Do petróglifo à inteligência artificial: o coração brasileiro ainda pulsa sem medo de ser feliz

Uma crônica de Ronald Stresser Jr. para o Sulpost, sobre política, memória, jornalismo, inteligência artificial e um Brasil que tem tudo para dar certo

Por Ronald Stresser Jr | Editor do Sulpost

 

Hoje acordei com uma sensação de alívio imenso. Como se tivesse retirado das costas uma cruz tão pesada quanto a de Jesus Cristo. Depois de tantos meses de tensão, desinformação, ataques à democracia, mentiras repetidas mil vezes, como ensinava a propaganda nazista, e uma campanha eleitoral que testou os nervos de milhões de brasileiros, finalmente pude respirar um pouco mais aliviado.

Como eleitor de Lula desde 2002, confesso que a vitória tem um significado especial. Não se trata apenas de um resultado eleitoral. É a sensação de que o Brasil ainda consegue reconhecer a diferença entre uma promessa de paraíso embrulhada em propaganda e a realidade de um país que precisa trabalhar, produzir, distribuir oportunidades e riqueza com máximo respeito ao seu povo.

Ontem, 25 de outubro de 2026, o Brasil furou a bolha e decidiu o futuro de todos e todas nós nas urnas. E o coração? Segue pulsando, sem medo de ser feliz. Mas foram muitas emoções.

O bolsonarismo sofreu uma derrota importante, embora seus representantes continuem com força política, em especial no Senado. Não seria jornalismo sério confundir uma vitória presidencial com o desaparecimento da oposição. Democracia não é isso. O que espero é que a política volte a ser, cada vez mais, o espaço do debate de ideias, e não uma arena permanente de ódio, perseguição e fabricação de inimigos imaginários. Foi assim que aprendi no barzinho que meu pai tinha no Abranches, quando eu ainda era piá.

O Brasil é grande demais para caber na cabeça de quem pretende governá-lo com factóides, narrativas falaciosos, preconceitos e discursos de salvação. Uma nação continental, com a diversidade cultural, a riqueza natural, a capacidade produtiva e o talento do povo brasileiro, não se constrói com ofensas em rede social. Constrói-se com educação, ciência, tecnologia, trabalho, infraestrutura, soberania e respeito às diferenças.

Foi justamente isso que me assustou durante esta campanha. A desinformação, o radicalismo político, o aparelhamento de instituições e a mistura perigosa entre religião e poder. A fé merece respeito. O que não merece é ser usada como instrumento de manipulação eleitoral. Deus não precisa de cabo eleitoral, muito menos de uma máquina de espalhar mentiras.

Também me preocupa o crescimento de correntes religiosas fundamentalistas que pretendem transformar suas convicções particulares em regras obrigatórias para toda a sociedade. O Brasil é um país plural. Católicos, evangélicos, umbandistas, espíritas, judeus, muçulmanos, taoístas, pentecostais, pessoas de outras tradições e quem não professa religião alguma precisam ter o mesmo direito de viver em paz. Direito inalienável a toda cidadã e a todo cidadão, garantido pela CF de 88.

Ninguém precisa deixar de acreditar naquilo que lhe dá esperança. Só precisa entender que o vizinho tem o mesmo direito que você de acreditar em outra coisa. Aceitar o diferente não é sinal de fraqueza. Definitivamente, é sinal de grandeza. Mas as provocações bolsonaristas ultrapassaram todos os limites, inclusive ao meu miodo de ver jurídico, constitucionais. Suponho ser crime o que fizeram.

Não queremos transformar o Brasil em uma versão tropical de qualquer regime fundamentalista, assim como não precisamos importar modelos políticos e econômicos que deram errado em outros países. Estados Unidos, Itália, Argentina e Israel têm suas histórias, suas contradições e seus desafios. Podemos aprender com todos eles, mas não precisamos copiar os erros de ninguém. Somos um país pacífico, mas não aceitamos agressões, que venham ser intrometerem em nossos assuntos internos e nem que tentem colocar em cheque mate na nossa soberania.

O Brasil tem seu próprio caminho e cada um de nós tira esse caminho junto com o Brasil independente de credo ou ideologia política. Esse caminho passa por compreender que soberania não é isolamento, que cooperação internacional não é submissão e que um país com a nossa dimensão não precisa pedir licença para pensar grande.

Aliás, pensando grande, há uma ideia que me que trago comigo há muito tempo: o Brasil precisa ocupar um lugar compatível com sua importância no mundo. Se somos diferentes, as demais Nações do mundo tem que aprender a conviver viver com a nossa diferença, com o nosso diferencial. Isso significa lutar por uma reforma da governança internacional, ampliar nossa participação nas decisões globais e defender um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Não é um presente que alguém vai nos entregar. É um objetivo diplomático que exige articulação, credibilidade, desenvolvimento e capacidade de construir consensos.

O mundo precisa do Brasil. Principalmente o mundo que abraça o multilateralismo. Eles precisam da nossa produção de alimentos, da nossa energia, da nossa biodiversidade, da nossa ciência, da nossa capacidade de produzir energia limpa, das nossas indústrias e da nossa experiência de convivência entre diferentes culturas. Em muitos aspectos, eles precisam de nós tanto quanto nós precisamos deles. Em alguns, talvez precisem até mais.

Mas vamos com calma, passo a passo. Antes de ingressar no seleto grupo das grandes potências mundiais, temos de garantir que o a brasileira, que o brasileiro, e as nossas famílias possam comer, trabalhar, estudar, morar com dignidade e envelhecer sem medo. Não existe lugar no primeiro mundo para quem fica para trás em termos de Índice de Desenvolvimento Humano.

Minha profissão também tem história

Às vezes, alguns jovens jornalistas me criticam porque não concluí uma faculdade de Jornalismo. Sou formado em Produção de Rádio e TV, tenho pós-graduação em Mídias Digitais e possuo registro profissional de jornalista pelo Ministério do Trabalho, com registro no Paraná, além de registro de radialista no Rio de Janeiro.

Não digo isso para distribuir diplomas imaginários a mim mesmo, ou contar supostas vantagens. Muito menos para desmerecer quem passou anos numa universidade estudando teoria da comunicação, ética, história, economia e técnicas de reportagem. Inclusive disciplinas semelhantes com as do curso de Produção em Rádio e TV que fiz no Rio de Janeiro, seguida da pós-graduação em Mídias Digitais, à qual obtive bolsa devido ao meu Coeficiente de Rendimento.

O conhecimento acadêmico é assaz. O que não aceito é a ideia de que a formação de alguém possa ser julgada exclusivamente pelo nome que aparece no diploma. Um exemplo que tenho vem de casa: meu avô Adherbal G. Stresser, foi autodidata, nunca frequentou a escola, mas, anos mais tarde, foi convidado como professor na aula inaugural de jornalismo da Universidade Federal do Paraná e da Pontifícia Universidade Católica de Curitiba

O jornalismo está no sangue da minha família há quatro gerações. Minha história vem de longe, de Augusto Stresser, meu bisavô, ligado à música, ao jornalismo e à vida pública. Contam as histórias de família que ele tocava chorinho até altas horas da madrugada, e também gostava de uma cachacinha. Era maestro, jornalista e exerceu funções públicas ligadas ao Tesouro Nacional. Uma figura de outros tempos, quando a vida intelectual, a política e a cultura se encontravam nas conversas intermináveis dos cafés e botecos.

Depois vieram as outras gerações, cada uma com sua experiência, seus desafios e suas maneiras de compreender o mundo. E aqui estou eu, tentando levar essa tradição adiante num tempo em que a notícia viaja pelo planeta antes mesmo de alguém terminar de tomar o café da manhã. Confesso, não é fácil. O jornalismo independente, ademais do Campo Progressista, está sendo asfixiado pelo poder econômico. Sem as parcerias, conquistadas pelo meu blog, seria ainda mais difícil continuar. Fazer jornalismo de qualidade requer fundos, recursos.

Não sou dono da verdade, ninguém é, pois a verdade pertence apenas ao Criador, que prega a nós ser ela a religião superior. A voz do povo é a voz de Deus, justamente porque a voz do Grande Arquiteto se reflete na população. Nenhum jornalista deveria se considerar dono da verdade. Nosso compromisso é procurá-la, confrontar versões, ouvir as pessoas, corrigir erros e distinguir informação de propaganda. O resto é conversa para boi dormir.

E aqui entra uma questão que considero fundamental: a tecnologia mudou, mas a necessidade de pensar continua a mesma.

Vamos voltar no tempo. Antes de existir jornal, antes de existir papel, antes de Gutenberg transformar a impressão em uma revolução, nossos antepassados já registravam experiências, crenças e acontecimentos em paredes de cavernas e pedras. Os petróglifos eram uma forma de deixar marcas no mundo, de comunicar algo às gerações posteriores.

Não vou cometer o anacronismo de chamar aqueles registros de jornalismo. Mas podemos reconhecer neles uma necessidade profundamente humana: comunicar, preservar a memória e transmitir conhecimento.

Vieram a escrita, os manuscritos, a imprensa, os jornais, o rádio, o cinema, a televisão e a internet. Eu acompanhei a transformação de muitas dessas ferramentas. Desde o teletipo ao fax, vi a máquina de escrever ceder espaço ao computador, a impressora se conectar à máquina e o corretor ortográfico começar a apontar os erros que antes precisavam ser descobertos no olho. Então começaram a surgir as sugestões para continuação das frases, baseadas na experiência do usuário ou numa segunda leitura.

Agora temos a inteligência artificial.

E tem gente que ainda imagina que a simples presença de uma ferramenta nova seja capaz de substituir o pensamento humano. Não é assim que funciona. Quem pensa assim cai no mesmo erro do campo conservador, reacionário e totalmente retrógrado. Oposto a qualquer revolução que seja, inclusive à tecnológica.

Uma máquina de escrever não transformava qualquer pessoa em escritor. Um computador não fazia de todo usuário um jornalista ou radialista. Uma impressora, ou conexão à internet, não garantia a verdade de uma notícia. E a inteligência artificial, por mais sofisticada que seja, também não transforma automaticamente qualquer texto em produto editorial de qualidade, que tenha a função de informar e atualizar.

As ferramentas evoluíram. A responsabilidade continua sendo nossa. Uma pessoa sem conhecimento adequado para interagir no meio da comunicação, tentando fazer o jornalismo com inteligência artificial, é quase o mesmo que uma criança brincando de fazer jornalzinho em máquina de escrever. Como disse recentemente o Papa Leão IXV. A Inteligência Artificial é como um boneco e o problema, ou a solução, é quem opera esse boneco, não a ferramenta em si.

Jornalismo a quatro mãos, com a inteligência humana no comando

É aqui que entra o meu trabalho com a inteligência artificial no Sulpost. Um trabalho que desenvolvo através de muita pesquisa que abarca meu próprio conhecimento de vida, uma caminhada de 56 anos. Aos 4 anos de idade já escrevia um jornalzinho, brincadeira de criança na máquina de escrever, único presente que ganhei quando criança e durou até começar a travar as teclas. E, a ética comercial da profissão também veio nata. Eu vendia as cópias que tirava para os amigos do meu pai, no GCC, um restaurante que a gente ia todo final de semana.

O que fazemos aqui é jornalismo digital. Trago a pauta, a experiência, a memória, a leitura política, as referências culturais, a vivência das ruas, meu conhecimento, minha experiência e a justa responsabilidade editorial, que aprendi em casa. Trago também minhas convicções, minha opinião, que não escondo, mas sempre com o compromisso de separar os fatos das opiniões, a verdade da ideologia, e os primeiros passos no campo da informação e da comunicação aprendi em casa, com o meu pai, meu avô e os outrora inúmeros amigos que eles tinham, hoje são poucos. Tanto o devir quanto a passagem das décadas são inexoráveis.

A inteligência artificial me ajuda a organizar ideias, estruturar textos, revisar a redação, explorar possibilidades e trabalhar com mais agilidade. É jornalismo 2.0. É uma parceria de trabalho. Eu não deixo de ser jornalista porque uso uma ferramenta mais moderna, aliás a mais avançada que existe hoje, não apenas para edição de texto mas também para uma série praticamente infinita de aplicações. Da mesma maneira que não deixei de ser jornalista quando passei da máquina de escrever mecânica para a elétrica, do computador com a impressora stand alone para o mesmo conjunto conectado à rede.

O perfil de quem escreve, sua visão de mundo, sua experiência e sua capacidade de formular perguntas continuam sendo fundamentais. A tecnologia pode ajudar a desenvolver uma ideia, mas a ideia precisa nascer de algum lugar. Precisa de contexto, de sensibilidade, de propósito e de responsabilidade. Precisamos ter uma visão holística das coisas, sem as travas de qualquer conservadorismo que seja.

Por isso, gosto de pensar no projeto Sulpost como um espaço de jornalismo, feito por gente de verdade, sobre pessoas e acontecimentos reais, com o apoio da tecnologia e total transparência. As visualizações registradas no meu blog não mente, cada vez mais pessoas leem e confiam no conteúdo do meu modesto espaço. Não queremos uma redação automática que reproduza tudo o que recebe, e se limitando a replicar notícias já amplamente divulgadas. Queremos uma redação que investigue, questione compare, verifique e escreva de uma forma que as pessoas consigam entender.

Também não romantizo a tecnologia. A inteligência artificial não é livre de falhas, ela pode inventar informações e até reproduzir preconceitos. Por isso, é preciso revisar, conferir os dados, consultar fontes e assumir a responsabilidade pelo que se publica. A ferramenta não pode ser usada como desculpa para abandonar sagrado dever que todos devemos ter com a transparência.

Eu e superinteligência aprendemos juntos, um com o outro, durante o trabalho. Costumo dizer a ela que se gentileza gera gentileza, informação gera informação. Porque, no final das contas, uma notícia que se preze ou uma boa crônica não nascem de um programa ou do diálogo entre agentes de IA. Nasce de alguém que olha para o mundo, sente alguma coisa, pensa sobre aquilo e resolve compartilhar suas questões e conclusões com os outros. Todo texto original nasce na mente humana.

E, se alguém ainda tiver dúvida sobre a importância das ideias, vale lembrar uma frase que atravessa a história: pessoas podem ser silenciadas, perseguidas e até mortas. Ideias, porém, podem continuar vivas muito depois de quem as formulou.

É aí que reside a importância do jornalismo. É por isso que a liberdade de expressão é tão importante. E é por isso que não podemos aceitar que a tecnologia seja usada para sufocar a diversidade de pensamento ou transformar mentiras em indústria.

Entre Mata Hari, Mato Raro e uma boa cachacinha

Confesso que, durante esta eleição, tive até de me comportar como uma espécie de agente duplo. Lembrei de Mata Hari, a personagem histórica que se tornou célebre pela espionagem durante a Primeira Guerra Mundial. Só que, no meu caso, a história é outra.

Sou heterossexual e cisgênero. Portanto, em vez de Mata Hari, talvez eu seja mais para Mato Raro. A brincadeira tem ainda outro motivo: uso cannabis com finalidade medicinal, dentro da minha estratégia de redução de danos, para a ansiedade, falta de apetite, labilidade emocional e insônia. É uma escolha pessoal que não me impede de pensar, trabalhar, escrever e defender minhas convicções. E, é o tipo de coisa que a gente não deve satisfação a ninguém, não é mesmo?

Sei que nem todo mundo vai gostar da comparação. Conservadores existem. Vivemos em um país aonde a Associação Brasileira de Psiquiatria condena o uso da cannabis, ainda mais se ela tem THC ativo. Por mais ridículo que possa parecer, segundo fontes, essa gente associa o uso de cannabis à esquizofrenia. Paciência. A crônica é justamente o espaço em que a gente pode misturar memória, ironia e reflexão sem precisar vestir uma gravata para cada frase.

Também sei que muita gente torce o nariz por conta das minhas posições políticas. Não tenho a pretensão de agradar a todas e todos, mesmo porque nem Deus consegue isso. Mas respeito e sempre respeitei quem pensa diferente, desde que o debate aconteça com honestidade e sem a transformação do adversário em inimigo. Afinal não existe consenso sem que antes aconteçam rodadas de dissenso.

Tenho respeito por lideranças de direita com trajetória própria, como Ronaldo Caiado, Aécio Neves e Esperidião Amin, embora discorde de muitas posições que defendem. A política brasileira é mais complexa do que a divisão entre santos e demônios que as redes sociais tentam vender. Olhando dos bastidores, inclusive, muitas vezes tudo parece um grande jogo de cena.

De Esperidião Amin, guardo uma lembrança pessoal. Quando eu era piá, em Camboriú, a casa que ele se hospedava ficava a duas casas adiante da do meu pai, a casa do Jorge Bornhausen. Os dois três conversavam no muro, que naquela época ficava praticamente na areia da praia, com um copo de uísque on the rocks na mão. Eu acompanhava meu pai ao Calamares, que ficava mais umas duas quadras adianta, para comer mariscos e, de vez em quando, sobrava tempo para aquelas conversas de adultos, que a gente escuta sem entender tudo, mas das quais nunca esquece e vai compreendendo ao longo do tempo.

Hoje, quando me lembro dessas cenas, quase consigo enxergar o copo de uísque e ouvir as vozes. A memória tem dessas coisas. Guarda pequenos detalhes que sobrevivem ao tempo e, de repente, ajudam a explicar como chegamos até aqui.

Ontem, para celebrar o resultado eleitoral, tomei uma cachacinha, uma Pitú, de Pernambuco, terra do nosso presidente Lula. Não vou dizer que a bebida resolveu os problemas do país, porque isso seria atribuir à cachaça poderes que nem a inteligência artificial ousaria reivindicar. Mas ajudou a marcar o momento.

Ufa! Depois de uma campanha tão pesada, um pouco de alívio não faz mal a ninguém.

Lula, o lutador

Durante a campanha, olhando Lula correr, caminhar, subir no palanque e enfrentar a maratona eleitoral, lembrei do filme Rocky, o Lutador. Não pela história de um boxeador que precisa derrotar um adversário dentro de um ringue, mas pela imagem de alguém que, apesar das dificuldades, continua de pé.

Aos 80 anos, Lula demonstrou uma disposição que chamou a atenção de muita gente. É um sujeito que conhece a dureza do trabalho, as limitações da vida e a importância de não desistir quando o caminho parece difícil. Um velho roqueiro da política brasileira, quase um Rolling Stone, que ainda encontra energia para subir ao palco e chamar o povo para a conversa.

Mas ninguém governa sozinho. O presidente precisa de uma equipe competente, de instituições que funcionem, de responsabilidade fiscal, de políticas públicas bem executadas e de uma sociedade que participe da construção do país. A vitória eleitoral abre uma porta; atravessá-la exige trabalho diário.

E foi justamente esse trabalho coletivo que me emocionou no Paraná.

Roberto Requião, Nelsão da Força, José Maria Correia, Elton Braz, Arilson Chiorato, Gleisi Hoffmann, Ênio Verri, Ângelo Vanhoni, Ana Júlia Ribeiro, Zeca Dirceu, Carol Dartora, Renato Freitas, Sérgio Butka, Tadeu Veneri, Luciana Rafagnin, Professor Lemos, Giorgia Prates e tanta gente que seria impossível enumerar sem transformar esta crônica numa planilha de Excel.

Foram companheiros e companheiras empenhados em conversar, esclarecer, apresentar argumentos e virar votos. Gente de diferentes trajetórias, inclusive do centro político, que compreendeu a importância da disputa para o futuro do país. Nós acabamos de definir o futuro do nosso pelos próximos quatro anos, e decidimos pelo melhor graças a Deus e a inteligência da metade, mais praticamente quase 4 milhões e quinhentos mil brasileiros que foram votar.

É fácil enxergar a política apenas pelos grandes nomes, pelos discursos transmitidos na televisão e pelas fotografias dos palanques. Mas existe uma parte enorme desse trabalho que acontece longe das câmeras. Nas conversas de família, nos encontros de bairro, nos locais de trabalho, nas mensagens trocadas e nas explicações dadas a quem ainda tinha dúvidas.

É gente que trabalha enquanto outros dormem, que insiste quando o resultado parece incerto e que, muitas vezes, nem sequer recebe o reconhecimento que merece.

Eu sou pequeno perto de tantas estrelas que admiro. Mas também tenho meu espaço nessa galáxia. Colaboro diariamente com o campo progressista, com a social-democracia, com o trabalhismo e com a defesa de uma sociedade em que nenhum direito seja retirado para satisfazer o capricho dos poderosos.

Faço isso com as ferramentas de que disponho. Minha matéria-prima são as palavras, o conhecimento, as fontes e o estudo constante de absolutamente tudo. Minha redação é digital mas meu compromisso continua sendo com as pessoas.

Sou um operário das palavras na era digital.

O Brasil que ainda vamos construir

Tenho minhas esperanças, minhas previsões e também minhas intuições. Acredito que os próximos quatro anos podem abrir uma oportunidade extraordinária para o Brasil ampliar seu protagonismo internacional, avançar em ciência e tecnologia, fortalecer sua indústria, desenvolver a inteligência artificial e transformar nossa riqueza em melhores condições de vida.

O mundo está passando por mudanças profundas. A transição energética, a reorganização das cadeias de produção, as disputas tecnológicas e a transformação do mercado de trabalho estão redesenhando a economia global. O Brasil tem condições de ocupar uma posição de destaque e muito mais importante nesse cenário, desde que saiba planejar, investir, negociar e proteger seus interesses estratégicos.

Não é preciso explodir uma bomba atômica ou possuir um grande arsenal bélico para ser uma grande potência. Podemos construir poder internacional com conhecimento, diplomacia, energia limpa, alimentos, indústria, inovação, ciência, cultura e capacidade de diálogo. Nossa grandeza não precisa ser medida pela destruição que somos capazes de provocar, mas pelo desenvolvimento que conseguimos proporcionar.

Sei que quatro anos não resolvem todos os problemas de um país. Sei também que as dificuldades são grandes e que nenhuma previsão está imune aos imprevistos da história. Mas não aceito a ideia de que o Brasil esteja condenado a ser eternamente o país do futuro.

Talvez minha expectativa para 2030 pareça ousada. Eu a apresento como esperança e convicção, não como um resultado garantido. Quero ver o Brasil entre as grandes nações do mundo, com instituições democráticas fortes, uma economia dinâmica, redução das desigualdades e uma população que possa viver melhor do que vive hoje.

E aqui volto, de maneira muito particular, ao conhecimento akáshico, esse conceito das tradições esotéricas que associa a existência a uma espécie de registro universal da experiência. Não posso afirmar cientificamente que exista um arquivo cósmico contendo todas as respostas. Mas gosto da ideia de que a experiência humana deixa marcas, de que a memória nos ensina e de que aquilo que aprendemos pode ajudar a imaginar caminhos que ainda não percorremos. Pensar fora da caixa não significa apenas que temos pensamento próprio além do que dizem os telejornais da televisão, quer dizer pensar fora da caixa literalmente, fora da caixa craniana.

Também respeito a dimensão espiritual da minha vida e as mensagens que encontro na tradição da Umbanda, inclusive nas orientações e intuições associadas ao meu Caboclo, Preto-velho e Exu. Não confundo fé com comprovação científica, nem intuição com previsão infalível. Mas não preciso abandonar minha espiritualidade para valorizar a ciência, assim como não preciso abandonar a ciência para reconhecer que a esperança tem um lugar importante na vida das pessoas.

O que me move é essa combinação de memória, experiência, pensamento crítico e esperança. É olhar para o que vivemos e tentar imaginar aquilo que ainda podemos construir.

O coração segue pulsando

Há uma canção que se tornou símbolo de uma época política brasileira e que atravessou gerações com sua mensagem de esperança. Não é por acaso que a imagem de um coração que continua pulsando e de um povo que não tem medo de ser feliz combina tanto com este momento.

Essa ideia não pertence a um partido, nem pode ser propriedade exclusiva de um presidente. A esperança de um país melhor pertence a quem trabalha, a quem estuda, a quem cria os filhos, a quem cuida dos pais, a quem acorda cedo para pegar o ônibus e a quem ainda acredita que a política pode servir para melhorar a vida de todos.

Para mim, porém, a vitória de Lula tem um significado político muito claro. Representa a continuidade de um projeto que considero capaz de ampliar direitos, recuperar políticas públicas e defender a soberania brasileira. É por esse projeto que trabalho, escrevo e me posiciono.

Espero que até quem votou contra Lula consiga encontrar motivos para ser feliz nos próximos anos. Não quero um país em que metade da população comemore a desgraça da outra metade. Quero um Brasil em que as pessoas possam discordar nas urnas e depois se encontrar na rua, no trabalho, na escola e na mesa de jantar sem transformar cada diferença numa guerra. Como era antigamente.

Aos que estão tristes com o resultado, deixo um convite: respirem, olhem ao redor e lembrem-se de que o Brasil continua sendo a casa de todos nós. A democracia não exige que ninguém abandone suas convicções, o mesmo abandone o país como alguns mais radicais estão pregando. Exige que todos aceitem as regras do jogo e respeitem o direito dos demais de escolher seu caminho, de decidir o futuro da sua nação.

Quanto a nós, que trabalhamos pela vitória de Lula, é hora de comemorar, sim. Mas também é hora de cobrar, acompanhar, fiscalizar e participar. Apoiar um governo não significa abrir mão do pensamento crítico. Pelo contrário: quem acredita num projeto precisa ajudá-lo a cumprir suas promessas.

O Brasil não precisa de salvadores da pátria. Precisa de cidadãos conscientes, instituições sólidas e governos que compreendam que o poder é uma responsabilidade temporária, confiada pelo povo.

Do petróglifo à inteligência artificial, mudamos as ferramentas, os suportes e a velocidade com que transmitimos nossas mensagens. O que não mudou foi a necessidade de contar histórias, preservar a memória, compartilhar conhecimento e procurar um sentido para aquilo que vivemos.

É isso que faço aqui no Sulpost. Com minha história, minhas convicções, minhas lembranças, através de muito estudo, fontes em todos os setores da sociedade e a ajuda de uma tecnologia que amplia as possibilidades do trabalho, sem substituir a responsabilidade de quem assina a reportagem ou a crônica.

Porque a máquina pode ajudar a escrever. Mas é o ser humano que precisa decidir por que escrever, a quem dar voz e que futuro deseja ajudar a construir.

Hoje, depois de tanta tensão, tanta ansiedade, volto a olhar para o Brasil com esperança. Não uma esperança ingênua, que imagina um país sem problemas, mas aquela que conhece as dificuldades e, mesmo assim, se recusa a desistir.

Que venha o trabalho dos próximos quatro anos. Que venham a ciência, a educação, a saúde, a cultura, a tecnologia, a soberania e o desenvolvimento. Que o Brasil encontre seu próprio caminho e que a grandeza da nossa nação se traduza em dignidade e melhor qualidade de vida para o nosso povo.

Viva o povo brasileiro! Viva a democracia! Viva a esperança de um Brasil melhor! E viva a possibilidade de continuarmos construindo, juntos, um país em que o coração siga pulsando, sem medo de ser feliz.

Ronald Stresser Jr.
Jornalista responsável pelo Sulpost
Um trabalhador das palavras na era digital.

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