O Paraná também se constrói com memória

De Aníbal Khury a Alexandre Curi, de Roberto Barrozo Filho às quatro gerações da família Stresser: preservar a memória é também compreender como o Paraná chegou até aqui

 
Aníbal Curi e Roberto Barrozo Filho (1984) - Arquivo/ALEP/Bem Paraná

A história da humanidade é feita de muitas histórias, que não deveriam desaparecer com a passagem do tempo. 

Falando mais especificamente do meu estado, do grande estado do Paraná, a construção coletiva desta unidade da federação é feita, como em todo lugar do planeta, de histórias de homens e mulheres que ajudaram a construir o Paraná muito antes de nós.

Nós jornalistas de hoje, temos uma verdadeira redação que cabe no bolso, um computador sobre a mesa ou uma inteligência artificial ao nosso lado, uma ferramenta de democratização da informação e de acessibilidade, que nos ajuda a pesquisar, organizar documentos e reencontrar aquilo que o tempo, e forças ocultas e às vezes nem tanto, insistem em esconder ou até mesmo tentar apagar.

Foi por isso que em um dos meus livros de cabeceira, resolvi comentar em momento de suma importância, pois estamos a sete dias das eleições majoritárias de 2026, duas páginas do livro Jornalismo sem Censura, do saudoso jornalista Roberto Barrozo Filho, duas páginas que contam a história do Paraná e chamaram minha atenção devido à grande importância do próximo dia 4 de outubro.

Não apenas pelo personagem central do texto — Aníbal Khury —, mas pelo encontro de duas famílias que, cada uma em seu campo, deixaram marcas profundas na história paranaense: a família Khury/Curi, na política e no Poder Legislativo, e a família Barrozo, no jornalismo e na formação da opinião pública.

Um texto de 1993 que conversa diretamente com o Paraná de hoje

O editorial de Roberto Barrozo Filho, o qual comento, foi publicado no Jornal do Estado, em 1993. E, hoje, mais de três décadas depois, suas palavras continuam interessantes, porque registram não apenas aquilo que alguém contou posteriormente sobre Aníbal Khury, mas principalmente aquilo que um jornalista escrevia sobre ele enquanto os acontecimentos ainda faziam parte da vida política do Paraná.

Barrozo descrevia um político que, segundo sua percepção jornalística, não precisava recorrer à bajulação nem ao confronto permanente para exercer influência.

“Como Presidente da Assembleia ou simplesmente como deputado, nunca fez fila com os bajuladores, nem estimulou os opositores sistemáticos. O seu estilo sempre foi equilibrado, medido, dosado, para não ficar credor, nem estar em débito político.”

— Roberto Barrozo Filho, Jornalismo sem Censura, texto publicado no Jornal do Estado, 1993.

É uma passagem que merece ser lida com os olhos de hoje — que infelizmente são de grande polarização devido a métodos questionáveis, obscuros e irresponsáveis, nascidos na macabra "Cambridge Analitica", o extremista norte-americano Steve Bannon — mas sem retirar dela o contexto daquela época de renascimento artístico, cultural e jornalístico do Paraná.

Em seu livro, Barrozo, como jornalista político, observava a atuação do seu Anibal no Legislativo e sua relação com os demais atores do poder paranaense na época.

Em outro trecho, depois da eleição do deputado Orlando Pessuti para a Presidência da Assembleia, Barrozo, homem visionário que era, a previsão de que Aníbal continuaria exercendo uma influência extraordinária nos bastidores da Casa:

“Eleito Presidente o Deputado Orlando Pessuti, toda a Assembleia tem consciência de que o Deputado Anibal Khury continua a ser um verdadeiro primeiro-ministro, gozando da confiança irrestrita de expressiva parcela do plenário.”

— Roberto Barrozo Filho, Jornalismo sem Censura, 1993.

Essa expressão — “verdadeiro primeiro-ministro” — diz muito sobre a percepção que Barrozo tinha da força política de Aníbal naquele momento. Ao meu ver poderia ser comparado com uma espécie de Winston Churchill do Paraná, como um grande, mais que isso, gigante estadista que foi. Inclusive o anexo da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná onde ficam os gabinetes dos Deputados carrega o nome deste paranaense notável.

Um homem de poder que, segundo Barrozo, não perdeu a simplicidade

O que mais me chama atenção, entretanto, não é apenas a dimensão política atribuída ao saudoso deputado Aníbal Khury. É a maneira como o jornalista, que além de grande amigo do meu pai também foi bom um amigo meu, descreve sua relação com o poder.

Em duas páginas — em meio a outras 586, mais onomástico — Barrozo fala de diálogo, articulação, discrição e capacidade de transitar politicamente sem transformar necessariamente cada divergência, seja ela da esfera que for, em uma guerra. Falava em conciliação e não na polarização nojenta que existe hoje por conta da replicação do método de Steve Bannon pelo obscurantismo bolsonarista.

Para quem conhece, nem que seja ao menos um pouco da história política do Paraná, sabe que Aníbal Khury foi um personagem de enorme importância. Presidiu a Assembleia Legislativa em diferentes períodos e marcou profundamente a história do Poder Legislativo paranaense. Certamente, seu estilo de fazer política, ajudou a moldar a boa política que vive, resiste e sobrevive em muitos atores políticos dois dias de hoje.

Mas existe uma dimensão humana que os documentos políticos muitas vezes não conseguem registrar. A memória daqueles que conviveram com o personagem. E, é justamente aí que o texto de Roberto Barrozo Filho registra grande valor histórico à política brasileira. Valor este que precisa ser resgatado no coração de todas e de todos nós, embora hoje dividida por métodos de marketing criados por gente totalmente despida de escrúpulos.

De Aníbal a Alexandre Curi

A história política do Paraná e do nosso país também tem suas continuidades. Aníbal Khury deixou uma marca profunda no Legislativo paranaense. Décadas depois, seu neto Alexandre Curi também chegou à Presidência da Assembleia Legislativa do Paraná, mantendo o nome da família presente no centro das decisões do Poder Legislativo estadual.

São gerações diferentes, momentos históricos diferentes e, naturalmente, pessoas diferentes. Não se trata aqui de afirmar que avô e neto são politicamente iguais. Afinal cada pessoa tem a sua própria história. Trata-se de reconhecer que existe uma trajetória familiar ligada à vida pública do Paraná e à presença permanente nas 399 municipalidades do Estado, nas regiões do Paraná e, por óbvio, no poder Legislativo estadual, abençoado por Nossa Senhora de Salete.

Também existe algo que atravessa gerações: a compreensão de que política não se faz somente dentro dos palácios ou dos plenários. Política se faz na relação com as pessoas. No diálogo direto com as bases que aos poucos vai reaproximando a família paranaense. 

Hoje as bases estão divididas, até no seio da família foi plantado o espírito divisor, por um projeto de poder nascido na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Movimento que comparo ao terrível fascismo, pai do nazismo, maquiavelicamente criado por uma família que não me representa, uma ideologia demagoga e perigosa que minha ótica só tem um objetivo, servir a mamon e não a Deus pai, nosso criador e de tudo que existe e nos foi deixado como herança comum. Um projeto de poder que esgarça o tecido social brasileiro.

Roberto Barrozo Filho é parte dessa história

Se Aníbal Khury representa uma parte importante da memória política do Paraná, Roberto Barrozo Filho representa outra: a memória de quem ajudou a contar o Estado. Uma pessoa pela qual nutri verdadeiro respeito e amizade, que certamente era mútua, pois ele me ensinou muito do que constrói a pessoa que sou hoje.

Jornalista, advogado, vereador e presidente da Câmara Municipal de Curitiba, Barrozo teve uma longa trajetória, deveras salutar, ligada à imprensa e à política paranaense. Assim como o outro bom amigo meu, Roberto Requião, outro grande estadista, político, advogado e jornalista paranaense.

O livro Jornalismo sem Censura é, por isso, mais do que uma reunião de artigos antigos. É também um pedaço da memória do Paraná. Nele notei que havia divergência do meu modo de pensar, pois Barrozo criticou muito Roberto Requião. Críticas injustas em minha percepção holística das coisas, mas que hoje percebo terem sido formadas por intrigas, fofocas e divisões injustas, construídas por pelegos.

Personagens infames, os famosos puxa-sacos dos políticos, os "papagaios de pirata", que sempre cercaram os atores políticos do nosso Estado, e que prosperam ainda hoje, embora cada vez menos, mas causam grande estrago, atravancando não apenas o crescimento do nosso estado e do nosso país. Gente que se ri quando consegue provocar divisão e destruição em nome da vaidade, do ego e de projetos pessoais quem nada somos os projetos coletivos, pelo contrário, destroem. Verdadeiros palhaços que rim quando conseguem provocar a desgraça alheia. Gente que acha possível servir a dois senhores. Mas sabemos que não. É assaz até repetir: é impossível servir a Deus e a mamon.

Hoje, quando abrimos as páginas deste livro que é um verdadeiro memorial do Paraná, encontramos nomes, acontecimentos, conflitos, personagens e interpretações que ajudam a compreender como era o Estado naquele período. E, mesmo que contenha algumas páginas com críticas que ferem, deve ser lido por todos que querem compreender os bastidores da política paranaense, e o estrago que a pegada pode fazer na construção política da grande nação que é o Brasil.

E, é justamente nesta questão, que estou expondo fazendo uso pleno da minha liberdade de expressão, garantia constitucional indelével indissociável de sociedades que buscam O progresso, que esta história toca diretamente na minha própria história.

Quatro gerações de jornalistas

Eu sou Ronald Sanson Stresser Junior. Sou a quarta geração consecutiva de jornalistas da minha família no Paraná. Meu avô teve muitos irmãos, já meu pai teve apenas dois filhos, um filho e uma filha. Um jornalista e uma atriz.

Antes de mim veio meu pai, Ronald Sanson Stresser. Antes dele, meu avô, Adherbal G. Stresser. E antes do meu avô, meu bisavô, Augusto Stresser. Quatro gerações. Trabalhadores do campo das ideias e da opinião, nascidos em quatro épocas diferentes. Quatro maneiras de fazer jornalismo. Gerações que foram evoluindo assim como acontece com a tecnologia.

É importante falar na tecnologia, justamente porque presenciamos o advento de uma nova ferramenta, que agora incorporada, para contar essa história: a inteligência artificial. Uma tecnologia que vai muito além de ser apenas ferramenta, passando a ser também instrumento de pesquisa, organização, produção, preservação da memória e democratização do conhecimento.

Sim! Na minha redação a inteligência artificial trabalha junto comigo. É um instrumento de utilidade incrível para reencontrar documentos, contextualizar personagens e transformar memória em jornalismo de vanguarda. Não para substituir o jornalista. Mas para ajudá-lo a enxergar aquilo que, sozinho, talvez não conseguisse mais alcançar, principalmente em tudo que está ligado ao jornalismo cidadão e independente que não dispõe dos mesmos recursos dos grandes veículos da mídia de massa.

O Estado é maior que seus governantes

Talvez esta seja a principal reflexão que essas páginas, publicadas há 33 anos atrás, me provocam. E da mesma forma que me provocam, também provoco. O Paraná não foi construído apenas por governadores, deputados, empresários. Nem apenas por jornalistas e comunicadores. Um Estado é construído por gentes. Pelas famílias.

Famílias indígenas que estavam aqui muito antes da formação política do Paraná contemporâneo. Pelas famílias de trabalhadores e trabalhadoras. Pelo funcionalismo público, por semeadores, agricultores, profissionais liberais, pequenos empresários e comerciantes. O Brasil cresce a cada dia pelas obras dos empresários. Pelos ensinamentos das professoras e professores, jornalistas, parlamentares. A construção coletiva é feita por pessoas que cuidam das cidades e por aquelas que todos os dias trabalham para sustentar suas casas, garantindo o pão de cada dia que alimenta o corpo e o alimento intelectual que faz evoluir a alma humana.

É essa soma quase invisível de esforços que constrói um Estado, que garante o progresso constante de uma nação. Por isso a palavra família aparece tantas vezes quando falamos da história paranaense. Da história de um estado construído por muitas gente e culturas, algumas outrora divergentes que vieram a se aglutinar em nosso país com a cultura indígena. Um país que deve sua riqueza imaterial, fortuna essa que talvez só exista no Brasil, carregada inclusive com a cultura africana ancestral, ponto de partida da própria raça humana.

A cultura brasileira não foi feita apenas pela família de sangue. Mas também as famílias profissionais, políticas, jornalísticas, sindicais, empresariais e comunitárias que, geração após geração, colocam suas mãos na construção coletiva do Paraná. O Brasil e suas federações formam literalmente uma grande família, riquíssima em diversidade e cada vez mais potente no cenário de um mundo que hoje abraça a multilateralidade. Abraça a união e não a divisão proposta por campos extremistas, blocos inescrupulosos, desumanos, destruidores do tecido social e espiritual da nossa nação.

A memória também é patrimônio

Aníbal Khury já não caminha materialmente entre nós. Roberto Barrozo Filho também não. Mas seus nomes permanecem. São pessoas que se tornaram verdadeiro patrimônio imaterial do nosso estado e do nosso país.

Permanecem documentos, livros, textos, descendentes, disponíveis na hermetoteca nacional que pode ser acessada por qualquer cidadã e por qualquer cidadão através do sítio eletrônico da Biblioteca Nacional. Permanece, principalmente, aquilo que uma sociedade decide não esquecer. 

É por isso que considero importante recuperar estas palavras de Roberto Barrozo Filho. Um homem que devido à diferença de idade que tinha com ele, uma pessoa que me tratava como igual, sempre chamei de tio, "tio Roberto", pois devido à amizade e afinidade de ideias foi muito mais meu tio, na propriedade da palavra, que os irmãos da minha mãe. Não para dizer ao Paraná o que pensar sobre Aníbal Khury. Mas para permitir que o Paraná saiba o que um jornalista paranaense escreveu sobre ele em 1993, ano em que foram comemorados os 300 anos de Curitiba, capital do nosso Estado.

Trazer à minha leitora, ao meu leitor, este conhecimento embasado em fatos históricos e lapidado pela minha própria opinião é uma coisa que considero fundamental para o progresso do Estado do Paraná e para o nosso amado país, a nação brasileira que, embora no momento esteja tristemente possuída em parte pelo maléfico espírito divisor, é feita de um só povo. Jornalismo de verdade, como aprendi desde a mais tem a idade dentro de casa, não precisa apagar o passado para escrever o presente. Antes de tudo precisa conhecê-lo.

Dos Barrozo aos Stresser: um diálogo intergeracional

Quando tenho diante de mim um livro escrito por Roberto Barrozo Filho, recuperando um momento da política paranaense de 1993 novamente percebo o que muita gente já sabe, e quem não sabe precisa saber: o jornalista também constrói o Estado.

Essa obra é feita quando a gente registra, é construída quando questionamos, interpretamos e preservamos nossa memória. E erige, sobretudo, uma obra que deixa para as gerações posteriores documentos capazes de contar como éramos. Pois o passado construiu um momento presente e é do momento presente que se materializa o futuro.

É por isso que, hoje, ao editar e comentar estas palavras de Roberto Barrozo Filho, faço mais do que uma homenagem. Faço jornalismo. Faço memória. E, de certa maneira, continuo uma conversa que gerada muito antes da minha concepção — lá atrás, com Augusto Stresser, passando pelo meu velho Adherbal G. Stresser, que chegou ao meu pai, e amigo número um, Ronald Sanson Stresser, e agoraserui através do meu próprio ser.

Quatro gerações depois, continuo acreditando na mesma ideia fundamental:

O Paraná merece ser contado. A verdade precisa aparecer, doa a quem doer, justamente porque ela é como o Sol e a Lua. Nada se esconde para sempre.

As histórias, a memória do nosso país, do nosso estado, merecem ser contadas com memória, responsabilidade, documentos e respeito pela sua gente, pela minha gente, pela nossa gente. Porque um grande Estado não nasce pronto. Ele é construído todos os dias por milhões de mãos. Pelo trabalho, seja ele intelectual ou braçal.

Algumas dessas mãos deixam nomes. Outras deixam textos. Outras deixam exemplos. Mas todas fazem parte da nossa história comum, indelével e indissociável da história do Brasil.

Ronald Sanson Stresser Junior
Jornalista

"Um povo que não conhece sua própria história está condenado a repeti-la" ~ Edmund Burke (1729–1797), político irlandês que atuou por longos anos como membro do Parlamento britânico na Câmara dos Comuns.

Comentários

Leia também >>

Carreata de Gleisi movimenta Campo Largo e leva a campanha para as ruas

O outro braço da história: cineasta paranaense quer levar a alma da Amazônia para as telas do Brasil

Roberto Requião, suas propostas e uma trajetória de mais de quatro décadas na política do Paraná

“O Outro Braço da Cruz”: cinema, memória e a estrada que fez — e seguirá fazendo — a história de Rondônia

Alexandre Guimarães destaca investimentos em municípios do Paraná e convida população a consultar ações parlamentares

Ivan Kaingang leva às estradas a voz de quem trabalha e paga pedágio no Paraná

Paraná ainda contabiliza os estragos do temporal enquanto milhares continuam sem energia

Breaking News! TSE suspende campanha de Deltan Dallagnol

Dom Orlando Brandes volta a viralizar ao defender soberania nacional durante homilia

Quando mexem com Nossa Senhora, mexem também com a história do Brasil