Prince: o dia em que Londres virou palco e a memória de um artista que parecia viver em outra frequência

Em 19 de setembro de 2007, o músico surpreendeu uma plateia de moda em Londres ao abandonar a primeira fila, pegar a guitarra e transformar uma passarela em palco. Quase duas décadas depois, sua passagem pelo mundo continua cercada de música, fé, excessos e mistério

Há datas que parecem ter sido escolhidas pelo próprio destino. Em 19 de setembro de 2007, Prince estava em Londres. O artista norte-americano vivia naquele período uma das temporadas mais celebradas de sua carreira: uma longa série de apresentações na O2 Arena, conhecida como 21 Nights in London.

Mas naquele dia não havia, originalmente, um grande palco esperando por ele.

Prince foi assistir ao desfile do estilista Matthew Williamson, durante a London Fashion Week. Estava na primeira fila, vestido de preto e usando uma cartola.

Até que Prince fez aquilo que somente Prince parecia conseguir fazer.

Quando a passarela virou palco

O músico pegou um microfone, começou a cantar e, pouco depois, levantou-se. Acompanhado pelos músicos, caminhou para a passarela, colocou a guitarra Hohner e entrou na apresentação.

A música era “Chelsea Rodgers”.

O desfile havia se transformado, por alguns minutos, em um show de Prince.

A apresentação também acabou sendo registrada em vídeo, numa combinação perfeita entre moda, música e espetáculo.

Era 2007. Prince tinha 49 anos.

Ainda faltavam quase nove anos para sua morte.

E talvez exista algo de simbólico naquela cena de Londres: mesmo quando era apenas convidado, Prince continuava encontrando uma maneira de se tornar o acontecimento.

Um artista que não cabia em uma única definição

Prince Rogers Nelson nasceu em Minneapolis, Minnesota, em 1958, e construiu uma carreira difícil de enquadrar.

Cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor, performer e empresário, ele transitava pelo funk, rock, soul, R&B, pop e música eletrônica com uma liberdade que frequentemente confundia as classificações tradicionais da indústria.

Não era apenas intérprete de suas músicas.

Prince escrevia, produzia, tocava e controlava boa parte do processo criativo. Sua relação com a indústria fonográfica também foi marcada por conflitos e pela defesa de maior autonomia sobre sua própria obra.

No palco, construiu uma persona que misturava sensualidade, extravagância, espiritualidade, humor e uma impressionante capacidade musical.

Fora dele, entretanto, havia um homem muito mais complexo.

Fé, Testemunhas de Jeová e uma vida que mudou de direção

A religiosidade ganhou espaço importante na vida de Prince a partir dos anos 2000.

Em 2001, ele tornou pública sua conversão às Testemunhas de Jeová, influenciado pelo músico Larry Graham, ex-baixista de Sly and the Family Stone e colaborador de Prince.

É importante não confundir essa denominação com o movimento neopentecostal. As Testemunhas de Jeová constituem uma tradição religiosa própria, com doutrinas e práticas específicas.

A conversão teve reflexos no comportamento público de Prince. Ele passou a adotar uma vida mais reservada e disciplinada e chegou a participar pessoalmente de atividades de evangelização.

Há registros de que ele bateu à porta de moradores de Minneapolis acompanhado de Larry Graham para falar sobre sua fé.

A imagem pública do artista passou, portanto, a carregar uma contradição fascinante: de um lado, o homem que havia se tornado um dos maiores símbolos da liberdade sexual e artística da música popular; de outro, uma pessoa que abraçara uma religião rigorosa em diversos aspectos da vida cotidiana.

Mas a fé não apagou seus problemas físicos.

A dor, os opioides e a tragédia do fentanil

Nos últimos anos de vida, Prince enfrentava dores físicas, especialmente problemas relacionados aos quadris, atribuídos em parte por pessoas próximas ao intenso desgaste provocado por suas performances.

Foi nesse contexto que surgiram os opioides. A investigação sobre sua morte mostrou que Prince havia desenvolvido preocupação relacionada ao uso dessas substâncias. Pouco antes de morrer, sua equipe chegou a procurar ajuda especializada para dependência de opioides.

Em abril de 2016, um médico especializado em dor e dependência, Howard Kornfeld, foi procurado para ajudar o cantor. Um integrante da equipe chegou a ser enviado a Minnesota para fazer uma avaliação preliminar.

Prince, entretanto, morreu antes que pudesse iniciar aquele tratamento. Em 21 de abril de 2016, foi encontrado morto em Paisley Park, seu complexo residencial e estúdio em Minnesota.

Tinha apenas 57 anos. O legista determinou que a causa da morte foi toxicidade por fentanil, classificada como acidental.

A investigação posterior trouxe um detalhe ainda mais trágico: Prince provavelmente não sabia que estava ingerindo fentanil. A apuração apontou para uma pílula falsificada, semelhante a um medicamento opioide, que continha a substância.

Ou seja, não se trata simplesmente da velha narrativa de uma estrela que “morreu de drogas”. A história é mais complexa — e mais dolorosa.

Prince havia procurado ajuda. Havia uma preocupação crescente com os opioides. E, no fim, uma substância extremamente potente acabou encerrando a vida de um artista que parecia ter energia suficiente para continuar criando durante décadas.

Purple Rain: quando uma música virou fenômeno mundial

Se existe uma obra capaz de explicar por que Prince ultrapassou a condição de astro pop para se transformar em personagem da história da música, essa obra é “Purple Rain”.

A canção nasceu de maneira quase acidental. Segundo Lisa Coleman, tecladista da Revolution, Prince trabalhava na música antes mesmo de o projeto do filme estar completamente definido.

Inicialmente, “Purple Rain” tinha uma sonoridade mais próxima do country. Prince chegou a apresentar a composição a Stevie Nicks, mas ela não se sentiu confortável para gravá-la.

Depois, durante um ensaio, Wendy Melvoin começou a tocar grandes acordes na guitarra.

A música mudou.

Prince percebeu que aquela nova sonoridade poderia levar a composição para outro lugar. A banda passou horas trabalhando na estrutura, até chegar à versão que conhecemos.

Em 1983, “Purple Rain” foi apresentada no First Avenue, em Minneapolis. A apresentação foi registrada ao vivo e posteriormente transformada na gravação que entraria para a história.

O detalhe impressionante é que aquela noite não parecia, inicialmente, uma gravação histórica. Prince, porém, sabia que alguma coisa especial estava acontecendo.

A trilha sonora de Purple Rain seria lançada em 1984, acompanhando o filme de mesmo nome, no qual Prince estreou como ator em uma história semiautobiográfica.

O resultado foi gigantesco. O álbum chegou ao primeiro lugar da Billboard 200 e permaneceu no topo durante 24 semanas. O filme arrecadou mais de US$ 68 milhões mundialmente.

Prince também recebeu seus primeiros Grammys e, em 1985, levou o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original, por Purple Rain.

“Purple Rain” deixou de ser apenas uma música. Virou filme, álbum, espetáculo, símbolo e, posteriormente, uma espécie de epitáfio artístico.

É uma canção sobre perda, amor, transformação e transcendência. Talvez por isso tenha adquirido uma dimensão ainda maior depois da morte de seu autor.

O último ato

O mais impressionante na história de Prince talvez seja justamente a distância entre aquela imagem de Londres, em 2007, e o silêncio de Paisley Park, em 2016.

Em Londres, ele tinha simplesmente decidido levantar da primeira fila e tocar. Em 2016, sua vida terminaria de maneira inesperada, aos 57 anos. A morte provocou uma comoção mundial.

Fãs foram às ruas, casas de shows fizeram homenagens, prédios foram iluminados de roxo e artistas de diferentes gerações passaram a reverenciar sua obra.

O fenômeno não ficou restrito aos Estados Unidos. Prince havia conseguido algo raro: sua música atravessara fronteiras, estilos, gerações e até preconceitos sobre o que um artista deveria ser. Ele podia aparecer vestido de roxo, de preto, com saltos, guitarra e maquiagem.

Podia cantar uma balada delicada e, minutos depois, destruir um palco com uma guitarra. Podia falar de sexo, espiritualidade, amor, dor e fé dentro do mesmo universo artístico.

E podia, aos 49 anos, ir assistir a um desfile em Londres e simplesmente decidir que aquela passarela também seria sua.

Prince continua

Prince morreu em 2016. Mas há artistas que desaparecem fisicamente e continuam presentes de uma maneira que desafia o calendário.

Prince é um deles. Sua obra permanece sendo descoberta por quem nasceu depois de sua morte. Seus discos continuam sendo ouvidos. Suas apresentações continuam circulando. Suas composições continuam sendo regravadas.

E “Purple Rain” continua sendo cantada por multidões que, muitas vezes, nem sequer haviam nascido quando aquela música foi criada.

Talvez seja essa a melhor maneira de compreender a breve e extraordinariamente intensa passagem de Prince pelo mundo material. Ele viveu apenas 57 anos.

Mas parece ter vivido artisticamente várias vidas. E naquele 19 de setembro de 2007, em Londres, há uma pequena síntese de tudo isso. Prince estava sentado na primeira fila. Até decidir que era hora de levantar. Pegou a guitarra. Entrou na passarela. E fez o que sabia fazer melhor: transformou um instante em espetáculo.

 
- Esta postagem foi uma sugestão da leitora Sandra Capriles - Redação Sulpost - Com informações dos registros históricos da apresentação de Prince em Londres; Prince Vault; Reuters; Los Angeles Times; The Guardian; Academia de Artes e Ciências Cinematográficas; Grammy Awards.


Comentários

  1. Que bonita homenagem, a um artista que transcendeu seu tempo e fez da sua vida um Show de talento, caridade, espiritualidade e exemplos, de como transformar a dor em arte×

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