PT do Paraná pede CPI para investigar saída de Flávio Bolsonaro pelo Estado

Arilson Chiorato, presidente estadual do PT e deputado federal eleito, quer esclarecer se houve participação ou omissão de autoridades paranaenses na operação que levou o senador aos Estados Unidos

 
PT do Paraná pede CPI para investigar saída de Flávio Bolsonaro pelo Estado

O Paraná entrou no centro de mais um capítulo envolvendo a família Bolsonaro. Desta vez, a questão não é apenas como o senador Flávio Bolsonaro (PL) deixou o Brasil, mas quem organizou a complexa logística que permitiu sua passagem pela região da tríplice fronteira, utilizando diferentes meios de transporte e envolvendo personagens de diferentes nacionalidades.

Diante das informações que vieram a público, o Partido dos Trabalhadores do Paraná decidiu agir. Neste domingo (1º), o PT-PR protocolou na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) um pedido de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as circunstâncias da operação.

A iniciativa foi anunciada por Arilson Chiorato, presidente estadual do partido e deputado federal eleito pelo Paraná, que pretende levar o assunto para o centro do debate político e institucional. A proposta é esclarecer se houve participação, facilitação ou omissão de autoridades estaduais e municipais na movimentação de Flávio Bolsonaro e de seus familiares pelo território paranaense.

Arilson, que recebeu 77.671 votos nas eleições de outubro e assumirá uma cadeira na Câmara dos Deputados em 2027, defende que os fatos sejam esclarecidos. A iniciativa também coloca uma questão importante para o Paraná: as estruturas públicas de segurança e fiscalização cumpriram seu papel durante uma operação que, segundo as reportagens, envolveu uma logística bastante sofisticada?

Uma operação com muitos personagens e perguntas sem respostas

A iniciativa do PT ganhou força depois da reportagem do Fantástico, da TV Globo, exibida neste domingo (1º). Com documentos migratórios, imagens e informações obtidas durante a investigação jornalística, o programa apresentou novos elementos sobre o trajeto utilizado pelo senador para deixar o Brasil.

Segundo a reportagem, a operação envolveu aeronaves particulares, vans, motoristas, advogados e um homem apontado como ex-integrante do serviço de inteligência israelense, o Mossad. Entre os personagens identificados está Menachem Booky Halevy, cidadão israelense que teria atravessado a fronteira acompanhado do advogado Roberto Jorge Alexandre, que já atuou na defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O motorista Neri Luiz Dala Corte declarou ter sido contratado para transportar dois passageiros de Foz do Iguaçu até o aeroporto de Puerto Iguazú, na Argentina. Ele negou ter transportado integrantes da família Bolsonaro.

Outro ponto que chamou a atenção foi a participação atribuída à empresa Iguaçu Dallas Travel Turismo, associada à van que transportou Fernanda Bolsonaro e as duas filhas do senador, depois de um deslocamento até o aeroporto de Cascavel.

Conforme os detalhes apresentados pelo Fantástico e repercutidos pelo UOL, em reportagem publicada nesta segunda-feira (2), o endereço cadastrado da empresa na Receita Federal corresponde a um estacionamento. Trabalhadores do local disseram que a agência nunca funcionou ali. A empresa, por sua vez, negou ter realizado o transporte.

Três registros migratórios e documentos diferentes

Um dos aspectos mais intrigantes da investigação envolve os registros migratórios argentinos. De acordo com os documentos apresentados pelo Fantástico, Flávio Bolsonaro teve três registros de entrada na Argentina em um intervalo de aproximadamente 40 minutos, utilizando documentos diferentes.

Os registros foram feitos com passaporte italiano, carteira de motorista e passaporte brasileiro. Posteriormente, os dois registros associados a documentos brasileiros foram cancelados, permanecendo válido aquele realizado com o passaporte italiano.

A reconstrução apresentada pela reportagem indica que o senador teria seguido de avião de Buenos Aires até Puerto Iguazú, enquanto sua família realizou outro percurso. São informações que levantam questionamentos importantes sobre a organização da viagem e os procedimentos de controle migratório.

O jato particular e a participação de aliados de Trump

A investigação também trouxe informações sobre a utilização de aeronaves particulares. Segundo reportagem do UOL, o primeiro deslocamento de Flávio teria ocorrido em um jato particular ligado ao advogado e empresário Willer Tomaz.

A assessoria de Tomaz negou a informação e afirmou que nenhuma aeronave de sua propriedade ou de empresas vinculadas à sua família foi utilizada pelo senador ou por seus familiares para deixar o Brasil.

Já o transporte internacional até os Estados Unidos teria sido organizado por Jason Miller, estrategista político ligado a Donald Trump e funcionário especial do governo norte-americano. A informação foi atribuída pelo UOL ao jornal The New York Times. Miller não comentou o caso.

Segundo a apuração publicada pelo UOL, a viagem internacional teria custado aproximadamente US$ 150 mil. É importante destacar que a identificação dessas pessoas e empresas na reconstrução dos deslocamentos não significa, por si só, comprovação de participação em qualquer crime. As responsabilidades individuais ainda precisam ser apuradas. É aí que entra a PF.

Polícia Federal investiga o caso

A Polícia Federal (PF) já confirmou a abertura de investigação sobre as circunstâncias da saída de Flávio Bolsonaro. Em informação divulgada pela Agência Brasil, a corporação informou que não encontrou registros oficiais de passagem do senador pelos postos brasileiros de controle migratório.

O episódio ocorreu depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que Flávio entregasse seus passaportes e proibiu sua saída do território nacional. A PF também informou que havia inserido um alerta migratório nos sistemas de controle.

A defesa do senador, por meio do advogado Frederick Wassef, contestou a versão de fuga e afirmou ao Fantástico que as informações sobre o trajeto não seriam oficiais ou confirmadas.

O que Arilson Chiorato quer investigar no Paraná

É justamente nesse ponto que entra a iniciativa do presidente do PT-PR. A CPI pretendida por Arilson Chiorato busca esclarecer questões que vão além da responsabilidade individual do senador.

Entre os pontos que precisam ser investigados estão:

  • Quem organizou e contratou os deslocamentos terrestres utilizados pelo senador e seus familiares?
  • Quais veículos e estruturas aeroportuárias foram utilizados durante a operação?
  • Houve participação ou facilitação de agentes públicos estaduais ou municipais?
  • Algum órgão responsável pela fiscalização tinha conhecimento da movimentação?
  • Existiram falhas deliberadas ou omissões nos procedimentos de controle e segurança?

A proposta é que a ALEP exerça sua função fiscalizadora e contribua para esclarecer se houve alguma irregularidade envolvendo estruturas e agentes públicos do Paraná. O pedido ainda precisa cumprir os requisitos regimentais para que a comissão seja efetivamente instalada.

O Paraná precisa de respostas

Independentemente das disputas partidárias, existe uma questão de interesse público que não pode ser ignorada. Quando uma operação envolve deslocamentos internacionais, diferentes aeronaves, veículos terrestres, empresas de transporte e uma rede de pessoas que aparentemente atuaram de maneira coordenada, é legítimo perguntar se todos os procedimentos legais foram respeitados.

O Paraná não pode ser tratado apenas como território de passagem de uma operação cujas circunstâncias ainda estão longe de ser completamente esclarecidas. A iniciativa do deputado Arilson coloca a Assembleia Legislativa diante de uma responsabilidade institucional: investigar, fiscalizar e exigir explicações.

Não se trata de antecipar condenações nem de transformar suspeitas em provas. Trata-se de esclarecer os fatos, identificar eventuais responsabilidades e garantir que a lei seja aplicada igualmente a todos.

Em uma democracia, ninguém está acima da lei. E a população tem o direito de saber o que aconteceu.


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