El Niño ameaça mais de 162 milhões de crianças na África, alerta UNICEF

Fenômeno climático deve se intensificar nos próximos meses e pode agravar fome, doenças, falta de água, deslocamentos e interrupções nas escolas em 13 países do leste e sul do continente


Fenômeno climático deve se intensificar nos próximos meses e pode agravar fome, doenças, falta de água, deslocamentos e interrupções nas escolas em 13 países do leste e sul do continente

Há uma imagem que talvez ajude a compreender o tamanho do alerta: enquanto o El Niño acontece a milhares de quilômetros de distância, no Oceano Pacífico, suas consequências podem chegar à vida de uma criança africana da forma mais simples e cruel possível — a falta de água, comida, escola ou atendimento médico.

É esse o alerta feito pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Mais de 162 milhões de crianças, mais de dois terços de todas as crianças que vivem na África Oriental e Austral, estão em áreas expostas aos impactos do El Niño de 2026/2027.

O alerta foi divulgado pela UNICEF em 1º de setembro. E a preocupação aumentou nesta quinta-feira (3), quando a Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou que o fenômeno está firmemente estabelecido e deverá ganhar força nos próximos meses, podendo atingir uma intensidade muito forte.

Leia o alerta oficial da UNICEF sobre o impacto do El Niño sobre as crianças africanas.

Confira a atualização oficial da Organização Meteorológica Mundial sobre o El Niño.

Quando o clima muda, a infância sente primeiro

O El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial. Essa mudança altera os padrões atmosféricos e pode modificar o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do planeta.

Na África Oriental e Austral, os efeitos não serão iguais em todos os lugares.

Em algumas áreas, o problema pode ser a chuva excessiva e as enchentes. Em outras, a ameaça é justamente o contrário: seca, calor extremo e perda de colheitas, aprofundando a insegurança alimentar.

Para quem acompanha esses acontecimentos apenas pelos mapas meteorológicos, pode parecer uma questão distante.

Para uma criança, porém, a diferença entre chuva demais e chuva de menos pode significar simplesmente ter ou não ter o que comer.

Somália: até 2,5 milhões de pessoas podem ser atingidas

Na Somália, as inundações associadas ao fenômeno podem atingir até 2,5 milhões de pessoas, segundo os cenários considerados pela UNICEF.

O problema não termina quando a água sobe.

Famílias podem ser obrigadas a abandonar suas casas. Crianças podem perder o acesso à escola. Serviços de saúde podem ser interrompidos. A água potável pode ficar contaminada ou inacessível. A distribuição de alimentos se torna mais difícil justamente quando a necessidade aumenta.

A Somália já convive com uma das crises humanitárias mais complexas e prolongadas do mundo. Eventos climáticos extremos podem se somar à pobreza, aos conflitos, aos deslocamentos e à fragilidade dos serviços públicos, tornando a situação ainda mais difícil para as famílias.

Na Etiópia, a ameaça encontra a fome

Na Etiópia, a preocupação é particularmente grave porque o impacto climático pode atingir comunidades que já enfrentam insegurança alimentar severa.

Milhares de meninas e meninos podem ser afetados.

É justamente aí que o alerta climático deixa de ser apenas uma previsão.

Uma safra perdida pode significar menos comida no prato. Menos comida pode significar desnutrição. A desnutrição deixa a criança mais vulnerável a doenças. E uma família que precisa se deslocar em busca de água ou alimento pode ter ainda mais dificuldade para manter os filhos na escola.

Uma crise alimenta a outra.

O sul e o leste da África estão no radar

O alerta da UNICEF alcança 13 países prioritários: Djibuti, Eritreia, Etiópia, Quênia, Madagascar, Malaui, Moçambique, Somália, Sudão do Sul, Sudão, Uganda, Zâmbia e Zimbábue.

No Sudão do Sul, por exemplo, a combinação de seca, calor extremo e inundações localizadas pode aprofundar a insegurança alimentar e a desnutrição, aumentar o risco de doenças e agravar os deslocamentos populacionais.

Na África Austral, a preocupação está particularmente relacionada à possibilidade de chuvas abaixo do normal e perdas agrícolas, com consequências que podem se estender por meses.

A UNICEF chama atenção para um detalhe fundamental: os impactos do El Niño não terminam necessariamente quando o fenômeno perde força. Os efeitos sobre nutrição, saúde, educação e segurança das crianças podem continuar até 2027.

O mundo sabe que o problema está chegando

Talvez seja essa a parte mais inquietante do alerta.

Não se trata de uma tragédia completamente inesperada.

As previsões meteorológicas permitem saber antecipadamente quais regiões estão mais expostas e quais medidas podem ser tomadas para reduzir os danos.

A UNICEF afirma que necessita de US$ 173 milhões, dentro de seu apelo humanitário de 2026, para ampliar ações antecipatórias e assistência vital às crianças e famílias dos 13 países prioritários.

É uma corrida contra o tempo.

Preparar antes da enchente, da seca e da fome

A recomendação da UNICEF passa por medidas que podem parecer simples, mas que fazem enorme diferença quando uma emergência chega: antecipar estoques de alimentos e insumos nutricionais, reforçar serviços de saúde, ampliar a vigilância de doenças, garantir água e saneamento, preparar escolas para possíveis interrupções e proteger crianças contra violência e exploração.

Há também uma dimensão que costuma desaparecer do noticiário quando uma catástrofe acontece: a educação.

Uma criança que deixa de frequentar a escola por causa de uma enchente, de uma seca ou do deslocamento da família não está apenas perdendo algumas aulas. Em contextos de extrema vulnerabilidade, uma interrupção pode se transformar em abandono escolar permanente.

“Os riscos para as crianças já estão claros”

Etleva Kadilli, diretora regional da UNICEF para a África Oriental e Austral, resumiu a situação em uma frase que dá a dimensão da urgência:

“A ameaça do El Niño está crescendo, e os riscos para as crianças já estão claros.”

Segundo a UNICEF, crianças da região enfrentam insegurança alimentar e hídrica, sistemas de saúde pressionados e interrupções no aprendizado.

A advertência da organização é, portanto, mais do que uma previsão sobre o clima.

É um pedido para que governos, organismos internacionais e doadores ajam antes que as imagens da próxima crise apareçam nas telas.

Porque, quando a água já invadiu as casas, quando a plantação já morreu ou quando a criança já está desnutrida, a margem para prevenir o sofrimento diminui drasticamente.

Um El Niño que pode avançar até 2027

A atualização publicada hoje pela Organização Meteorológica Mundial reforça a gravidade do cenário.

Segundo a atualização oficial da OMM sobre El Niño/La Niña, o fenômeno está firmemente estabelecido e deve se fortalecer ainda mais nos próximos meses, atingindo intensidade muito forte antes de alcançar seu pico no final deste ano.

Os modelos utilizados pela OMM indicam uma probabilidade próxima de 100% de que o El Niño persista até fevereiro de 2027.

A organização ressalva que a intensidade do fenômeno não determina, sozinha, a dimensão dos impactos em cada país. As consequências dependem da região, da estação do ano e da interação com outros fatores climáticos.

Ainda assim, a combinação de temperaturas elevadas, mudanças no regime de chuvas, secas e enchentes aumenta os riscos para populações que já vivem em situação de vulnerabilidade.

Uma crise climática que também é uma questão de infância

O El Niño não escolhe suas vítimas pela idade.

Mas as crianças estão entre as primeiras a sentir seus efeitos.

São mais vulneráveis à desnutrição, às doenças transmitidas pela água, à falta de saneamento, ao calor extremo e à interrupção dos serviços essenciais. E, em comunidades pobres ou afetadas por conflitos, quase nunca existe uma reserva financeira ou uma rede de proteção capaz de absorver um novo choque.

Por isso, o número de 162 milhões de crianças não deve ser lido apenas como uma estatística.

São 162 milhões de histórias.

São crianças que deveriam estar pensando na próxima brincadeira, na próxima aula, nos amigos, na família e no futuro — e que podem acabar tendo de pensar primeiro em encontrar água, comida ou um lugar seguro para dormir.

O alerta está dado.

Agora, como lembra a própria UNICEF, resta saber se o mundo vai agir enquanto ainda há tempo ou se vai esperar a crise crescer para então correr atrás das consequências.

Fontes oficiais

SULPOST - Jornalismo independente, cidadão, plural e comprometido com a verdade.

Comentários

  1. Pois é já deveria ter se movimentado, desde agisto!estão esperando o que? O Caus se consolidar?

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