Diferente de Deltan, Nelsão prefere abrir mão da candidatura a disputar uma eleição no “tapetão”

Dirigente sindical diz que respeitar o voto também significa ter responsabilidade com quem coloca seu nome na urna — e faz um contraponto direto com a situação de Deltan Dallagnol

Dirigente sindical diz que respeitar o voto também significa ter responsabilidade com quem coloca seu nome na urna — e faz um contraponto direto com a situação de Deltan Dallagnol

Tem momentos em que uma decisão política começa muito antes da urna. Começa na consciência de quem sabe que milhares de pessoas podem colocar confiança, esperança e expectativa em um nome.

É nesse ponto que Nelsão da Força diz ter tomado uma decisão para 2026: não disputar uma eleição enquanto sua situação jurídica não lhe dá a segurança de que, mesmo recebendo votos suficientes, poderá efetivamente assumir o mandato.

Para o dirigente sindical Nelson Silva de Souza, a questão não é apenas saber se existe uma possibilidade jurídica de registrar uma candidatura e recorrer posteriormente. A pergunta, segundo ele, é outra: é correto pedir o voto do eleitor quando existe o risco de esse voto acabar sendo questionado ou anulado pela Justiça Eleitoral?

“Eu poderia sair candidato e brigar depois na Justiça. Mas eu respeito os meus eleitores”, resume Nelsão.

E é justamente aí que ele estabelece o contraponto com Deltan Dallagnol, que voltou a ocupar espaço no debate político paranaense.

“Não quero enganar quem acredita em mim”

Nelsão não esconde a vontade de continuar participando da política. Pelo contrário. O dirigente sindical permanece ativo nos atos, nas mobilizações e nas campanhas dos candidatos e candidatas que apoia.

O que ele decidiu não fazer é transformar uma possível candidatura em uma aposta judicial.

Para Nelsão, existe uma diferença importante entre lutar por um direito e colocar o eleitor diante de uma situação de incerteza sobre o destino do próprio voto.

Na eleição de 2022, Nelsão disputou uma vaga de deputado estadual pelo PT. Seu registro foi indeferido com recurso e, na totalização oficial daquele pleito, os 6.170 votos recebidos por ele apareceram como “anulado sub judice”.

O episódio deixou uma marca política. E, para ele, também deixou uma lição. Em vez de repetir a experiência em 2026, Nelsão decidiu não colocar o eleitor diante da possibilidade de votar em um candidato que poderia, posteriormente, não conseguir assumir o mandato.

É uma escolha que ele apresenta não como desistência da política, mas como uma forma de respeito ao voto. É uma questão de respeitar os eleitores e eleitoras paranaenses, que confiam nele, em seu capital político e nas décadas de lutas que tem pela classe trabalhadora.

A comparação com Deltan Dallagnol

É nesse contexto que Nelsão questiona a postura de Deltan Dallagnol. O ex-procurador da República teve o registro de candidatura a deputado federal cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2023. A decisão foi unânime e reformou o entendimento anterior do TRE-PR, que havia deferido seu registro nas eleições de 2022.

O processo envolveu, entre outros pontos, a aplicação da alínea “q” do artigo 1º, inciso I, da Lei Complementar nº 64/1990, a Lei de Inelegibilidade.

Segundo o TSE, a norma alcança magistrados e integrantes do Ministério Público que tenham perdido o cargo por sentença, sido aposentados compulsoriamente por decisão sancionatória ou tenham pedido exoneração ou aposentadoria voluntária enquanto pendente processo administrativo disciplinar, pelo prazo de oito anos.

No julgamento de 2023, o relator, ministro Benedito Gonçalves, entendeu que Dallagnol havia antecipado sua exoneração do Ministério Público Federal com o objetivo de evitar a incidência da inelegibilidade. O TSE classificou a conduta como fraude à lei.

O tribunal destacou que, quando pediu exoneração, Dallagnol já tinha dois processos administrativos disciplinares encerrados com aplicação de sanções e outros 15 procedimentos em tramitação no Conselho Nacional do Ministério Público.

É importante fazer aqui uma distinção: a decisão do TSE refere-se ao registro de candidatura das eleições de 2022. Uma eventual candidatura em 2026 precisa ser analisada à luz da legislação, dos prazos aplicáveis e das decisões da Justiça Eleitoral no respectivo processo de registro.

Mas o precedente de 2022 existe — e é justamente ele que Nelsão coloca no centro do debate.

O eleitor não deveria ser tratado como peça de uma estratégia jurídica

Para Nelsão, a discussão ultrapassa os nomes de Dallagnol e dele próprio. É uma discussão sobre o significado do voto. Porque, quando alguém entra em uma eleição, não está apenas colocando um número na urna. Está pedindo que pessoas reais depositem confiança em seu nome.

O trabalhador que acorda cedo, a aposentada que acompanha a política, o jovem que está votando pela primeira vez, o sindicalista que acredita em determinada proposta: todos eles esperam que aquele voto tenha um destino concreto. E que que o voto no final das contas seja válido, para eleger a pessoa para com a qual a confiança do eleitor foi depositada.

Um mandato.

É por isso que Nelsão prefere não correr o risco. Ele poderia, em tese, tentar judicializar sua situação, disputar votos e aguardar o resultado dos processos. Mas decidiu que não quer transformar seus eleitores em participantes involuntários de uma batalha jurídica.

“Eu respeito os eleitores”, insiste.

Uma escolha que também é política

A decisão de Nelsão não significa ficar longe das eleições.

Ele continua fazendo política. Continua participando de atos, conversando com trabalhadores, defendendo suas bandeiras e apoiando os nomes que considera capazes de representar suas ideias. A diferença é que, em 2026, ele pretende fazer isso sem colocar o próprio nome na urna.

É uma escolha particularmente significativa para quem construiu sua trajetória política dentro do movimento sindical e costuma falar justamente em nome da organização coletiva. Nelsão entende que política também se faz quando se aceita um limite.

E, para ele, respeitar a democracia não é apenas defender o direito de disputar uma eleição. É também respeitar o eleitor suficientemente para dizer quando não é possível garantir que o voto recebido se transforme, de fato, em mandato.

O caso Dallagnol e a responsabilidade da Justiça Eleitoral

O caso de Dallagnol mostra como o tema da elegibilidade pode ser complexo. Em 2022, o TRE-PR havia considerado improcedentes as impugnações e deferido seu registro. O tribunal regional entendeu, naquele momento, que não havia processo administrativo disciplinar em andamento quando Dallagnol pediu exoneração. O TSE, posteriormente, adotou entendimento diferente e cassou o registro.

Ou seja: não se trata de uma discussão simples, muito menos de uma questão que possa ser resolvida apenas por slogans políticos. Existe uma decisão do TSE, existe um precedente e existem argumentos jurídicos que precisam ser conhecidos pelo eleitor.

É justamente por isso que a informação precisa chegar antes do voto — e não depois. O eleitor tem o direito de saber se está escolhendo alguém que poderá exercer o mandato para o qual está pedindo seu voto. E é nesse ponto que a escolha de Nelsão ganha uma dimensão que vai além da sua própria candidatura.

Ele está dizendo que prefere perder uma eleição que não disputará a correr o risco de ganhar uma votação que talvez não possa transformar em mandato.

“Eu poderia tentar. Mas não seria justo com quem vota em mim”

No fundo, a mensagem de Nelsão é bastante simples. Ele não está dizendo que deixou de acreditar na política. Também não está dizendo que abandonou suas bandeiras ou que pretende se afastar da luta sindical.

Está dizendo apenas que, diante da sua situação jurídica, prefere não pedir ao eleitor algo que não tem absoluta segurança de poder entregar depois. E essa talvez seja a parte mais importante dessa história.

Em tempos de tanta desconfiança com a política, respeitar o voto também pode significar ter a coragem de não colocar o próprio nome na urna.

Para Nelsão, é uma questão de coerência. Para o eleitor, fica uma reflexão. Antes de perguntar em quem votar, talvez seja preciso perguntar também: esse voto poderá realmente se transformar no mandato que estou ajudando a escolher?

Essa é uma resposta que deve ser dada pela Justiça Eleitoral. Mas, para Nelsão, enquanto houver dúvida razoável sobre a possibilidade de assumir, a decisão está tomada.

Ele prefere continuar fazendo política do lado de fora da urna do que pedir ao eleitor um voto que possa acabar no meio de uma disputa judicial.

Nota editorial: as informações sobre Deltan Dallagnol foram conferidas em decisões e conteúdos oficiais do Tribunal Superior Eleitoral. A situação jurídica de qualquer candidatura para 2026 deverá ser definida no respectivo processo de registro pela Justiça Eleitoral. As informações sobre a Nelsão da Força foram colhidas em entrevista do blog com o mesmo.

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