Extrema direita vence eleição estadual na Alemanha pela 1ª vez após 2ª Guerra

A vitória da AfD na Saxônia-Anhalt acende um alerta que ultrapassa as fronteiras alemãs. Pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, um partido de extrema direita chega ao primeiro lugar em uma eleição estadual alemã

Reprodução - Euro News

A Alemanha acaba de viver um daqueles momentos que obrigam a Europa a prestar atenção. A AfD (Alternativa para a Alemanha), partido classificado como de extrema direita, venceu a eleição estadual na Saxônia-Anhalt, no leste do país, com cerca de 44% dos votos e 39 das 83 cadeiras do Parlamento estadual. Informa a EuroNews.

É importante fazer uma distinção: não se trata de uma eleição nacional. A AfD não venceu as eleições da Alemanha. Mas o resultado tem um peso histórico e político que seria um erro minimizar. É a primeira vez, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, que uma força de extrema direita conquista o primeiro lugar em uma eleição estadual alemã e fica diante da possibilidade de participar diretamente do governo de um estado.

O resultado abalou o cenário político alemão. O partido ficou a poucas cadeiras da maioria absoluta, enquanto as principais forças políticas mantêm a posição de não formar uma coalizão com a AfD. O chanceler Friedrich Merz afirmou que seu partido não trabalhará com a legenda. Ainda assim, a vitória mostra o tamanho que a extrema direita alcançou dentro do eleitorado alemão.

Um sinal de alerta para a democracia

A AfD não é apenas mais um partido conservador no espectro político alemão. Sua agenda inclui posições duras contra a imigração, nacionalismo cultural e propostas de ruptura ou profunda revisão da atual integração europeia. Na política externa, defende o restabelecimento de relações mais próximas com a Rússia e se opõe ao atual apoio alemão à Ucrânia.

É justamente por isso que o resultado merece ser observado com preocupação. Depois do nazismo, a Alemanha construiu uma democracia baseada também na ideia de que determinadas experiências históricas não poderiam se repetir. Ao longo das décadas, os grandes partidos mantiveram uma espécie de barreira política contra forças consideradas extremistas. A ascensão eleitoral da AfD coloca essa barreira sob uma pressão que já não pode ser ignorada.

Isso não significa dizer que a Alemanha de 2026 seja a Alemanha de 1933. Não é. As instituições democráticas alemãs continuam funcionando, há imprensa livre, eleições competitivas, Judiciário independente e uma sociedade civil organizada.

Mas democracias não precisam necessariamente desaparecer de uma hora para outra. Elas também podem ser enfraquecidas aos poucos, quando discursos de intolerância, xenofobia, exclusão e nacionalismo radical deixam de ocupar as margens da política e passam a conquistar parcelas expressivas da sociedade.

E é esse talvez o aspecto mais preocupante da eleição na Saxônia-Anhalt: a extrema direita deixou de ser apenas uma força de protesto e demonstrou capacidade de conquistar uma votação majoritária em uma importante eleição regional.

O impacto ultrapassa a Alemanha

O resultado também interessa diretamente ao restante da Europa. Uma Alemanha politicamente mais próxima da Rússia e menos comprometida com a União Europeia teria consequências que dificilmente ficariam restritas às suas fronteiras.

A União Europeia depende, em grande medida, da posição alemã para manter sua capacidade de ação política e econômica. Uma guinada radical na maior economia do bloco poderia alterar o equilíbrio de forças dentro da Europa.

A repercussão internacional já começou. Elon Musk comemorou publicamente o avanço da AfD. Donald Trump, por sua vez, compartilhou em sua rede social a projeção do resultado eleitoral, mas, até o momento, não há confirmação de que tenha parabenizado diretamente o partido.

A aproximação entre setores da direita radical europeia e figuras influentes da direita americana e internacional é mais um elemento que merece atenção.

A eleição da Saxônia-Anhalt não determina o futuro da Alemanha. Mas representa uma mudança importante no cenário político do país e um aviso para toda a Europa. A história alemã deveria tornar esse aviso ainda mais difícil de ignorar.

Quando uma força política de extrema direita chega ao primeiro lugar em uma eleição alemã, a democracia não deixa de existir. Mas é hora de olhar com atenção para os sinais de que ela está sendo colocada à prova.

 

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