Enquanto o custo de vida pesa cada vez mais no orçamento, milhões de brasileiros chegam ao fim do mês entre o salário, que não acompanha todas as despesas, as dívidas e a perda de poder aquisitivo
Há uma pergunta que os governos estaduais do Brasil deveriam fazer com mais frequência — e responder com menos discursos que sequer o povo consegue compreender: quanto custa, hoje, simplesmente viver e trabalhar no Brasil?
A resposta não cabe apenas em uma planilha, não se pode tratar as pessoas apenas como números, estatística. Ela aparece no caixa do supermercado, quando o carrinho volta para casa mais vazio a cada mês que passa. Aparece no aplicativo bancário do seu telefone, quando a fatura do cartão chega. Aparece na catraca do transporte coletivo. Aparece no aluguel, na conta de luz, na farmácia e, principalmente, naquele momento do mês em que o salário começa a acabar antes de as contas fecharem.
O salário mínimo nacional foi fixado em R$ 1.621 em 2026. O valor representa o piso oficial de remuneração, mas está muito distante daquilo que o próprio DIEESE estima como necessário para uma família de quatro pessoas manter as despesas básicas. Em maio, o instituto calculou esse valor em R$ 7.999,44. Valor que representa praticamente cinco salários mínimos.
A diferença ajuda a dimensionar o tamanho do problema. Mas os números, sozinhos, ainda não contam a história inteira, pois pessoas, vidas, famílias, comunidades inteiras, não são apenas números. Somos almas humanas, todas e todos temos necessidades que vão além da alimentação.
Existe também uma parcela de milhões de brasileiros que não vivem apenas com o salário mínimo. Ganham um pouco mais no fim do mês. Mas todo mundo têm um emprego, empreende ou recebe comissão além de salário. São vários os cenários, mas todos nós pagamos impostos. Alguns têm financiamento imobiliário da casa propria, outros pagam prestação do sonhado carro novo. Muitos de nós temos filhos para sustentar.
E, mesmo quem ganha mais de um salário mínimo, ainda assim, vive no limite. Inclusive no limite do crédito mais caro do mundo. É essa parcela, a chamada classe média, que vai sendo espremida entre uma renda que parece razoável no contracheque ou no lucro do negócio próprio, e um custo de vida em escalada contante que, na prática, não deixa sobrar quase nada no final das contas.
O orçamento acaba antes do mês
O levantamento do DIEESE aponta que em maio de 2026, o salário mínimo necessário para uma família de quatro pessoas foi estimado em R$ 7.999,44, considerando despesas como alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência. O valor equivalia a 4,93 vezes o salário mínimo oficial de R$ 1.621. Na mesma pesquisa, a cesta básica de São Paulo custava R$ 952,20, quando todos sabemos que a cesta básica é o mínimo para uma pequena família sobreviver durante um mês.
Em outras palavras: somente a alimentação básica pesquisada pelo DIEESE representava 63,5% do salário mínimo líquido considerado no levantamento. Isso sem levar em conta o aluguel, a conta de água e de energia elétrica. Despesas com remédios e transporte, vestuário e material escolar, gás e aquela despesa inesperada que não estava no orçamento.
É nesse ponto que a discussão sobre custo de vida deixa de ser uma abstração econômica e passa a ser uma pergunta bastante simples: quanto dinheiro sobra depois que uma pessoa paga suas contas para continuar vivendo?
O trabalhador também paga para conseguir trabalhar
O transporte coletivo talvez seja uma das expressões mais claras dessa contradição. Em Florianópolis, a tarifa paga em cartão transporte, dinheiro, Pix ou QR Code chegou a R$ 7,70 em 2026. Para alguém que utiliza duas passagens por dia durante 22 dias úteis, a conta chega a R$ 338,80 por mês. Isso equivale a cerca de 21% de um salário mínimo. Não é pouco. É caro.
Quando já descontado do contracheque, é dinheiro que sai antes mesmo de o trabalhador comprar comida, pagar aluguel ou colocar uma conta em dia. Em Curitiba, onde a tarifa foi mantida em R$ 6 durante 2026, duas passagens por dia em 22 dias úteis representam R$ 264 por mês — cerca de 16,3% do salário mínimo. A Prefeitura também mantém programas específicos, como a tarifa reduzida aos domingos e a Tarifa Zero a Caminho do Emprego.
Em São Paulo, a tarifa municipal de ônibus está em R$ 5,30. No mesmo cálculo de duas viagens diárias durante 22 dias úteis, o trabalhador gastaria R$ 233,20 por mês, ou aproximadamente 14,4% do salário mínimo.
As contas parecem simples. Mas não. São contas que ajudam a mostrar uma coisa que muitas vezes desaparece nas discussões sobre mobilidade: o trabalhador não usa o transporte apenas para se deslocar. Ele paga para chegar ao próprio emprego.
É claro que transporte coletivo tem custo. Há combustível, manutenção, veículos, trabalhadores, terminais, infraestrutura e contratos. Os sistemas também recebem subsídios públicos em diferentes níveis. Explicar o custo das tarifas é necessário, más explicar não resolve a conta de quem precisa pagá-la mês após mês.
A cidade pode prosperar enquanto o trabalhador aperta o orçamento
Existe outro panorama panorama importante de se observar. As cidades que concentram atividade econômica, empregos e serviços, como capitais e cidades polo, que produzem mais, paradoxalmente apresentam custos mais elevados de moradia, alimentação, transporte e outros serviços. É uma combinação particularmente difícil para quem vive do trabalho, e sabe que o seu trabalho está gerando riqueza para outros, entender.
Uma cidade pode ter restaurantes sofisticados, condomínios valorizados, escritórios modernos e um mercado imobiliário aquecido. Entretanto quem cuida da limpeza e manutenção esses prédios, dirige os ônibus, serve nos restaurantes, trabalha em supermercados e mantém os serviços funcionando, igualmente precisa morar, comer, se deslocar, ter acesso à saúde, cultura e educação. Mas quem ainda consegue acessar todas essas necessidades básicas, nem sempre consegue fazer isso com tranquilidade.
Enquanto a cidade prospera, o trabalhador que contribui com essa prosperidade não consegue acompanhá-la no que diz respeito à qualidade de vida. Talvez aí possa ser observada uma das contradições mais silenciosas do Brasil contemporâneo. Embora a fome tenha sido mais uma vez erradicada no país, ainda vivemos em um profundo abismo social.
Quando o salário não basta, entra o crédito
Quando a renda não acompanha as despesas, o leque de escolhas da classe trabalhadora vai ficando menor. Quando o cinto começa a apertar, primeiro se corta o consumo, em seguida vem o adiamento para pagar uma conta. Então começam os parcelamentos, nas contas, nas compras, nos boletos. As pessoas usam o cartão de crédito, entram no rotativo, pedem um empréstimo. Excedem o limite da conta.
Para cerca de metade da população brasileira, pouco a pouco, o crédito deixa de ser uma ferramenta para comprar alguma coisa e passa a funcionar como extensão do salário. Um dinheiro que custa mais de 400% de juro ao ano.
É bem neste ponto que o endividamento começa a mudar de natureza. O Serasa registrou 83,3 milhões de brasileiros inadimplentes em abril de 2026. O número correspondia a 50,81% da população adulta e representava o maior volume da série histórica do levantamento. Blogueiro também não escapa, eu também faço parte dessa maioria.
Mas isso não significa que todas essas pessoas tenham chegado à inadimplência pelo mesmo motivo. Há quem tenha perdido emprego, clientes e renda. Há quem tenha acumulado compromissos - na tentativa de manter o mesmo padrão de qualidade de vida. Existem as pessoas que enfrentaram ou estão enfrentando uma emergência familiar e muitos que acabaram recorrendo ao crédito, simplesmente para manter o orçamento funcionando.
Existe aí uma diferença que hoje percebe-se como fundamental. Uma coisa é contrair uma dívida para comprar um bem. Outra, muito mais preocupante, é recorrer ao crédito para pagar despesas que deveriam caber na renda mensal: comida, energia elétrica, despesas com moradia, transporte, remédios, etc...
Quando a dívida chega neste patamar, ela não está mais financiando sonhos ou projetos, ela passou a financiar a própria sobrevivência.
A classe média perdeu seu fôlego?
É aqui que o debate sobre custo de vida tem que sair da velha alegoria, que divide a sociedade entre ricos e pobres. Há uma parcela enorme da população que não se considera pobre, mas que também não consegue mais se sentir financeiramente segura.
É o trabalhador que tem emprego, mas depois que paga aluguel não lhe resta o suficiente para manter o mesmo padrão alimentar. É o casal que tem renda, mas a maior parte dela está comprometida com o financiamento da casa. Existe aquela pessoa, aquela família que têm carro, mas não sabe de onde vai tirar o dinheiro quando surge uma manutenção inesperada.
No meio de tudo isso também estão os profissionais que recebem acima do salário mínimo, mas vêem a escola dos filhos, supermercado, plano de saúde, transporte, impostos, acesso à cultura e moradia consumirem tudo o que ganham.
Essa população não aparece nas estatísticas de extrema pobreza. Mas isso não significa que a classe média brasileira esteja confortável. Está sim é se tornando vulnerável. E, a vulnerabilidade financeira, não surge necessariamente no extremo, quando chega ao absurdo da falta comida na mesa.
A vulnerabilidade financeira da classe média, às vezes só começa a aparecer quando simplesmente desaparece qualquer economia para um imprevisto, para uma emergência. Pode ser uma geladeira quebrada, um problema no carro, doença na família, demissão. Ela surge quando comerciantes e profissionais liberais deixam de ter apenas mês ruim e se veem cercados por contas em atraso e dívidas.
Sem reserva financeira, qualquer uma dessas situações pode empurrar uma família para o crédito. E o crédito, quando já existe outra divida em atraso, pode virar uma armadilha, ou uma espécie de areia movediça. As pessoas se veem desesperançadas.
Governos precisam olhar para a conta que chega ao trabalhador
Nenhum governo controla sozinho todos os preços. A prefeitura não determina o valor do supermercado. O governo estadual não fixa sozinho o preço do aluguel. A União não administra cada despesa que aparece no orçamento doméstico.
Mas governos municipais, estaduais e federal recolhem taxas e impostos, portanto têm responsabilidades importantes sobre as condições que determinam o custo de vida da população.
Por isso, não deveria bastar apresentar bons números fiscais, inaugurar obras ou anunciar investimentos. Nas planilhas tudo parece maravilhoso mas a realidade é outra.
Os governantes precisam olhar também para a outra ponta da equação: quanto custa viver na cidade, no estado e no país que eles administram?
As políticas públicas deveria ser examinadas também por uma pergunta muito menos abstrata: depois de pagar as despesas essenciais, quanto sobra no bolso do trabalhador e da trabalhadora? Quanto sobra no orçamento doméstico da família? Quando sobra pouco, existe um problema. Se não sobra nada, existe uma emergência.
As contas não tem ideologia
O custo de vida também precisa ser discutido além da velha estratégia de tentar colocar a todos acreditar nas armadilhas de marketing, que transforma cada número em munição partidária.
As cidades brasileiras, os Estados da Federação, têm governos de diferentes partidos, ideologias e orientações políticas. Algumas políticas seja de qual partido foi, dão certo, outras precisam ser revistas. Há avanços de uma administração que podem ser preservados pelo governo seguinte e problemas que atravessam diferentes e diversos mandatos.
A vida real é mais complicada do que as etiquetas partidárias e as planilhas com estatísticas. O trabalhador não paga a passagem com ideologia. Paga com dinheiro vindo do próprio trabalho. Feijão com arroz e bife não se compra com discurso político, custa dinheiro.
Planilha com números ajuda no planejamento, mas não se paga aluguel com promessa eleitoral. Paga-se com dinheiro. É justamente por isso que governos de diferentes espectros políticos deveriam ser cobrados por uma régua comum: a relação entre o custo e a qualidade real da vida de quem trabalha ou depende da aposentadoria para viver.
O país precisa olhar para quem está no limite
O Brasil não pode tratar como normal uma situação em que trabalhar durante todo o mês não garante, para milhões de pessoas, a possibilidade de construir sequer uma pequena reserva financeira. E neste caso o Paraná, nosso estado, já atravessou o sinal vermelho. Aqui temos o segundo custo de vida mais alto do país, atrás apenas do Distrito Federal.
Não deveria se tornar natural que uma parcela tão grande da população, mais da metade dela, esteja endividada ou inadimplente.
Também não podemos aceitar como normal que o transporte consuma uma fatia significativa da renda, justamente das pessoas que dependem dele para chegar ao emprego.
O pedágio da estrada não pode consumir o benefício da própria viagem. Da mesma forma não podemos aceitar que o aumento nominal do salário seja comemorado, sem que se observe quanto esse reajuste desaparece frente aos custos com alimentação, moradia e serviços.
Quando uma família deixa de comprar alguma coisa porque o dinheiro acabou, não é apenas aquela família que sente. O comércio também sente, assim como o pequeno prestador de serviços e toda economia local.
Quando uma pessoa deixa de fazer uma manutenção preventiva porque não tem dinheiro, o problema é adiado e pode ficar maior depois.
Cada vez que uma família entra no crédito, para pagar despesas básicas, compromete sua própria renda futura. É assim que um problema aparentemente doméstico e localizado vai ganhando dimensão econômica e social. Me parece assustador que no estado maior produtor de tilápia do mundo, 800g de filé de tilápia, custem perto de R$40,00 no supermercado.
A escada social não pode virar esteira
Durante muito tempo, a ideia de ascensão social esteve associada a uma sequência relativamente simples: estudar, trabalhar, melhorar a renda, comprar uma casa, formar uma reserva e oferecer aos filhos uma condição melhor do que aquela recebida dos pais.
Para alguns, essa trajetória ainda é possível. Mas não por incompetência ou gastar demais ou trabalhar menos ou mais, fato é que para milhões de pessoas, ela ficou mais difícil. Muitas pessoas perdem o sono com o temor de não conseguir deixar os filhos em melhor situação futura, através do próprio trabalho.
Quem começa a vida sem patrimônio, sem reserva financeira e com renda baixa enfrenta uma distância enorme até o primeiro degrau. Os que conseguem ou conseguiram subir alguns degraus, também podem descobrir que não estão tão protegidos quanto imaginavam.
Basta perder o emprego, surgir uma doença. Contrair uma dívida quando os juros e a inflação apertam. É o aluguel ou prestação da casa própria que sobe, é o custo com transporte que pesa.
O resultado parece estar numa sensação cada vez mais presente: a de que a escada social, que deveria permitir a subida, às vezes parece funcionar como uma esteira — a pessoa trabalha, trabalha, trabalha e permanece sempre no mesmo lugar.
A discussão sobre custo de vida é menos sobre números e mais sobre dignidade humana. Porque o verdadeiro indicador de uma economia não está apenas no tamanho do PIB, na arrecadação, no número de empregos ou no resultado das contas públicas.
Esta é uma questão presente na vida concreta de quem acorda cedo, enfrenta o trânsito ou o ônibus, trabalha o dia inteiro e volta para casa fazendo e refazendo contas, sem conseguir chegar no resultado que seja no mínimo satisfatório.
Onde viver pesa mais no bolso
O custo de vida não é igual para quem mora em diferentes regiões do Brasil. Uma pesquisa da Serasa em parceria com o Opinion Box, realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, mostrou diferenças expressivas no valor médio mensal do custo de vida no Brasil.
O Distrito Federal (DF) aparece no topo, seguido pelo Paraná (PR) e São Paulo (SP). A pesquisa considerou gastos com moradia, contas recorrentes, supermercado, transporte, saúde, educação, lazer, alimentação, compras e serviços pessoais.
| Posição |
UF |
Unidade da Federação |
Gasto médio mensal |
| 1º |
DF |
Distrito Federal |
R$ 4.920 |
| 2º |
PR |
Paraná |
R$ 4.300 |
| 3º |
SP |
São Paulo |
R$ 4.270 |
Fonte: Serasa/Opinion Box. Pesquisa realizada entre 22 de dezembro de 2025 e 6 de janeiro de 2026. A média nacional de despesas apontada pelo levantamento foi de R$ 3.520 mensais. Os valores representam estimativas médias de gastos e não um índice oficial de custo de vida.
Os dados chamam atenção especialmente no caso do Paraná. O estado aparece na segunda posição, com uma despesa média mensal de R$ 4.300 — cerca de R$ 780 acima da média nacional apontada pelo levantamento divulgado em janeiro deste ano.
O levantamento ajuda a colocar em perspectiva uma contradição que muitas vezes passa despercebida: estados e cidades que oferecem mais empregos, serviços e moradia, também podem cobrar mais caro por aquilo que o trabalhador precisa para viver. As contas não fecham, o trabalhador acaba pagando para trabalhar e usando crédito para viver.
E não basta olhar apenas para quanto entra no contracheque, na venda diária, ou serviço prestado. É preciso olhar para quanto sobra depois de pagar as contas e comprar comida, para a própria vida.
Afinal, quanto custa viver? Quanto precisa ganhar uma pessoa para que trabalhar não seja apenas uma maneira de sobreviver - como uma espécie de escravidão remunerada - e volte a ser também uma forma de construir alguma coisa. Ter o poder de transformar sonhos em realidade, não deveria ser artigo de luxo.