A conta chegou — e Moro pode ser o fator de união entre antigos adversários
A política paranaense começa a desenhar uma daquelas alianças que, em tempos normais, pareceriam impossíveis
| Sandro, Requião e Moro. Foto: reprodução/OAB-PR |
De acordo com reportagem publicada pelo Blog do Esmael, setores da esquerda paranaense já discutem a possibilidade de cobrar de Sandro Alex e de seu grupo político um apoio a Requião Filho caso o candidato do PDT chegue ao segundo turno contra Sérgio Moro.
A justificativa seria a velha lógica da política: reciprocidade.
Segundo os grupos acompanhados pelo Blog do Esmael, setores ligados a Requião Filho teriam apoiado Eduardo Pimentel, do PSD, no segundo turno de 2024, para impedir a vitória de Cristina Graeml. Agora, diante da possibilidade de Requião Filho enfrentar Moro, esses mesmos setores entendem que chegou a hora de “pagar a conta”.
A conta, portanto, está na mesa.
E ela pode ser maior do que parece.
O inimigo comum
O elemento capaz de transformar adversários históricos em aliados circunstanciais tem nome e sobrenome: Sérgio Moro.
Moro já deixou claro que pretende fazer uma ampla devassa nas contas públicas do Paraná caso seja eleito.
É uma promessa politicamente poderosa.
Para quem deseja passar o Paraná a limpo, soa como música.
Mas, para quem conhece minimamente a máquina pública, a pergunta precisa ser outra: o Paraná precisa de uma administração ou de uma guerra permanente de investigação?
Investigar irregularidades é obrigação de qualquer governo sério.
Fiscalizar contratos é necessário.
Auditar contas é saudável.
Mas transformar a administração estadual em uma operação permanente de revisão do passado pode produzir um efeito colateral gigantesco: paralisar o presente.
Obras podem ser questionadas. Contratos podem ser judicializados. Empresas podem ser investigadas. Servidores podem ser chamados a responder. Decisões administrativas podem virar objeto de disputa durante anos.
E, nesse ambiente, o Paraná pode passar uma década discutindo o que aconteceu ontem enquanto deixa de decidir o que precisa ser feito amanhã.
Moro conhece a Justiça. Mas governar é outra coisa
É preciso separar as coisas.
Sérgio Moro construiu sua trajetória pública no Judiciário. Sua imagem nacional está associada à investigação, à Lava Jato e ao combate à corrupção.
Mas administrar o Paraná exige outro tipo de experiência.
É preciso conhecer obras públicas, infraestrutura, agricultura, logística, saúde, educação, segurança, orçamento, municípios, relações federativas e o funcionamento cotidiano de uma máquina pública que movimenta bilhões de reais.
Governar não é julgar.
E o Paraná não pode ser tratado como uma gigantesca vara judicial.
O Estado precisa de fiscalização, sim. Mas precisa também de estradas, hospitais, escolas, investimentos, empregos, segurança e capacidade de execução.
A estranha matemática da eleição
É justamente aí que a política começa a ficar interessante.
Sandro Alex e Sérgio Moro vêm trocando críticas. Moro tenta ocupar o espaço de oposição ao atual grupo governista, enquanto Sandro busca se apresentar como alternativa dentro de um campo político que possui forte ligação com o governo Ratinho Junior.
Requião Filho, por sua vez, representa uma tradição política completamente diferente.
Mas uma eventual segunda etapa entre Requião Filho e Moro pode colocar todos diante de uma escolha desconfortável.
O grupo de Ratinho Junior prefere Requião Filho a Sérgio Moro?
Essa é a pergunta que ninguém quer responder antecipadamente. Certo é que moro defende uma devassa nas contas públicas dos últimos 10 anos e diz que existe muita corrupção no Paraná. E talvez seja justamente por isso que os requianistas já estejam fazendo a cobrança.
Ratinho Junior também terá de fazer suas contas
Se Sandro Alex ficar fora do segundo turno e Requião Filho enfrentar Moro, o grupo político de Ratinho Junior poderá ser colocado diante de um dilema histórico. Apoiar Moro significaria permitir que um adversário político com discurso de ruptura chegasse ao Palácio Iguaçu.
Apoiar Requião Filho significaria fazer uma composição com um grupo ideologicamente distante e que, durante anos, esteve no campo oposto ao governo. Embora o pai do governador e o presidente Lula já tenham sido grandes amigos.
Nenhuma das duas opções é confortável. Mas há uma terceira possibilidade: o pragmatismo.
Na política, alianças improváveis acontecem quando existe um adversário considerado maior do que as diferenças entre os aliados. Foi exatamente esse tipo de lógica que apareceu nas conversas reveladas pelo Blog do Esmael.
E se a esquerda precisar escolher Sandro?
Mas há uma ironia ainda maior. Se Sandro Alex chegar ao segundo turno contra Moro, será que os mesmos setores da esquerda que hoje defendem uma aproximação com Requião Filho aceitarão votar em Sandro?
E, se aceitarem, estarão também aceitando o grupo político de Ratinho Junior? A resposta provavelmente será “sim”, se a prioridade for simplesmente impedir a vitória de Moro.
E é aí que a eleição deixa de ser uma disputa de esquerda contra direita. Passa a ser uma disputa entre quem cada grupo considera ser o adversário que não pode vencer.
O Paraná não pode virar laboratório de revanche
É aqui que o Sulpost faz seu alerta. O Paraná não pode ser transformado em laboratório de revanche política. Se existem irregularidades, que sejam investigadas. Se existem contratos suspeitos, que sejam auditados. Se existem responsáveis por desvios, que respondam perante a Justiça.
Mas o Estado não pode ficar refém de uma interminável disputa de contas, processos e acusações. E não podemos aceitar que fogueiras sejam acesas na praça nossa Senhora de Salete para destruir reputações e incriminar pessoas, característica inalienável do ativismo judicial de Moro
O Paraná precisa olhar para frente.
Precisa continuar crescendo, investindo, construindo, gerando empregos. Precisa melhorar a saúde e a segurança. Precisa escoar sua produção.
O que o Paraná precisa é de de um governo que tenha capacidade de executar, e não apenas capacidade de acusar.
A ameaça não é apenas eleitoral
Na visão do Sulpost, é justamente por isso que o grupo de Ratinho Junior pode ter mais a ganhar do que a perder ao construir uma estratégia para impedir que a eleição se transforme numa guerra política de longo prazo.
Não estamos falando aqui de defender este ou aquele candidato. Estamos falando de preservar a governabilidade e a honra do Paraná.
Uma eventual administração Moro com a promessa de uma ampla devassa nas contas públicas poderia produzir uma sucessão de confrontos políticos e jurídicos que atravessaria governos, partidos e grupos empresariais. E ninguém sabe onde essa conta terminaria.
Poderiam ser anos de investigação, disputas judiciais e reputações colocadas sob suspeita.
Uma coisa é combater corrupção. Outra é governar sob a lógica de que todo o passado precisa ser destruído para que um novo governo possa nascer.
A eleição ainda está aberta
As pesquisas citadas pelo Blog do Esmael mostram Moro na liderança, com Requião Filho e Sandro Alex disputando a segunda posição.
Mas pesquisa não ganha eleição. Segundo turno não se presume. E alianças não se anunciam antes da hora.
O que já pode ser percebido, porém, é que Sérgio Moro conseguiu uma façanha política: fazer setores que historicamente estiveram em lados opostos começarem a discutir uma união para derrotá-lo.
Essa talvez seja uma das maiores variáveis da eleição paranaense. E existe uma pergunta ainda mais importante: Se a esquerda estiver disposta a fazer uma frente com Sandro Alex para derrotar Moro, por que o grupo de Ratinho Junior não poderia fazer o mesmo com Requião Filho?
A política é feita de interesses. E, quando chega o segundo turno, a ideologia frequentemente dá lugar ao cálculo. A conta de 2024 pode estar sendo cobrada. Mas a conta de 2026 pode ser muito maior. E quem pagar essa conta será, no fim das contas, o eleitor paranaense.
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