“Para governar o Paraná é preciso conhecer o Paraná”, diz Zeca Dirceu ao criticar Sérgio Moro
Deputado federal afirma que senador não conhece a realidade do Estado, questiona sua atuação no Congresso e diz que candidatura ao governo carece de propostas concretas
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| Zeca Dirceu, em Cruzeiro do Oeste (PR) - “Para governar o Paraná é preciso conhecer o Paraná” - Facebook/Reprodução |
Há uma pergunta que atravessa as críticas do deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR) ao senador Sérgio Moro (PL-PR): até que ponto alguém pode pretender governar o Paraná sem conhecer de perto o Estado que quer administrar?
É a partir dessa provocação que o deputado vem construindo, nas últimas semanas, uma das linhas mais duras de oposição à pré-candidatura de Moro ao governo paranaense. Para Zeca, o senador chega à disputa de 2026 carregando uma trajetória nacional marcada pelo confronto político, mas sem apresentar, segundo ele, conhecimento suficiente sobre as diferentes regiões do Paraná, suas demandas e suas potencialidades.
Em um vídeo publicado nas redes sociais, Zeca foi direto ao ponto. Disse que Moro “não pode ser governador porque é preguiçoso” e questionou o que considera uma ausência de resultados concretos nos quatro anos de mandato do senador.
“É um senador com quatro anos de mandato que não tem nada pra apresentar. Não teve uma bandeira, uma ação relevante, um projeto aprovado que tenha melhorado a vida do povo do Paraná.”
A crítica do deputado não se limita ao desempenho parlamentar. Para Zeca, existe uma distância entre Moro e o cotidiano paranaense — distância que, em sua avaliação, se torna ainda mais evidente quando o senador percorre o Estado durante a pré-campanha.
Um Paraná que, segundo Zeca, Moro não conhece
O argumento de Zeca Dirceu tem um componente territorial. O Paraná que ele apresenta em seus discursos não é apenas o mapa das grandes cidades ou o conjunto de números de pesquisas eleitorais. É um Estado com 399 municípios, formado por regiões com histórias, necessidades e vocações diferentes — do litoral ao Noroeste, do Oeste aos Campos Gerais, da Região Metropolitana de Curitiba ao Sudoeste.
É justamente nesse contato com as realidades locais que o deputado afirma enxergar uma fragilidade na candidatura de Moro. O candidato do bolsonaro não conhece o Paraná profundo, limitando-se apenas as cidades polo. E outro dia inclusive cometeu uma gafe quando se referiu aos Parnanguaras, cidadãos de Paranaguá, cidade portuária do Paraná, como "tribo de índios".
Zeca citou episódios que, segundo ele, revelariam desconhecimento do território. Entre eles, mencionou uma declaração atribuída ao senador sobre uma suposta visita à Santa Casa de Cascavel.
“Ele falou que visitou a Santa Casa de Cascavel, que é uma das maiores cidades do Paraná, que tinha feito determinadas conversas e percebido determinados problemas. Pasmem: a Santa Casa de Cascavel não existe, não tem esse hospital lá em Cascavel”, afirmou o deputado.
Também relatou um episódio ocorrido em Cianorte. Segundo Zeca, durante a gravação de um vídeo na entidade social Rainha da Paz, Moro teria perguntado aos próprios assessores onde estava.
“Aonde que eu estou mesmo? Que lugar é esse?”, teria perguntado o senador, de acordo com o relato do deputado.
Zeca ainda relacionou outras declarações de Moro que considera gafes, como a referência aos moradores de Paranaguá — os parnanguaras — e uma proposta relacionada ao horário para tombamento de carretas nas rodovias.
Na avaliação do deputado, os episódios formariam um padrão.
“Moro não conhece o Paraná. E, se dependesse dele, ele não estaria representando o Paraná”, afirmou.
A história do domicílio eleitoral
Outro ponto frequentemente lembrado por Zeca é a tentativa de Moro de transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo, em 2022.
O deputado usa esse episódio como argumento para questionar os vínculos do senador com o Paraná. Na sua interpretação, a candidatura ao Senado pelo Estado teria sido uma alternativa diante da impossibilidade de disputar por São Paulo.
“Moro gostaria de estar representando São Paulo. Foi esse o desejo dele. Ele trocou o domicílio eleitoral em 2022, foi impedido pela Justiça Eleitoral e aí acabou, como segundo plano, como último plano, disputando a eleição e se elegendo senador pelo Paraná”, disse Zeca.
A crítica ganha peso dentro da estratégia política do deputado porque, para ele, governar um Estado exige mais do que ocupar uma posição de destaque nacional. Exige conhecer seus municípios, conversar com prefeitos e lideranças locais, entender as dificuldades da saúde pública, acompanhar a infraestrutura, saber onde estão as oportunidades de geração de emprego e compreender as diferenças econômicas entre as regiões.
É esse conhecimento cotidiano que Zeca diz faltar a Moro.
“Xingar não põe comida na barriga”
As críticas também alcançam a atuação de Moro no Senado. Zeca afirma acompanhar o mandato do senador desde sua eleição e sustenta que Moro não teria apresentado resultados suficientes em defesa dos interesses paranaenses. Em sua avaliação, a atuação política do ex-juiz estaria excessivamente concentrada em ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao PT e a setores do campo progressista.
“O propósito de Moro como político, segundo Zeca Dirceu, é um só: xingar o presidente Lula, xingar o PT, acusar e atacar quem defende os programas de governo Lula”, afirmou o deputado.
No vídeo divulgado nas redes sociais, a crítica aparece de maneira ainda mais direta:
“Xingamentos não põem comida na barriga de ninguém, não geram emprego, não melhoram o atendimento na saúde, não diminuem filas e não abrem vagas em creches”, declarou.
A frase sintetiza o eixo central do discurso de Zeca: transformar a eleição estadual em uma discussão sobre resultados concretos na vida das pessoas, e não apenas em uma disputa de popularidade ou de ataques entre adversários.
Um projeto de governo ou “um papel impresso”?
Zeca também questiona o conteúdo das propostas apresentadas por Moro para o Paraná. Segundo o deputado, o plano de governo do senador seria insuficiente para responder aos desafios do Estado. Zeca afirma que o documento reuniria “ideias soltas”, sem apresentar, na sua avaliação, um projeto estruturado de Estado, com políticas públicas planejadas técnica e operacionalmente.
“Não tem um projeto de Estado, políticas públicas que de fato foram construídas, planejadas do ponto de vista técnico, do ponto de vista operacional”, afirmou.
A crítica é importante porque desloca o debate eleitoral para além das trajetórias pessoais dos candidatos. Para Zeca, a questão central deveria ser o que cada candidatura pretende fazer com a máquina pública, quais prioridades terá e de onde virão os recursos para transformar propostas em políticas públicas.
Nesse ponto, o deputado contrapõe a candidatura de Moro à de Requião Filho (PDT-PR), nome que o PT apoia na disputa pelo governo do Paraná. Zeca diz estar confiante de que Requião Filho chegará ao segundo turno e que, a partir daí, poderá derrotar Moro.
Lava Jato ainda está no centro do confronto
A relação entre Zeca Dirceu e Sérgio Moro, porém, não começou nesta eleição. O embate carrega também uma dimensão pessoal e histórica ligada à Operação Lava Jato e à trajetória de José Dirceu, pai do deputado e ex-ministro da Casa Civil.
Em abril de 2024, depois de Zeca repercutir um relatório do Conselho Nacional de Justiça relacionado à Lava Jato, Moro respondeu ao parlamentar no antigo Twitter/X com a frase: “cadeia é coisa do teu pai”.
A declaração reavivou uma disputa política que atravessa diferentes momentos da história recente do país.
Zeca, por sua vez, frequentemente questiona a atuação de Moro durante o período em que o senador foi juiz responsável por processos da Lava Jato e, posteriormente, ministro da Justiça no governo de Jair Bolsonaro.
No vídeo mais recente, o deputado voltou ao tema e fez acusações graves sobre a condução dos processos judiciais da operação.
A disputa pelo Paraná
Ao falar sobre Moro, Zeca também fala sobre qual Paraná deseja ver representado na política.
Seu argumento é que o Estado precisa de um governador que conheça seus municípios para além dos eventos de campanha; que saiba quais são os problemas de cada região e que tenha capacidade de articular políticas públicas com as prefeituras e com o governo federal.
No encerramento do vídeo, Zeca pede voto em Requião Filho e associa sua candidatura à possibilidade de ampliar investimentos federais no Estado, mencionando também a Itaipu como instrumento de investimentos e desenvolvimento regional.
“Vamos governar o Estado junto com ele e vamos facilitar a vinda de um volume maior ainda de investimentos do governo federal e da Itaipu, que virou o braço forte do governo federal”, afirmou.
A eleição de 2026, portanto, começa a ganhar contornos de uma disputa não apenas entre nomes, mas entre narrativas sobre o próprio Paraná.
De um lado, a imagem de um ex-juiz que construiu sua projeção nacional no combate à corrupção e que agora tenta transformar essa trajetória em uma candidatura ao governo estadual. De outro, um campo político que procura apresentar a experiência administrativa, a presença territorial e a capacidade de articulação com Brasília como requisitos para governar.
Para Zeca Dirceu, a questão é simples — e ao mesmo tempo decisiva: antes de governar o Paraná, é preciso conhecer o Paraná.
E é nesse terreno — o das cidades, das regiões, dos problemas concretos e da vida cotidiana dos paranaenses — que o deputado pretende travar sua disputa política com Sérgio Moro nas eleições de 2026. Zeca Dirceu é candidato à reeleição para mais um mandato representando a população paranaense em Brasília, e seu número de urna é: 1310.

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