11 de setembro: 25 anos depois, o mundo que ficou para trás

Os atentados que mataram 2.977 pessoas nos Estados Unidos mudaram a segurança, a política internacional e a própria relação dos americanos com o medo. No Brasil, o episódio também ajudou a consolidar uma agenda de prevenção ao terrorismo

Há 25 anos, os Estados Unidos foram atingidos pelo maior atentado terrorista de sua história. Em 11 de setembro de 2001, 19 integrantes da Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais.

Dois foram lançados contra as Torres Gêmeas, em Nova York. Um atingiu o Pentágono, em Washington. O quarto caiu em Shanksville, na Pensilvânia, depois que passageiros tentaram retomar o controle da aeronave.

2.977 pessoas morreram. Eram passageiros, trabalhadores, bombeiros, policiais, profissionais de emergência e pessoas que simplesmente começavam mais um dia de trabalho.

O que mudou nos Estados Unidos

Uma das principais conclusões da investigação posterior ao atentado foi que o problema não era simplesmente a falta de informação. Diferentes órgãos americanos possuíam fragmentos importantes sobre a Al-Qaeda, mas não conseguiram compartilhar e conectar essas informações a tempo.

A resposta foi uma das maiores reorganizações da segurança americana em décadas. O país criou o Departamento de Segurança Interna, fortaleceu a cooperação entre agências de inteligência e transformou os procedimentos de segurança dos aeroportos.

A Comissão do 11 de Setembro apontou a necessidade de eliminar as barreiras que impediam as instituições de compartilhar informações e "conectar os pontos".

A principal mudança: o terrorismo passou a ser tratado como uma ameaça permanente à segurança nacional americana, e não apenas como um problema policial.

Quando segurança virou também desconfiança

Poucas semanas depois dos atentados, o Congresso americano aprovou o USA PATRIOT Act, ampliando os poderes de investigação e vigilância do governo.

A lógica era compreensível: depois de um ataque daquela dimensão, o Estado precisava encontrar ameaças antes que elas se transformassem em novos atentados.

O problema apareceu na outra ponta da equação: quanto de liberdade uma sociedade está disposta a entregar em troca de segurança?

A própria Comissão do 11 de Setembro defendeu maior capacidade de coleta e compartilhamento de informações, mas também ressaltou a necessidade de proteger as liberdades civis.

Nos anos seguintes, a discussão envolveu vigilância em massa, interrogatórios, Guantánamo e outras políticas adotadas durante a chamada "Guerra ao Terror". A invasão do Iraque também se tornou parte desse legado, embora o regime de Saddam Hussein não tenha participado dos atentados de 11 de setembro.

Uma contradição que permanece: o Estado ficou mais preparado para identificar ameaças, mas também ganhou poderes que passaram a ser questionados por seu impacto sobre a privacidade e as liberdades individuais.

O terrorismo também mudou

Osama bin Laden foi morto em 2011. Seu sucessor, Ayman al-Zawahiri, morreu em uma operação americana em 2022.

A Al-Qaeda perdeu força e capacidade operacional, mas não desapareceu. A organização tornou-se mais descentralizada e mantém afiliadas em partes da África, do Oriente Médio e da Ásia.

O terrorismo internacional também mudou de formato. Além das grandes organizações estruturadas, governos passaram a enfrentar indivíduos radicalizados e pequenos grupos capazes de agir com menos recursos.

A ameaça agora também está dentro de casa

Uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada em agosto de 2026 mostra uma mudança importante na percepção americana: o extremismo doméstico passou a ser visto como uma ameaça maior do que o terrorismo estrangeiro.

Segundo o levantamento, 33% dos entrevistados apontaram o terrorismo doméstico entre as maiores ameaças à segurança dos Estados Unidos, contra 20% que citaram o terrorismo internacional.

Ao mesmo tempo, 65% disseram ser contrários à vigilância doméstica sem mandado judicial.

25 anos depois: os americanos continuam preocupados com terrorismo, mas também demonstram preocupação com o poder que o Estado adquiriu para combatê-lo.

O 11 de setembro não terminou naquele dia

Existe uma parte dessa história que costuma ficar fora das imagens das cerimônias: as pessoas que adoeceram anos depois.

A poeira e os produtos tóxicos liberados pelo desabamento das torres provocaram doenças entre bombeiros, policiais, trabalhadores de resgate e moradores da região.

O World Trade Center Health Program acompanha mais de 150 mil pessoas afetadas. Milhares de participantes já morreram em decorrência de doenças relacionadas à exposição.

O atentado acabou em uma manhã. Suas consequências não.

E o que o Brasil aprendeu?

O Brasil não sofreu um ataque terrorista comparável ao de 11 de setembro. Ainda assim, o episódio ajudou a consolidar internacionalmente uma nova agenda de prevenção ao terrorismo, segurança da aviação, inteligência e combate ao financiamento de organizações extremistas.

Em 2016, o Brasil aprovou a Lei 13.260, a chamada Lei Antiterrorismo , que definiu crimes de terrorismo e estabeleceu instrumentos específicos de investigação e punição.

A legislação foi aprovada durante a preparação para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e faz parte de um processo internacional mais amplo. Por isso, não seria correto dizer que a lei foi simplesmente uma resposta brasileira ao 11 de Setembro.

Hoje, a Agência Brasileira de Inteligência considera o terrorismo uma ameaça que pode envolver organizações internacionais, indivíduos radicalizados e atos motivados por diferentes ideologias.

O sistema financeiro brasileiro também incorporou mecanismos específicos de prevenção ao financiamento do terrorismo, dentro das políticas de prevenção à lavagem de dinheiro.

A diferença brasileira: enquanto os Estados Unidos tiveram de reconstruir sua política de segurança depois de sofrer um ataque em seu próprio território, o Brasil passou a reforçar mecanismos de prevenção e cooperação internacional sem ter vivido uma tragédia de proporções semelhantes.

O que ficou de lição?

A primeira lição americana foi que uma potência militar pode ser surpreendida. A segunda foi que informação não basta quando as instituições não conseguem compartilhá-la. A terceira foi que combater o terrorismo exige inteligência, cooperação internacional e capacidade de prevenção.

Mas existe uma quarta lição, talvez mais difícil: o medo também pode mudar uma sociedade.

Depois do 11 de setembro, os Estados Unidos ficaram mais preparados para identificar determinadas ameaças. Também ficaram mais desconfiados, ampliaram o aparato de segurança e passaram a conviver com uma discussão permanente sobre os limites da vigilância.

A experiência das últimas duas décadas e meia mostrou que segurança e liberdade não precisam ser tratadas como escolhas opostas. Uma democracia precisa ser capaz de proteger seus cidadãos sem transformar todos eles em suspeitos.

Vinte e cinco anos depois, lembrar as 2.977 vítimas é também lembrar tudo o que aconteceu depois delas.

O 11 de setembro não é apenas a história de dois aviões contra duas torres. É a história de como uma manhã mudou a política internacional, transformou a segurança dos aeroportos, alterou as estruturas de inteligência, iniciou guerras e deixou uma marca profunda na relação dos Estados Unidos com o medo, a vigilância e a própria ideia de liberdade.

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