Crise climática: ONU alerta que emissões precisam cair 18% até 2030 para evitar aquecimento ainda mais perigoso

Relatório do PNUMA aponta que o mundo precisa acelerar a redução de gases de efeito estufa para limitar o aquecimento e recuperar a meta de 1,5°C até 2100

 
Relatório do PNUMA aponta que o mundo precisa acelerar a redução de gases de efeito estufa para limitar o aquecimento e recuperar a meta de 1,5°C até 2100

A humanidade ainda tem condições de evitar os cenários mais graves da crise climática, mas o tempo para agir está se esgotando. Um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) indica que as emissões globais de gases de efeito estufa precisam cair 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, sempre em comparação com os níveis registrados em 2025.

As projeções fazem parte do Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026: O Ponto de Retorno, divulgado pelas Nações Unidas em outubro. O documento estabelece um caminho para limitar o pico de aquecimento global a aproximadamente 1,7°C ou 1,8°C em meados do século e, posteriormente, retornar ao patamar de 1,5°C ou menos até 2100.

Para alcançar esse resultado, será necessário reduzir as emissões em uma média de 5,7% ao ano durante a próxima década. É uma transformação de grande dimensão, que exige mudanças profundas na produção de energia, nos transportes, na indústria, na agricultura e na utilização dos recursos naturais.

Compromissos dos países ainda estão muito distantes do necessário

Um dos aspectos mais preocupantes do levantamento é a distância entre o que a ciência considera necessário e aquilo que os governos efetivamente se comprometeram a fazer.

Mesmo que todos os países cumpram integralmente suas atuais Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), os compromissos nacionais de redução das emissões apresentados no âmbito do Acordo de Paris, a queda seria de apenas 5% a 8% até 2030 e de 11% a 15% até 2035, em relação a 2025.

Segundo o PNUMA, a manutenção das políticas atuais poderá levar o planeta a um aquecimento de 2,8°C neste século. Mesmo com o cumprimento integral das NDCs e a continuidade de esforços semelhantes, a projeção é de aproximadamente 2,6°C.

Em um cenário mais otimista, que considera também o cumprimento de metas adicionais de neutralidade de carbono, o aquecimento ainda ficaria em torno de 2,1°C. Portanto, não basta cumprir os compromissos existentes: será necessário ampliá-los significativamente.

Ultrapassar 1,5°C não significa que tudo está perdido

O secretário-geral da ONU, António Guterres, defende que a possibilidade de ultrapassar temporariamente a meta de 1,5°C não deve ser interpretada como motivo para abandonar os esforços de combate à crise climática.

“Ultrapassar a meta não significa desistir. Ainda podemos mantê-la o mais pequena e curta possível – e trazer as temperaturas de volta para menos de 1,5 grau até o final do século”, afirmou.

A explicação é importante. A ultrapassagem, conhecida internacionalmente como overshoot, significa que a temperatura global poderá superar temporariamente o limite estabelecido pelo Acordo de Paris, antes de voltar a cair.

Entretanto, retornar à meta não apaga os danos provocados durante o período de aquecimento mais intenso. Quanto maior a temperatura e mais prolongada sua permanência acima de 1,5°C, maiores serão os riscos de perdas ambientais irreversíveis, destruição de ecossistemas e agravamento de eventos climáticos extremos.

O próprio PNUMA, em seu estudo Limiting Overshoot, alerta para consequências como o avanço do nível dos oceanos, a ameaça aos recifes de coral, ondas de calor mais intensas, incêndios florestais e alterações profundas nas geleiras e nas calotas polares.

Derretimento de geleiras ameaça o abastecimento de água

Entre as consequências mais preocupantes está a perda de massa das geleiras. De acordo com o estudo complementar do PNUMA, elas poderão perder mais de um quarto de sua massa até 2100 em determinados cenários de aquecimento, contribuindo para uma elevação adicional do nível do mar estimada entre 9 e 12,5 centímetros.

O problema não se limita às regiões costeiras. Milhões de pessoas dependem da água proveniente do degelo para abastecimento, agricultura e geração de energia. A redução dessas reservas naturais poderá comprometer permanentemente a disponibilidade de água em diversas regiões do planeta.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) também aponta que a perda de geleiras e a alteração dos regimes de degelo representam riscos importantes para comunidades e sistemas de abastecimento, especialmente nas regiões montanhosas.

Os sinais já são observados. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), 2025 foi o segundo ou terceiro ano mais quente desde o início dos registros, com temperatura média global aproximadamente 1,43°C acima dos níveis pré-industriais. A quantidade de calor acumulada nos oceanos também alcançou o maior valor da série histórica de 66 anos.

Energia limpa e redução dos combustíveis fósseis são fundamentais

O relatório do PNUMA aponta caminhos concretos para enfrentar o problema. Entre as prioridades estão a expansão acelerada das energias renováveis, a melhoria da eficiência energética, a redução da dependência do carvão, do petróleo e do gás natural, além do combate ao desmatamento e à emissão de metano.

Na avaliação da organização, os países precisam avançar no compromisso internacional de triplicar a capacidade de geração de energia renovável e dobrar o ritmo anual de melhoria da eficiência energética até 2030.

O documento também destaca que existem resultados positivos. Desde a adoção do Acordo de Paris, a expansão da energia renovável superou projeções anteriores e políticas ambientais já produziram reduções efetivas de emissões em diferentes países e setores econômicos.

Isso demonstra que a transição é possível. O desafio está em ampliar essas experiências, garantir investimentos e transformar compromissos diplomáticos em políticas públicas permanentes.

Uma responsabilidade que não pode ser adiada

A crise climática deixou de ser uma preocupação distante ou um problema restrito aos cientistas. Seus efeitos já atingem cidades, áreas rurais, sistemas de produção de alimentos, infraestrutura e a vida cotidiana de milhões de pessoas.

Os países mais vulneráveis, que historicamente contribuíram menos para o acúmulo de gases de efeito estufa, estão entre os mais expostos aos efeitos de secas, enchentes, ondas de calor e elevação do nível dos oceanos.

O Brasil também tem responsabilidades e interesses diretos nesse debate. A proteção da Amazônia, do Cerrado e dos demais biomas, o combate ao desmatamento, a transição energética e o fortalecimento das políticas ambientais são fundamentais tanto para a redução das emissões quanto para a preservação dos recursos naturais.

A mensagem do novo relatório da ONU é clara: ainda existe uma possibilidade de limitar os danos e recuperar parte do caminho perdido, mas isso depende de decisões imediatas. Adiar mudanças significa tornar a transição mais difícil, mais cara e, em alguns casos, impossível.

O planeta não precisa de novas promessas sem compromisso com resultados. Precisa de governos, empresas e sociedades dispostos a transformar o conhecimento científico em ações concretas. O custo da omissão será pago por gerações que não tiveram participação nas decisões tomadas hoje.

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