Na Apucaraninha, Ivan Kaingang leva à campanha uma agenda que começa pelo básico: água, moradia e saúde
Na Terra Indígena Apucaraninha, em Tamarana, a política começa onde a vida aperta.
É na falta de água, na dificuldade de construir uma casa e nas preocupações com saúde e qualidade de vida. Entre os temas que Ivan Kaingang considera urgentes também estão a saúde mental, que está diretamente ligada à qualidade de vida nas aldeias.
Liderança indígena e candidato do PT Paraná a uma cadeira na Assembleia Legislativa do Paraná, Ivan está construindo sua campanha a partir de uma agenda que, segundo ele, precisa começar pelas necessidades mais concretas das comunidades.
Em entrevista exclusiva ao Sulpost, realizada nesta segunda-feira (7), Ivan falou sobre a disputa eleitoral, mas principalmente sobre aquilo que considera prioritário para melhorar as condições de vida nos territórios indígenas.
“As terras indígenas têm várias e inúmeras prioridades. Mas eu vejo três que são necessárias e urgentíssimas: tem a questão da saúde, da qualidade de vida... E também a questão de moradia. Uma deficiência enorme.”
Trecho da entrevista concedida por Ivan Kaingang ao Sulpost.
Uma proposta que pode chegar a Lula
A preocupação com a habitação não é nova.
Segundo Ivan, há mais de duas décadas não são construídas novas moradias em quantidade suficiente nos territórios indígenas do Paraná. Ele lembra que iniciativas anteriores ocorreram durante o governo de Roberto Requião.
Na Apucaraninha, a dimensão do problema pode ser medida em números: aproximadamente 2,3 mil indígenas vivem no território, distribuídos pelas aldeias Sede, Água Branca e Barreiro. Somente na Aldeia Sede, um levantamento aponta a necessidade de pelo menos 400 novas moradias.
A reivindicação ganhou um novo capítulo durante a visita do deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR) à comunidade, realizada na quarta-feira (2).
Na ocasião, Ivan apresentou ao parlamentar a proposta de criação de uma modalidade específica do programa habitacional federal para atender às particularidades dos povos indígenas: o Minha Casa, Minha Vida Indígena.
A ideia é criar uma política habitacional permanente que considere as características territoriais, culturais e sociais das comunidades indígenas.
Em junho, 100 famílias da Apucaraninha foram contempladas com unidades habitacionais pelo Minha Casa, Minha Vida Rural, resultado de articulações de Zeca Dirceu junto ao Governo Federal e às lideranças locais.
Para Ivan, esse avanço mostrou que é possível construir soluções quando as políticas públicas levam em consideração a realidade vivida pelas próprias comunidades.
Zeca se comprometeu a apresentar a proposta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e buscar caminhos para que ela possa se transformar em uma política habitacional permanente voltada aos povos indígenas.
“Já conseguimos avançar com as primeiras 100 casas para a Apucaraninha, mas sabemos que a necessidade é muito maior. Por isso, quero levar ao presidente Lula essa proposta do Ivan, de construirmos uma política específica de moradia para as comunidades indígenas, um Minha Casa, Minha Vida Indígena.”
Declaração atribuída ao deputado federal Zeca Dirceu durante a visita à comunidade.
Água: uma preocupação que aparece antes de qualquer outro projeto
Se a moradia é uma das grandes urgências apontadas por Ivan, a questão da água também ocupa lugar central na conversa.
Segundo a liderança indígena, diferentes territórios enfrentam dificuldades relacionadas ao abastecimento. Na Apucaraninha, algumas fontes utilizadas para captação ficavam fora do território e, de acordo com seu relato, acabaram secando.
Outras nascentes estão dentro da própria terra indígena, mas pequenos ribeirões apresentam atualmente uma vazão que, segundo Ivan, não é suficiente para atender toda a população.
O problema ganha dimensão quando se considera que cerca de 2,3 mil pessoas vivem na Terra Indígena Apucaraninha.
“Imagina 2.300 pessoas.”
Para Ivan, a discussão sobre água precisa caminhar junto com a busca por soluções de saneamento básico.
Água, nesse contexto, não é apenas abastecimento. Está relacionada à saúde, à higiene, à alimentação e às condições básicas de vida.
Por isso, a avaliação apresentada pelo candidato é que a melhoria da qualidade de vida nas comunidades precisa começar pela garantia de serviços essenciais.
Saúde mental entre as prioridades apontadas pela comunidade
Entre as preocupações apresentadas por Ivan está também a saúde mental.
Ao falar sobre as demandas que considera mais urgentes nos territórios indígenas, ele mencionou a necessidade de ampliar a atenção a situações relacionadas ao atendimento de saúde como um todo, para que as comunidades tenham acesso a uma melhor qualidade de vida.
Para a liderança, esse é um tema que precisa receber atenção permanente do poder público, com políticas de prevenção, acolhimento e acompanhamento psicossocial adequadas à realidade das comunidades indígenas.
A saúde mental aparece, assim, ao lado de questões como moradia, água e saneamento entre as prioridades que Ivan defende para melhorar as condições de vida no território.
Uma campanha feita com pouco dinheiro
A entrevista também revelou uma dimensão pessoal da candidatura de Ivan.
Segundo ele, sua campanha enfrenta uma dificuldade financeira significativa. O candidato afirma que, até o momento, não recebeu recursos do fundo partidário destinados à sua candidatura e que existe a possibilidade de uma mobilização por meio de doações para ajudá-lo.
Ivan também afirma ser o único candidato indígena beneficiário do Bolsa Família nesta eleição. A informação é apresentada exclusivamente pelo próprio candidato e não foi tratada pelo Sulpost como dado independente.
A situação, na avaliação de Ivan, revela também uma dificuldade mais ampla enfrentada por lideranças indígenas que buscam ocupar espaços de representação política sem dispor das mesmas estruturas financeiras de outros candidatos.
“Mas tranquilo. Vamos firme!”
A frase resume o tom da conversa: a caminhada será difícil, mas Ivan demonstra disposição para continuar levando as reivindicações da comunidade para a disputa eleitoral.
Da aldeia para a Assembleia
Na Apucaraninha, a conversa política não ficou restrita aos candidatos.
Jovens, crianças, mães, pais e idosos fazem parte de uma comunidade que acompanha de perto as decisões que podem interferir no cotidiano do território.
Nesse cenário, a eleição aparece também como uma possibilidade de ampliar a participação indígena nos espaços onde são formuladas e discutidas as políticas públicas.
A proposta do Minha Casa, Minha Vida Indígena é um exemplo.
Nasceu de uma necessidade apresentada dentro da Apucaraninha. Agora, pode chegar a Brasília. Se avançar e eventualmente for transformada em política pública nacional, poderá beneficiar comunidades indígenas de outras regiões do Paraná e do Brasil.
É justamente aí que Ivan Kaingang tenta colocar o sentido de sua candidatura. Ele concorre com o número 13.116, de acordo com a pequena vinheta que vem divulgado. Único material de sua campanha até o momento.
Ivan não busca apenas ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa, mas levar para dentro dela demandas que muitas vezes permanecem distantes dos centros de decisão, para poder criar políticas públicas voltadas às comunidades indígenas do Paraná.
Na entrevista desta segunda-feira, Ivan resumiu sua expectativa de forma direta: melhorar a qualidade de vida das comunidades indígenas.
Antes de qualquer grande promessa, ele fala de água, casa, saneamento e saúde.
Coisas básicas.
Mas que, para milhares de indígenas, ainda representam desafios concretos no dia a dia.
O que está em discussão
A proposta apresentada por Ivan Kaingang prevê uma modalidade específica do programa habitacional federal para comunidades indígenas, levando em consideração as características e necessidades dos territórios. O deputado federal Zeca Dirceu afirmou que pretende levar a ideia ao presidente Lula.
Informação, território e voz para quem precisa ser ouvido.


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