Daniel Vorcaro prepara nova delação e decide preservar Alexandre de Moraes

Ex-banqueiro pretende apresentar uma terceira proposta à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República. Estratégia ocorre após a divulgação de mensagens que ampliaram a pressão sobre o ministro do STF e desencadearam uma crise institucional

Daniel Vorcaro quer propor novo acordo de delação premiada poupando Moraes - imprensaReprodução/Ton Molina/NurPhoto via Getty Images

Daniel Vorcaro pretende apresentar uma nova proposta de colaboração premiada à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR). Segundo informações divulgadas nesta sexta-feira (4), a estratégia deverá preservar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.

A nova tentativa manteria, em linhas gerais, a versão apresentada anteriormente por Vorcaro: o ex-banqueiro reconheceria uma relação de amizade com Moraes e uma relação comercial com Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, cujo escritório manteve contrato com o Banco Master.

O contrato, segundo as informações divulgadas no âmbito das investigações, envolve valores na casa de R$ 129 milhões. A defesa e o escritório sustentam a legalidade da relação comercial.

Divulgação de mensagens mudou a estratégia

A decisão de preservar Moraes ocorre depois da divulgação de um relatório da Polícia Federal que reuniu mensagens atribuídas a Vorcaro e ao ministro.

O material mostra que o banqueiro recorria a Moraes para tratar de assuntos relacionados ao Banco Master. Entre as mensagens estão pedidos e consultas envolvendo investigações e autoridades como o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Em uma das conversas reveladas, Vorcaro perguntou a Moraes se deveria deixar o país antes de uma possível prisão. Em seguida, questionou sobre a possibilidade de uma atuação junto a outras autoridades.

A existência das mensagens, porém, não significa, por si só, que Moraes tenha atendido aos pedidos de Vorcaro ou interferido nas investigações. Essa distinção é central para a compreensão do caso.

Vorcaro já teve duas propostas rejeitadas

A nova tentativa ocorre depois de duas propostas de colaboração premiada terem sido rejeitadas.

A Polícia Federal considerou que as informações apresentadas anteriormente não eram suficientes ou não apresentavam o grau de novidade necessário para justificar um acordo. A PGR também rejeitou uma segunda proposta.

Entre os problemas apontados nas negociações anteriores estaria a ausência de informações suficientemente novas e comprováveis, além de relatos considerados pouco consistentes com as provas já reunidas.

Por isso, a eventual terceira proposta terá um desafio adicional: Vorcaro precisará apresentar elementos capazes de produzir novas linhas de investigação, documentos, provas ou informações que ainda não estejam sob domínio das autoridades.

Preservar Moraes é parte da estratégia

A decisão de não transformar Alexandre de Moraes em alvo da nova colaboração pode ser interpretada como uma tentativa de reduzir o custo político e institucional da negociação.

Para Vorcaro, uma colaboração que acusasse diretamente um ministro do STF poderia ser vista como uma tentativa de obter benefícios processuais por meio de acusações contra uma autoridade central do Judiciário.

A estratégia agora seria apresentar uma narrativa segundo a qual havia proximidade pessoal e relações comerciais, mas sem atribuir a Moraes participação em crimes relacionados ao Banco Master.

Isso não elimina, entretanto, as questões levantadas pelo relatório da PF. As mensagens e demais elementos já apreendidos podem ser analisados pelas autoridades independentemente do conteúdo de uma eventual delação.

Contrato com escritório da esposa de Moraes está no centro da controvérsia

Um dos pontos mais sensíveis da investigação é o contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes.

O negócio teria valor de aproximadamente R$ 129 milhões. O escritório afirma que a contratação foi regular e que Alexandre de Moraes foi consultado como marido da sócia-diretora para verificar possíveis impedimentos legais.

O relatório da PF também menciona metadados relacionados a versões da minuta contratual. A existência desses registros passou a ser um dos elementos utilizados no debate sobre a proximidade entre Vorcaro e o ministro.

Os metadados, contudo, precisam ser analisados dentro do conjunto probatório e não comprovam, isoladamente, eventual irregularidade ou crime.

Crise entre ministros do STF

A divulgação do relatório transformou o caso em uma crise institucional dentro do próprio Supremo Tribunal Federal.

O ministro André Mendonça, responsável pela condução de parte das medidas relacionadas ao caso, passou a ser alvo de críticas de Moraes. O ministro também questionou a forma como o relatório da Polícia Federal foi produzido e divulgado.

O presidente do STF, Edson Fachin, determinou que Alexandre de Moraes, André Mendonça, Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, prestem esclarecimentos sobre os fatos relacionados às conversas e aos procedimentos investigativos.

A determinação ampliou o alcance da crise e colocou diferentes instituições no centro da disputa sobre a validade e a interpretação do material produzido pela PF.

PGR também aparece no material

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, é citado nas conversas atribuídas a Vorcaro. Segundo o material divulgado, o banqueiro teria pedido a Moraes que tratasse com Gonet de assuntos relacionados ao Banco Master.

Não há, entretanto, comprovação de que Gonet tenha atendido a esses pedidos ou interferido em investigações em favor do banco.

A presença de referências ao procurador-geral no relatório aumentou a complexidade institucional do episódio, especialmente porque a PGR participa das negociações sobre uma eventual delação de Vorcaro.

Novas delações podem mudar o cenário

A posição de Vorcaro também pode ser afetada por outras colaborações relacionadas ao caso Banco Master.

João Carlos Mansur, ex-dono da gestora Reag, fechou acordo de colaboração com a PGR, com informações relacionadas ao caso e a Vorcaro. O acordo ainda depende das etapas de homologação previstas no processo.

Outro personagem ligado ao caso, Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, também firmou colaboração e apresentou informações que passaram a ser analisadas pelas autoridades.

Se essas colaborações produzirem provas independentes, a capacidade de Vorcaro de negociar benefícios poderá ser alterada. Ao mesmo tempo, informações de outros colaboradores podem servir para confirmar ou contradizer versões apresentadas pelo ex-banqueiro.

Repercussão política

O caso também ganhou dimensão eleitoral em meio à disputa política de 2026.

Setores da oposição passaram a utilizar as mensagens para ampliar as críticas a Alexandre de Moraes e defender medidas contra o ministro, incluindo pedidos de impeachment.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, por outro lado, sinalizou resistência em dar andamento imediato a novos pedidos de impeachment e indicou que pretende acompanhar os desdobramentos no Supremo.

A situação é politicamente complexa porque o caso Banco Master também envolve personagens ligados a diferentes grupos políticos. Por isso, a investigação não se limita ao embate entre apoiadores e críticos de Moraes.

O que pode acontecer agora

A próxima etapa será a apresentação formal — caso ela se confirme — de uma terceira proposta de colaboração premiada por Daniel Vorcaro.

A principal questão será saber quais informações novas serão apresentadas à PF e à PGR e se elas terão elementos de corroboração suficientes para justificar um acordo.

Outro ponto decisivo será a análise das manifestações determinadas por Edson Fachin. Os esclarecimentos de Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues poderão definir os próximos passos da investigação e da disputa institucional.

Também será importante acompanhar o avanço das colaborações de outros investigados, que podem produzir novos documentos e informações sobre o Banco Master.

O ponto central da nova estratégia

A principal novidade da estratégia de Vorcaro não é apenas a intenção de tentar novamente uma colaboração premiada. A terceira proposta surge com uma escolha clara: não transformar Alexandre de Moraes no principal alvo da negociação.

Vorcaro precisa, ao mesmo tempo, oferecer informações novas e relevantes para convencer PF e PGR e evitar que a colaboração seja interpretada apenas como uma tentativa de conseguir liberdade ou prisão domiciliar.

A divulgação das mensagens tornou essa tarefa mais difícil. O material expôs uma relação próxima entre o ex-banqueiro e o ministro, mas ainda não estabelece, isoladamente, que os pedidos feitos por Vorcaro tenham sido atendidos ou que Moraes tenha praticado alguma irregularidade.

O futuro da negociação dependerá, portanto, menos da quantidade de acusações e mais da capacidade de Vorcaro de apresentar informações novas, verificáveis e capazes de gerar provas.


Atualização: esta reportagem acompanha os desdobramentos da investigação envolvendo Daniel Vorcaro, Banco Master, Alexandre de Moraes e demais autoridades citadas no caso. As informações atribuídas a investigados, delatores e documentos oficiais não representam, por si só, comprovação definitiva de responsabilidade criminal.

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