quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Marinha mobiliza o Navio Oceanográfico Antares na costa norte e reforça soberania científica na Amazônia Azul

Em 75 estações distribuídas entre Maranhão, Pará e Amapá, embarcação coleta dados estratégicos do mar que impactam a segurança energética, a ciência e o futuro do Brasil

Em 75 estações distribuídas entre Maranhão, Pará e Amapá, embarcação coleta dados estratégicos do mar que impactam a segurança energética, a ciência e o futuro do Brasil

Enquanto o Brasil acorda, trabalha e segue sua rotina em terra firme, há um movimento silencioso acontecendo no mar. Longe das câmeras e do barulho político, o Navio Oceanográfico Antares, da Marinha do Brasil, cumpre uma missão estratégica na costa norte do país — uma missão que não produz manchetes sensacionalistas, mas produz futuro.

A embarcação está posicionada na margem equatorial brasileira coletando dados físicos do oceano em 75 estações distribuídas ao longo do litoral do Maranhão, Pará e Amapá. Não é apenas uma operação técnica. É ciência aplicada à soberania nacional.

São medições de temperatura, salinidade, correntes marítimas e variáveis ambientais que, analisadas em conjunto, ajudam o Brasil a compreender melhor o comportamento do Atlântico sob sua jurisdição. E compreender. É proteger. É decidir com responsabilidade. É tomar decisões e aplicar recursos com sabedoria.

Ciência que antecipa riscos e constrói segurança

A missão integra o projeto Rede de Modelagem e Observação Oceanográfica (REMO), fruto de uma parceria entre a Marinha, a Petrobras e a Fundação Nacional de Pesquisa. A iniciativa fortalece a capacidade nacional de produzir modelos oceanográficos cada vez mais precisos.

Esses dados serão assimilados por sistemas de modelagem que permitem prever dinâmicas do mar com maior confiabilidade. Isso impacta diretamente:

  • A segurança das operações de exploração de petróleo e gás;
  • O planejamento logístico marítimo;
  • A prevenção de acidentes ambientais;
  • O avanço das pesquisas científicas sobre o litoral brasileiro.

Num país que depende do mar para energia, comércio e biodiversidade, informação qualificada não é luxo. É necessidade estratégica.

A Amazônia Azul como horizonte

Quando a Marinha fala em Amazônia Azul, fala de uma imensidão marítima que guarda riquezas naturais, biodiversidade única e reservas energéticas decisivas para o desenvolvimento nacional. A margem equatorial, onde o Antares atua neste momento, é uma das regiões mais sensíveis e debatidas do país.

Antes de qualquer decisão de grande impacto econômico ou ambiental, é preciso conhecer profundamente o ambiente marinho. E conhecer exige método, paciência e presença constante.

Cada estação de coleta é um ponto no mapa da soberania brasileira. E com isso não se brinca.

Presença que afirma o país

O projeto REMO demonstra que a pesquisa oceanográfica brasileira não é improviso — é política de Estado. É planejamento de longo prazo. Sai do discurso e parte para a ação.

Em tempos de polarização acelerada e discursos superficiais, há algo profundamente simbólico no trabalho do Antares: ele opera sem ruído, mas com impacto duradouro. O oceano não responde a pressões ideológicas. Ele responde a dados, ciência e responsabilidade. Fatores imprescindíveis para o desenvolvimento saudável da nação.

Hoje, enquanto muitos discutem o Brasil nas redes, o Brasil está sendo medido, estudado e compreendido em nossa faixa costeira e mar territorial do Atlântico Norte. O mundo inteiro está nos observando e está interessado em vir fazer negócios com o Brasil. E entender o mar é entender o nosso próprio país.

Cada dado coletado na margem equatorial é um gesto silencioso de construção nacional — um passo firme rumo à segurança energética, ao avanço científico e à afirmação da nossa soberania. Podemos mostrar ao mundo que exploramos as nossas reservas energéticas com segurança, sem ameaçar a biodiversidade maninha e o futuro da vida no planeta Terra.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Energia que flutua: tubos “insubmersíveis” podem transformar o oceano em usina limpa

Tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos reacende debate sobre o potencial das ondas e marés, enquanto pesquisas brasileiras avançam na geração elétrica a partir do mar

Tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos reacende debate sobre o potencial das ondas e marés, enquanto pesquisas brasileiras avançam na geração elétrica a partir do mar

O oceano sempre esteve ali — vasto, misterioso, vivo e fascinante. Durante milenios foi rota de comércio, fonte de alimento, fronteira de descobertas. Agora, volta ao centro das atenções como promessa energética. Em um mundo pressionado pela emergência climática e pela necessidade urgente de transição para fontes limpas, o mar pode deixar de ser apenas paisagem para se tornar potência energética.

Pesquisadores da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, desenvolveram tubos de alumínio capazes de flutuar indefinidamente, mesmo sob condições extremas. A ideia é simples na aparência, mas sofisticada na essência: estruturas microscópicas gravadas na superfície do metal impedem que a água penetre, aprisionando bolhas de ar no interior. O resultado é um material praticamente “insubmersível”.

De acordo com o The New York Times, os tubos permanecem flutuando mesmo quando perfurados ou submetidos à água salgada e ambientes com algas. A técnica explora a chamada superhidrofobicidade — a extrema repelência à água — fenômeno inspirado na natureza, como nos pelos das aranhas mergulhadoras e nos exoesqueletos de formigas capazes de sobreviver a enchentes, formando verdadeiras jangadas vivas.

O oceano como usina do futuro

A proposta dos cientistas é emparelhar esses tubos sobre a superfície marinha, criando plataformas resistentes e capazes de capturar a energia das ondulações. Diferentemente dos painéis solares ou das turbinas eólicas, que dependem da incidência dos raios do sol ou da constância dos ventos, o mar oferece um movimento com ritmo permanente e previsível.

O Brasil, com mais de 7.400 quilômetros de litoral, não está fora dessa equação. Pesquisadores da COPPE/UFRJ desenvolvem há anos estudos sobre conversão de energia das ondas em eletricidade. Um dos projetos pioneiros foi instalado no Porto do Pecém, no Ceará, com tecnologia nacional voltada a testar a viabilidade da geração a partir da movimentação marítima.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadores investigam o potencial das correntes oceânicas e marés como fontes energéticas complementares à matriz brasileira. Já grupos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mantêm estudos de hidrodinâmica aplicada à geração elétrica offshore.

Segundo estimativas da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o potencial técnico brasileiro para energia das ondas pode alcançar dezenas de gigawatts, especialmente ao longo das regiões Nordeste e Sul.

Resistência em alto-mar: o desafio estrutural

Um dos maiores obstáculos para a energia oceânica sempre foi a durabilidade dos equipamentos. O ambiente marinho é implacável: salinidade elevada, corrosão constante, impacto das ondas e acúmulo de organismos marinhos (cracas) nas estruturas.

É justamente nesse ponto que a inovação desenvolvida nos EUA chama atenção. Os tubos resistem à corrosão porque a água não permanece na superfície interna. Mesmo com perfurações, a estrutura mantém sua flutuabilidade. Se a tecnologia se provar escalável, poderá reduzir custos de manutenção e ampliar a vida útil de plataformas marítimas — fator decisivo para tornar a energia das ondas economicamente competitiva.

Brasil: potência renovável ainda subexplorada

A matriz elétrica brasileira já é majoritariamente renovável, sustentada principalmente por hidrelétricas, além do crescimento consistente da energia eólica e solar. No entanto, eventos climáticos extremos e períodos de estiagem reforçam a necessidade de diversificação.

A energia das ondas e das marés não substituiria outras fontes, mas poderia atuar como complemento estável e previsível. Para o trabalhador brasileiro que acorda cedo e depende de energia confiável — seja na indústria, no comércio ou no campo — investir em inovação é também investir em segurança energética e desenvolvimento econômico.

O desafio, como sempre e infelizmente acontece no Brasil, é transformar pesquisa em política pública. O Brasil possui conhecimento técnico, universidades capacitadas e litoral estratégico, a polarização política tem destruído as chances de progresso do país. Além de boa vontade política, falta continuidade institucional e prioridade orçamentária para consolidar o mar como vetor energético.

Entre ciência e futuro

A história desses tubos de alumínio pode parecer um detalhe técnico — microestruturas invisíveis que repelem água. Mas simbolicamente representa algo maior: a capacidade humana de aprender com a natureza para enfrentar a emergência climática.

Os oceanos da Terra não são apenas cenário de cartão-postal. São reservatórios energéticos ainda pouco explorados. Se a tecnologia internacional avançar e dialogar com a pesquisa brasileira, poderemos assistir a uma nova etapa da transição energética global.

O mar, que já foi caminho, pode se tornar solução. E talvez o futuro da eletricidade esteja justamente ali, nas ondas que insistem em nunca parar.

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Milícias: entre fantasmas do passado e riscos do presente

Curitiba não pode repetir o caminho que transformou as milícias em poder paralelo como aconteceu no Rio, no Espírito Santo e em Minas Gerais

Curitiba não pode repetir o caminho que transformou as milícias em poder paralelo como aconteceu no Rio, no Espírito Santo e em Minas Gerais

Houve um tempo em que bastava pensar diferente para ser perseguido. Na Europa medieval, mulheres eram queimadas sob acusação de bruxaria. No século XX, regimes fascistas transformaram divergência política em crime. Em comum, o mesmo mecanismo: o medo organizado e a crença de que alguém precisava agir “em nome da ordem”, acima das instituições.

A história ensina que os maiores retrocessos começam quando grupos passam a se sentir autorizados a agir por conta própria — movidos por convicções morais, religiosas ou ideológicas — e colocam sua própria noção de justiça acima da lei.

É com serenidade, mas também com responsabilidade, que fazemos este alerta. Não estamos acusando ninguém, apenas relatando o que está registrado na história para que não se repita jamais.

No Brasil, as milícias paramilitares surgiram principalmente a partir da atuação de agentes e ex-agentes de segurança pública que passaram a controlar territórios e impor regras próprias. O discurso inicial era o da proteção. O resultado, em muitos casos, foi extorsão, violência e poder paralelo — especialmente no Rio de Janeiro, com registros também no Espírito Santo e em Minas Gerais.

A pergunta que Curitiba precisa se fazer é simples: e se grupos organizados, formados por pessoas com treinamento militar ou experiência em segurança, começarem a atuar politicamente ou “em nome da ordem” fora do comando legal?

A Constituição estabelece que as Forças Armadas se organizam com base na hierarquia e na disciplina. Militares da ativa não podem se organizar politicamente nem atuar coletivamente fora das missões autorizadas. Fora de operações oficiais — como Garantia da Lei e da Ordem ou ações humanitárias determinadas pelo comando — não existe atuação institucional legítima.

Quando surgem articulações paralelas, quando a autoridade simbólica da farda passa a ser utilizada para pressionar instituições ou influenciar a sociedade, o risco deixa de ser abstrato. Por exemplo: um policial em serviço ser pressionado por um policial aposentado a obedecer uma ordem que não é legítima, ou alguém das forças armadas, fora dos quartéis, tentar usar suas credenciais, o histórico de serviços prestados a nação, para pressionar o poder público.

Começa assim, e depois que se estabelecem geralmente exploram serviços ilegais como internet, entrega de gás, segurança privada e até tráfico de drogas.

Curitiba é uma cidade plural, politicamente ativa e com forte presença de forças de segurança. Ainda é uma cidade relativa ou aparentemente segura, e isso, por si só, não é problema. O problema nasce quando discursos de “defesa da ordem” começam a justificar organização paralela, pressão institucional ou atuação coletiva armada fora do controle legal. 

Quando ao invés de de desmilitarizar, é aplicada a militarização que transforma cidadãos e cidadãs em subordinados do poder público, organizações paralelas ao estado ou grupos de justiceiros e justiceiros paramilitares. Fazer justiça com as próprias mãos é justiça nenhuma e ainda, ao nosso ver, pode até ser qualificado como crime.

Não se trata de ideologia. Trata-se de Estado Democrático de Direito!

O que não queremos é ver acontecer em Curitiba o que já ocorreu em outras regiões do Brasil: grupos organizados assumindo funções típicas do Estado, controle informal de territórios, influência política sustentada por intimidação e a naturalização de uma “ordem” paralela.

Democracias sólidas exigem instituições fortes, forças de segurança treinadas, profissionais e apartidárias, obedientes à Constituição Federal do Brasil. A força pertence ao Estado — e o Estado pertence à Constituição. Esta é a única garantia da lei da ordem com a qual podemos contar de forma legítima em tempos de paz. 

Se cada grupo decidir agir “em nome da lei” por conta própria, quem definirá o que é a lei? Quem controlará a força? Quem garantirá a liberdade de quem pensa diferente? A liberdade de consciência ou seja de pensamento é uma garantia constitucional, violar ou tentar violar esta liberdade individual de cada cidadão e cidadã é crime.

A história mostra que as rupturas começam pequenas, muitas vezes toleradas ou romantizadas, como aconteceu com o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha.

Curitiba precisa permanecer atenta. A vigilância democrática não é hostilidade às instituições; é a defesa delas contra qualquer tentativa de instrumentalização política ou corporativa. Não existe religião e ideologia, conceitos e preceitos de que ordem for, superiores à Constituição Federal do Brasil, promulgada em 1988.

Como cidadão, se você perceber a atuação de algum agente do Estado ou o cidadão tentando praticar justiça ou fazer justiça com as próprias mãos, através de grupos de pressão, organizações paramilitares, ou milícias, denuncie. 

Serviço

Justiça Militar da União (JMU)
Reclamações podem ser feitas à Ouvidoria do Superior Tribunal Militar (STM) por:
• Formulário eletrônico no site oficial;
• E-mail: ouvidoria@stm.jus.br;
• Aplicativo “Ouvidoria-STM”;
• Telefones: (61) 3313-9445 / 9460.

Ministério Público Militar (MPM)
Denúncias podem ser encaminhadas por e-mail ou pelo sistema Fala.BR, com garantia de sigilo, se necessário.

Denúncias gerais no Paraná
Atividades criminosas, inclusive envolvendo Polícia Militar ou Polícia Civil, podem ser denunciadas pelo:
• Disque Denúncia 181 (anônimo, das 8h às 23h);
• Site: www.denuncia181.pr.gov.br.

Ouvidoria Geral do Estado do Paraná
Reclamações, sugestões ou elogios:
• Telefone: 0800 041 1111 ou acesse o site.

Consulte também, e salve o atalho em seu dispositivo móvel, a Constituição Federal do Brasil.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Lula: entre narrativas de impopularidade e realidade nas ruas

Do frevo ao samba: Lula percorre Recife, Salvador e Rio e expõe distância entre narrativas de impopularidade criadas pela extrema direita e a realidade nas ruas

Após ser aplaudido por cerca de 2 milhões de foliões no Galo da Madrugada, presidente acompanha o Carnaval de Salvador e já está no Rio para os desfiles na Sapucaí.

Após ser aplaudido por cerca de 2 milhões de foliões no Galo da Madrugada, presidente acompanha o Carnaval de Salvador e já está no Rio para os desfiles na Sapucaí.

Recife / Salvador / Rio de Janeiro — A política brasileira é feita de narrativas. Algumas ganham força nas redes sociais, outras ecoam em discursos de adversários. Nos últimos anos, uma delas foi repetida à exaustão: a de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não poderia sair às ruas sem ser vaiado ou hostilizado.

Neste fim de semana de Carnaval, porém, a realidade respondeu com imagens — e com multidões.

Na manhã de sábado (14), Lula participou do tradicional Galo da Madrugada, no Recife, considerado o maior bloco carnavalesco do mundo, que reúne cerca de 2 milhões de pessoas. Ao lado da primeira-dama Janja da Silva, o presidente foi recebido com aplausos, acenos e palavras de incentivo. Não houve registro de vaias generalizadas. O que se viu foi celebração.

Mais cedo, o próprio presidente compartilhou em seu perfil oficial na rede X um vídeo ao lado de Janja, celebrando a presença na capital pernambucana:

A postagem viralizou rapidamente. Mas o roteiro do dia estava longe de terminar.

De Recife a Salvador: segunda parada da folia

Na tarde do mesmo sábado, Lula seguiu para Salvador, onde acompanhou o Carnaval no circuito Campo Grande. Segundo reportagem do Jornal Grande Bahia (JGB), o presidente chegou por volta das 14h30 e foi recepcionado pelo governador Jerônimo Rodrigues e pela primeira-dama do Estado, Tatiana Velloso.

No camarote do governo baiano, Lula esteve ao lado de Janja, da ministra da Cultura Margareth Menezes e do ministro da Casa Civil, Rui Costa. Durante a passagem pelo circuito, assistiu aos trios elétricos e interagiu com atrações como a banda BaianaSystem, em meio à multidão que ocupava as ruas da capital baiana 0.

Era a segunda capital em menos de 24 horas. Dois dos maiores carnavais do planeta. E novamente, o que se viu foi presença, integração e registros festivos compartilhados nas redes sociais.

Destino final: a Marquês de Sapucaí

Da Bahia, Lula seguiu para o Rio de Janeiro, onde já se encontra para acompanhar o primeiro dia de desfiles das escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Na capital fluminense, o presidente participa da agenda cultural do Carnaval e será homenageado pela escola Acadêmicos de Niterói, cujo samba-enredo faz referência à sua trajetória política.

Em três capitais, três multidões, três palcos simbólicos da cultura popular brasileira — Recife, Salvador e Rio.

Entre o discurso e o asfalto

A tese de que Lula estaria impedido de circular em público por conta de impopularidade sempre foi mais performática do que comprovada. Repetida por adversários como estratégia de desgaste político, ela encontra pouco respaldo quando confrontada com registros amplamente documentados.

O que este Carnaval expõe é um contraste difícil de ignorar: enquanto a retórica fala em isolamento, a prática mostra presença; enquanto a narrativa sugere rejeição massiva, as imagens revelam acolhimento em eventos que reúnem milhões de pessoas.

Isso não significa ausência de críticas ou polarização — o Brasil continua dividido politicamente. Mas a presença contínua do presidente em grandes eventos populares, em diferentes regiões do país, enfraquece a ideia de que ele estaria apartado das ruas.

No frevo pernambucano, no trio elétrico baiano e agora sob as luzes da Sapucaí, Lula percorre o país em plena temporada pré-eleitoral. E, até aqui, a resposta das ruas tem sido menos hostil do que previam seus opositores.

Às vezes, a política se mede em pesquisas. Outras vezes, em aplausos que ecoam entre pontes, avenidas e sambódromos.

- Ampliada com tuíte do presidente Lula em 16 de fevereiro as 08h48.
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sábado, 14 de fevereiro de 2026

“Foi minha terra, não foi só água”

Estado brasileiro e Itaipu reconhecem violações contra o povo Avá-Guarani e anunciam medidas de reparação histórica no oeste do Paraná

Indios Avá-Guarani - IHU/Reprodução

Quando as águas do Rio Paraná começaram a subir no início da década de 1980, não foi apenas a paisagem que desapareceu sob o reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Junto com as árvores, trilhas e roçados, foram submersas memórias, cemitérios ancestrais, espaços sagrados e parte da própria identidade do povo Avá-Guarani.

Mais de quatro décadas depois, o Estado brasileiro, representado pela União, pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), ao lado da Itaipu Binacional (margem esquerda), reconheceu publicamente as violações cometidas contra as comunidades indígenas durante a construção da hidrelétrica, nas décadas de 1970 e 1980, e formalizou um pedido de desculpas.

O documento oficial admite que, naquele período, foram adotadas medidas que desconsideraram os direitos territoriais, culturais e espirituais dos Avá-Guarani. O processo de colonização agrícola no oeste do Paraná já havia reduzido drasticamente seus territórios desde o início do século XX. A construção de Itaipu aprofundou essa ruptura.

Com a formação do reservatório, comunidades foram deslocadas, áreas sagradas foram inundadas — incluindo referências espirituais históricas da região — e modos tradicionais de subsistência, como a pesca, a caça e o cultivo, foram desestruturados.

“Reconhecemos os impactos ocasionados às comunidades indígenas Avá-Guarani antes e durante o processo de idealização e construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu”, afirma o texto oficial divulgado pela Itaipu. “Expressamos publicamente tudo que foi suportado pelas comunidades indígenas, submetidas a deslocamentos, perda de territórios sagrados e impactos em suas formas de vida e expressões culturais.”

O reconhecimento foi homologado judicialmente no âmbito da Ação Cível Originária nº 3.555, no Supremo Tribunal Federal (STF), resultado de um acordo construído com participação do Ministério Público Federal e das próprias comunidades indígenas.

O texto reconhece que a formação do lago e a expropriação territorial contribuíram para desestruturar formas tradicionais de vida e subsistência, provocando impactos sociais, econômicos e culturais significativos. Em linguagem direta, admite que houve violação de direitos humanos.

“Divulgamos esses fatos à sociedade no intuito de honrar a memória das vítimas que tiveram sua dignidade, identidade cultural e existência sistematicamente negadas”, registra o documento.

Reparação concreta

Além do pedido público de desculpas, o acordo prevê medidas de reparação. Entre elas, a aquisição emergencial de aproximadamente 3 mil hectares de terras para reassentamento de comunidades Avá-Guarani no oeste do Paraná. O investimento pode alcançar até R$ 240 milhões com recursos da Itaipu Binacional.

Duas áreas já foram adquiridas no município de Terra Roxa (PR), onde famílias indígenas iniciam um processo de reconstrução territorial. O acordo também prevê ações de infraestrutura, acesso à água potável, energia elétrica, saneamento, saúde, educação e fortalecimento cultural.

Para lideranças indígenas, o gesto é histórico — mas não encerra a luta. As comunidades seguem reivindicando demarcação plena de seus territórios tradicionais e políticas permanentes de proteção.

“Palavras são importantes. Mas nossa vida está na terra”, resume uma liderança Avá-Guarani da região. “A terra é nossa memória, nossa escola, nossa espiritualidade.”

Memória e não repetição

O Estado brasileiro e a Itaipu Binacional afirmaram ainda o compromisso de preservar a memória histórica dos acontecimentos como mecanismo de não repetição, fortalecendo o Estado Democrático de Direito.

Para os Avá-Guarani, a memória nunca deixou de existir. Ela resistiu nas histórias contadas ao redor do fogo, nas cantigas transmitidas às crianças e na luta constante pelo reconhecimento. O pedido de desculpas não devolve o passado — mas inaugura uma possibilidade de futuro em que o desenvolvimento não se construa mais sobre o silenciamento dos povos originários.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Carnaval, estrada e responsabilidade: o que os números revelam sobre acidentes e álcool no Brasil

Levantamentos oficiais mostram que, embora haja redução em alguns índices, o consumo de bebidas alcoólicas ainda aparece como fator central nos acidentes durante o feriado mais festivo do país

Levantamentos oficiais mostram que, embora haja redução em alguns índices, o consumo de bebidas alcoólicas ainda aparece como fator central nos acidentes durante o feriado mais festivo do país

Carnaval é celebração da alegria, do encontro e da cultura brasileira, numa verdadeira catarse coletiva. É quando o Brasil dança nas ruas, abraça desconhecidos e transforma o cotidiano em fantasia. Mas, quando o confete cai e o trio elétrico silencia, um outro balanço também vem à tona — o das rodovias.

Todos os anos, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) divulga o relatório da Operação Carnaval. São números frios, técnicos, mas que carregam histórias interrompidas. No Carnaval de 2025, foram registrados 1.150 acidentes nas rodovias federais, com 83 mortes e 1.315 pessoas feridas. Houve redução em relação ao ano anterior, quando 88 pessoas perderam a vida, mas ainda assim o dado é um lembrete incômodo: a festa não pode custar vidas.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), responsável pelas rodovias concedidas à iniciativa privada, também apresentou números do mesmo período: redução de cerca de 13% nos acidentes em comparação com 2024. Ainda assim, 24 mortes foram registradas nesses trechos concedidos.

Os dados mostram avanços pontuais, fruto de fiscalização mais intensa, campanhas educativas e maior consciência social. Mas há um fator que insiste em atravessar os relatórios como uma sombra persistente: a mistura de álcool e direção.

A velha combinação que nunca envelhece — e nunca funciona

Durante o Carnaval, a PRF intensifica o uso do bafômetro. Milhares de motoristas são autuados por alcoolemia ao volante ou por se recusarem a fazer o teste. Centenas acabam detidos por embriaguez ao volante. Não é coincidência que as campanhas oficiais reforcem ano após ano o mesmo recado: “não misture álcool e direção”.

Especialistas em segurança viária apontam que feriados prolongados, especialmente os associados a festas, registram aumento significativo de infrações ligadas ao consumo de bebidas alcoólicas. Estudos epidemiológicos indicam que o álcool está relacionado a uma parcela relevante dos acidentes graves em períodos festivos — um dado que dialoga diretamente com o cenário observado no Carnaval.

Não, amigo leitor. Não é o samba que causa acidente. Não é o glitter, o confete e a serpentina. Não é o bloco das 9h da manhã. É a decisão equivocada de assumir o volante depois de tomar uns goles.

Um brinde à responsabilidade

Vamos falar com franqueza — mas também de forma suave. Se você passou o ano inteiro reclamando do preço da gasolina, da manutenção do carro e dos impostos, talvez não seja uma boa ideia arriscar tudo isso (e a própria vida) por causa de um “tomar uma”.

E você, amiga leitora, que organiza a fantasia, combina o encontro, reúne a turma e cuida de todo mundo — talvez já saiba que o melhor acessório do Carnaval é a consciência tranquila.

Beber faz parte da cultura festiva brasileira. O problema nunca foi o brinde. O problema é transformar o volante em extensão do copo.

A conta é simples:
Se for dirigir, não beba.
Se for beber, não dirija.

Não é moralismo. É estatística. E, acima de tudo, é cuidado.

O que os números não mostram

Os relatórios falam em 83 mortes. Mas não falam do pai que não voltou para casa. Não falam da mãe que aguardava na janela. Não falam do amigo que ficou esperando mensagem no grupo do WhatsApp que nunca chegou.

Os números são oficiais. As ausências são permanentes.

O Carnaval pode — e deve — continuar sendo a maior celebração popular do país. Mas a verdadeira festa é chegar em casa. É acordar na quarta-feira de cinzas com ressaca leve e histórias engraçadas, não com arrependimentos irreversíveis.

Portanto, amigo e amiga do Sulpost: aproveitem. Dancem. Cantem. Celebrem. Beijem na boca. Bebam, se quiserem — com moderação. Mas deixem o carro em casa, chamem um aplicativo, elejam o motorista da vez, peguem carona com a responsabilidade.

A resenha é simples: o melhor bloco é aquele que termina com todos vivos e de consciência tranquila para contar a história.

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Toffoli deixa relatoria do caso Banco Master após pressão pública e reunião no STF

Ministro afirma não haver impedimento, recebe apoio unânime dos colegas, mas decide sair “em nome dos interesses institucionais” - André Mendonça é o novo relator

Ministro afirma não haver impedimento, recebe apoio unânime dos colegas, mas decide sair “em nome dos interesses institucionais” - André Mendonça é o novo relator

Em um gesto que mistura prudência institucional e desgaste público, o ministro Dias Toffoli decidiu deixar a relatoria do inquérito que apura suspeitas de fraudes envolvendo o Banco Master. A decisão foi comunicada após uma reunião convocada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Edson Fachin, que reuniu os integrantes da Corte por cerca de três horas nesta quarta-feira (12).

O pano de fundo é delicado: relatório da Polícia Federal apontou a existência de menções ao nome de Toffoli em mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Segundo informa a Agência Brasil o aparelho foi apreendido em operação de busca e apreensão. O teor das citações permanece sob segredo de Justiça.

Embora os dez ministros tenham declarado, de forma unânime, que não há elementos para suspeição ou impedimento, Toffoli optou por sair do caso. A redistribuição do processo caberá agora a Fachin, que fará o sorteio para um novo relator.

Apoio formal, desgaste real

A nota oficial divulgada ao fim da reunião foi clara: não há base legal para afastamento compulsório. Os ministros afirmaram que Toffoli atendeu a todos os pedidos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República e reconheceram a validade de todos os atos praticados por ele até aqui.

Ainda assim, nos bastidores e fora deles, a pressão crescia.

Desde o mês passado, reportagens trouxeram à tona a informação de que a PF identificou possíveis irregularidades em um fundo de investimento ligado ao Banco Master. Esse fundo adquiriu participação no resort Tayayá, no Paraná — empreendimento do qual familiares de Toffoli eram proprietários. Mais cedo, o ministro confirmou ser um dos sócios do resort, mas declarou não ter recebido qualquer valor de Daniel Vorcaro.

O desgaste, portanto, não era apenas jurídico — era político e simbólico. Em tempos de polarização e vigilância permanente sobre as instituições, qualquer ruído se transforma em crise.

O peso da imagem institucional

Durante a reunião, segundo relatos, Toffoli chegou a defender sua permanência na relatoria. Mas, diante da repercussão pública e do debate sobre a imagem da Corte, decidiu recuar.

Na prática, o gesto busca preservar o tribunal de questionamentos que poderiam contaminar o andamento do processo. O próprio texto assinado pelos ministros registra que a decisão ocorreu “considerados os altos interesses institucionais” e a prerrogativa do ministro de submeter questões à Presidência para o bom andamento dos processos.

Assinaram a nota, além de Fachin e Toffoli, os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Cármen Lúcia, Luiz Fux, André Mendonça, Nunes Marques, Cristiano Zanin e Flávio Dino.

Entre a lei e a percepção pública

Do ponto de vista formal, o STF sustentou que não há hipótese legal de suspeição. Mas, no Brasil de hoje, a legitimidade institucional não se constrói apenas nos códigos — ela também passa pela confiança social.

Ao deixar a relatoria, Toffoli tenta encerrar uma narrativa que poderia comprometer o julgamento antes mesmo da análise dos fatos. A investigação segue, agora sob novo relator, enquanto a Corte tenta blindar-se de ruídos que extrapolam os autos.

O episódio revela mais uma vez como o Supremo vive sob tensão constante: qualquer sombra vira manchete, qualquer menção vira suspeita. E, nesse cenário, a preservação da instituição passa, muitas vezes, por decisões que vão além do texto frio da lei.

No fim das contas, não se trata apenas de um processo redistribuído. Trata-se da disputa permanente pela credibilidade das instituições — e do equilíbrio delicado entre legalidade, transparência e confiança pública.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi escolhido nesta mesma noite de quinta-feira (12), o novo relator do inquérito que trata das fraudes do Banco Master na Corte. A notícia foi divulgada pela Agência Brasil no fechamento da matéria.

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Embraer amplia presença na Índia e reforça ponte estratégica entre Brasil e Ásia

Gigante brasileira da aviação avança na cadeia de suprimentos indiana e consolida cooperação industrial em defesa, tecnologia e inovação

Divulgação/Embraer

Nova Delhi está a mais de 14 mil quilômetros de São José dos Campos. Mas, quando se fala de indústria aeroespacial, distância geográfica não significa distanciamento estratégico. Pelo contrário: é no encontro entre Brasil e Índia que começa a se desenhar uma nova etapa da soberania tecnológica brasileira.

A Embraer concluiu mais uma visita de alto nível ao país asiático com um objetivo claro: expandir e estruturar uma cadeia de suprimentos local robusta, integrando fornecedores indianos ao ecossistema global da fabricante brasileira. Mais do que uma agenda corporativa, trata-se de um movimento que dialoga com geopolítica, defesa, inovação e posicionamento internacional.

“A Índia é um parceiro estratégico para o desenvolvimento futuro da indústria aeroespacial”, afirmou Roberto Chaves, Vice-Presidente Executivo de Compras e Suprimentos Globais da Embraer, em publicação divulgada  em comunicado oficial divulgado no último dia 8: a intenção é aprofundar iniciativas conjuntas tanto na aviação civil quanto na área de defesa, com foco em inovação tecnológica, excelência operacional e parcerias de longo prazo.

Divulgação/Embraer

Muito além de fornecedores

Durante a visita, a Embraer avaliou potenciais parceiros em segmentos como montagem de aeroestruturas, usinagem, forja, fundição, materiais compostos, cablagem e desenvolvimento de hardware e software. Na prática, isso significa integrar a Índia a uma cadeia de produção que envolve tecnologia de ponta e alto valor agregado — exatamente o tipo de indústria que sustenta economias que pensam no futuro.

A empresa também inaugurou recentemente um escritório em Nova Delhi e criou uma equipe local dedicada à área de compras, sinalizando que a movimentação não é pontual, mas estrutural. O plano é implementar um programa extenso de cadeia de suprimentos no país.

Para o Brasil, isso representa algo maior: a consolidação de uma empresa nacional como protagonista global, capaz de construir pontes industriais fora do eixo tradicional Estados Unidos–Europa e ampliar sua presença na região da Ásia-Pacífico.

Defesa, presença consolidada e geopolítica

A Índia já é um mercado relevante para a Embraer. Atualmente, mais de 44 aeronaves da fabricante operam no país, distribuídas entre aviação comercial, executiva e defesa. Entre elas estão cinco jatos VIP utilizados pelo governo indiano e três aeronaves militares EMB-145 AEW “Netra”, operadas pela Força Aérea Indiana para vigilância aérea e controle antecipado.

Em um mundo onde o espaço aéreo também é território de soberania, cada contrato de defesa carrega peso diplomático e estratégico.

Uma gigante brasileira no tabuleiro global

Fundada em 1969, a Embraer já entregou mais de 9 mil aeronaves. Em média, a cada 10 segundos, um avião fabricado pela empresa decola em algum lugar do mundo, transportando mais de 150 milhões de passageiros por ano.

Líder global na fabricação de jatos comerciais de até 150 assentos, a Embraer permanece como a principal exportadora brasileira de bens de alto valor agregado — uma raridade em um país ainda fortemente dependente da exportação de commodities.

Ao ampliar sua presença na Índia, a companhia também fortalece o posicionamento do Brasil no eixo dos BRICS e na Ásia-Pacífico, região que concentra parte significativa do crescimento econômico mundial nas próximas décadas.

Para o trabalhador brasileiro que acompanha os movimentos da economia global, pode parecer distante falar de cadeias aeroespaciais na Ásia. Mas não é. Cada contrato fechado, cada parceria internacional e cada fornecedor integrado à engrenagem global representam empregos qualificados, inovação tecnológica e fortalecimento da indústria nacional.

O céu pode não ter fronteiras. Mas a soberania industrial tem endereço — e, neste caso, ele continua sendo brasileiro.

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Paraná lança plataforma inédita para certificar sustentabilidade e fortalecer o agronegócio

Aplicativo gratuito vai integrar dados ambientais, produtivos e territoriais, emitindo certidão agroambiental digital para mais de 300 mil propriedades rurais

Em um momento em que o mundo exige cada vez mais rastreabilidade, transparência e responsabilidade ambiental, o Paraná decidiu transformar dados em estratégia de Estado.

Segundo a Agência Estadual de Notícias (AEN-PR), o Governo do Paraná lançou nesta terça-feira (10), durante o Show Rural Coopavel, em Cascavel, o Projeto Plataforma Paraná + Sustentável — uma iniciativa que consolida inteligência territorial como base para políticas públicas ambientais, agropecuárias e de desenvolvimento sustentável.

O anúncio foi feito pelo governador em exercício, Darci Piana, em um dos maiores eventos do agronegócio da América Latina. Mais do que um aplicativo, o projeto nasce como uma infraestrutura digital permanente. Nos próximos 15 dias, a plataforma estará disponível gratuitamente para download em sistemas iOS e Android.

Na prática, o produtor rural poderá acessar, pelo celular, um retrato técnico completo de sua propriedade — reunindo dados ambientais, produtivos e sanitários hoje espalhados em diferentes bases públicas.

Inteligência territorial e segurança jurídica

A plataforma integra informações autodeclaradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) com dados oficiais estaduais e federais. O objetivo é segundo informa a AEN: transformar dados dispersos em evidência técnica auditável.

O resultado será a emissão de uma espécie de certidão agroambiental digital, reunindo licenciamento ambiental, situação do CAR, cadastros sanitários e outros registros essenciais para financiamento, exportação e certificações nacionais e internacionais.

“Estamos criando uma ferramenta moderna, transparente e permanente, que fortalece a sustentabilidade, dá segurança jurídica e amplia a competitividade do Paraná, especialmente para quem produz no campo”, afirmou Darci Piana.

De acordo com o superintendente-geral de Ordenamento Territorial, Benno Doetzer, a proposta é gerar um extrato consolidado da propriedade rural, tanto sob o ponto de vista ambiental quanto produtivo — algo que pode simplificar processos e reduzir entraves burocráticos.

Monitoramento por satélite e alertas climáticos

A Plataforma Paraná + Sustentável também permitirá o monitoramento contínuo do território por meio de imagens de satélite, análise de uso e ocupação do solo, acompanhamento da produção agrícola e identificação de eventos climáticos extremos.

Com isso, será possível emitir alertas preventivos, gerar indicadores estratégicos e apoiar decisões tanto do poder público quanto dos produtores rurais.

Para o secretário do Desenvolvimento Sustentável, Rafael Greca, o lançamento consolida o compromisso do Estado com a rastreabilidade ambiental.

“É um lançamento que conjuga inovação com rastreabilidade ambiental e eficiência no respeito às leis florestais do Brasil”, afirmou.

Greca definiu o sistema como um “hipervisor agrário”, concentrando informações sobre uso do solo, produção e preservação ambiental em todo o Paraná.

Resposta rápida na defesa sanitária

O diretor-presidente da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), Otamir Cesar Martins, destacou que a ferramenta terá impacto direto na área de defesa sanitária animal.

Em situações de emergência, o sistema permitirá localização precisa das propriedades, indicação de rotas e respostas mais ágeis — um fator decisivo quando o tempo é determinante.

Já o secretário da Agricultura e do Abastecimento, Marcio Nunes, representante do Agronegócio no Governo do Paraná, diz que a plataforma integra outras ações recentes, como o CEP Rural, código oficial de endereçamento das propriedades rurais no estado.

CEP Rural, selo agroambiental e competitividade internacional

Entre as entregas previstas estão:

  • Certificação do CEP Rural para mais de 300 mil propriedades;
  • Consolidação oficial das Rotas Rurais;
  • Criação de um Selo Agroambiental baseado em dados públicos;
  • Mapas anuais de uso e ocupação do solo;
  • Certificados digitais por imóvel, município e Estado;
  • Painéis públicos com indicadores de sustentabilidade.

A expectativa do governo Ratinho Junior é ampliar a competitividade do agronegócio paranaense, especialmente em mercados externos que exigem comprovação técnica de boas práticas socioambientais.

Capacitação técnica do CAR

Durante o evento também foi anunciado um Programa de Capacitação para Técnicos do Sistema Estadual do Cadastro Ambiental Rural (CAR), em parceria com o CREA-PR. Os cursos serão oferecidos na modalidade EAD e buscam qualificar profissionais responsáveis pela análise e validação do cadastro ambiental.

Em um cenário global cada vez mais atento à sustentabilidade, o Paraná aposta na tecnologia como instrumento de governança e no dado como ativo estratégico. A Plataforma Paraná + Sustentável é, ao mesmo tempo, ferramenta administrativa e sinal político: quem comprova, compete melhor.


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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Governo abre edital para enfrentar o desmatamento com apoio direto às famílias da Amazônia

Com R$ 131,9 milhões do Fundo Amazônia, programa aposta na regularização fundiária e na agricultura familiar como caminho para manter a floresta em pé

Enquanto os satélites registram grandes descampados no mapa da Amazônia, no chão da floresta a realidade tem nome, sobrenome e história. São famílias que plantam, criam filhos, enfrentam incertezas jurídicas e vivem sob a tensão permanente entre produzir e preservar. É nesse território complexo — onde a ausência do Estado muitas vezes abriu espaço para conflitos e devastação — que o governo federal decidiu agir com uma nova etapa do programa União com Municípios.

Começou no último dia 7 o processo de inscrições para selecionar organizações que irão executar ações de controle do desmatamento em 48 municípios prioritários da Amazônia Legal. O edital, lançado no dia 2, integra o programa União com Municípios pela Redução do Desmatamento e Incêndios Florestais na Amazônia (UcM), criado em 2023 para fortalecer o protagonismo dos gestores locais no enfrentamento da crise ambiental.

O projeto contará com R$ 131,9 milhões do 0 e deve beneficiar cerca de 7,3 mil famílias. Mais do que uma ação administrativa, trata-se de uma estratégia que busca atacar uma das raízes históricas do problema: a insegurança fundiária e a falta de assistência técnica adequada.

Floresta em pé, renda no campo

A proposta combina regularização ambiental e fundiária com Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater). Na prática, isso significa identificar agricultores familiares, iniciar processos de regularização de suas áreas e oferecer apoio técnico para adoção de práticas agroecológicas e sistemas agroflorestais.

O foco está nas pequenas propriedades — imóveis de até quatro módulos fiscais — localizadas em assentamentos ou em glebas públicas federais ainda sem destinação. São áreas onde a falta de documentação e de orientação técnica frequentemente alimenta conflitos pelo uso do solo e vulnerabilidade social.

O edital reconhece a diversidade da região amazônica: comunidades tradicionais, povos indígenas, agricultores familiares, assentamentos da reforma agrária, médios e grandes empreendimentos agropecuários e unidades de conservação convivem em um mesmo território, nem sempre de forma harmoniosa. Qualquer política pública eficaz precisa considerar essas especificidades.

As entidades interessadas devem estar credenciadas na e apresentar propostas até 2 de março por meio do Sistema de Gestão de Ater (SGA). Dúvidas podem ser encaminhadas ao e-mail duvidas001.2026@anater.org.

Seis estados, um desafio comum

Nesta primeira etapa, o projeto será dividido em 16 lotes distribuídos entre os 48 municípios que aderiram ao programa até abril de 2024. A expectativa é alcançar agricultores familiares em seis estados: Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima.

Um pacto federativo pela Amazônia

O União com Municípios é o primeiro de três projetos previstos com recursos do Fundo Amazônia para os próximos cinco anos. A meta é ambiciosa: regularizar completamente cerca de 30 mil famílias, com investimento estimado em R$ 600 milhões.

De acordo com a Agência Brasil, fonte da matéria, hoje, 70 municípios em sete estados já participam da iniciativa. Mais de 1.800 equipamentos — entre veículos, embarcações e instrumentos de monitoramento — foram entregues, além de ações de formação técnica e pagamento por serviços ambientais a agricultores familiares. O programa conta com aproximadamente R$ 800 milhões oriundos do Fundo Amazônia e do Projeto Floresta+ Amazônia, parceria entre o Ministério do Meio Ambiente, o PNUD e o Fundo Verde do Clima (GCF).

Mais do que fiscalização

O combate ao desmatamento não se faz apenas com multas e operações de repressão. Ele exige presença do Estado, segurança jurídica, crédito, assistência técnica e diálogo permanente com quem vive da terra. Sem isso, a floresta vira estatística — e a política pública, discurso vazio.

Ao apostar na regularização fundiária e na agricultura familiar como aliadas da preservação, o governo sinaliza uma mudança de lógica: transformar o pequeno produtor em protagonista da proteção ambiental. Manter a floresta em pé não é apenas uma meta climática global — é uma questão de soberania, justiça social e futuro.

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O pequeno exorcismo de Santo Antônio e o obelisco de Assuã e as orações de proteção espiritual

Entre o deserto, o império, Santo Antônio e a cruz: o obelisco de Assuã e as orações de proteção espiritual

Há monumentos que não pertencem a uma única religião, nem a um único tempo. Eles atravessam civilizações como testemunhas silenciosas da busca humana pelo sagrado. O obelisco que hoje se ergue no centro da Praça de São Pedro, no Vaticano, é um desses símbolos.

Talhado há quase dois mil anos em granito vermelho de Assuã, no sul do Egito, ele nasceu longe do cristianismo, sob o sol do deserto africano, carregando em sua matéria a memória de povos que já contemplavam o céu em busca de sentido, ordem e transcendência.

O granito de Assuã: a pedra que atravessa o tempo

Assuã foi, na Antiguidade, a principal fonte do granito utilizado em obeliscos, templos e esculturas monumentais. Esse tipo de pedra era associado à permanência, à força e à eternidade. Para os egípcios, o obelisco simbolizava um eixo entre o céu e a terra — um ponto de encontro entre o mundo humano e o divino.

O obelisco do Vaticano é singular: diferente de muitos outros, ele não possui hieróglifos. Isso reforça seu caráter de ponte histórica — uma pedra que não fala uma língua específica, mas atravessa culturas e crenças.

Do Egito a Roma: a pedra peregrina

No século I d.C., durante o Império Romano, o obelisco foi transportado do Egito para Roma por ordem do imperador Calígula. Ele foi instalado no antigo Circo de Nero, local que, mais tarde, seria associado ao martírio de cristãos, entre eles o apóstolo Pedro.

Assim, antes mesmo de ser cristianizado, o obelisco já estava presente em um espaço marcado por sofrimento, fé e resistência espiritual.

O orbe romano e a mudança de eixo espiritual

No topo do obelisco, durante o período romano, existia um orbe de bronze, símbolo do cosmos, do mundo ordenado, da ideia de domínio universal.

Com a cristianização de Roma, esse orbe foi removido. Seu destino histórico não é plenamente documentado. No lugar, no século XVI, a Igreja ergueu uma cruz, acompanhada de relíquias, como sinal de um novo eixo espiritual: não mais o poder imperial, mas a fé que nasce da vulnerabilidade humana.

Ecce Crux Domini: a proclamação gravada na história

Ao ser erguido no centro da Praça de São Pedro, o obelisco foi consagrado com uma inscrição cristã e associado à antiga proclamação espiritual: Ecce Crux Domini — Eis a Cruz do Senhor.

Essa frase, tradicionalmente usada como oração de proteção, não foi gravada como exorcismo formal, mas como um ato simbólico: a afirmação de que a luz, quando reconhecida, tem força para ordenar o caos.

Ecce Crucem Domini,
fugite partes adversae.
Vicit Leo de tribu Iuda,
radix David. Alleluia.

Tradução espiritual:
Eis a Cruz do Senhor.
Afastai-vos, forças contrárias à vida.
Venceu o Leão da tribo de Judá,
a Raiz de Davi.
Aleluia.

O Pequeno Exorcismo de São Miguel Arcanjo

Inspirada por esse mesmo espírito de proteção interior, a tradição cristã preservou a oração conhecida como Pequeno Exorcismo de São Miguel Arcanjo, composta pelo Papa Leão XIII no século XIX.

Não se trata de um ritual reservado ao medo, mas de uma oração acessível, voltada ao fortalecimento da consciência, à coragem espiritual e à escolha da luz diante das sombras humanas.

São Miguel Arcanjo,
defendei-nos no combate;
sede o nosso refúgio contra as ciladas do mal.
Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos;
e vós, Príncipe da milícia celeste,
pela virtude divina,
afastai de nós toda força espiritual
que nos desvie da vida, da verdade e do amor.
Amém.

Quando a pedra floresce em consciência

O obelisco permanece ali, imóvel, mas nunca mudo. Ele já apontou para deuses solares, para imperadores, e hoje aponta para uma cruz — não como imposição, mas como convite.

Convite para que cada ser humano, independentemente de fé ou tradição, reconheça que a verdadeira proteção espiritual nasce do alinhamento interior, do respeito à vida e da escolha consciente pela luz.

Assim, até a pedra floresce.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Ibama multa Petrobras em R$ 2,5 milhões por vazamento na Foz do Amazonas

Órgão ambiental aponta risco médio ao ecossistema; estatal diz que fluido é biodegradável e sem danos

Órgão ambiental aponta risco médio ao ecossistema; estatal diz que fluido é biodegradável e sem danos

Por trás dos dados e números frios de um auto de infração, muitas vezes existe uma disputa de narrativas — e, no caso da Margem Equatorial brasileira, também há um mar inteiro em jogo.

De acordo com a Agência Brasil, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) multou a Petrobras em R$ 2,5 milhões por um vazamento ocorrido no último 4 de janeiro, durante perfuração marítima na Bacia da Foz do Amazonas. O derramamento aconteceu a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá, em uma das regiões mais sensíveis e debatidas do litoral brasileiro.

Segundo o órgão ambiental, houve a descarga de 18,44 metros cúbicos de Fluido de Perfuração de Base Não Aquosa — uma mistura oleosa utilizada na exploração de petróleo e gás. O material teria sido liberado a partir da instalação denominada Navio Sonda 42 (NS-42), que operava no local.

O que está em disputa

Para o Ibama, o fluido representa “risco médio tanto para a saúde humana quanto para o ecossistema aquático”, classificação baseada na Instrução Normativa nº 14, de 28 de julho de 2025. A avaliação considera potenciais impactos à biodiversidade marinha, especialmente em uma área próxima à foz de um dos maiores sistemas fluviais do planeta.

Já a Petrobras sustenta outra versão. Em nota, a empresa afirmou que o produto é biodegradável, não persistente, não bioacumulável e não tóxico, conforme sua Ficha de Dados de Segurança. Segundo a estatal, o fluido atende aos parâmetros ambientais exigidos e não gera qualquer dano ao meio ambiente.

O contraste entre as duas posições revela o centro da controvérsia: enquanto o órgão fiscalizador adota o princípio da precaução em uma área estratégica e ambientalmente sensível, a petroleira defende a segurança técnica do material utilizado.

Como ocorreu o vazamento

De acordo com a Petrobras, o incidente foi causado pela perda de fluido de perfuração em duas linhas auxiliares que conectam a sonda ao poço exploratório Morpho. O poço está localizado na Bacia da Foz do Amazonas, área considerada estratégica para a expansão da fronteira exploratória brasileira.

Desde o dia 6 de janeiro — dois dias após o vazamento — a perfuração está paralisada.

Na última quarta-feira (4), a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) impôs novas condições para que a Petrobras possa retomar as atividades. Entre as exigências está a substituição de todos os selos das juntas do riser de perfuração — tubo de grande diâmetro que conecta o poço submarino à sonda.

A empresa deverá apresentar, em até cinco dias após a instalação da última junta, evidências da troca dos selos e uma análise técnica comprovando a adequação do procedimento.

Mais que uma multa, um sinal

A multa de R$ 2,5 milhões é, do ponto de vista financeiro, pequena diante do porte da Petrobras. Mas o gesto institucional é significativo. Ele ocorre em meio a um debate nacional sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial brasileira do Oceano Atlântico — região que desperta interesses econômicos e, ao mesmo tempo, preocupa ambientalistas, comunidades costeiras e pesquisadores.

A Foz do Amazonas não é apenas uma coordenada no mapa energético brasileiro. É território de biodiversidade única, corredor migratório de espécies marinhas, fonte de subsistência para pescadores e comunidades tradicionais. Cada decisão ali tomada ecoa muito além das planilhas de produção.

A partir da notificação, a Petrobras tem 20 dias para pagar a multa ou apresentar defesa administrativa. Até lá, o caso seguirá como mais um capítulo da tensão permanente entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental.

No horizonte, permanece a pergunta que atravessa o debate energético do país: qual é o custo real de avançar sobre novas fronteiras do petróleo — e quem vai pagar a conta dos custos ambientais?

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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Da Ilha de Maré ao Capibaribe: soluções brasileiras mostram que o desenvolvimento sustentável nasce do território e das pessoas

Projetos urbanos e comunitários do Brasil ganham reconhecimento internacional ao provar que planejamento participativo, justiça social e respeito à natureza podem caminhar juntos

Capela de Nsa Sra das Neves - Nilton Sousa/Prefeitura de Salvador

Por onde o Brasil insiste em ser esquecido, brotam soluções. Na Ilha de Maré, um bairro-ilha de Salvador cravado na Baía de Todos-os-Santos, o futuro começou a ser desenhado a partir da escuta. Ali, onde vivem cerca de 4 mil pessoas distribuídas em 12 comunidades — seis delas reconhecidas como quilombolas —, um projeto de desenvolvimento sustentável mostrou que planejamento urbano não se faz apenas com pranchetas de desenho e mapas, mas também com histórias, vínculos e pertencimento.

Liderado pela Prefeitura de Salvador, o Planos de Bairro reuniu líderes comunitários, poder público, universidades e organizações locais em um processo coletivo de diagnóstico e construção de propostas. O objetivo era claro: enfrentar desigualdades históricas, fortalecer o território e pensar soluções que respeitassem a vida como ela é vivida ali, entre o mar, o mangue e a memória ancestral.

Segundo a Agência Brasil quem traduz isso em palavras simples é a pescadora quilombola Marizélia Lopes, moradora da Ilha de Maré. Para ela, não existe separação entre natureza e sobrevivência.

“A gente não enxerga a natureza só como um espaço de exploração. A gente tem uma relação. Não consegue desassociar o que é natureza da gente, da vida da gente. Então a gente é a natureza”, afirma.

Essa visão — que desafia modelos predatórios e tecnocráticos de desenvolvimento — é justamente o que colocou a experiência baiana no radar internacional.

Da Bahia para todo o Sul Global

O projeto da Ilha de Maré integra uma seleção de 16 iniciativas brasileiras escolhidas em uma parceria entre o governo brasileiro e o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat). A proposta é que essas experiências sirvam de inspiração para outros países do chamado Sul Global, que compartilham desafios semelhantes: desigualdade, urbanização acelerada, crise climática e exclusão social.

A seleção faz parte do Programa Simetria Urbana, lançado em 2023, no qual o Brasil é representado pela Agência Brasileira de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores (ABC/MRE). A chamada pública reuniu projetos de governos locais, instituições públicas, organizações da sociedade civil e comunidades, todos alinhados ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 11, da ONU — que trata de cidades e comunidades sustentáveis.

Natureza como aliada, não como obstáculo

Entre os projetos selecionados está também uma iniciativa do Recife que mostra como a natureza pode ser solução — e não problema — para os centros urbanos. No Parque do Caiara, na zona norte da capital pernambucana, foram implantados Jardins Filtrantes na foz do Riacho do Cavouco.

Executado pela Agência Recife para Inovação e Estratégia (Aries), o projeto ocupa uma área de cerca de 7 mil metros quadrados e utiliza 7,5 mil plantas aquáticas nativas para formar um sistema natural de filtragem da água antes que ela chegue ao Rio Capibaribe.

Além do impacto ambiental positivo, a intervenção devolveu o espaço à população. Para a moradora Gabriela Machado, o parque ganhou novo significado.

“O Jardim do Caiara, inaugurado e renovado, é um espaço que posso curtir do lado da minha casa. Um lugar da minha região, que traz valor para minha região”, relata.

Cidades sustentáveis também se constroem com igualdade

Outro eixo central das iniciativas selecionadas é a igualdade de gênero. Em Salvador, o programa Marias na Construção mostra como políticas públicas podem romper ciclos de violência e exclusão por meio da qualificação profissional e da geração de renda.

Voltado a mulheres em situação de violência doméstica, familiar ou outras vulnerabilidades sociais, o programa já formou mais de 600 mulheres em dois anos, oferecendo cursos na área da construção civil.

Uma dessas mulheres é Janaína dos Santos, que vê na formação uma porta aberta para o futuro.

“Já terminei um curso agora e vou começar outros dois. Aprendi muita coisa. Quero crescer na área. Futuramente, quero fazer um curso técnico, se Deus permitir, fazer uma faculdade e ser uma grande mulher na construção”, planeja ela com os pés firmes no chão.

Boas práticas que atravessam fronteiras

Para a arquiteta urbanista Laura Lacastagneratte de Figueiredo, analista de programas do ONU-Habitat, a publicação Simetria Urbana tem um papel estratégico: transformar experiências bem-sucedidas em ferramentas concretas de cooperação internacional.

“Ao sistematizar soluções que já apresentaram resultados, amplia o potencial dessas experiências como referências para a cooperação e como modelos adaptáveis e inspiradores de políticas públicas, capazes de dialogar com realidades semelhantes”, explica ela.

Para Laura, a meta é estimular intercâmbios, projetos conjuntos e o fortalecimento de capacidades locais, acelerando a implementação de ações efetivas de desenvolvimento urbano sustentável em diferentes contextos.

Um Brasil que aponta caminhos

Além da Ilha de Maré, do Recife e de Salvador, o conjunto de soluções mapeadas inclui iniciativas como a formação de jovens cearenses para projetos socioambientais; centros comunitários em territórios vulneráveis no Recife; design de interiores para habitação social em Niterói (RJ); e até o desenvolvimento de ônibus híbrido elétrico-hidrogênio, em Maricá (RJ).

Em comum, todas essas experiências revelam um Brasil que pensa a cidade a partir das pessoas, do cuidado com o território e da justiça social. Um Brasil que, longe dos holofotes, constrói respostas reais para problemas globais — e mostra que o futuro sustentável não se importa em começar pequeno, desde que comece junto, justo no tempo.

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