COP17 termina com acordos, mas o planeta continua esperando ações concretas
Menos da metade das metas de proteção da biodiversidade está no caminho para 2030. Financiamento, mudanças climáticas e preservação ambiental seguem como grandes desafios
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| Globo terrestre com representações da fauna e da flora, exposto durante a conferência em 24 de outubro de 2026 - Crédito: Mammysou17 / Wikimedia Commons. |
O mundo se reuniu durante quase duas semanas em Yerevan, capital da Armênia, para discutir um assunto do qual depende a própria sobrevivência da humanidade: a preservação da biodiversidade. A 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP17) chegou ao encerramento nesta sexta-feira (30), depois de negociações difíceis, divergências entre governos e acordos aprovados além do horário previsto.
O resultado deixa uma mensagem que merece atenção: apesar dos compromissos assumidos, estamos longe de fazer o necessário para impedir a destruição dos ecossistemas e a perda acelerada de espécies em nosso planeta.
Segundo levantamento divulgado pela Agência Brasil, com base na primeira avaliação global do Marco de Kunming-Montreal, menos da metade das metas nacionais relacionadas aos objetivos internacionais de proteção da biodiversidade está no caminho para ser alcançada até 2030.
Não estamos falando de um problema distante, restrito a florestas tropicais ou a espécies ameaçadas que aparecem nos documentários. Estamos falando da água que consumimos, dos alimentos que chegam à nossa mesa, da qualidade do ar, da estabilidade do clima e das condições de vida das próximas gerações.
Acordos importantes, mas ainda insuficientes
De acordo com informações divulgadas pela Agência France-Presse (AFP), quase 200 países conseguiram aprovar documentos importantes depois de duas semanas de negociações tensas. A aprovação ocorreu em regime de horas extras, demonstrando as dificuldades para construir consensos.
Entre os principais pontos de divergência estiveram o financiamento internacional da conservação, a revisão de subsídios que prejudicam a natureza e a aceitação de conclusões científicas sobre a situação ambiental do planeta.
Um dos números mais preocupantes apresentados nas discussões é o tamanho do déficit financeiro. Segundo a AFP, o mundo precisa de aproximadamente US$ 700 bilhões adicionais por ano para restaurar ecossistemas degradados, proteger espécies ameaçadas e conservar florestas, áreas úmidas e outros ambientes naturais.
O Marco Global de Kunming-Montreal estabelece como objetivo mobilizar US$ 200 bilhões anuais de todas as fontes até 2030, incluindo US$ 30 bilhões em financiamento público internacional. A distância entre o compromisso e os recursos efetivamente disponíveis continua sendo um obstáculo enorme.
A situação fica ainda mais contraditória quando se observa que os próprios governos continuam destinando recursos a atividades que prejudicam a biodiversidade. A revisão de aproximadamente US$ 500 bilhões em subsídios nocivos à natureza por ano é uma das medidas fundamentais previstas no esforço internacional.
Clima e biodiversidade não podem ser tratados separadamente
Existe uma questão que precisa ser compreendida por governos, empresas e pela sociedade: não há como enfrentar a crise climática sem proteger a natureza. Da mesma forma, não será possível conservar a biodiversidade se continuarmos agravando o aquecimento global.
O desmatamento, a degradação dos solos, a poluição dos rios e oceanos, a destruição de habitats e a emissão de gases de efeito estufa fazem parte de uma mesma crise ambiental.
Durante a COP17, a diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Inger Andersen, reforçou justamente essa conexão. Conforme registrado pelo Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD), a natureza e o clima são inseparáveis. A resposta precisa integrar políticas de preservação, adaptação climática, recuperação de áreas degradadas e transformação dos sistemas produtivos.
Isso significa que as decisões tomadas nas conferências climáticas precisam conversar com os compromissos de proteção da biodiversidade. Não adianta anunciar metas de redução de emissões enquanto se permite a destruição das florestas, a contaminação dos recursos hídricos e o desaparecimento de espécies.
A ação climática precisa sair dos discursos e chegar ao cotidiano. Energia limpa, transporte menos poluente, agricultura sustentável, combate ao desmatamento e proteção dos oceanos não são pautas isoladas. São partes de uma estratégia necessária para garantir condições dignas de vida.
O Brasil também tem muito a fazer
O Brasil ocupa uma posição estratégica nesse debate. Abriga alguns dos ecossistemas mais importantes do planeta e uma parcela extraordinária da biodiversidade mundial. Mas essa riqueza também representa uma enorme responsabilidade.
Durante a conferência, o país levou propostas relacionadas à conectividade de áreas de conservação terrestres, de água doce e marinhas, por meio de corredores verdes e azuis. A ideia é permitir que os ecossistemas permaneçam conectados, favorecendo a sobrevivência das espécies e a recuperação ambiental.
Um alerta concreto veio de outro levantamento apresentado em Yerevan. Conforme reportagem da Agência Brasil, cinco ecorregiões de recifes de corais brasileiros foram classificadas como criticamente ameaçadas. Entre elas estão áreas de Fernando de Noronha e Atol das Rocas, Costa dos Corais, Baía de Todos os Santos e Abrolhos.
São ambientes que abrigam uma diversidade extraordinária de vida marinha, ajudam a proteger a costa e sustentam atividades econômicas e comunidades que dependem do oceano.
Proteger esses lugares não é luxo ambientalista. É proteger patrimônio natural, segurança alimentar, turismo, pesca e a vida de milhões de pessoas.
O compromisso precisa chegar às pessoas
Outro ponto importante levantado durante a COP17 é a dificuldade de fazer o dinheiro prometido chegar efetivamente a quem trabalha na preservação ambiental. Povos indígenas, comunidades tradicionais, organizações locais, mulheres, jovens e pessoas com deficiência também enfrentam a falta de recursos para desenvolver iniciativas de conservação.
Não podemos esquecer que muitas das áreas mais preservadas do planeta permanecem assim graças ao conhecimento e ao trabalho de populações que vivem em contato direto com a natureza. Reconhecer esses grupos, garantir seus direitos e financiar suas iniciativas precisa fazer parte das políticas ambientais.
A conferência também deixa uma cobrança sobre o setor privado. Grandes empresas e instituições financeiras precisam assumir responsabilidade pelos impactos que suas atividades provocam sobre a biodiversidade. Transparência ambiental não pode ser apenas uma peça de publicidade ou um relatório apresentado aos investidores.
Não existe um planeta reserva
As conferências internacionais são importantes. Reúnem governos, cientistas, organizações sociais e representantes de diferentes povos para construir caminhos coletivos. Mas seus resultados precisam ser medidos pelo que acontece depois que as autoridades deixam as salas de negociação.
Uma floresta preservada não nasce de uma declaração diplomática. Um rio limpo não aparece porque representantes de quase 200 países assinaram um documento. E uma espécie ameaçada não recupera seu habitat apenas com promessas.
É preciso fiscalização, investimento, ciência, educação ambiental, políticas públicas consistentes e, principalmente, vontade política para enfrentar interesses econômicos que continuam colocando o lucro imediato acima da sobrevivência dos ecossistemas.
A COP17 terminou com acordos importantes, mas também com a demonstração de que a resposta mundial continua insuficiente. Restam apenas quatro anos para 2030, prazo estabelecido para cumprir as principais metas do Marco Global de Kunming-Montreal.
O tempo está passando. E a natureza não pode esperar indefinidamente pela próxima conferência.
Preservar a biodiversidade e enfrentar as mudanças climáticas não são escolhas ideológicas ou preocupações de um grupo específico. São condições fundamentais para que nossos filhos, netos e as próximas gerações tenham água, alimento, saúde e um ambiente capaz de sustentar a vida.
O planeta não precisa de mais promessas. Precisa de ação.
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