Argentina tem 32 mil empregadores registrados a menos desde a chegada de Milei ao poder
Dados oficiais indicam retração de 6,3% no cadastro de empregadores com trabalhadores registrados. Comércio, emprego formal e indústria enfrentam dificuldades, enquanto aumentam as importações de bens de consumo
A economia argentina enfrenta novos sinais de pressão sobre o setor produtivo. Um levantamento divulgado em 10 de outubro de 2026 pelo Centro de Economia Política Argentina (CEPA), com base em registros oficiais, aponta que o país tinha 32.290 empregadores registrados a menos em julho de 2026 na comparação com novembro de 2023, mês anterior à posse do presidente Javier Milei.
Segundo os dados da Superintendência de Riscos do Trabalho (SRT), o número de empregadores com trabalhadores registrados caiu de 512.357 para 480.067, uma redução de 6,3%. A informação foi repercutida pela agência internacional EFE e pelo jornal argentino La Nación.
Somente em julho, o saldo foi negativo em 948 empregadores, o equivalente a aproximadamente 31 registros a menos por dia. A sequência de quedas reforça as preocupações com a capacidade de recuperação de setores importantes da economia argentina.
Menos registros não significam necessariamente empresas fechadas
Os números exigem uma distinção importante: a redução no cadastro de empregadores não corresponde, necessariamente, à quantidade de empresas que encerraram definitivamente suas atividades.
A SRT contabiliza empregadores com pelo menos um trabalhador registrado no sistema de riscos do trabalho. Uma empresa pode deixar de aparecer na estatística porque fechou as portas, mas também porque ficou sem empregados formais ou passou por alterações na estrutura de contratação.
Portanto, os 32.290 registros a menos representam uma redução líquida no universo de empregadores cadastrados. O indicador é relevante para acompanhar a atividade econômica e o emprego formal, mas não permite afirmar que todas essas empresas tenham encerrado suas operações.
Emprego formal também apresenta saldo negativo
A retração aparece igualmente nos dados sobre o mercado de trabalho. Segundo o levantamento do CEPA, o número de postos formais diminuiu em 437.611 entre novembro de 2023 e julho de 2026. Apenas em julho, foram contabilizados outros 3.485 postos a menos em relação ao mês anterior.
O resultado indica uma redução expressiva no emprego registrado durante o período analisado. Entretanto, o indicador não permite atribuir todas as perdas ao fechamento de empresas: demissões, redução de equipes e outras mudanças nas relações de trabalho também influenciam o resultado.
A evolução do emprego formal é um dos pontos centrais para avaliar os efeitos sociais do programa econômico de Milei, especialmente porque a recuperação da renda e do consumo depende, entre outros fatores, da capacidade de geração de trabalho e da evolução dos salários reais.
Inflação menor não significa recuperação automática do poder de compra
A inflação continua sendo uma variável decisiva para as famílias argentinas. Conforme os dados atribuídos ao Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC), os preços subiram 2,1% em julho de 2026, acumulando alta de 33,8% em 12 meses.
Embora esse ritmo seja muito inferior aos níveis extremos registrados anteriormente no país, a desaceleração da inflação não significa que os preços tenham caído. Significa que continuam aumentando, mas em velocidade menor.
Para saber se houve recuperação efetiva do poder de compra, é necessário comparar a inflação com a evolução dos salários, das aposentadorias e de outras fontes de renda.
Os indicadores de atividade econômica também apontaram dificuldades. Segundo os números apresentados no levantamento, o estimador mensal de atividade econômica registrou queda de 2,9% em julho ante junho, na série ajustada sazonalmente, e recuo de 1,4% na comparação com julho de 2025.
As vendas reais dos supermercados também diminuíram 2,1% na comparação anual em julho. No acumulado dos sete primeiros meses de 2026, a retração foi de 2,7%.
Os resultados sugerem que o consumo interno permanece sob pressão, com possíveis consequências para o comércio, os pequenos negócios e as empresas que dependem dos gastos cotidianos das famílias. Os indicadores oficiais podem ser consultados no portal do INDEC.
Importações crescem enquanto a indústria manufatureira recua
Outro ponto importante é a relação entre a abertura comercial, a entrada de produtos estrangeiros e o desempenho da indústria argentina.
Em estudo publicado em agosto de 2026, o CEPA comparou os resultados do primeiro semestre deste ano com o mesmo período de 2023. Segundo o levantamento, as importações de bens de consumo cresceram 34,7%, enquanto a produção da indústria manufatureira caiu 12%.
O relatório também identificou redução nas importações de insumos utilizados pela produção industrial. As compras externas de bens intermediários recuaram 17,8%, enquanto as de peças e acessórios para bens de capital diminuíram 21,6%.
O estudo aponta que o aumento das importações de produtos finais ocorreu simultaneamente à retração de segmentos da indústria nacional. Essa combinação alimenta o debate sobre os efeitos da abertura comercial sobre fabricantes locais, fornecedores e trabalhadores.
É importante, porém, evitar uma conclusão simplista: a coincidência entre o crescimento das importações e a queda da produção não prova, por si só, que um fenômeno tenha causado integralmente o outro. Os resultados variam entre os setores e também dependem de fatores como demanda, custos, crédito, câmbio e competitividade.
Um balanço que vai além dos números
Os indicadores mostram dificuldades relevantes em partes da economia argentina durante o governo de Javier Milei. A redução do número de empregadores registrados, a perda de postos formais, a retração das vendas dos supermercados e a queda da produção manufatureira merecem atenção.
Ao mesmo tempo, a economia não se comporta de maneira uniforme. Setores como energia, mineração e atividades ligadas ao agronegócio podem apresentar resultados diferentes daqueles observados no comércio e em segmentos da indústria de transformação.
Por isso, uma avaliação consistente da política econômica argentina precisa considerar um conjunto de variáveis: inflação, salários reais, emprego, consumo, produção industrial, investimentos, exportações e situação fiscal.
O desafio é verificar se a estabilização dos preços e os ajustes promovidos pelo governo serão acompanhados por uma recuperação sustentável da atividade produtiva, da renda e do emprego.
Para a população, o resultado concreto importa tanto quanto os indicadores macroeconômicos: controlar a inflação é relevante, mas a recuperação também precisa aparecer na capacidade de comprar alimentos, manter o emprego e sustentar os pequenos negócios.
Os próximos dados oficiais ajudarão a esclarecer se a retração observada em parte do setor produtivo representa uma fase transitória de ajuste ou uma dificuldade mais persistente para a economia argentina.
SULPOST - Jornalismo Cidadão e Independente na América do Sul.

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