quarta-feira, 6 de maio de 2026

A Ponte de Guaratuba finalmente é real — obra esperada por gerações vira concreto, aço e travessia em dois minutos

Mesmo com divergências políticas, inauguração da Ponte da Vitória — ligando Matinhos e Guaratuba — marca um novo capítulo para o Litoral do Paraná

A Ponte de Guaratuba finalmente é real — obra esperada por gerações vira concreto, aço e travessia em dois minutos. Mesmo com divergências políticas, inauguração da Ponte da Vitória — ligando Matinhos e Guaratuba — marca um novo capítulo para o Litoral do Paraná.
Foto: Geraldo Bubniak/AEN

Há uma honestidade necessária — e cada vez mais rara — em reconhecer conquistas, mesmo quando elas não vêm do campo político com o qual se caminha lado a lado. O Sulpost é, sim, um espaço de pensamento progressista, crítico, muitas vezes em oposição ao governo estadual. Mas há momentos em que o fato fala mais alto que a disputa.

E esse é um deles.

Na última sexta-feira, 1º de maio, a entrega da ponte que liga Guaratuba a Matinhos não foi apenas uma inauguração. Foi o encerramento de um ciclo de promessas — algumas com mais de meio século — e o início de uma nova lógica para o Litoral paranaense.

“Hoje é um dia daqueles que marcam a vida de gerações. É o dia onde a perseverança venceu aquilo que era considerado impossível”

A frase pode soar protocolar. Mas, nesse caso, encontra eco na realidade.

Durante décadas, a travessia dependia de ferry boat. Filas longas, espera imprevisível, impacto direto na vida de moradores, trabalhadores e no fluxo turístico. Agora, com 1.240 metros de extensão, quatro faixas de tráfego, ciclovia e passagem para pedestres, o deslocamento cai para cerca de dois minutos.

Dois minutos.

É o tipo de mudança que não aparece apenas em planilhas — ela altera rotinas, reorganiza territórios, redesenha expectativas. Se com a ferry a travessia dependia da sorte, com a ponte a sorte chegou.

Entre o atraso histórico e a pressa do presente

A obra, que custou mais de R$ 400 milhões, foi entregue antes do prazo previsto. Segundo o governo, foram 1 ano, 11 meses e 29 dias de execução, com cerca de mil trabalhadores atuando em regime contínuo.

Mas o tempo da construção não conta toda a história.

Antes disso, houve décadas de entraves: disputas ambientais, impasses técnicos, interesses econômicos conflitantes, burocracias acumuladas. A ponte virou, ao longo dos anos, um símbolo clássico daquilo que o Brasil promete — e não entrega.

Até agora.

Entre as presenças na inauguração, também chamou atenção a participação do ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado, conselheiro Fabio Camargo, que acompanhou etapas importantes do projeto.

“A Ponte de Guaratuba representa um marco importante para o litoral do Paraná. Uma obra aguardada há décadas, que vai trazer mais mobilidade, segurança e desenvolvimento para a região, impactando diretamente a vida de quem vive, trabalha e circula por ali. Tive a oportunidade de estar presente em um momento importante desse projeto: a assinatura do termo para sua construção. Hoje, ver esse avanço se concretizando reforça a importância de iniciativas que pensam no longo prazo e no impacto real para a sociedade.”

A fala reforça um ponto que atravessa governos e gestões: obras estruturantes raramente são fruto de um único momento político — elas são construídas ao longo do tempo, com decisões que se acumulam.

O impacto que já começou

Mesmo antes da inauguração, os efeitos começaram a aparecer.

Segundo o governo, mais de 40 edifícios estão em construção em Guaratuba, além de novos empreendimentos em Matinhos. O discurso oficial aponta para um ciclo de crescimento: mais turismo, mais comércio, mais serviços.

É aqui que entra o olhar crítico — necessário.

Crescimento não é sinônimo automático de desenvolvimento equilibrado. A pressão imobiliária, a transformação urbana acelerada e os impactos ambientais no Litoral exigem vigilância constante. A ponte resolve um problema histórico de mobilidade, mas também abre portas para desafios que precisam ser acompanhados de perto.

Ainda assim, negar o salto estrutural seria desonesto.

Menos muros, mais pontes — no concreto e na política

Talvez o símbolo mais forte dessa inauguração não esteja apenas no que ela conecta geograficamente, mas no que ela sugere em tempos de polarização.

Reconhecer uma obra pública relevante não significa abrir mão de crítica. Significa maturidade política.

A Ponte de Guaratuba é, acima de tudo, uma vitória da população do Paraná. Dos trabalhadores que dependem do deslocamento, dos moradores que enfrentavam filas, dos pequenos empreendedores que vivem do fluxo turístico.

E, nesse caso, sim — é justo reconhecer o papel do governo estadual na entrega. E, sim, a ponte dá sorte. Quando passar nela a primeira vez, faça um pedido.

Porque, no fim, o mundo precisa de menos muros.
E, às vezes, de mais pontes — literalmente. E, se sorte, cada um faz a sua, as pontes ligam essas pessoas.

Apoie o Sulpost via PIX: (41) 99281-4340 • WhatsApp

terça-feira, 5 de maio de 2026

Brasil atualiza lista de espécies aquáticas ameaçadas — 490 estão em risco

Portaria publicada em abril revisa diagnóstico da fauna e reforça medidas de proteção em todo o país

Brasil atualiza lista de espécies aquáticas ameaçadas — 490 estão em risco. Portaria publicada em abril revisa diagnóstico da fauna e reforça medidas de proteção em todo o país.

O silêncio dos rios brasileiros anda mais pesado. Não é um silêncio que se impõe — ele escorre junto com a água, discreto, quase imperceptível. Mas está ali. E agora ganhou número, forma e urgência.

A fotografia mais recente da biodiversidade aquática brasileira foi oficializada pela Portaria GM/MMA nº 1.667, de 27 de abril de 2026. É ela que atualiza a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção para peixes e invertebrados aquáticos.

O dado central é direto: 490 espécies estão atualmente classificadas como ameaçadas de extinção no Brasil nesse recorte.

O que veio à tona nos primeiros dias de maio não é exatamente uma surpresa — mas é um retrato mais preciso, mais técnico e, também, mais difícil de ignorar.

Um diagnóstico mais rigoroso

A nova lista substitui a versão anterior (de 2014, revisada em 2022) e consolida um ciclo longo de avaliação científica conduzido pelo ICMBio entre 2022 e 2024, com validação em 2025.

Não se trata de revisão burocrática. É uma reanálise profunda, baseada em dados atualizados, envolvendo pesquisadores, instituições e órgãos ambientais.

O resultado revela um movimento duplo:

  • Cerca de 100 espécies incluídas ou reclassificadas

  • Aproximadamente 100 espécies retiradas da lista

Esse segundo ponto importa — indica que esforços de conservação, quando mantidos, podem reverter cenários críticos. Espécies como o acari-vampiro e o cascudo-onça, da Amazônia, apresentaram melhora no estado de conservação segundo estudos recentes.

Ainda assim, o conjunto geral segue sob pressão.

Onde está o risco

As espécies listadas se distribuem em três níveis:

  • Vulnerável (VU)
  • Em Perigo (EN)
  • Criticamente em Perigo (CR)

A classificação segue critérios internacionais e considera fatores concretos: queda populacional, perda de habitat, poluição, pressão da pesca e fragmentação dos ecossistemas.

Em termos práticos, isso reflete o impacto acumulado da atividade humana sobre rios, mares e áreas costeiras.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o Brasil, que abriga a maior biodiversidade do planeta, soma hoje mais de 1,2 mil espécies ameaçadas no total. As 490 aquáticas são parte sensível desse cenário.

O que muda na prática

A atualização da lista vem acompanhada da Portaria nº 1.666, que estabelece regras claras.

De forma geral, passa a ser proibido:

  • Capturar
  • Transportar
  • Armazenar
  • Comercializar

espécies classificadas como ameaçadas.

Há exceções — como pesquisa científica e situações com Planos de Recuperação ativos —, mas a lógica é reduzir a pressão sobre populações já fragilizadas. Para espécies incluídas agora, foi estabelecido um prazo de 180 dias para adaptação dos setores produtivos.

Entre conservação e uso

O governo mantém a diretriz de uso sustentável em casos específicos. Isso significa que determinadas espécies podem ser exploradas de forma controlada, desde que vinculadas a planos de recuperação e sob monitoramento.

Hoje, o país já executa 11 Planos de Ação Nacional (PANs) voltados à conservação de peixes ameaçados. Funciona quando há continuidade, fiscalização e base científica. Falha quando vira apenas protocolo.

Mais do que uma lista

A lista atualizada não é só um inventário técnico. Ela orienta políticas públicas, direciona recursos, embasa fiscalização e combate ao comércio ilegal de fauna.

Mas cumpre, também, um papel mais direto. Ela expõe. Expõe o estado real dos ecossistemas aquáticos brasileiros. Mostra que o problema não está distante — está nos rios urbanos, nas bacias pressionadas, nos mares explorados além do limite.

Quatrocentas e noventa espécies em risco não é apenas um número fechado.

É um sinal aberto. E cada vez mais difícil de ignorar, e fechar. Quando apenas uma espécie falta, todo um ecossistema pode ser afetado.

Apoie o Sulpost via PIX: (41) 99281-4340 • WhatsApp

Nelsão da Força denuncia violência policial e ação antissindical em audiência do MPT em Brasília (vídeo)

Em Brasília, dirigente relata agressões, acusa omissão do Estado e cobra garantia de acesso dos sindicatos aos trabalhadores

Dra. Larissa, Nelsão e Dr. Alberto, no MPT, em Brasília - Divulgação/SMC

O plenário já estava cheio quando ele finalmente pegou a palavra. Horas de espera, uma viagem atravessando a madrugada — e um discurso que não veio para cumprir protocolo. Veio para marcar posição.

Na segunda-feira (4), em Brasília, o dirigente sindical Nelsão da Força participou da audiência pública da Coordenadoria Nacional de Promoção da Liberdade Sindical (Conalis), dentro da campanha Maio Lilás, representando o Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC).

O encontro foi conduzido pelo Procurador Regional do Trabalho e coordenador nacional da Conalis, Alberto Emiliano de Oliveira Neto, a Procuradora do Trabalho e vice-coordenadora nacional da Conalis, Larissa Menine Alfaro. Também compôs a mesa o Procurador do Trabalho Igor Sousa Goncalves, coordenador nacional de Combate à Discriminação no Trabalho.

Ao tomar a palavra, Nelsão foi direto:

Eu estou vindo aqui hoje para fazer três denúncias seríssimas.”

Da madrugada de Curitiba ao microfone em Brasília

A presença do dirigente não foi simbólica. Ele saiu de Curitiba por volta das 4h da manhã, chegou à capital federal às 7h e aguardou até o período da tarde para conseguir se pronunciar.

Com 47 anos de trabalho na indústria, trajetória iniciada como faxineiro, na Volvo, e consolidada na liderança sindical, Nelsão levou ao debate mais do que um relato — levou uma vivência acumulada no chão de fábrica.

“Eu fui espancado”

O ponto central da fala foi o episódio ocorrido em fevereiro, em frente à fábrica da Brose, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.

Eu fui espancado, gente.”

Segundo o dirigente, a ação da Polícia Militar do Paraná envolveu agressões físicas, imobilização, permanência em camburão e condução entre delegacias. Ele relatou ainda a apreensão de seu celular de trabalho, que teria ficado retido por mais de dois meses.

O caso, que já havia repercutido no Paraná e, durante o mês de fevereiro ganhou ampla repercussão nacional, até ser formalmente levado ao Ministério Público do Trabalho. Nelsão denunciou também o cerceamento ao direito de greve e do trabalho sindical.

Barreiras à organização sindical

Ao ampliar a denúncia, Nelsão apontou para o que descreveu como um ambiente sistemático de restrição à atividade sindical dentro das empresas.

Como é que eu vou falar com o trabalhador?

Ele citou o bloqueio de acesso a fábricas, o controle sobre entradas e saídas e a impossibilidade de contato com trabalhadores até mesmo em ônibus fretados.

Na avaliação do dirigente, essas práticas comprometem diretamente a negociação coletiva e a própria existência da representação sindical.

Democracia também se disputa na porta da fábrica

O discurso dialogou diretamente com o tema central da audiência: o papel dos sindicatos na defesa da democracia e no enfrentamento ao assédio eleitoral.

Organizada pela Conalis, a campanha Maio Lilás reforça a importância da liberdade sindical como condição essencial para garantir direitos e proteger trabalhadores de práticas abusivas, inclusive no campo político.

Durante o encontro, foi destacado que cabe aos sindicatos não apenas denunciar, mas também atuar na conscientização, formação e acolhimento dos trabalhadores, enquanto o MPT tem o papel de investigar, responsabilizar infratores e buscar reparação coletiva.

Cobrança institucional

Diante da mesa composta por representantes do MPT, Nelsão fez um apelo direto por atuação mais firme na garantia da liberdade sindical.

Que democracia é essa?

Ele defendeu medidas concretas, como a garantia de tempo mínimo para realização de assembleias nas entradas e saídas de turno, permitindo que trabalhadores tenham acesso à informação e possam decidir de forma livre e consciente.

Entre denúncia e proposta

Mesmo que em tom crítico, o vice-presidente do SMC reconheceu a importância da iniciativa do MPT e da campanha Maio Lilás, destacando o papel educativo das ações promovidas.

Mas deixou um recado claro: sem condições reais de atuação, o discurso democrático não se sustenta no cotidiano das relações de trabalho. As ações sindicais em porta de fábrica, têm sido reprimidas e até mesmo criminalizadas pelo governo Ratinho Junior.

O que está em jogo

A fala de Nelsão da mais força a um episódio local que se tornou pauta nacional. Mais do que uma denúncia individual, ela coloca em evidência os limites entre ordem pública e repressão, entre mediação institucional e silenciamento.

Ao final, a questão que paira sobre o debate é simples — e incômoda: até onde a democracia brasileira chega, de fato, quando encontra o portão de uma fábrica fechado e organizações poderosas por detrás?


Tarifa zero pode virar “novo Bolsa Família” e injetar bilhões na economia, diz estudo

Pesquisa da UnB aponta que gratuidade no transporte nas capitais liberaria renda, reduziria desigualdades e movimentaria até R$ 60 bilhões por ano

 
Pesquisa da UnB aponta que gratuidade no transporte nas capitais liberaria renda, reduziria desigualdades e movimentaria até R$ 60 bilhões por ano. Tarifa zero pode virar “novo Bolsa Família” e injetar bilhões na economia, diz estudo

O dinheiro some rápido quando o mês mal começou — passagem, ida e volta, mais uma integração, mais um aperto. Agora imagine esse gasto simplesmente deixando de existir. É esse cenário que um novo estudo da Universidade de Brasília (UnB) coloca na mesa: a tarifa zero no transporte público poderia funcionar como um “salário indireto”, uma espécie de renda básica para milhões de brasileiros.

Divulgada nesta terça-feira (5), a pesquisa estima que tornar gratuito o transporte nas 27 capitais do país poderia injetar até R$ 60,3 bilhões por ano na economia. Descontando gratuidades já existentes — como idosos, estudantes e pessoas com deficiência — o impacto real ficaria em cerca de R$ 45,6 bilhões circulando diretamente no bolso da população.

Não é pouca coisa. Para os pesquisadores, esse efeito se aproxima do que programas sociais como o Bolsa Família representaram nas últimas décadas: dinheiro que sai da obrigação e volta para o consumo, girando a economia quase imediatamente.

Dinheiro que volta a circular

Na prática, o raciocínio é simples. O que hoje é gasto obrigatório com passagem vira renda disponível. E renda disponível, especialmente entre famílias de baixa renda, tende a voltar rápido para o mercado — no supermercado, no comércio do bairro, no pagamento de contas.

“Estamos falando de uma injeção de liquidez imediata”, resumiu o professor Thiago Trindade, coordenador do estudo, à EBC. Segundo ele, esse ciclo gera mais consumo e, consequentemente, mais arrecadação de impostos.

Impacto social direto

O estudo também chama atenção para um ponto estrutural: quem mais depende do transporte público são justamente as camadas mais vulneráveis da população — moradores de periferia, trabalhadores informais e, em grande parte, a população negra.

Ao eliminar a tarifa, o acesso à cidade muda de patamar. Ir mais longe para trabalhar, estudar ou acessar serviços deixa de ser uma decisão financeira e passa a ser um direito efetivo.

Os pesquisadores defendem que a medida poderia ser tratada como política pública essencial, nos moldes do SUS ou da educação pública.

Luxemburgo como referência

Embora pareça ousada, a ideia não é inédita. Luxemburgo, pequeno país europeu, adotou a gratuidade total no transporte público em 2020. A medida buscava reduzir desigualdades, aliviar o trânsito e incentivar o uso coletivo.

No Brasil, a escala é outra — e os desafios também. Ainda assim, o estudo argumenta que o país poderia assumir protagonismo global em políticas de mobilidade e distribuição de renda.

Como pagar essa conta?

Uma das principais dúvidas é o financiamento. Os pesquisadores propõem substituir o modelo atual do vale-transporte por um fundo financiado por empresas com mais de 10 funcionários.

A lógica muda: em vez de pagar diretamente ao trabalhador, as empresas contribuiriam para um sistema coletivo. A estimativa é de uma contribuição média de cerca de R$ 255 por funcionário, gerando aproximadamente R$ 80 bilhões por ano — o suficiente para custear a gratuidade em cidades com mais de 50 mil habitantes.

Segundo o estudo, 81,5% das empresas ficariam isentas, o que reduz o impacto sobre pequenos negócios.

Mais que transporte

Os efeitos não param na economia. A pesquisa aponta que a tarifa zero pode reduzir acidentes de trânsito ao incentivar a migração do transporte individual para o coletivo. Hoje, motocicletas já representam quase 40% das mortes no trânsito no Brasil.

Menos acidentes significam menos gastos hospitalares, mais qualidade de vida e maior produtividade ao longo do tempo.

“Sai caro para o país não fazer política social”, resume Trindade.

Debate que volta às ruas

Atualmente, 137 cidades brasileiras já adotam algum modelo de transporte gratuito. A proposta nacional, no entanto, exigiria mais do que cálculos: dependeria de mobilização social, boa vontade e decisão política.

A ideia dos pesquisadores é começar por projetos-piloto em regiões metropolitanas ainda em 2026. Testar, ajustar, medir impacto — e então escalar.

No fim, a pergunta que fica não é apenas econômica. É também política: o transporte público deve ser tratado como serviço pago… ou como direito garantido?

Apoie o Sulpost via PIX: (41) 99281-4340 • WhatsApp

Conta de luz mais cara reacende debate sobre privatização da Copel no Paraná

Com aumento projetado de quase 20% em 2026, discurso de Requião Filho ganha força e energia vira um dos temas centrais da disputa pelo governo do estado

Conta de luz mais cara gera debate sobre privatização da Copel no Paraná. Com aumento projetado de quase 20% em 2026, Requião Filho quer reestatização

O susto vem na fatura. Às vezes discreto, em poucos reais a mais. Outras, pesado — daqueles que fazem parar na cozinha, boleto na mão, tentando entender o que mudou. No Paraná, a conta de luz voltou ao centro da conversa. E, junto com ela, uma discussão que parecia encerrada: a privatização da Copel.

Quem tem puxado esse fio com insistência é o deputado estadual Requião Filho (PDT). Desde a venda do controle da companhia, em 2023, ele repete um alerta que agora encontra eco nos números mais recentes: a energia ficou — e pode ficar ainda mais — cara para os paranaenses.

“E a conta do paranaense sobe dia após dia. E a qualidade do serviço cai dia após dia”, afirma o deputado, em tom direto, sem rodeios. A crítica vai além do valor cobrado: atinge o modelo.

O peso dos números

Depois da privatização, a tarifa não disparou imediatamente. Em 2025, por exemplo, o reajuste médio ficou em torno de 2% — dentro do padrão esperado para o setor elétrico. O aumento também foi mitigado pela distribuição de bônus de Itaipu, que desonerou a fatura. Mas o cenário mudou.

Para 2026, está na mesa uma revisão tarifária com impacto próximo de 19% para consumidores residenciais. Em alguns segmentos industriais, os aumentos podem ser ainda mais expressivos, de até 50%.

É esse salto que reposiciona o debate.

Na prática, revisões tarifárias acontecem de tempos em tempos e costumam ser mais intensas do que os reajustes anuais. Ainda assim, o momento e a magnitude do aumento alimentam a narrativa de que algo mudou na lógica da empresa.

“Sempre no teto”

Um dos pontos mais repetidos por Requião Filho é a forma como os reajustes são aplicados.

“Geralmente, a Aneel autoriza aumentos de 0% a X%. E as empresas escolhem até quanto elas querem aumentar. Historicamente, a Copel, desde a sua privatização, escolhe sempre o valor máximo.”

A crítica toca num ponto técnico sensível. A agência reguladora estabelece parâmetros e limites; dentro deles, há margem de aplicação. O que está em disputa é a interpretação desse espaço. Como companhia majoritariamente pública, a Copel não tinha como foco principal gerar lucro para seus acionistas.

Para o deputado, a empresa passou a operar no limite superior — reflexo de uma mudança de prioridade. Para o setor elétrico, os reajustes seguem uma lógica de recomposição de custos que vai além da gestão da distribuidora. Afinal, graças ao governo Ratinho Junior, agora temos uma Corporation gerenciando os relógios de luz.

No meio disso, estamos nós, os consumidores.

Energia cara, efeito em cadeia

Quando a luz sobe, não é só a lâmpada que pesa. A energia elétrica atravessa toda a economia:

  • encarece a produção industrial
  • pressiona o agronegócio
  • impacta o preço final no mercado (inflação)

A energia elétrica “...leva o custo de vida no Paraná a ser um dos mais caros do Brasil”, diz Requião Filho.

A afirmação pode ser discutida em termos absolutos, mas aponta para um efeito real: aumentos concentrados, como o previsto para 2026, tendem a reverberar rapidamente no bolso — direta e indiretamente.

De estatal a corporação

No fundo, o embate é mais amplo do que a tarifa.

“A Copel hoje trabalha para dar lucro, para botar dinheiro no bolso dos acionistas. Não para ajudar a economia paranaense”, afirma o deputado.

É uma crítica clássica, e verdadeira, à privatização: a troca de um instrumento de política pública por uma estrutura orientada ao mercado, ao lucro.

Antes, a empresa carregava também um papel de desenvolvimento regional. Agora, opera sob metas financeiras, eficiência e maximização do retorno. Para uns, isso significa modernização. Para outros, perda de controle sobre um ativo estratégico.

A eleição passa pela conta de luz

Pré-candidato ao governo do Paraná, Requião Filho transforma o tema em bandeira — e em promessa.

É possível devolver a Copel aos paranaenses.”

A frase não é apenas retórica. Ela aponta para uma proposta concreta de reversão da venda, ainda que complexa do ponto de vista jurídico e econômico.

Com isso, a energia elétrica ganha um calor a mais que o de serviço essencial, vira símbolo de um projeto de estado.

No fim do mês, a conta chega

Entre argumentos técnicos e discursos políticos, há um ponto de convergência: a percepção do consumidor. Ela não passa por planilhas regulatórias, nem por modelos de concessão. Passa pelo valor no boleto.

E é ali, no número final da fatura, que o debate sobre a Copel — estatal ou privada — ganha sua forma mais concreta. O quanto a energia elétrica já pesa e ainda vai pesar mais, no bolso de todos os paranaenses.

Apoie o Sulpost via PIX: (41) 99281-4340 • WhatsApp

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Tiros perto da Casa Branca ferem homem armado e adolescente em Washington

Segundo o New York Times, confronto com agentes do Serviço Secreto aconteceu em área turística e movimentada da capital dos EUA

Policial faz a segurança no local do tiroteio, nas proximidades do Monumento a Georfe Washington, nesta segunda-feira 4 de maio - Foto: Jonathan Ernst/Reuters (reprodução)

A tarde parecia como qualquer outra em Washington, daquelas de primavera com céu limpo e turistas espalhados pelos cartões-postais da cidade. Mas bastaram alguns segundos para tudo mudar. O som dos tiros cortou o ar perto da Casa Branca — e o que era passeio virou cena de tensão.

Segundo reportagem do New York Times, agentes do Serviço Secreto dos Estados Unidos balearam um homem armado nesta segunda-feira (4), numa área bem próxima ao complexo presidencial e ao Monumento a Washington, um dos pontos mais visitados da cidade.

O caso aconteceu por volta das 15h30, numa região de grande circulação. De acordo com autoridades, os agentes se aproximaram de um homem que parecia estar armado. Ele teria fugido e, em seguida, atirado contra os agentes. Houve revide imediato.

O suspeito foi atingido várias vezes, socorrido e levado a um hospital. Até o momento, não há informações atualizadas sobre o estado de saúde dele.

No meio da confusão, um adolescente de 15 anos também acabou baleado. A informação inicial indicava que o disparo teria partido do próprio atirador, mas autoridades recuaram e disseram que ainda não dá para afirmar com certeza. O jovem foi atendido e não corre risco de vida.

Comboio oficial havia passado minutos antes

Pouco antes do tiroteio, um comboio com o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, tinha passado pelo local — uma rota bastante usada por autoridades e também por quem visita a região.

Mesmo assim, o governo afirmou que não há indícios de que o caso tenha ligação com a Casa Branca ou com alguma autoridade específica.

O presidente Donald Trump estava na Casa Branca no momento do incidente, participando de um evento. Jornalistas que estavam do lado de fora foram orientados a entrar rapidamente por segurança.

Cidade em alerta e ruas bloqueadas

Depois dos disparos, de acordo com a mesma reportagem, a região foi tomada por agentes federais, policiais e membros da Guarda Nacional. Ruas inteiras foram bloqueadas, o trânsito travou e muita gente ficou sem entender o que estava acontecendo.

Turistas, que minutos antes tiravam fotos dos monumentos de Washington, passaram a ver viaturas, fitas de isolamento e uma movimentação forte das forças segurança — uma mudança brusca de cenário num dos pontos mais simbólicos dos Estados Unidos.

Sequência recente acende alerta

O episódio acontece pouco mais de uma semana depois de outro caso envolvendo segurança presidencial, quando um homem armado invadiu um ponto de controle durante um evento ligado à Casa Branca e feriu um agente.

A repetição de situações assim, em tão pouco tempo, aumenta a preocupação e mantém o clima de alerta na capital americana, onde a presença da Guarda Nacional ainda é significativa.

A investigação segue em andamento. As autoridades tentam entender o que motivou o atirador e esclarecer, principalmente, de onde partiu o tiro que atingiu o adolescente.

No fim do dia, as ruas começaram a ser liberadas. Mas, pela repercussão do caso nas redes, aquele silêncio estranho, depois do susto, parece que permanece no ar — como se a capital dos Estados Unidos ainda estivesse processando o que aconteceu.

Apoie o Sulpost via PIX: (41) 99281-4340 • WhatsApp

Embraer avança no Golfo e fecha maior venda internacional do C-390 Millennium para os Emirados

Contrato com conselho de defesa dos EAU prevê até 20 aeronaves e projeta o cargueiro brasileiro como peça estratégica em operações militares e humanitárias no Oriente Médio

Embraer avança no Golfo e fecha maior venda internacional do C-390 Millennium para os Emirados Árabes. Contrato com conselho de defesa dos EAU prevê até 20 aeronaves e projeta o cargueiro brasileiro como peça estratégica em operações militares e humanitárias no Oriente Médio.

O anúncio veio com o peso de um movimento estratégico — e também simbólico. Em meio ao calor seco do Golfo, onde decisões militares costumam ser calculadas com precisão cirúrgica, o Brasil cravou um espaço relevante no tabuleiro da defesa internacional.

A Embraer assinou um contrato com o Tawazun Council for Defence Enablement para a venda de dez aeronaves C-390 Millennium, com outras dez unidades como opção futura. Não é apenas um negócio — é o maior pedido já feito por um único país para esse modelo.

Nos bastidores, veículos de imprensa dos Emirados destacam o acordo como parte de um esforço mais amplo de modernização das Forças Armadas do país. A escolha do cargueiro brasileiro, segundo análises locais, reflete uma busca por versatilidade operacional e redução de custos no longo prazo — duas variáveis críticas para forças que atuam em ambientes extremos e, muitas vezes, imprevisíveis.

O processo até a assinatura não foi curto. Houve testes extensivos em condições reais de operação nos Emirados, com temperaturas elevadas, pistas desafiadoras e exigências logísticas rigorosas. O resultado foi a seleção do C-390 como a plataforma mais adequada para atender a esse conjunto de demandas.

E não se trata apenas de transporte militar convencional.

O C-390 foi projetado para operar em múltiplos cenários: levar tropas, lançar cargas, executar missões humanitárias, realizar evacuações aeromédicas e pousar em pistas não preparadas. Em um cenário geopolítico onde a rapidez de resposta pode definir desfechos, essa flexibilidade pesa — e muito.

Outro ponto que chama atenção no acordo é o componente industrial. Parte dos serviços de manutenção, reparo e revisão (MRO), além do suporte logístico, será realizada em parceria com uma empresa local dos Emirados. Isso reforça uma tendência global: contratos de defesa hoje não envolvem apenas compra, mas transferência de capacidade e fortalecimento de ecossistemas nacionais.

Para a Embraer, o movimento marca sua entrada definitiva no mercado do Oriente Médio com o C-390 — uma vitrine exigente e altamente competitiva. Para os Emirados, é mais um passo na construção de uma força aérea adaptada aos desafios contemporâneos.

No fim, o contrato vai além da venda de aeronaves. Ele conecta duas estratégias: a de um país que quer ampliar sua presença global na indústria de defesa — e a de outro que busca autonomia, eficiência e prontidão em um dos cenários mais sensíveis do planeta.

Apoie o Sulpost via PIX: (41) 99281-4340 • WhatsApp

Chuvas extremas desalojam milhares no Nordeste e deixam rastro de perdas humanas

Pernambuco e Paraíba enfrentam cenário crítico com mortes, desabrigados e cidades em emergência; no Sul, instabilidade persiste, mas sem volumes extremos

Chuvas extremas desalojam milhares no Nordeste e deixam rastro de perdas humanas. Pernambuco e Paraíba enfrentam cenário crítico com mortes, desabrigados e cidades em emergência; no Sul, instabilidade persiste, mas sem volumes extremos.

O céu escureceu antes da hora em boa parte do Nordeste — e, desde então, parece não ter dado trégua. A água que cai sem pausa há dias redesenhou ruas, invadiu casas e obrigou milhares de pessoas a sair às pressas, levando o que deu. No resto do país, a chuva também marca presença neste início de semana, mas com outra intensidade, outro peso.

Desde a última quinta-feira (30), o estado de Pernambuco vive um dos episódios mais críticos do ano. Segundo a Defesa Civil estadual, já são cerca de 9,4 mil pessoas fora de casa — 7,7 mil desalojadas e 1,6 mil desabrigadas. Números que carregam histórias interrompidas, rotinas quebradas e uma urgência que não cabe em estatística.

Ao todo, 27 municípios foram atingidos. Entre os mais impactados estão Recife, Olinda, Jaboatão dos Guararapes, além de cidades da Zona da Mata como Goiana e Timbaúba. Em muitos desses locais, o cenário é de ruas tomadas por lama, casas comprometidas e comunidades inteiras tentando se reorganizar.

As chuvas também deixaram vítimas fatais. Seis pessoas morreram — entre elas, três crianças. Parte das mortes ocorreu em deslizamentos de terra na Região Metropolitana do Recife; outra, em uma enxurrada no município de São Lourenço da Mata. São perdas que expõem, mais uma vez, a vulnerabilidade das áreas de risco.

Diante da gravidade, a governadora Raquel Lyra decretou situação de emergência no sábado (2), medida que acelera o acesso a recursos e permite ampliar a resposta do poder público. Mais de 800 ações de resgate já foram realizadas, com 29 abrigos montados para acolher quem não tem para onde voltar.

Equipes da Defesa Civil Nacional reforçam os trabalhos no estado. O ministro Waldez Góes afirmou que o governo federal atuará para garantir assistência e apoio às famílias atingidas.

Paraíba também enfrenta emergência

No estado vizinho, a situação não é menos delicada. A Paraíba também foi atingida por chuvas intensas desde sexta-feira (1º). Os dados ainda são atualizados, mas já apontam para um quadro preocupante: cerca de 9 mil pessoas afetadas, 1,5 mil famílias desalojadas e pelo menos 300 desabrigados.

Há registro de duas mortes.

Os maiores impactos concentram-se em cidades como João Pessoa, Bayeux, Cabedelo e Mamanguape. Em várias dessas regiões, o desafio agora vai além do resgate: envolve reconstrução, abastecimento e prevenção de doenças.

O governo estadual decretou estado de calamidade pública. Uma força-tarefa mobiliza centenas de agentes — são mais de 700 militares atuando, além de viaturas, embarcações e aeronaves. Até agora, mais de 300 pessoas foram resgatadas.

Na Grande João Pessoa, o abastecimento de água ainda opera parcialmente. Sistemas importantes seguem ativos, garantindo cerca de metade do fornecimento, enquanto equipes trabalham para normalizar o serviço de forma gradual ao longo desta segunda-feira (4).

Há também uma preocupação crescente com a saúde pública. Após enchentes, aumentam os riscos de doenças como leptospirose e infecções gastrointestinais — um alerta que já mobiliza o monitoramento sanitário.

Alerta segue ativo

A Defesa Civil Nacional mantém alerta laranja para o litoral de Pernambuco e da Paraíba. São 45 avisos ativos, indicando alto risco de alagamentos e deslizamentos. A recomendação é clara: atenção redobrada, especialmente em áreas de encosta ou próximas a rios.

As regiões mais afetadas incluem a Mata e o Agreste dos dois estados, além da Região Metropolitana do Recife.

Sul do Brasil: chuva, mas outro cenário

Enquanto o Nordeste enfrenta volumes extremos, o Sul do país — incluindo o Paraná — também registra instabilidade neste 4 de maio. A diferença está na intensidade: há previsão de chuva ao longo do dia, com períodos de céu encoberto e pancadas isoladas, mas sem os acumulados críticos observados no Nordeste.

Em cidades como Curitiba, o tempo segue típico de outono: temperaturas amenas, umidade elevada e chuva intermitente. Não há, até o momento, indicativos de eventos extremos semelhantes aos registrados no Norte e Nordeste.

De um lado, a água que cai demais e destrói. Do outro, a chuva que chega mais contida, quase rotineira. Entre esses dois extremos, o Brasil atravessa mais um episódio que escancara desigualdades — não apenas climáticas, mas estruturais.

Para quem perdeu tudo, a previsão do tempo deixou de ser apenas informação. Virou urgência.

Apoie o Sulpost via PIX: (41) 99281-4340 • WhatsApp

SMC: CARTA ABERTA DE AGRADECIMENTO

A força da solidariedade que move a história

Direito de greve cerceado e o líder sindical Nelsão da Força sendo preso defronte à Brose, no Paraná em fevereiro de 2026
Direito de greve cerceado e o líder sindical Nelsão da Força sendo preso defronte à Brose, no Paraná

O Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos da Grande Curitiba vem a público expressar seu mais profundo e sincero agradecimento a todas as pessoas, organizações e entidades sindicais que estiveram ao nosso lado em um dos momentos mais desafiadores e também mais emblemáticos, da nossa trajetória recente: a greve dos trabalhadores e trabalhadoras da Brose.

Começamos por quem sustenta o mundo com as próprias mão e, ainda assim, encontra força para erguer também a própria dignidade: os trabalhadores e trabalhadoras da Brose. Foram dias duros, de sol, chuva, de tensão, de incertezas e enfrentamentos. Mas também foram dias de coragem coletiva. Cada assembleia foi um ato de fé. Cada dia de greve, um gesto de consciência. Vocês provaram, mais uma vez, que quando a classe trabalhadora se reconhece como sujeito da sua própria história, não há força capaz de dobrá-la.

Essa não foi apenas uma greve. Foi a continuidade de uma longa travessia.

Há 106 anos, o Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos da Grande Curitiba escreve sua história no aço quente da luta. Uma história marcada por conquistas que não vieram como concessão, mas como fruto de organização, enfrentamento e solidariedade. Foi assim na luta por melhores condições de saúde e segurança no trabalho, quando se enfrentaram máquinas sem proteção, jornadas exaustivas e o silêncio imposto sobre o adoecimento. Foi assim na construção e no fortalecimento das CIPAs, instrumento fundamental de defesa da vida dentro das fábricas.

Foi assim também na luta pela Participação nos Lucros e Resultados (PLR), afirmando que quem produz a riqueza tem direito de participar dela. Foi assim no enfrentamento cotidiano ao preconceito, ao racismo, à discriminação de gênero, à exclusão de pessoas com deficiência e à LGBTfobia, porque não existe trabalho digno onde há humilhação. A defesa da diversidade não é um adorno: é parte essencial de um projeto de justiça.

Essa história não se construiu em silêncio. Ela se construiu com greves, mobilizações, negociações duras e, muitas vezes, sob pressão. E a greve da Brose se inscreve nessa linha do tempo como mais um capítulo de resistência e afirmação.

Agradecemos à diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, que esteve presente, firme e organizada em cada passo dessa caminhada, conduzindo com responsabilidade, coragem e compromisso. Em especial ao nosso presidente Sérgio Butka, cuja liderança foi decisiva nos momentos mais críticos.

Trabalhadores em greve na porta da Brose na Região Metropolitana de Curitiba, em fevereiro (2026)

Aos companheiros e companheiras das oito centrais sindicais, em especial à Força Sindical, à Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos e à Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos, nosso reconhecimento pela unidade construída, porque quando o movimento sindical se une, a luta ganha escala, voz e força.

Nosso reconhecimento também às lideranças políticas que compreenderam a dimensão desse conflito: ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que além da solidariedade manifestada, encaminhou pedido de investigação pelo desvio de função e violência policial da PM do Paraná na greve, a Luiz Felipe Vieira de Mello Filho, presidente do TST, à ministra e deputada federal Gleisi Hoffmann e ao ministro do Trabalho Luiz Marinho; ao deputado federal Tadeu Veneri; aos deputados estaduais Luiz Cláudio Romanelli, Arilson Chiorato, Professor Lemos, Luciana Rafagnin e renato Freitas. Aos vereadores de Curitiba Angelo Vanhoni, Georgia Prates, Wanda de Assis e Camilla Gonda; ao vereador Grilo, de São José dos Pinhais; aos procuradores do Ministério Público do Trabalho, Dr. Alberto Emiliano, Rúbia Canavarro e Gláucio Oliveira. A Regina Cruz e Luis Fernando Busnardo, da Superintendência da Delegacia do Trabalho do Paraná; e às dezenas de organizações de direitos humanos que se somaram a essa luta.

Trabalhadores da Brose fazem protesto em frente ao MTE em Curitiba

Estendemos nosso agradecimento ao Ministério Público do Trabalho, cuja atuação firme resultou na aplicação de uma multa histórica à empresa por práticas antissindicais. Essa decisão não é apenas jurídica, ela é pedagógica. Ela reafirma que a liberdade sindical não é favor: é direito.

Não podemos deixar de registrar, com a gravidade que o momento exige, a violência policial ocorrida durante a greve. A tentativa de interferência da Polícia Militar em um movimento legítimo de trabalhadores levanta um alerta profundo sobre o papel das instituições. Quando há desvio de função para constranger o exercício de um direito constitucional, não se atinge apenas um sindicato, atinge-se a própria democracia.

Mas a história mostrou, mais uma vez, que a repressão não é páreo para a consciência organizada.

A greve da Brose não foi apenas um conflito. Foi um espelho. Um espelho que revelou as tensões do nosso tempo, mas também a potência da solidariedade.

A todas as organizações sociais, especialmente aquelas comprometidas com os direitos humanos, nossa gratidão. Vocês ajudaram a transformar resistência em voz coletiva, e voz coletiva em conquista.

Essa vitória não pertence a um sindicato. Ela pertence a uma classe.

Uma classe que aprende, a cada geração, que nenhum direito nasce do acaso. Que toda conquista é filha da luta. E que toda luta, quando é justa, encontra caminhos.

Se hoje celebramos, é porque caminhamos juntos.

E se avançamos, é porque, mesmo diante do medo, escolhemos não recuar.

Seguiremos, porque ainda há muito a conquistar.

Seguiremos, porque a dignidade não se negocia.

Seguiremos, porque a história, quando escrita pelo povo, não termina: ela floresce.

Nelson Souza, vice-presidente
Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC)
Curitiba, Paraná

Divulgação

domingo, 3 de maio de 2026

Entre o invisível e o possível: mulheres vivem escala 7x0 enquanto jornada reduzida aponta outro caminho

Do cuidado silencioso que nunca para ao descanso que aumenta a produtividade, o Brasil encara um debate que vai além da economia — e toca o tempo de viver além do fim da jornada 6x1

Entre o invisível e o possível: mulheres vivem escala 7x0 enquanto jornada reduzida aponta outro caminho. Do cuidado silencioso que nunca para ao descanso que aumenta a produtividade, o Brasil encara um debate que vai além da economia — e toca o tempo de viver.
Sulpost/Imagem gerada por IA

O domingo amanhece mais lento. Em muitas cidades, o ritmo desacelera, o barulho diminui, o corpo tenta acompanhar. É 3 de maio de 2026 — fim de semana depois do Dia do Trabalhador. Para muita gente, um respiro.

Mas dentro de casa, o tempo não muda.

A roupa acumulada continua ali. O almoço precisa sair. Crianças pedem atenção, idosos exigem cuidado. O dia segue — como ontem, como antes — sem pausa, sem feriado, sem escala. Para milhões de mulheres brasileiras, o trabalho não cabe no calendário. Ele atravessa todos os dias da semana. Sete por sete.

O trabalho que sustenta tudo — mas não aparece

Dados do IBGE mostram que mulheres dedicam quase 10 horas a mais por semana do que os homens às tarefas domésticas e ao cuidado de outras pessoas. É um tempo que não vira salário, não entra na conta da produtividade, não gera reconhecimento.

Mas sustenta tudo.

Na prática, isso significa jornadas que não terminam quando o expediente acaba. Muitas mulheres saem do trabalho formal e entram em outro — invisível, contínuo, inevitável.

E mesmo quando chega o domingo, o corpo até tenta parar. Mas a cabeça não deixa.

“Vai fazer sol, dá pra lavar roupa.” “Preciso organizar a semana.” “Melhor adiantar as coisas.”

O descanso vira tarefa. O tempo nunca é totalmente delas. Infelizmente, ainda é minoria o número de lares onde os homens dividem as tarefas de casa com as mulheres.

Desde cedo, quem cuida — e quem descansa

Essa divisão não nasce na vida adulta. Ela é ensinada antes. Meninos ganham carrinhos. Meninas, panelinhas. É ali, ainda na infância, que o mundo começa a separar quem ocupa a rua e quem sustenta a casa. Quem produz renda e quem sustenta a vida.

O resultado aparece depois, em histórias que se repetem: mulheres que assumem sozinhas o cuidado dos filhos, mesmo dentro de relações; mães que seguem como únicas responsáveis após separações; vidas inteiras organizadas em função dos outros.

E, muitas vezes, sem alternativa.

A dependência financeira — lembra a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Cibele Henriques — ainda prende mulheres em relações abusivas. O cuidado, que deveria ser partilhado, vira também mecanismo de aprisionamento.

Enquanto isso, o país envelhece. Mais idosos, mais demanda por cuidado — e a mesma estrutura desigual para dar conta disso.

O que hoje já pesa, amanhã pode colapsar.

Quando trabalhar menos vira produzir mais

Enquanto essa engrenagem segue rodando, uma experiência em São Paulo sugere que o caminho pode ser outro. De acordo com reportagem da Agência Brasil, uma escola de baristas decidiu fazer o movimento inverso: reduzir a jornada.

Em vez da lógica de mais horas, apostou em mais descanso. Implementou a escala 4 dias de trabalho por 3 de folga. O resultado veio rápido — e contrariou o senso comum.

O faturamento cresceu 35% em um ano.

Sem ampliar espaço, sem aumentar preços, sem contratar mais gente. O que mudou foi o estado de quem trabalha.

Mais descanso trouxe mais concentração. Mais atenção no atendimento. Mais estabilidade na equipe. Menos rotatividade, menos afastamentos, menos desgaste.

Um efeito silencioso, mas profundo: as pessoas passaram a caber melhor na própria vida.

O corpo sente — e responde

Para quem já viveu a escala 6x1, a diferença não é teórica. É física. Antes, o único dia de folga era consumido pelo cansaço. Dormir não era escolha — era necessidade. Não havia energia para estudar, sair, conviver.

Agora, com três dias de descanso, o tempo ganha outra forma. Dá para respirar. Para se cuidar. Para existir fora do trabalho. E isso, no fim, volta para o próprio trabalho — em forma de produtividade.

Dois retratos do mesmo país

As duas cenas coexistem neste domingo. De um lado, mulheres que seguem trabalhando sem pausa, sustentando uma estrutura que depende do que não é pago — nem visto. Do outro, experiências que mostram que reduzir a carga pode ampliar o resultado.

No meio, um debate que ainda está começando.

Estão tramitando no Congresso Nacional dou projetos de lei para reduzir a escala 6x1. Não se trata de redução de produtividade, mas sim em modernizar relações de trabalho. Trata-se de aumentar a produtividade.

Entretanto há uma camada mais funda — e mais difícil de encarar. Porque, para muitas mulheres, o problema nunca foi a escala 6x1. Foi nunca ter tido folga. E talvez seja aí que o país precise olhar com mais honestidade.

Quem tem direito ao descanso? E o que muda quando descansar deixa de ser privilégio — e passa a ser parte da vida?

Apoie o Sulpost via PIX: (41) 99281-4340 • WhatsApp

Brasil amplia mistura de etanol e tenta blindar preço da gasolina

Governo reage à alta do petróleo causada pela guerra no Irã elevando percentual de biocombustível nas bombas

Brasil amplia mistura de etanol e tenta blindar preço da gasolina. Governo reage à alta do petróleo causada pela guerra no Irã elevando percentual de biocombustível nas bombas.

O cheiro doce da cana ainda paira no ar em muitas regiões do Brasil — e, neste começo de maio, ele volta ao centro de uma discussão que atravessa o planeta: como segurar o preço dos combustíveis quando o mundo entra em tensão.

A resposta brasileira, mais uma vez, vem do campo.

Em meio à escalada dos preços do petróleo provocada pela guerra no Irã, o governo decidiu agir com uma ferramenta que conhece bem — e que faz parte da sua própria história energética.

Foi anunciado que a mistura obrigatória de etanol na gasolina vai subir de 30% para 32%. A mudança, aparentemente pequena, carrega impacto direto no bolso do consumidor e na estratégia econômica do país.

A medida ainda deve ser formalizada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), mas já indica um movimento claro: reduzir a dependência do petróleo importado em um momento de instabilidade global.

Guerra lá fora, impacto aqui dentro

O pano de fundo é uma crise energética internacional. O conflito no Golfo elevou o preço do barril e colocou pressão direta sobre combustíveis no mundo inteiro, afetando inflação, transporte e custo de vida.

No Brasil, onde parte da gasolina ainda depende de importação, qualquer oscilação externa reverbera rápido nas bombas.

É aí que entra o etanol.

Ao aumentar a presença do biocombustível na mistura, o país reduz a necessidade de gasolina pura — e, com isso, diminui a exposição às variações do mercado internacional.

Uma conta que vai além do posto

A equipe econômica trabalha com uma equação simples: mais etanol significa menos gasolina importada.

Estimativas indicam que a mudança pode aproximar o Brasil da autossuficiência na produção de gasolina, além de ajudar a conter custos ao consumidor em um cenário de pressão internacional.

Há também um efeito indireto importante: o fortalecimento do setor sucroenergético, que entra em 2026 com expectativa de safra robusta.

Na prática, é uma engrenagem que conecta lavoura, indústria e tanque de combustível.

Um país moldado pelo etanol

A aposta não é nova. Desde os anos 1970, quando o Brasil enfrentou choques do petróleo, o país construiu uma política consistente de biocombustíveis — transformando a cana-de-açúcar em alternativa estratégica.

De lá para cá, a mistura obrigatória variou conforme safra, preços e disponibilidade, consolidando um modelo único no mundo, em que praticamente não existe gasolina “pura” nas bombas.

Agora, diante de mais uma crise internacional, essa mesma estrutura volta a ser acionada.

Entre a urgência e o planejamento

A mudança para 32% não é apenas um ajuste técnico. É uma decisão política, econômica e ambiental — e também um sinal de como o Brasil tenta, à sua maneira, escapar das turbulências que vêm de fora.

Enquanto o mundo reage à crise com subsídios, cortes de impostos ou congelamento de preços, o país recorre a algo mais estrutural: produzir dentro de casa aquilo que move seus motores.

E, nesse cenário, a cana volta a ganhar protagonismo — silenciosa, mas decisiva.

Apoie o Sulpost via PIX: (41) 99281-4340 • WhatsApp

sábado, 2 de maio de 2026

Nelsão da Força leva denúncia de violência policial ao MPT em Brasília

Vice-presidente do SMC participará de encontro da Conalis durante o Maio Lilás — ele vai dar um depoimento sobre o episódio em frente à Brose, no Paraná

Nelsão da Força leva denúncia de violência policial ao MPT em Brasília.Vice-presidente do SMC participará de encontro da Conalis durante o Maio Lilás — ele vai dar um depoimento sobre o episódio em frente à Brose, no Paraná.
Nelsão em Frente à Superintendência do MPT PR - Reprodução

Convidado diretamente pelo procurador do trabalho Alberto Emiliano de Oliveira Neto, o dirigente sindical Nelson Silva, o da Nelsão Força, confirmou presença em uma audiência pública do Ministério Público do Trabalho (MPT), marcada para o próximo dia 4 de maio, em Brasília. Ao Sulpost, ele foi direto: já está com as passagens compradas.

O encontro integra a agenda da campanha Maio Lilás, que neste ano coloca no centro do debate o papel dos sindicatos na defesa da democracia e no enfrentamento ao assédio eleitoral nas relações de trabalho.

O convite, feito de forma pessoal, carrega o tom de quem entende o peso do momento:

“Acho muito importante a tua presença pra fortalecer esse diálogo com as entidades sindicais.”

A audiência acontece das 14h às 17h, na Procuradoria Regional do Trabalho da 10ª Região, e faz parte da série nacional “Diálogos com o MPT: Sindicatos, Democracia e Assédio Eleitoral”, que percorre o país ao longo de maio.

Um caso que ultrapassa os portões da fábrica

A ida de Nelsão à capital federal não é protocolar. É consequência direta de um episódio que ainda reverbera entre trabalhadores do Paraná.

No dia 4 de fevereiro, durante uma mobilização legítima de trabalhadores da fábrica Brose, em São José dos Pinhais, o dirigente foi agredido e preso pela Polícia Militar do Paraná. Não havia confronto armado, não havia vandalismo — havia greve.

Testemunhas relatam uso de gás de pimenta contra manifestantes pacíficos, incluindo mulheres, e uma abordagem considerada truculenta contra lideranças sindicais.

A cena, descrita por quem estava ali, rompe uma linha delicada: quando o Estado, que deveria garantir direitos, passa a agir como barreira à sua própria existência.

A denúncia que chega a Brasília é grave: a suspeita de utilização da força pública para conter atividade sindical — algo que, se comprovado, configura prática antissindical e afronta direta ao direito constitucional de greve. E, pior, a suposta possibilidade de aparelhamento, pela Brose do Brasil, da PM do Paraná.

Maio Lilás: democracia também se constrói no trabalho

A audiência do próximo dia 4 não surge isolada. Ela integra uma mobilização nacional do MPT que busca recolocar o trabalho no centro da democracia.

A campanha Maio Lilás, organizada pela Coordenadoria Nacional de Promoção da Liberdade Sindical (Conalis), tem como eixo a valorização da organização coletiva e da liberdade sindical como pilares democráticos.

Neste ano, o foco está sobre o combate ao assédio eleitoral — práticas que tentam constranger ou influenciar o voto de trabalhadores dentro do ambiente de trabalho.

Mas há algo mais profundo em jogo.

Ao reunir sindicalistas, procuradores e sociedade civil, o MPT tenta reconstruir uma ponte que, em muitos momentos recentes, foi tensionada: a do diálogo entre capital, trabalho e Estado.

Quem conduz o chamado

O convite a Nelsão parte de uma figura conhecida nesse campo.

Alberto Emiliano de Oliveira Neto é procurador do trabalho, doutor em Direito pela UFPR e ex-procurador-chefe do MPT no Paraná. Sua atuação é marcada pelo enfrentamento a fraudes trabalhistas e práticas antissindicais, especialmente à frente da Conalis.

Não é um convite casual. É um gesto institucional — e político, no sentido mais amplo da palavra.

Quando um caso individual vira coletivo

O que aconteceu na porta da Brose não ficou restrito a um dirigente. Ele ecoa em outras fábricas, em outras categorias, em trabalhadores que reconhecem, naquele episódio, um sinal de alerta.

A prisão do Nelsão — pela PM do Paraná —, na porta da Brose do Brasil, repercutiu em todo país, e, inclusive, foi divulgada carta publica de apoio ao vice-presidente do SMC assinada por todas as centrais sindicais. A carta condena a maneira truculenta de agir da polícia paranaense, a violação do direito de greve ao impedir a atividade sindical.

Criminalizar a organização coletiva não é apenas um excesso pontual. É uma mensagem que infelizmente tem se repetido no Paraná há quase uma década. E mensagens assim, quando não são confrontadas, tendem a se repetir.

Brasília como palco — e teste

Na segunda-feira, o que estará em discussão não é apenas o relato de um episódio de violência.

É o limite entre ordem pública e repressão. Entre mediação de conflitos e silenciamento. Entre o direito de reivindicar e o risco de ser punido por isso.

Nelsão chega com sua história recente ainda em aberto. E Brasília, desta vez, será mais do que cenário. Será campo de resposta.

Apoie o Sulpost via PIX: (41) 99281-4340 • WhatsApp

Spirit sucumbe ao combustível caro e encerra operações após guerra no Irã

Alta abrupta do querosene inviabiliza recuperação judicial e derruba pioneira das passagens populares nos EUA

Spirit sucumbe ao combustível caro e encerra operações após guerra no Irã. Alta abrupta do querosene inviabiliza recuperação judicial e derruba pioneira das passagens populares nos EUA.

O dia ainda nem tinha clareado quando milhares de passageiros descobriram — alguns já dentro dos aeroportos — que não havia mais voo, nem plano B. Apenas silêncio e telas atualizadas com uma mensagem seca: todos os voos cancelados, com efeito imediato.

Assim terminou a trajetória da Spirit Airlines, companhia que por mais de três décadas redefiniu o acesso ao transporte aéreo nos Estados Unidos. Desta vez, porém, não foi a concorrência nem o gosto do consumidor que falou mais alto — foi o combustível.

A empresa confirmou neste sábado (2) o encerramento total de suas operações após não conseguir sustentar o plano de recuperação judicial. O gatilho final veio de fora: a escalada da guerra no Irã, que fez o preço do querosene de aviação disparar em nível global, pressionando um modelo de negócios que já operava no limite.

Combustível dobrou de preço e sufocou a operação

Segundo informam as agências internacionais de notícias, nos bastidores, o colapso já vinha sendo desenhado. O custo do combustível — variável crítica para qualquer companhia aérea — chegou a dobrar em poucos meses, ultrapassando projeções básicas do plano de reestruturação da empresa.

Com margens apertadas por natureza, a Spirit dependia de custos baixos para sustentar tarifas mínimas. Quando o querosene subiu, não havia gordura para queimar. O resultado foi imediato: o caixa não suportou.

A própria companhia reconheceu que a “alta súbita e sustentada” dos preços tornou inviável continuar operando sem um aporte bilionário — recurso que não veio.

Plano de resgate fracassou e selou o destino

Houve tentativas de última hora. O governo dos Estados Unidos chegou a discutir um pacote de cerca de US$ 500 milhões, mas a proposta esbarrou na resistência de credores e divergências políticas.

Sem acordo, a empresa optou por um encerramento ordenado — cancelando todos os voos e orientando passageiros a não comparecer aos aeroportos.

O impacto é imediato e profundo: cerca de 15 mil a 17 mil empregos diretos e indiretos afetados, além de milhares de passageiros surpreendidos no meio de suas viagens. 4

O fim de uma era das passagens baratas

A queda da Spirit não é apenas empresarial — é simbólica. A companhia foi pioneira no modelo “ultra low cost” nos Estados Unidos, oferecendo passagens extremamente baratas e cobrando por serviços adicionais.

Durante anos, ajudou a pressionar concorrentes e democratizou o acesso ao transporte aéreo. Em seu auge, chegou a representar cerca de 5% dos voos domésticos no país.

Agora, sua saída tende a reorganizar o mercado — com expectativa de aumento de tarifas em algumas rotas e maior concentração nas mãos de grandes companhias.

Uma crise que vai além de uma empresa

Especialistas já tratam o caso como o primeiro grande efeito colateral da guerra no Irã sobre a aviação global. O conflito elevou o preço do petróleo e afetou rotas estratégicas, criando um efeito dominó em um setor altamente sensível a custos operacionais.

No caso da Spirit, esse impacto encontrou uma empresa já fragilizada: perdas acumuladas desde a pandemia, tentativas frustradas de fusão e mudanças no perfil dos passageiros — que passaram a buscar mais conforto e menos “tarifa básica”.

O resultado foi inevitável. O céu continua o mesmo, mas ficou um pouco mais caro — e, para muitos, mais distante. Também veremos menos aviões amarelos nos céus, a empresa havia escolhido essa cor para às aeronaves em analogia aos táxis de Nova York, os Yellow Cabs.

Apoie o Sulpost via PIX: (41) 99281-4340 • WhatsApp

1º de Maio leva multidões às ruas contra a escala 6x1 no Brasil

De Brasília a Curitiba, trabalhadores transformam o feriado em dia de luta — pelo fim da escala 6x1, pela dignidade do tempo e por nenhum direito a menos

 
1º de Maio leva multidões às ruas contra a escala 6x1 no Brasil. De Brasília a São Paulo, trabalhadores transformam o feriado em dia de luta — pelo fim da escala 6x1, pela dignidade do tempo e por nenhum direito a menos. Haddad participou do ato no ABC Paulista.
Haddad participou do ato do 1º de maio no ABC Paulista - Instagram/Reprodução

O Brasil amanheceu diferente no 1º de Maio. Não foi apenas o feriado. Foi o corpo coletivo nas ruas — gente comum, de rotina apertada, que decidiu interromper o ciclo para dizer que não dá mais. Já que a aposentadoria no Brasil se tornou uma verdadeira odisseia, nada mais justo que o trabalhador tenha uma compensação: um dia a mais de folga durante a semana.

De norte a sul, trabalhadores, aposentados, estudantes e ativistas ocuparam avenidas, praças e centros urbanos. Em Brasília, o Eixão do Lazer virou espaço de reivindicação. Em São Paulo, a Praça Roosevelt pulsou como um coração inquieto. No ABC paulista, o som dos palcos se misturava ao eco das palavras de ordem.

A pauta tinha um eixo claro, quase unânime: o fim da escala 6x1 — seis dias de trabalho para um de descanso. Uma lógica que, para muitos, já não cabe mais na vida real. É antiquada, desumana e rouba o que as pessoas têm de mais preciso: tempo de vida.

Entre gerações, a mesma cobrança

No meio da multidão em Brasília, a cena parecia simples — mas dizia muito. De acordo com a Agência Brasil, a empregada doméstica Cleide Gomes, 59 anos, caminhava ao lado do neto de 5, da nora e da mãe de 80. Quatro gerações juntas, atravessadas pela mesma pergunta: até quando?

Cleide conhece bem o peso da informalidade. Já trabalhou sem carteira assinada, já viu direitos escorrerem pelos dedos. Hoje, formalizada, carrega outra preocupação: a desinformação.

“Tem gente trabalhando hoje porque o patrão diz que não é feriado. E elas nem sabem que têm direito.”

Não é só sobre carga horária. É sobre consciência. Sobre saber que existe um limite — e que ele precisa ser respeitado.

O tempo como direito

A discussão sobre a jornada de trabalho ganhou densidade nos atos. Lideranças sindicais insistiram: reduzir a jornada não é prejuízo econômico — é reorganização social.

Para o professor Rodrigo Rodrigues, da CUT no Distrito Federal, a lógica é direta: descanso não é luxo.

“Um único dia de descanso é insuficiente. É desgaste físico, mental. Reduzir a jornada é justiça social — e também inteligência produtiva.”

A frase encontra eco em histórias como a de Ana Beatriz Oliveira, 21 anos, estagiária de psicopedagogia. Ela já viveu a rotina de centros logísticos: madrugadas, turnos dobrados, corpo exausto.

Quando conseguiu migrar para uma escala 5x2, percebeu a diferença de imediato — no sono, na alimentação, na disposição.

“Você trabalha melhor quando está inteiro.”

O argumento, repetido em cartazes e discursos, atravessa o país: produtividade não nasce do esgotamento.

Trabalho, gênero e desigualdade

Entre as pautas, uma camada se sobrepôs às demais: a jornada invisível das mulheres.

O sindicalista Geraldo Coan trouxe o ponto com clareza incômoda — não basta reduzir a jornada formal se o trabalho doméstico continuar sendo unilateral.

“O fim da escala 6x1 precisa beneficiar ainda mais as mulheres. E os homens precisam assumir sua parte.”

A discussão ganha ainda mais peso em meio ao aumento dos casos de violência de gênero. Em São Paulo, manifestantes também cobraram políticas mais efetivas de combate ao feminicídio.

Para muitas, a luta pelo tempo livre não é apenas por descanso — é por sobrevivência.

O trabalho que desaparece — e o que se precariza

Outro tema recorrente foi a transformação das relações de trabalho. A chamada “pejotização” apareceu como preocupação constante.

O professor Marco Antônio Ferreira, da rede pública, resumiu o desafio: convencer as novas gerações de que direitos trabalhistas não são obstáculos — são proteção.

Contratos como pessoa jurídica, muitas vezes, eliminam garantias básicas: férias, 13º, segurança em caso de doença. E, no discurso, acabam sendo vendidos como autonomia.

Dados recentes reforçam a contradição: grande parte dos trabalhadores sem carteira assinada já teve vínculo formal — e voltaria a ele. Há, portanto, uma memória de direitos. E uma disputa em curso sobre o futuro deles.

Entre festa e tensão

Nem todos os atos foram marcados apenas por discursos e música. Em Brasília, houve confronto após provocações envolvendo apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. A situação foi rapidamente controlada pela Polícia Militar, sem registro de ocorrências graves.

O episódio expõe outra camada das manifestações: o ambiente político tensionado que atravessa o debate sobre trabalho. Por razões que muitos não conseguem entender, hoje existe trabalhador que acha que trabalhador não pode ter nenhum direito a mais. Existe trabalhador contra o fim da jornada 6x1, enganado por narrativas e notícias falsas.

Ainda assim, a tônica predominante foi outra — a da mobilização organizada. A balbúrdia bolsonarista não chegou a comprometer a celebração popular, que foi pacífico, ordeiro e cumpriu com seu papel.

Curitiba

Em Curitiba o líder sindical Nelsão da Força, você presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC), lembrou que: 

"O trabalho move o mundo. E quem move o trabalho somos nós. Neste 1º de Maio, não é só sobre comemorar. É sobre lembrar cada direito conquistado com luta, cada voz que se levantou e cada trabalhador que não aceitou ficar calado. Seguimos firmes. Porque nada vem fácil e nada será tirado sem resistência!"

Congresso no centro da disputa

Enquanto as ruas pressionam, o tema avança institucionalmente. Um projeto do governo federal propõe a redução da jornada para 40 horas semanais, sem corte salarial.

A tramitação ocorre em regime de urgência.

Para lideranças políticas e sindicais, o calendário é decisivo. A meta é aprovar mudanças ainda antes das eleições. Fernando Haddad, em discurso no ABC, sintetizou o momento: o 1º de Maio segue sendo celebração — mas, sobretudo, consciência.

O dia seguinte

Hoje é 2 de maio. As ruas já não estão tão cheias. O trânsito voltou. Os relógios retomaram seu ritmo. Mas algo permanece. A ideia de que o tempo — esse recurso invisível e cada vez mais escasso — também é um direito. E que, para muita gente, ele ainda precisa ser conquistado. Independente de ideologias ou narrativas políticas, o que se está falando e sobre mais tempo para viver, e isto é indispensável.

Apoie o Sulpost via PIX: (41) 99281-4340 • WhatsApp
Gostou?
Então contribua com qualquer valor
Use a chave PIX ou o QR Code abaixo
(Stresser Mídias Digitais - CNPJ: 49.755.235/0001-82)

Sulpost é um veículo de mídia independente e nossas publicações podem ser reproduzidas desde que citando a fonte com o link do site: https://sulpost.blogspot.com/. Sua contribuição é essencial para a continuidade do nosso trabalho.