o país, atriz curitibana retorna às origens em montagem gratuita e profundamente humana no Espaço Excêntrico da Lamenha Lins

 
 
Guta Stresser volta aos palcos de Curitiba em peça sobre o “analfabetismo emocional” - Depois de décadas entre séries, novelas e personagens que atravessaram o país, atriz curitibana retorna às origens em montagem gratuita e profundamente humana no Rebouças

As luzes diminuem. O silêncio entra primeiro. Vem o primeiro, segundo e terceiro sinal. No palco, uma atriz para de falar no meio da própria peça. Não é esquecimento. Não é improviso. É ruptura. É desse abismo — entre o que sentimos e o que conseguimos dizer — que nasce “Os Analfabetos”, espetáculo que marca o retorno da atriz curitibana Guta Stresser aos palcos da capital em uma temporada que promete mexer com o público da cidade.

Para muita gente, Guta seguirá eternamente associada à inesquecível Bebel, da série A Grande Família, exibida pela Globo durante mais de uma década, foram 14 temporadas, todas disponíveis gratuitamente no Globoplay. Mas agora o reencontro é outro: mais íntimo, mais denso e mais perto da pele.

A montagem estreia no Espaço Excêntrico, no bairro Rebouças, com entrada franca e sessões entre os dias 28 de maio e 7 de junho, sempre de quinta a sábado às 21h e aos domingos às 19h.

Para o Sulpost, a pauta também carrega um afeto inevitável, verdadeiro amor: Guta Stresser é irmã do jornalista Ronald Stresser Jr., editor do blog. E talvez justamente por isso exista algo ainda mais simbólico nessa volta. Não apenas a artista regressando ao palco da própria cidade, mas uma curitibana reencontrando as primeiras camadas da própria história.

Entre Bergman e Nelson Rodrigues

Inspirado no universo psicológico do cineasta sueco Ingmar Bergman e atravessado pelas tensões humanas de Nelson Rodrigues, o espetáculo mergulha naquilo que o diretor Adriano Petermann define como “analfabetismo emocional”.

“O ser humano já foi e voltou da Lua várias vezes, mas ainda encontra dificuldade em atravessar a rua, em dar bom dia.”

A frase parece simples. Não é. A peça trabalha justamente essa incapacidade contemporânea de comunicar sentimentos, reconhecer fragilidades e compreender o outro quando mal conseguimos compreender a nós mesmos. Confusos, como espíritos perdidos em corpos que se animam para vestir mortalhas de luxo.

Entre drama psicológico e ironias cotidianas, seis personagens revelam máscaras sociais, afetos reprimidos, crises silenciosas e a incomunicabilidade que atravessa relações humanas aparentemente comuns.

O jogo de cena, com trilha sonora do Bahaus, no estribilho das luzes que irrompem da escuridão, foi um espetáculo a parte para mim. Viajei legal, e olha que eu nem tinha usado meu colírio alucinógeno ainda.

Gostei muito da interpretação da atriz paranaense Stella Mariss — que cuida também da excelente arte gráfica da peça. Stella faz o papel da enfermeira (Beth) que cuida de Mariana (Guta Stresser). Vi o espetáculo, há cerca de dois anos, no mini auditório do Guaíra. Foi show!

O personagem da Guta

No centro da narrativa está Mariana, personagem interpretada por Guta Stresser. Uma atriz de sucesso que sofre uma ruptura emocional durante uma apresentação de Vestido de Noiva e decide simplesmente parar de falar em pleno palco.

“Ela tem uma crise com a profissão. Acho que é aí que mais me identifico com ela. Às vezes a gente se questiona.”, diz Guta.

A nova montagem não replica exatamente a versão apresentada originalmente no Rio de Janeiro, em 2019. Segundo Adriano Petermann, o espetáculo foi reconstruído a partir das características e criações do elenco curitibano. A própria atmosfera em cena se tornou curitibana.

“A gente não ficou preso a uma moldura. A peça foi sendo adaptada conforme as criações surgiam nos ensaios.”

Um reencontro com Curitiba

Mas talvez o momento mais bonito esteja fora da dramaturgia.

Ao falar sobre voltar aos palcos da cidade onde começou ainda adolescente no teatro amador, Guta deixa escapar algo raro: a sensação de retorno verdadeiro.

“É quase como rejuvenescer.”

Ela relembra os tempos de Mini Guaíra, das aulas de balé no Teatro Guaíra e dos primeiros ensaios, muito antes da televisão nacional transformar a Bebel em um dos personagens mais populares do humor brasileiro.

Agora, Curitiba devolve o abraço. E, com gratidão, gratuitamente.

Serviço

Espetáculo: Os Analfabetos

Local: Espaço Excêntrico — Rua Lamenha Lins, 1429 — Rebouças — Curitiba (veja no mapa)

Temporada: de 28 de maio a 7 de junho

Sessões: quinta a sábado às 21h | domingos às 19h

Entrada: gratuita, sujeita à lotação

Acessibilidade: todas as sessões contam com interpretação em Libras

Ficha técnica

Direção: Adriano Petermann

Texto: Paula Goja

Elenco: Guta Stresser, Stella Mariss, Guenia Lemos, Gabriel Gorosito, Anderson Fregolente, Elisan Correia e Michele Bittencourt — Guenia e Michele se revezam no papel de Eva, Michele faz a primeira semana e Guenia a segunda.

Iluminação: Fernanda Mantovani e Wagner Corrêa

Arte gráfica: Stella Mariss

Fotos: Maringas Maciel

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PF aperta cerco sobre Cláudio Castro, Banco Master e Planner — e conexões políticas do bolsonarismo começam a convergir no Rio

Nova operação da Polícia Federal aprofunda suspeitas sobre aportes bilionários do Rioprevidência no Banco Master e reacende debate sobre a proximidade entre Daniel Vorcaro, aliados do PL e o núcleo político bolsonarista no Rio de Janeiro

 
Ato "Pró anistia", no Rio: Tarcísio, Flávio, Castro (alvo da investigação) e Bolsonaro (hoje preso em Brasília)
Redes Sociais/Reprodução 

O caso Banco Master começa a ganhar contornos cada vez mais políticos — e cariocas — de deixar de boca aberta até os criadores do seriado "House of Cards", da Netflix.

A nova operação da Polícia Federal (PF) autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), colocou novamente no centro da investigação o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), além de dirigentes do Rioprevidência e operadores financeiros ligados ao Banco Master e à corretora Planner.

Segundo a investigação, a Planner teria sido usada como uma espécie de “ponte” dentro do esquema envolvendo aplicações bilionárias do fundo previdenciário estadual em produtos financeiros ligados ao Banco Master.

A PF afirma que o credenciamento do banco e da corretora teria sido feito com base em documentação fraudulenta e que a corretora funcionaria como intermediária para ampliar taxas de corretagem e operacionalizar pagamentos aos operadores do esquema.

A investigação também aponta que a primeira operação intermediada pela Planner, em fevereiro de 2024, ocorreu sem justificativa técnica registrada, apesar de o Rioprevidência já possuir relação direta com o Banco Master.

Na prática, o que a Polícia Federal parece tentar entender agora é se houve uso político da máquina pública, para direcionar bilhões de reais da previdência estadual às operações financeiras privadas, cercadas de favorecimento, influência política e possíveis vantagens indevidas.

Mas o caso começa a chamar atenção também por outro detalhe: as conexões pessoais e políticas entre os personagens envolvidos.

Cláudio Castro não é apenas um governador do PL. É um aliado histórico da família Bolsonaro. No Rio político, a proximidade entre Castro e o bolsonarismo vem desde muito antes do Palácio Guanabara — desde os tempos em que, segundo relatos conhecidos nos bastidores cariocas, Castro tocava violão em ambientes frequentados pelo grupo político ligado aos Bolsonaro, incluindo a tradicional churrascaria Porcão.

Hoje, décadas depois, os nomes voltam a aparecer orbitando um mesmo escândalo financeiro. Uma mesma bodega. De um lado, o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, já citado em reportagens recentes sobre relações próximas com figuras do bolsonarismo e do PL.

Vieram à tona recentemente mensagens, divulgadas pelo site The Intercept Brasil, envolvendo negociações milionárias com Flávio Bolsonaro, com pedidos de cifras elevadas, que ultrapassa os 100 milhões de reais, para projetos político/midiáticos ligados ao grupo. No caso o longa-metragem "Dark Horse", uma produção de Mário Frias, que fala da vida do ex-presidente Bolsonaro, hoje detido no presídio da Papuda, em Brasília.

Do outro lado da mesma investigação, surge justamente Cláudio Castro, governador do mesmo partido, aliado político próximo do núcleo bolsonarista no Rio e agora alvo de nova ofensiva da Polícia Federal. O crime parece rondar o Partido Liberal (PL), aonde até o presidente do partido já usou tornozeleira eletrônica.

As pontas começam a se ligar. No imaginário popular e nas conversas políticas do Rio, o caso já começa a ganhar um apelido informal: “BolsoMaster”. Um nome que não aparece oficialmente na investigação, mas que traduz a percepção crescente de que existe uma rede de relações políticas, financeiras e pessoais muito mais integrada do que parecia inicialmente.

A sensação é a de que o escândalo deixou de ser apenas um caso de mercado financeiro. Cada um ali se supõe que sabia o que o outro fez no verão passado e inclusive parece que muitas vezes fizeram juntos. 

Uma turma, que passa pela geografia clássica do poder carioca: Barra da Tijuca, praia do Pepê, encontros de sábado na pizzaria mais badalada do Leblon, mesas de feijoada no Porcão e círculos onde banqueiros, operadores, empresários e políticos convivem há décadas em uma mistura permanente entre amizade, negócios e poder.

A pergunta inevitável começa a ecoar:

“Seria tudo uma turma só?”

O avanço da investigação da PF sugere que talvez essa hipótese esteja deixando o terreno das especulações políticas para entrar definitivamente no campo das apurações criminais.

E há uma ironia política impossível de ignorar. Os grupos que durante anos construíram discurso público de combate radical à corrupção agora começam a aparecer ligados, por múltiplas conexões, a um dos casos financeiros mais explosivos surgidos no país nos últimos tempos.

A Policia Federal ainda investiga o alcance total do esquema, mas uma coisa já parece evidente: o caso Banco Master deixou de ser apenas um problema bancário. Ele se transformou numa investigação sobre relações de poder baseadas na suposta promiscuidade, e nas possíveis ligações ilícitas de seus  integrantes.

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terça-feira, 26 de maio de 2026

Fé, ciência e tecnologia: a encíclica de Leão XIV recoloca o ser humano no centro da era digital

“Magnifica Humanitas” chega num momento em que algoritmos já influenciam trabalho, política, guerra, memória e até a percepção da realidade

 
Fé, ciência e tecnologia: primeira encíclica de Leão XIV recoloca o ser humano no centro da era digital. “Magnifica Humanitas” chega num momento em que algoritmos já influenciam trabalho, política, guerra, memória e até a percepção da realidade

Existe uma pergunta silenciosa atravessando o nosso tempo: quem está moldando o futuro da humanidade — as pessoas ou os sistemas que criamos?

A nova encíclica do papa Leão XIV, intitulada Magnifica Humanitas, entra exatamente nesse território delicado onde fé, ciência, tecnologia e poder começam a se misturar. E faz isso sem cair nem no negacionismo tecnológico nem no encantamento do brilho cego típico do Vale do Silício.

O documento, publicado oficialmente pelo Vaticano neste mês de maio de 2026, propõe uma reflexão profunda sobre inteligência artificial, digitalização, robótica e o futuro da condição humana.

Para quem acompanha o Sulpost, o tema não é novo. Ao longo dos últimos anos, nossa linha editorial vem insistindo numa ideia simples — mas cada vez mais urgente: ciência e tecnologia são conquistas humanas extraordinárias, porém deixam de servir à civilização quando passam a operar sem ética, sem responsabilidade social e sem compromisso com a dignidade humana. A encíclica parece dialogar diretamente com essa tensão contemporânea que está remodelando a sociedade.

Nem tecnofobia, nem idolatria digital

Um dos pontos mais interessantes do texto está justamente no Vaticano não ver na tecnologia uma inimiga da humanidade, como pensam alguns setores mais conservadores do cristianismo.

Leão XIV reconhece que os avanços científicos ampliaram a qualidade de vida, conectaram sociedades, aceleraram diagnósticos médicos e abriram possibilidades inéditas para educação, comunicação, preservação ambiental e democratização do conhecimento.

Mas o documento também alerta para algo que debato frequentemente aqui no Sulpost: a tecnologia nunca é neutra e tem trazido com ela um considerável custo ambiental e social.

Ela está sendo desenvolvida como um produto, que visa o lucro e muitas vezes pensa em estratégias de mercado para vender, e apenas depois verificar o custo social. Como produto comercial, ela carrega os interesses de quem a financia, programa, regula e controla.

A encíclica afirma que o risco da atual revolução digital não está apenas nas máquinas, mas na concentração de poder em torno delas. E talvez esteja aí o ponto mais importante do texto. A preocupação central não parece ser “a IA vai destruir o mundo”, numa tola narrativa hollywoodiana. O alerta principal é outro: uma humanidade que transfere decisões humanas fundamentais para sistemas automatizados pode acabar terceirizando também sua consciência moral.

A nova Torre de Babel

O Papa usou uma metáfora poderosa. Segundo a encíclica, a humanidade está diante de duas possibilidades: construir uma nova Torre de Babel — marcada por arrogância tecnológica, uniformização cultural e concentração de poder — ou reconstruir uma Jerusalém simbólica baseada em convivência, dignidade e fraternidade.

É uma imagem antiga, uma analogia milenar que pode ser perfeitamente aplicada a um problema extremamente contemporâneo. Porque a discussão sobre inteligência artificial já não pertence apenas aos laboratórios. Ela está no mercado de trabalho, nos tribunais, nas campanhas políticas, nos sistemas militares, nas escolas e nas redes sociais. A IA está presente em todo lugar onde há um dispositivo telemático conectado à internet.

Quando algoritmos passam a decidir quais informações enxergamos, quais empregos desaparecem, quais rostos são monitorados e quais narrativas recebem alcance, ou não, a discussão deixa de ser tecnológica e passa a ser civilizatória.

Neste ponto inclusive existe uma convergência importante entre fé e ciência, uma união que muita gente ainda insiste em tratar como incompatível.

Fé e ciência não precisaram ser inimigas

Há uma caricatura, um conceito persistente segundo o qual religião e ciência vivem em permanente conflito. A realidade histórica é outra, e bem mais complexa.

A própria Igreja Católica, através da Biblioteca do Vaticano, participou da preservação de conhecimento científico ao longo de séculos. O mesmo conhecimento que cientistas de diferentes tradições religiosas ajudaram a construir ao longo dos anos, na medicina, astronomia, física e matemática modernas.

O problema para a igreja nunca foi a ciência. O problema sempre foi o uso do conhecimento sem responsabilidade humana.

Quando abordo em meu blog assuntos como tecnologia, inteligência artificial ou transformação digital, minha visão e do meu veículo, jamais parte do medo do progresso. Parte da defesa de um progresso que continue humano.

A encíclica toca exatamente nesse ponto ao afirmar que a técnica pode aliviar sofrimentos e ampliar possibilidades, mas não pode substituir aquilo que torna o ser humano singular: sua capacidade de consciência, relação, compaixão e amor.

O risco do “homem aperfeiçoado”

Outro trecho relevante do documento critica correntes transumanistas que enxergam o futuro como uma superação biológica do próprio ser humano através de implantes, algoritmos e integração homem-máquina.

A crítica não é contra pesquisa científica. Ela é contra a ideia de que vulnerabilidade, limite e fragilidade humanas seriam “defeitos” a serem eliminados.

Essa talvez seja uma das discussões filosóficas mais profundas do século XXI. Porque existe uma diferença entre usar tecnologia para curar doenças e usar tecnologia para redefinir o que significa ser humano.

A pergunta não é apenas “o que conseguimos fazer”. A pergunta é: “o que vamos fazer?”

A humanidade ainda precisa decidir quem controla quem

Num momento em que empresas privadas concentram volumes inéditos de dados, influência política e capacidade computacional, a encíclica surge quase como um chamado internacional por regulação ética da inteligência artificial.

E isso não vem apenas do campo religioso. Pesquisadores, cientistas e especialistas em tecnologia também vêm alertando sobre riscos ligados à concentração algorítmica, desinformação automatizada, substituição massiva de empregos e militarização da IA.

Talvez a grande contribuição de Magnifica Humanitas esteja justamente em recolocar uma palavra esquecida no centro do debate tecnológico: humanidade.

Num tempo em que quase tudo é convertido em métrica, dado, engajamento e performance, lembrar que pessoas não são apenas números talvez seja uma das tarefas mais importantes da nossa época.

E isso vale para governos, empresas, igrejas, universidades, jornalistas — e também para as próprias inteligências artificiais. Afinal, como pergunta numa música a banda australiana AC/DC: who made who (quem fez quem)?

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El Niño volta a crescer no Pacífico — e encontra um planeta já em estado de emergência climática

Fenômeno climático reaparece em meio à emergência climática global e pode intensificar secas, enchentes, ondas de calor e eventos extremos no Brasil e no mundo

 
Aquecimento dos oceanos (abril de 2026) - INMET/Divulgação 

O Pacífico Equatorial começou novamente a dar sinais que a humanidade já enfrentou ao longo dos séculos. As águas estão aquecendo. Os ventos atmosféricos mudam lentamente de comportamento. E meteorologistas de diferentes partes do planeta acompanham com atenção a formação de um novo ciclo do El Niño — um fenômeno natural antigo, poderoso e capaz de alterar o clima da Terra em escala global. Mas existe algo diferente desta vez. O planeta que recebe esse novo El Niño já está superaquecido.

Durante séculos, o fenômeno deixou marcas profundas na história humana. Grandes secas, ondas de calor, crises agrícolas, colapsos econômicos e epidemias estiveram associados aos períodos mais intensos do aquecimento das águas do Pacífico. Há registros históricos que relacionam episódios severos do El Niño a fome em larga escala nas regiões tropicais ainda no século XIX, além de impactos climáticos que atravessaram continentes inteiros.

Agora, cientistas observam o retorno do fenômeno em um contexto completamente diferente: a atmosfera global já opera sob pressão extrema causada pelo aquecimento climático acelerado. Isso significa que eventos que antes eram considerados severos podem se tornar ainda mais destrutivos.

Um planeta mais quente, uma reação mais violenta

O El Niño modifica padrões de vento e temperatura dos oceanos, alterando a circulação atmosférica em diversas partes do mundo. Seus efeitos nunca são distribuídos de maneira uniforme. Enquanto algumas regiões recebem chuva excessiva, outras mergulham em secas prolongadas. Em certos locais do planeta, o fenômeno reduz as temporadas de furacões. Em outros, amplia ondas de calor, incêndios florestais, seca e colapsos hídricos.

No Sul da América do Sul, incluindo parte do Brasil, o padrão clássico costuma favorecer aumento das chuvas e tempestades mais frequentes. Já áreas da Amazônia, do Norte e do Nordeste brasileiro frequentemente enfrentam a redução de precipitação, estiagens severas e temperaturas acima da média.

O problema é que a lógica climática tradicional já não responde da mesma maneira. Os mares da Terra já estão mais quentes. A atmosfera acumula mais vapor d’água. Ondas de calor se tornaram mais longas e intensas. Eventos extremos deixaram de ser raridade. Em outras palavras: o El Niño encontra um sistema climático já tensionado.

A formação do fenômeno EL Niño, e sua atividade em maio deste ano - Fonte: NOAA 

O Brasil está novamente na zona de risco

Os primeiros efeitos atmosféricos já começam a ser observados no Brasil antes mesmo da consolidação completa do fenômeno. No Sul do país, segundo o INMET, modelos meteorológicos indicam tendência de aumento da instabilidade climática entre o inverno e a primavera, com maior frequência de tempestades, acumulados elevados de chuva e risco ampliado para enchentes, deslizamentos e transbordamento de rios.

O alerta tem ganhado forte repercussão, as pessoas ainda tem frescas na memória as tragédias climáticas recentes que devastaram cidades inteiras no Rio Grande do Sul, deixando marcas profundas na memória da região e de todo o país. O clima extremo é uma realidade, está constantemente sendo televisionado.

No Norte do Brasil, o cenário previsto pelos institutos de meteorologia aponta para risco elevado de seca na Amazônia, redução dos níveis dos rios e agravamento das queimadas florestais. Em anos de El Niño intenso, o enfraquecimento das chuvas amazônicas costuma produzir impactos ambientais e sociais que atravessam toda a região.

O Nordeste também entra em estado de atenção. Áreas do semiárido podem enfrentar períodos mais prolongados de estiagem, pressão sobre reservatórios e dificuldades para agricultura familiar e abastecimento hídrico.

No Centro-Oeste e em parte do Sudeste, meteorologistas monitoram a possibilidade de ondas de calor persistentes, queda de umidade relativa do ar e aumento da ocorrência de incêndios florestais.

O agronegócio brasileiro acompanha os mapas climáticos com apreensão. O excesso de chuva no Sul pode comprometer plantio, logística e colheitas. Já a falta de precipitação em outras regiões ameaça produtividade agrícola, reservatórios e geração de energia.

O temor global vai além do fenômeno natural

O novo El Niño preocupa porque surge justamente em um momento em que o planeta já enfrenta uma sequência quase contínua de extremos climáticos.

Mesmo sem a presença plena do fenômeno, os últimos anos foram marcados por recordes sucessivos de temperatura, incêndios históricos, enchentes urbanas violentas, secas prolongadas e eventos atmosféricos de comportamento cada vez mais imprevisível.

Por isso, o temor internacional não está apenas no retorno do El Niño. O verdadeiro alerta está na combinação entre um fenômeno naturalmente poderoso e um planeta que já acumula calor demais e eventos cada vez mais potentes.

Na prática, isso significa que regiões vulneráveis podem sofrer impactos ainda mais severos do que os registrados em décadas anteriores. Chuvas tendem a se tornar mais concentradas e destrutivas. Ondas de calor encontram cidades asfaltadas e densamente urbanizadas. Secas prolongadas já pressionam sistemas hídricos com a capacidade dos reservatórios abaixo da média.

E a sensação crescente entre pesquisadores climáticos é que a humanidade começa a entrar em uma nova fase da crise ambiental global: aquela em que eventos extremos deixam de ser exceção e passam a fazer parte da rotina do planeta.

Temos que estar atentos, o Pacífico ainda está aquecendo. E o mundo inteiro observa, mais uma vez, até onde o próximo El Niño poderá chegar.

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Fim da escala 6x1 avança em Brasília e mobiliza trabalhadores em todo o país

Proposta prevê duas folgas semanais, redução gradual da jornada para 40 horas e descanso preferencial aos domingos. Debate já é tratado como uma das maiores mudanças trabalhistas das últimas décadas

 
Fim da escala 6x1 avança em Brasília e mobiliza trabalhadores em todo o país. Proposta prevê duas folgas semanais, redução gradual da jornada para 40 horas e descanso preferencial aos domingos. Debate já é tratado como uma das maiores mudanças trabalhistas das últimas décadas
Imagem meramente ilustrativa - projeto Sulpost

O tema tomou conta das redes sociais, dos corredores das fábricas, dos aplicativos de mensagem e das mesas de almoço Brasil afora. Em um país onde milhões de trabalhadores convivem há décadas com a rotina exaustiva da escala 6x1 — seis dias de trabalho para apenas um de descanso — a possibilidade de mudança começou a ganhar forma concreta nesta semana, em Brasília. E a espectativa é geral.

A Comissão Especial da Câmara dos Deputados recebeu nesta segunda-feira (25) o parecer do relator da PEC 221/19, deputado federal Léo Prates (Republicanos-BA), que propõe oficialmente o fim da escala 6x1 no Brasil. O texto prevê redução gradual da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem corte salarial, além da garantia de dois dias de descanso por semana.

O debate se transformou rapidamente em um dos temas políticos e sociais mais comentados do país. Para muitos trabalhadores, especialmente mulheres, jovens e profissionais do comércio e serviços, a proposta representa algo simples e ao mesmo tempo profundo: tempo para viver.

Como ficará a nova jornada

Pelo relatório apresentado na Câmara, a mudança ocorreria em duas etapas:

  • 60 dias após a promulgação da PEC: a jornada cairia de 44 para 42 horas semanais e passaria oficialmente para o modelo 5x2 — cinco dias de trabalho e dois de descanso.
  • Após 12 meses: a jornada seria reduzida novamente, chegando às 40 horas semanais, limitadas a oito horas diárias.

Outro ponto importante do texto estabelece que um dos dias de descanso deverá ocorrer, preferencialmente, aos domingos.

Segundo o relator Léo Prates, a transição gradual busca evitar impactos bruscos na economia e permitir adaptação das empresas.

“Com a implementação progressiva, estamos permitindo que empresas e setores planejem investimentos em tecnologia e reorganização operacional”, afirmou o deputado no relatório apresentado à comissão.

O grito que veio das ruas

A pressão popular pelo fim da escala 6x1 cresceu fortemente nos últimos meses. Em manifestações, sindicatos, movimentos sociais e trabalhadores passaram a relatar aumento do adoecimento físico e emocional causado pela rotina sem descanso adequado.

Durante o anúncio do acordo político construído entre governo e Câmara, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, destacou que a reivindicação ganhou força especialmente entre mulheres e jovens trabalhadores.

“Nós estamos adoecendo, nós não estamos aguentando mais. Nós precisamos de pelo menos duas folgas na semana”, declarou o ministro, reproduzindo o sentimento que chegou ao governo federal.

O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou que o acordo tenta equilibrar os interesses da classe trabalhadora e do setor produtivo.

“Isso atende um apelo da classe trabalhadora, mas também escuta o setor produtivo. Dá um tempo para que os setores possam se organizar”, disse.

O que muda para empresas e categorias específicas

O texto também cria regras diferenciadas para alguns setores e contratos públicos.

Empresas poderão negociar mecanismos de compensação de jornada por meio de acordos e convenções coletivas. Microempreendedores Individuais (MEIs), microempresas e pequenas empresas poderão receber regras transitórias específicas por meio de legislação complementar.

Outro trecho que chamou atenção envolve os chamados trabalhadores “hipersuficientes” — profissionais com ensino superior e renda acima de duas vezes e meia o teto do INSS, atualmente em R$ 8.475,55.

Nesses casos, a redução da jornada diária poderá depender de negociação individual ou coletiva, embora a escala 5x2 continue prevista.

O relator argumenta que a medida também tenta enfrentar a chamada “pejotização”, quando trabalhadores acabam migrando para contratos como pessoa jurídica.

Próximos passos

A expectativa em Brasília é de votação do texto na Comissão Especial ainda nesta semana. Depois disso, a proposta seguirá para análise no plenário da Câmara e, posteriormente, no Senado.

Aprovada, a PEC vai mudar profundamente a rotina de milhões de brasileiros, que vão ganhar em qualidade, em tempo de vida.

Para quem vive há anos preso à lógica de trabalhar praticamente a semana inteira para descansar apenas um dia, o debate deixou de ser apenas técnico ou político. Virou conversa de ônibus, de fábrica, de supermercado, de cozinha e de família.

E talvez seja exatamente por isso que o tema tenha explodido com tanta força no país: porque, no fundo, ele mexe com algo que nenhum trabalhador consegue recuperar depois que perde — o próprio tempo.

  • Com informações das reportagens de Lucas Pordeus León e Luciano Nascimento, da Agência Brasil.

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