Rubio nega participação dos EUA na saída de Flávio Bolsonaro, mas pagamento de jatinho levanta suspeitas
Assessor de Donald Trump é apontado por jornais americanos como organizador do voo. Empresário argentino confirma pagamento de US$ 150 mil por intermediário nos Estados Unidos
Empresa responsável pelo avião aparece em investigação sobre corrupção na Argentina.
A história da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil ganhou um novo capítulo neste sábado (31). O secretário de Estado americano, Marco Rubio, negou que o governo dos Estados Unidos tenha participado da operação que levou o senador a Miami. A declaração foi dada durante entrevista coletiva em Atlanta, onde acontece a reunião de chanceleres do G20.
Mas a negativa de Rubio não encerra as perguntas. Pelo contrário: as informações divulgadas nos últimos dias por jornais americanos, argentinos e brasileiros apontam para uma articulação envolvendo assessores de Donald Trump, integrantes do governo Javier Milei, um intermediário financeiro ainda não identificado e uma empresa de aviação citada em uma investigação sobre corrupção na Argentina.
Rubio admite decisão de Trump para autorizar a entrada
Questionado sobre a ajuda americana para Flávio deixar o Brasil, Rubio respondeu: “We didn't facilitate anything” (Não facilitamos nada).
O secretário explicou que o governo americano soube que o senador havia chegado aos Estados Unidos, que ele já possuía um visto anterior e que Donald Trump decidiu autorizar sua entrada. Rubio acrescentou que o governo americano não participou diretamente dos arranjos realizados para a saída do parlamentar.
A declaração é importante, mas precisa ser analisada com atenção. O secretário negou o envolvimento direto do governo na organização da viagem, não a existência de contatos ou iniciativas particulares de pessoas ligadas à administração Trump.
Jason Miller aparece nas reportagens
O nome que surge no centro dessa história é Jason Miller, antigo estrategista de comunicação de Donald Trump e integrante de seu círculo político de confiança.
Reportagens do The New York Times e do The Wall Street Journal, repercutidas pela Folha de S.Paulo, atribuem a Miller participação na organização do avião particular que transportou Flávio, sua esposa e as duas filhas.
Segundo o Wall Street Journal, Miller integrou um pequeno grupo que manteve contato com Eduardo Bolsonaro para providenciar a aeronave. A organização teria começado na segunda-feira (26), depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que Flávio entregasse seus passaportes e não deixasse o país.
Miller atualmente exerce uma função de special government employee, categoria de vínculo temporário ou limitado com o governo federal americano.
Ele foi procurado para comentar as informações e não respondeu.
Até o momento, não existe comprovação pública de que Miller tenha organizado o voo por determinação oficial de Trump. Também não está esclarecido se atuou exclusivamente em caráter particular.
US$ 150 mil saíram de uma conta nos Estados Unidos
Outra informação que merece atenção foi revelada pelo empresário argentino Luis Grande, proprietário da Baires Fly, empresa responsável pela operação do jato Gulfstream G400.
Em entrevista à agência AFP, reproduzida pela Folha de S.Paulo, Grande afirmou que o fretamento foi contratado por um intermediário do setor aeronáutico que vive nos Estados Unidos e com quem mantém relacionamento comercial há aproximadamente dez anos.
Segundo o empresário, o pagamento foi de US$ 150 mil, aproximadamente R$ 800 mil, transferidos de uma conta bancária americana para uma conta na Argentina.
Grande não revelou a identidade do intermediário e afirmou não conhecer o verdadeiro contratante do voo.
A informação coloca uma pergunta inevitável: quem efetivamente pagou a viagem? Jason Miller participou da contratação, como apontam os jornais americanos, mas foi ele também quem providenciou o dinheiro? Ou houve outro financiador?
Essa resposta ainda não está disponível.
A empresa do jatinho aparece em investigação sobre corrupção
A Baires Fly também está no radar da Justiça argentina por sua suposta participação em um esquema envolvendo contratos públicos de medicamentos e insumos destinados a pessoas com deficiência.
De acordo com o UOL, a investigação envolve a Agência Nacional de Deficiência da Argentina (ANDIS), órgão público no qual teriam ocorrido licitações irregulares, superfaturamento e pagamentos de propina.
De acordo com as denúncias divulgadas pela imprensa argentina, empresas fornecedoras teriam utilizado pagamentos fictícios por voos fretados para justificar transferências de dinheiro à Baires Fly.
Um dos nomes apontados como articulador do esquema é Sergio Mastropietro. A Justiça argentina determinou medidas de bloqueio de bens e apreensão de aeronaves relacionadas à investigação.
É importante esclarecer que o proprietário da empresa, Luis Grande, não foi identificado nas reportagens consultadas como réu ou investigado pessoalmente. O que existe é a presença da companhia e de outros executivos no contexto da apuração.
A coincidência, entretanto, chama atenção: uma aeronave operada por uma empresa envolvida em uma investigação de corrupção foi utilizada em uma viagem internacional de alto interesse político, cujo pagamento teria sido providenciado por um intermediário nos Estados Unidos.
Uma operação com apoio político na Argentina
As reportagens do jornal argentino Clarín acrescentaram outro elemento à história: a possível participação direta do governo de Javier Milei na organização da saída de Flávio.
O nome citado é Santiago Caputo, assessor de confiança do presidente argentino. Segundo o jornal, ele esteve em Puerto Iguazú para acompanhar a operação e teria mobilizado integrantes de diferentes órgãos públicos, incluindo a Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE), a imigração e a Polícia de Segurança Aeroportuária.
O jornal também descreveu a utilização de aeronaves alternativas, movimentações para despistar o acompanhamento da viagem e a participação de um ex-agente da agência antidrogas americana, a DEA.
Outra reportagem do Clarín apontou que empresas privadas que mantêm relações comerciais com os governos argentino e americano teriam participado da contratação de aeronaves.
Esses relatos ainda dependem de confirmação documental independente. Não se pode tratar todas as informações sobre a operação como fatos definitivamente comprovados.
O roteiro da viagem, por outro lado, foi divulgado: Flávio e sua família cruzaram a fronteira brasileira por terra, embarcaram em Puerto Iguazú, voaram até Guayaquil, no Equador, e seguiram para Miami, onde chegaram na manhã de quarta-feira (28).
Itamaraty cobra explicações de Milei
A saída do senador também provocou reação diplomática brasileira.
Na sexta-feira (30), o Itamaraty convocou a encarregada de negócios da Embaixada da Argentina em Brasília, Maria Emília Cortés, para prestar esclarecimentos sobre a possível participação do governo argentino na operação.
A convocação foi confirmada por fontes do governo brasileiro à agência Reuters.
A situação é particularmente delicada porque Javier Milei manifestou apoio político a Flávio durante a campanha. Depois de chegar aos Estados Unidos, o senador publicou uma carta na qual agradeceu a ajuda do presidente argentino, sem detalhar o que foi feito para viabilizar sua saída.
Neste sábado, durante a reunião do G20 em Atlanta, Marco Rubio também conversou com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira. Os dois devem manter novos contatos diplomáticos nas próximas semanas.
As perguntas que continuam sem resposta
Flávio Bolsonaro deixou o Brasil depois de perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), não reconhecer o resultado e divulgar acusações de fraude sem apresentar provas.
A viagem ocorreu depois de uma determinação do STF para que entregasse seus passaportes e não deixasse o território nacional, no contexto de investigações envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Flávio nega irregularidades e afirma ser vítima de perseguição política.
Seu pai, Jair Bolsonaro, está preso após condenação a 27 anos por participação na tentativa de golpe de Estado.
Agora, diante das informações que vieram a público, algumas perguntas precisam ser respondidas:
- Quem foi o verdadeiro contratante do voo de US$ 150 mil?
- Qual é a identidade do intermediário que fez a transferência bancária nos Estados Unidos?
- Jason Miller agiu por iniciativa própria ou representando interesses políticos da administração Trump?
- Qual foi a participação efetiva de Santiago Caputo e dos órgãos argentinos?
- Por que uma empresa citada em uma investigação sobre corrupção foi escolhida para realizar um transporte de tamanha sensibilidade política?
A negativa de Marco Rubio é uma declaração oficial, mas não substitui a necessidade de esclarecer a cadeia de contratação, financiamento e organização da viagem.
Em uma democracia, ninguém está acima da lei. Ter relações políticas internacionais, acesso a autoridades ou recursos financeiros não transforma uma eventual violação de determinação judicial em algo aceitável.
O que se espera agora é transparência, investigação e respostas documentadas. Não basta dizer que não facilitou. É preciso esclarecer quem fez o quê, quem pagou e a serviço de quais interesses.
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