Restaurar a Amazônia é também restaurar vidas, saberes e territórios
No Dia da Amazônia, especialistas defendem que a recuperação de áreas degradadas em terras indígenas precisa ter os povos originários no centro das decisões
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| Vista aérea da Amazônia - Neil Palmer/CIAT/Flickr |
SULPOST | Meio Ambiente
Restaurar uma área degradada não significa apenas plantar árvores. Em territórios indígenas, significa também recuperar nascentes, alimentos, sementes, conhecimentos tradicionais e fortalecer a autonomia das comunidades.
Há uma diferença importante entre plantar árvores e restaurar um território.
No Dia da Amazônia, celebrado neste sábado (5), essa diferença ganha ainda mais significado. Em terras indígenas, recuperar uma área degradada não é apenas devolver verde ao lugar onde a vegetação desapareceu. É também recuperar nascentes, alimentos, sementes, espécies tradicionais, conhecimentos transmitidos entre gerações e, sobretudo, fortalecer a relação das comunidades com a própria terra.
O desafio é grande. Dados do TerraClass de 2022 apontam 952,3 mil hectares de áreas degradadas dentro de terras indígenas da Amazônia. A maior parte dessas áreas é ocupada por pastagens. Há ainda áreas destinadas à agricultura e à mineração.
Quando somadas às áreas de vegetação secundária, chega-se a um potencial de restauração estimado em 1,79 milhão de hectares.
Mas existe outra informação que ajuda a compreender a importância desses territórios: apesar das pressões, as terras indígenas continuam entre as áreas mais conservadas do país. Segundo o Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas, divulgado em 2026, apenas 1,7% da perda de vegetação nativa registrada no Brasil entre 2019 e 2025 ocorreu dentro dessas áreas.
Restaurar não é simplesmente plantar
A discussão acontece enquanto o Brasil amplia suas metas de recuperação ambiental. Durante a COP17, realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, o país apresentou o compromisso de restaurar mais de 163 mil quilômetros quadrados até 2030.
A meta é necessária. Mas a forma de fazer isso também importa.
Para os especialistas, o sucesso de uma restauração não pode ser medido apenas pelo número de hectares recuperados ou pela quantidade de árvores plantadas. Em territórios indígenas, a pergunta precisa ser outra: o que aquela comunidade precisa recuperar?
Pode ser uma nascente. Uma mata ciliar. Uma espécie usada na alimentação. Uma planta medicinal. Uma semente tradicional. Uma área importante para a caça ou para a produção de alimentos.
Pode ser, inclusive, um conhecimento que estava deixando de ser transmitido.
É nesse ponto que o protagonismo indígena deixa de ser apenas uma questão de participação e passa a ser uma condição para que a restauração faça sentido.
Conhecimento tradicional também é tecnologia
Os povos indígenas carregam conhecimentos acumulados durante gerações sobre sementes, ciclos naturais, manejo do solo, períodos de plantio e colheita, plantas medicinais e alimentos.
Em muitos territórios, as mulheres ocupam papel central nesse processo, especialmente na conservação de sementes, na produção de alimentos e na transmissão desses conhecimentos.
Valorizar esse patrimônio não significa rejeitar a ciência. Ao contrário.
A aproximação entre conhecimento tradicional e conhecimento técnico pode produzir soluções mais adequadas às características de cada território, respeitando seus ciclos naturais e as necessidades das comunidades.
Nesse sentido, restaurar pode significar muito mais do que recompor uma paisagem. Pode significar recuperar cultura, alimento, autonomia e uma relação viva com a floresta.
A tecnologia pode ajudar, mas não decide sozinha
A Funai desenvolveu, em parceria com a The Nature Conservancy Brasil (TNC Brasil), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e o programa britânico UK PACT, um sistema integrado de informações para apoiar decisões de conservação e restauração em terras indígenas.
A ferramenta reúne diferentes indicadores, como degradação, segurança hídrica, biodiversidade, mudanças climáticas, governança territorial, sustentabilidade, educação e saúde.
Com análise multicritério, é possível identificar áreas prioritárias conforme o objetivo de cada projeto.
Uma nascente degradada pode ser mais importante para determinada comunidade do que uma área com maior percentual de degradação. Um território com insegurança alimentar pode demandar prioridade para uma restauração socioprodutiva.
A matemática ajuda a enxergar o problema. Mas não substitui quem o vive diariamente. A própria metodologia reconhece que uma indicação técnica não pode se sobrepor à decisão das comunidades. Se uma liderança não quiser determinado projeto ou se aquela iniciativa não estiver entre as prioridades do território, a decisão precisa ser respeitada.
“A tecnologia pode apontar caminhos, mas quem conhece o território precisa participar da escolha do caminho.”
Restaurar também é prevenir
Outro ponto essencial é que nenhuma restauração será suficiente se as causas da degradação continuarem avançando.
Mineração, queimadas, expansão de pastagens e mudanças no uso da terra podem comprometer novamente áreas recuperadas. Por isso, restaurar precisa caminhar junto com prevenção, fiscalização, gestão territorial e fortalecimento das comunidades.
A Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que prevê recuperar 12 milhões de hectares até 2030, fazem parte desse esforço mais amplo.
No fim, existe uma ideia simples por trás de tudo isso: uma floresta protegida não é apenas uma quantidade de árvores em pé.
É água limpa. É comida. É biodiversidade. É cultura. É memória. É conhecimento. É futuro.
E, quando se fala em restaurar a Amazônia dentro de terras indígenas, talvez o primeiro passo seja reconhecer quem há séculos sabe que cuidar da floresta também significa cuidar da própria vida.
- Com informações da Agência Brasil, dados do TerraClass, MapBiomas, Funai e informações de especialistas em restauração indígena.
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