PF apreende celular e sete armas de Mário Frias em operação que investiga dinheiro de emendas no filme Dark Horse
Operação Make Up mira suposto desvio de recursos públicos. Investigação também alcança as conexões financeiras do filme com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master
| Reprodução | Redes Sociais (2021) |
A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira a Operação Make Up, que investiga suspeitas de desvio e direcionamento de recursos de emendas parlamentares para estruturas relacionadas à produção de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Entre os alvos está o deputado federal Mário Frias (PL-SP), roteirista e produtor-executivo da obra.
A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, e teve 49 mandados de busca e apreensão cumpridos em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. A investigação é conduzida pela PF em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU).
Segundo informações divulgadas nesta quinta-feira, a PF apreendeu computadores, celulares e sete armas de fogo registradas em nome de Frias. As armas estavam em endereço diferente daquele autorizado no mandado, circunstância que passou a ser analisada pela investigação. A relação divulgada inclui cinco pistolas, uma espingarda e um fuzil.
O ponto jurídico, neste momento, é a localização das armas: estar registrado como proprietário não significa, por si só, que a pessoa tenha cometido crime. A suspeita apontada pelas reportagens é de eventual posse irregular, que dependerá da apuração policial e da análise judicial.
Também foi apreendido o telefone celular de Mário Frias, material potencialmente relevante para a investigação porque a PF procura reconstruir comunicações, movimentações financeiras e relações entre os envolvidos na produção do filme.
O que a PF investiga
A investigação apura uma possível estrutura formada por agentes públicos e privados que teria direcionado recursos recebidos por meio de emendas para empresas subcontratadas, sem comprovação adequada da prestação dos serviços.
Entre os crimes sob investigação estão peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes relacionados a licitações. A PF afirma ter identificado movimentações financeiras de centenas de milhões de reais entre empresas relacionadas ao caso.
Um dos focos é o Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, que também está ligada à produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme.
Frias destinou aproximadamente R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao ICB. Uma das emendas, de R$ 1 milhão, destinava-se a um projeto de empreendedorismo cuja execução passou a ser questionada pelos investigadores.
O dinheiro do Banco Master: quanto chegou ao filme?
Aqui é preciso separar duas questões que vêm sendo misturadas no debate público: dinheiro recebido pessoalmente por Mário Frias e dinheiro destinado ao financiamento de Dark Horse.
Até o momento, não encontrei fonte pública confiável que demonstre que Mário Frias tenha recebido pessoalmente R$ 61 milhões — ou qualquer parcela desse valor — diretamente do Banco Master ou de Daniel Vorcaro.
O valor de aproximadamente R$ 61 milhões aparece na investigação sobre o financiamento do filme. Documentos e informações confirmadas por diferentes veículos indicam que cerca de US$ 10,6 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 61 milhões na cotação da época, foram transferidos por estruturas ligadas a Daniel Vorcaro para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, apontado como fonte de recursos da produção.
A Reuters informou, em reportagem reproduzida pelo UOL, que o inquérito autorizado pelo STF investiga justamente o repasse de R$ 61 milhões, a destinação desses recursos e se eles foram integralmente utilizados na produção cinematográfica.
Documentos divulgados em junho também reconstruíram parte do caminho financeiro: segundo reportagem da Agência Estado reproduzida pelo UOL, foram identificados pelo menos US$ 10,6 milhões destinados ao projeto até maio de 2025. A apuração partiu de documentos e comprovantes de transferências internacionais.
Há ainda um valor maior na negociação original: aproximadamente US$ 24 milhões, ou cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, teriam sido previstos para o financiamento do filme. O que efetivamente foi pago, segundo os documentos até agora divulgados, é de pelo menos US$ 10,6 milhões.
E qual foi a ligação de Mário Frias com Vorcaro?
Embora não haja, até agora, comprovação pública de que os R$ 61 milhões tenham sido pagos diretamente a Frias, existem registros de contato direto entre o deputado e Daniel Vorcaro.
O site The Intercept Brasil divulgou um áudio no qual Frias agradece a Vorcaro pelo apoio ao projeto. Segundo a apuração, o deputado também enviou ao então banqueiro informações sobre o andamento da produção e mensagens relacionadas ao diretor do filme, Cyrus Nowrasteh.
Esse contato é relevante porque contradiz a versão inicial de Frias de que não havia relação entre o banqueiro e o filme. Posteriormente, o deputado passou a reconhecer uma relação jurídica indireta, embora tenha negado que o filme tivesse recebido dinheiro de Vorcaro diretamente.
A situação financeira ganhou nova dimensão quando documentos analisados no caso Master indicaram que os recursos de Vorcaro chegaram ao fundo Havengate, estrutura apontada como fonte de financiamento de Dark Horse.
Flávio Bolsonaro aparece no centro da conexão com Vorcaro
As informações disponíveis indicam que a ligação financeira entre o Banco Master e o filme passa principalmente por Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Segundo a investigação, Flávio teria solicitado a Vorcaro recursos para a produção. A existência das conversas foi confirmada por fontes com acesso à investigação, e os diálogos foram extraídos do celular de Vorcaro apreendido pela PF na primeira fase da Operação Compliance Zero.
A negociação mencionava um aporte total de aproximadamente US$ 24 milhões. Pelo menos US$ 10,6 milhões teriam sido efetivamente transferidos até maio de 2025.
O inquérito autorizado pelo ministro André Mendonça no STF trata especificamente dos repasses de Vorcaro relacionados ao filme. É uma frente investigativa diferente daquela que levou à operação de busca e apreensão autorizada por Flávio Dino nesta quinta-feira.
As ligações mais próximas de Frias na investigação
- Karina Ferreira da Gama: produtora de Dark Horse e dirigente do Instituto Conhecer Brasil. O ICB recebeu cerca de R$ 2 milhões em emendas indicadas por Frias.
- Go Up Entertainment: empresa responsável pela produção brasileira do filme e ligada a Karina Gama.
- Daniel Vorcaro: ex-controlador do Banco Master. Não há evidência pública, até o momento, de que os R$ 61 milhões tenham sido pagos diretamente a Frias, mas existem registros de comunicação entre ambos sobre o filme.
- Flávio Bolsonaro: principal elo político identificado nas tratativas financeiras com Vorcaro para o financiamento de Dark Horse. Flávio não é alvo da Operação Make Up desta quinta-feira, embora seja investigado em outra frente relacionada aos recursos do filme.
- Eduardo Bolsonaro: aparece nas investigações relacionadas à estrutura financeira no exterior e ao fundo Havengate, que recebeu os recursos atribuídos a Vorcaro.
- Marcello de Oliveira Lopes: ex-marqueteiro ligado à campanha de Flávio Bolsonaro. Segundo informações divulgadas nesta quinta-feira com base na investigação da PF, ele transferiu R$ 1 milhão para a Go Up Entertainment.
Há também um fluxo de dinheiro no sentido contrário
Um dos dados mais relevantes divulgados pela PF nesta quinta-feira é que Mário Frias transferiu R$ 645,4 mil de suas próprias contas para a Go Up Entertainment, em período inferior a dois meses.
A PF considera o valor incompatível com os rendimentos registrados do parlamentar. Segundo a investigação, Frias tinha renda mensal de aproximadamente R$ 44 mil.
Esse dado, porém, não deve ser confundido com recebimento de dinheiro do Banco Master. Trata-se de uma transferência de Frias para a produtora, e não de Vorcaro para Frias.
Nota editorial: as informações acima descrevem suspeitas, documentos e elementos de investigação. A existência de busca e apreensão, movimentações financeiras ou comunicação entre investigados não equivale, por si só, a prova definitiva de crime ou culpa. As apurações continuam em curso.
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