Rafael Greca faz discurso em defesa de Lula, da cultura brasileira e da soberania nacional em sarau de Curitiba (VÍDEO)
Em fala no Bom Retiro, ex-prefeito questiona o voto movido apenas pela ideologia, defende a Lei Rouanet e alerta para os interesses estrangeiros sobre as riquezas do Brasil.
Vídeo revela um discurso que vai da política à música, da educação à Foi em um encontro de músicos, em meio a um sarau gauchesco no bairro Bom Retiro, em Curitiba, que Rafael Greca (MDB) decidiu falar de eleição, cultura e do futuro do Brasil. Na noite de segunda-feira (19 de outubro), o ex-prefeito deixou de lado a cautela e fez uma manifestação política que, na prática, representa apoio à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais.
Curitiba, PR - O vídeo, gravado ontem, no bairro Bom Retiro, mostra que Greca não se limitou a pedir que as pessoas pensem antes de votar. Ele construiu seu argumento a partir de uma questão concreta para quem estava à sua frente: o que acontece com músicos, produtores culturais, museus e instituições de ensino se as políticas públicas de incentivo à cultura forem interrompidas?
O discurso também abordou a relação do Brasil com os Estados Unidos, a exploração das chamadas terras raras, a tradição política trabalhista e a importância de preservar uma identidade cultural que, nas palavras do ex-prefeito, não cabe em uma divisão entre direita e esquerda.
“Qual ideologia vale o direito de calar o Brasil?”
Greca começou lembrando que o país estava prestes a decidir o próximo presidente. Em seguida, vinculou a eleição à continuidade da Lei Rouanet e ao trabalho dos músicos.
“O país vai viver uma eleição no próximo domingo. No próximo domingo, o país vai decidir se quer votar a favor da Lei Rouanet e, portanto, votar a favor dos músicos ou se quer decidir a votar contra a Lei Rouanet e votar contra os músicos.”
Logo depois, veio uma das frases mais contundentes da gravação:
“Pensem qual ideologia vale o direito de calar o Brasil.”
A partir daí, Greca ampliou o argumento para a política externa e os interesses econômicos. Criticou o que considera uma submissão do país aos Estados Unidos e citou as terras raras, minerais estratégicos utilizados na fabricação de equipamentos eletrônicos, veículos elétricos e outros produtos de alta tecnologia.
“E calar o Brasil para só servir aos Estados Unidos, para só servir aos que querem as nossas terras raras, para só servir aos que querem lucrar com isso.”
É importante distinguir a avaliação política de Greca de uma constatação sobre as intenções de outros governos ou candidatos. A discussão sobre terras raras, porém, toca em um tema relevante para o país: quem controla a exploração dos recursos naturais, onde ocorre o processamento dos minerais e quanto valor econômico e tecnológico permanece no Brasil.
O debate sobre soberania não se resume a escolher parceiros comerciais. Também envolve a capacidade de desenvolver tecnologia, agregar valor à produção nacional e estabelecer condições para que a exploração das riquezas brasileiras resulte em benefícios para a população.
Greca recorre à tradição de Brizola e à educação pública
Em outro momento, o ex-prefeito invocou uma tradição política que associa à própria formação. Citou Leonel Brizola, Jaime Lerner, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira ao falar de educação, cultura e da construção de um país menos concentrado na acumulação de riqueza.
O sentido da fala do ex-prefeito é claro: Greca procurou vincular sua manifestação a uma tradição de lideranças, inclusive referências para sua própria formação, que atribuíram o protagonismo do desenvolvimento à educação pública, cultura e transformação social.
Ao desenvolver a ideia, afirmou que a grandeza do Brasil não deveria ser medida apenas por riquezas acumuladas. Para ele, estava em jogo um modelo de país que também reconheça o valor das instituições públicas e das oportunidades oferecidas à população.
“Toda essa grandeza de um Brasil generoso que não pensa só no dinheiro acumulado no bolso é uma grandeza que está em jogo no próximo domingo.”
A fala dá uma dimensão mais ampla à posição política do nosso eterno prefeito Rafael Greca. O discurso não trata apenas de um mecanismo de incentivo cultural, mas da concepção de Estado e de sociedade que, em sua avaliação, está em jogo nesta eleição.
A passagem pela igreja e a decisão de não ficar em silêncio
Greca também explicou por que considerava necessário se manifestar. Contou que havia acabado de participar de uma missa em homenagem ao reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Irmão Rogério Mateucci, e associou sua decisão a um sentimento de dever pessoal.
“E era meu dever falar isso porque eu não posso me calar, porque se eu me calasse, as pedras falariam.”
Na sequência, mencionou a omissão, o medo e a vergonha diante do que chamou de submissão à ideologia. A referência religiosa não ficou separada da política: Greca invocou Nossa Senhora Aparecida e pediu que as pessoas não decidissem o voto apenas por identificação ideológica.
Foi uma maneira de apresentar a manifestação como uma questão de consciência. O ex-prefeito não falou como um dirigente partidário lendo um comunicado, mas como alguém que procurava justificar, diante de um público cultural, por que considerava importante declarar sua posição naquela reta final eleitoral.
“Não tem música de direita nem de esquerda”
Talvez a imagem mais forte de todo o discurso esteja na comparação entre a música e a necessidade de pensar com os dois lados do cérebro.
“Não tem ideologia na música. Não tem música de direita nem de esquerda porque o gaiteiro, para tocar, precisa das duas mãos, a direita e a esquerda.”
Greca perguntou aos presentes quem conseguiria tocar um instrumento usando apenas uma das mãos. Depois, pediu que levantassem a mão aqueles que tocavam com as duas. A interação com o público serviu para sustentar a metáfora: assim como a execução musical exige coordenação, a compreensão da realidade também exige capacidade de considerar diferentes dimensões.
A comparação tem uma particularidade. Greca estava em um sarau gauchesco, diante de pessoas ligadas à música, e escolheu uma imagem que fazia parte daquele ambiente para falar de política. Em vez de recorrer apenas a números ou acusações partidárias, utilizou uma experiência compartilhada pelo público para defender sua ideia.
Isso não significa que a cultura esteja fora da política. O próprio discurso demonstra o contrário: financiamento, acesso, produção artística e preservação do patrimônio cultural dependem de decisões públicas. O argumento de Greca é que a música não deveria ser reduzida a uma disputa entre campos ideológicos.
O argumento mais direto: Lula, os mais pobres e a Lei Rouanet
Ao mencionar Lula, Greca fez uma ressalva sobre o governo antes de explicar sua preferência. A frase, espontânea e coloquial, é um dos trechos centrais da gravação:
“Se houver um Lula, não está meio dando no gasto, mas pelo menos ele tem a reta intenção de servir aos pobres e de manter a Lei Rouanet.”
A formulação revela que o apoio não foi apresentado como uma aprovação irrestrita de todas as decisões do presidente. Greca reconheceu reservas quanto ao desempenho do governo, mas colocou na balança a atenção à população mais pobre e a continuidade do incentivo à cultura.
O ex-prefeito dirigiu-se também a uma pessoa presente no encontro, aparentemente ligada a um produtor cultural. Perguntou se ela havia se incomodado com sua declaração e, em seguida, fez uma advertência sobre as consequências que atribui ao fim da Lei Rouanet.
“O produtor, teu marido, não vai comer mais quando acabar a Lei Rouanet.”
É uma passagem que aproxima a discussão de uma realidade cotidiana: por trás de um espetáculo, de um show ou de uma apresentação existem profissionais que dependem da atividade cultural para trabalhar e obter renda.
A Lei Rouanet, formalmente vinculada ao Programa Nacional de Apoio à Cultura, permite que projetos aprovados captem recursos junto a patrocinadores com incentivo fiscal, de acordo com os critérios legais. Não se trata de um pagamento automático a todos os artistas, nem de uma garantia de financiamento para cada projeto. Ainda assim, o mecanismo integra o conjunto de instrumentos públicos utilizados para viabilizar atividades culturais no país.
Greca foi além e afirmou que seus adversários não querem música, financiamento cultural, museus, universidades ou escolas públicas. Essa é a avaliação política expressa por ele, e não uma descrição neutra de propostas formalmente apresentadas pelos candidatos. Para avaliar o alcance dessas afirmações, é necessário comparar os programas de governo e as medidas efetivamente defendidas por cada candidatura.
Da música brasileira às vozes que vieram da África
Na parte final, o discurso ganhou um tom de celebração da diversidade cultural brasileira. Greca enumerou compositores, artistas e manifestações musicais para explicar o que considera a verdadeira riqueza do país.
“A grandeza do Brasil é a grandeza da sua música.”
Na gravação, ele cita nomes como Heitor Villa-Lobos, Barbosa Lessa, Pixinguinha e Luiz Gonzaga, além de instrumentos, ritmos e tradições que atravessam a formação cultural brasileira. O trecho inclui referências às vozes de origem africana e à contribuição dos coros das antigas igrejas.
O ponto é importante porque desloca a conversa do financiamento para o conteúdo da própria cultura. O Brasil que Greca descreve é resultado de encontros, heranças e influências diferentes, que se incorporaram à música popular, à tradição regional, à música erudita e às manifestações religiosas.
Em um sarau gauchesco, a referência à sanfona e às tradições regionais funcionou como ponto de partida para uma defesa mais abrangente da diversidade cultural. A mensagem foi a de que essa riqueza não pertence a um partido ou a uma corrente política.
Uma manifestação que contrasta com o palanque paranaense
A declaração também ganha uma nova dimensão na política local. Greca integrou como candidato a vice-governador a chapa de Sandro Alex (PSD) na eleição paranaense de 2026. No segundo turno presidencial, Sandro Alex e o governador Ratinho Junior (PSD) manifestaram apoio a Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula.
Ao declarar sua preferência pelo presidente e defender a continuidade de políticas culturais, Greca expôs uma diferença de posicionamento em relação a aliados do campo político com o qual esteve recentemente associado na disputa pelo Governo do Paraná.
O episódio também recupera sua relação com a eleição de 2022. Naquele segundo turno, Greca já havia manifestado respeito à vitória de Lula e mantido uma postura distinta da adotada por setores alinhados a Jair Bolsonaro. O discurso atual, no entanto, é mais explícito ao relacionar a escolha presidencial à Lei Rouanet, aos mais pobres e à soberania nacional.
O Blog do Esmael publicou reportagem sobre a manifestação nesta terça-feira (20), retomando o histórico político do ex-prefeito. O tema também foi repercutido por veículos paranaenses, entre eles o Bem Paraná e a Tribuna do Paraná.
O vídeo acrescenta um elemento de interesse público à notícia: permite conhecer não apenas a conclusão política de Greca, mas os argumentos que ele apresentou para chegar a ela. Em vez de falar somente de candidatos, o ex-prefeito escolheu falar do que considera estar em jogo para o Brasil. E fez isso diante de músicos, com uma gaita como referência e uma ideia que atravessou toda a sua fala: a cultura brasileira é maior do que as divisões partidárias.
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