Ganhar o Congresso não é tudo: o que as eleições nos EUA podem mudar no governo Trump
Democratas aparecem em vantagem nas pesquisas e podem recuperar a Câmara dos Representantes, enquanto o controle do Senado permanece indefinido
Uma vitória da oposição ampliaria a fiscalização sobre o presidente, dificultaria a aprovação de nomeações e poderia provocar confrontos sobre orçamento, tarifas e política externa — mas não seria suficiente, por si só, para afastar Donald Trump do poder.
As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, podem redefinir o equilíbrio de forças em Washington e determinar o grau de resistência que o presidente Donald Trump enfrentará nos dois últimos anos de seu mandato. A pouco menos de duas semanas da votação, a imprensa americana aponta para um cenário desfavorável aos republicanos, embora o resultado da disputa pelo Senado continue incerto.
Em reportagem publicada em 19 de outubro, a Reuters afirmou que os democratas são amplamente considerados favoritos para conquistar a Câmara dos Representantes, enquanto a disputa pelo Senado permanece em aberto. A agência também destacou que a baixa popularidade de Trump e a insatisfação com o custo de vida estão prejudicando o partido governista.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 19 de outubro mostrou que apenas 31% dos americanos aprovavam o desempenho de Trump, o menor índice registrado durante seus dois mandatos presidenciais. Na mesma sondagem, os democratas tinham vantagem de 47% a 35% entre os eleitores registrados na pergunta sobre em qual partido votariam para o Congresso. Outro levantamento, do The New York Times em parceria com a Universidade Siena, apontou aprovação de 36% para o presidente, evidenciando que os números variam conforme a pesquisa e sua metodologia.
A insatisfação econômica, especialmente com os preços da gasolina e o custo de vida, aparece entre os principais fatores que podem influenciar o voto. A guerra com o Irã também figura entre as preocupações dos eleitores, segundo a cobertura da Associated Press (AP) e da Reuters.
A matemática do poder: quantas cadeiras os democratas precisam conquistar?
O Congresso americano é bicameral, composto pela Câmara dos Representantes e pelo Senado. As duas casas têm funções distintas, e o controle de cada uma determina diferentes possibilidades de ação política.
Atualmente, os republicanos mantêm uma maioria apertada nas duas casas. Segundo a Reuters, a composição partidária de referência é de 218 republicanos contra 214 democratas na Câmara e de 53 republicanos contra 47 democratas e independentes alinhados à oposição no Senado.
Nesse cenário, os democratas precisam conquistar um saldo líquido de quatro cadeiras em cada casa para inverter o controle partidário, conforme os cálculos apresentados pela Reuters. A disputa pelo Senado, porém, é particularmente difícil porque os democratas precisam vencer corridas em estados onde Trump obteve resultados expressivos na eleição presidencial de 2024.
A votação de 3 de novembro renovará as 435 cadeiras com direito a voto na Câmara e 35 das 100 cadeiras do Senado. Os novos congressistas tomarão posse em janeiro de 2027.
A diferença entre conquistar uma casa e conquistar as duas é decisiva. O partido que controla a Câmara define a liderança e a agenda de suas comissões, enquanto o controle do Senado tem influência direta sobre as nomeações presidenciais para tribunais federais, o gabinete e postos diplomáticos.
Por que a maioria no Congresso é tão importante para investigar Trump?
Uma eventual vitória democrata na Câmara dos Representantes poderia transformar a fiscalização do governo em uma das principais frentes de conflito político durante a segunda metade do mandato de Trump.
A Câmara pode abrir investigações parlamentares, convocar audiências, solicitar documentos e emitir intimações (subpoenas) para exigir depoimentos e registros. Com o controle das comissões, os democratas teriam mais condições de investigar decisões da Casa Branca, contratos governamentais, possíveis conflitos de interesse e a atuação de integrantes da administração.
Isso não significa que todas as investigações produziriam consequências judiciais. A Reuters observa que funcionários do governo poderiam resistir às intimações e que a disposição do Departamento de Justiça para executá-las seria uma questão relevante. Disputas sobre o alcance dos poderes do Congresso poderiam acabar nos tribunais.
É importante, contudo, separar três etapas institucionais:
- Investigar: a Câmara pode conduzir investigações e fiscalizar o Executivo sem precisar do controle do Senado.
- Acusar formalmente o presidente: a Câmara pode aprovar artigos de impeachment por maioria simples dos votos dos membros presentes, desde que haja quórum.
- Condenar e destituir: o Senado realiza o julgamento do impeachment. Para condenar o presidente, são necessários os votos de dois terços dos senadores presentes.
Portanto, não é correto afirmar que um presidente só pode ser investigado se a oposição conquistar a maioria do Congresso ou do Senado. A maioria democrata na Câmara facilitaria a abertura e a condução de investigações, mas a condenação em um julgamento de impeachment exigiria um apoio muito mais amplo no Senado.
Mesmo que os democratas controlassem as duas casas, uma maioria simples no Senado não seria suficiente para condenar Trump. A destituição exigiria o apoio de parte substancial dos senadores republicanos ou de outros integrantes da oposição.
Se os democratas conquistarem apenas a Câmara
Esse é um dos cenários considerados mais prováveis pela Reuters. A oposição poderia assumir o controle das comissões, ampliar a fiscalização sobre o governo e obrigar os republicanos a defender publicamente suas posições em votações e audiências.
Uma Câmara controlada pelos democratas também poderia aprovar projetos sobre saúde, habitação, custo de vida e limites aos poderes presidenciais. Entretanto, a aprovação na Câmara não garante que uma proposta se transforme em lei.
O Senado republicano poderia bloquear grande parte dessas iniciativas, enquanto Trump conservaria o poder de veto. Para derrubar um veto presidencial, seriam necessários dois terços dos votos em cada casa, um patamar difícil de alcançar.
Na prática, o presidente poderia continuar avançando em várias áreas por meio de ordens executivas e de sua autoridade administrativa, embora essas medidas continuassem sujeitas a limites legais e ao controle judicial.
A principal mudança seria política: a Casa Branca passaria a enfrentar investigações, audiências potencialmente constrangedoras e maior dificuldade para negociar leis e orçamento. Uma maioria democrata mais ampla na Câmara também poderia intensificar as pressões internas pelo impeachment, embora isso não signifique que o processo necessariamente seria iniciado.
O Senado é a batalha decisiva para as nomeações de Trump
O controle do Senado pode ter consequências especialmente duradouras porque cabe a essa casa confirmar numerosas indicações presidenciais, incluindo integrantes do gabinete, embaixadores e juízes federais, além de ministros da Suprema Corte.
Se os democratas conquistarem a maioria, poderão controlar as comissões do Senado, estabelecer prioridades para a análise das indicações e dificultar a confirmação de candidatos de Trump.
A disputa também poderá afetar eventuais vagas na Suprema Corte. Uma maioria democrata poderia tentar retardar a tramitação de indicações, inclusive para uma eventual vaga aberta antes da eleição presidencial de 2028. Os republicanos, por sua vez, teriam incentivos para acelerar confirmações antes de o novo Congresso assumir, em janeiro de 2027.
O alcance dessa mudança, porém, não deve ser exagerado. O presidente manteria seus poderes constitucionais de indicação, e a maioria democrata não poderia simplesmente anular as nomeações já confirmadas.
Além disso, o Senado possui uma regra de obstrução parlamentar conhecida como filibuster. Na maioria das matérias legislativas, são necessários 60 votos para encerrar o debate e avançar para a votação final. Isso significa que uma maioria democrata estreita não teria liberdade irrestrita para aprovar sua agenda.
As regras de confirmação de nomeações, por sua vez, são diferentes das regras aplicáveis à legislação comum. Não se deve presumir que toda indicação dependa de 60 votos.
E se o Senado ficar dividido em 50 a 50?
Um Senado dividido igualmente não significaria necessariamente uma vitória democrata. O vice-presidente JD Vance, integrante da administração Trump, tem poder constitucional para desempatar votações do Senado.
Assim, em um cenário de 50 senadores alinhados a cada lado, os republicanos poderiam continuar controlando efetivamente a casa graças ao voto de desempate do vice-presidente.
Nesse caso, a oposição poderia investigar o governo pela Câmara, mas teria dificuldades para impor mudanças legislativas e bloquear nomeações. A confirmação de indicados presidenciais continuaria, em princípio, ao alcance dos republicanos, desde que conseguissem manter a disciplina partidária.
Votações apertadas também aumentariam o poder de negociação de senadores moderados ou dispostos a romper com seus partidos. Isso poderia tornar mais imprevisíveis as negociações sobre o orçamento federal, o teto da dívida e outras questões importantes.
O que muda se os democratas conquistarem as duas casas?
Uma vitória nas duas casas ampliaria significativamente a capacidade da oposição de pressionar a Casa Branca. Os democratas controlariam as comissões da Câmara e do Senado, poderiam coordenar investigações e teriam maior influência sobre a agenda legislativa e as negociações fiscais.
Também poderiam aprovar projetos destinados a enfrentar o custo de vida, alterar políticas de saúde ou contestar determinadas tarifas e decisões relacionadas à política externa. Mesmo assim, Trump continuaria com poder de veto, e a oposição precisaria negociar com os republicanos para superar a obstrução parlamentar em grande parte da legislação.
O efeito mais importante talvez não fosse a aprovação imediata de grandes reformas, mas a redução da liberdade política do presidente. A Casa Branca teria de lidar com uma oposição capaz de investigar sua atuação, dificultar nomeações e transformar decisões administrativas em disputas públicas e legislativas.
Uma maioria maior no Senado fortaleceria ainda mais a posição democrata nas negociações sobre orçamento e teto da dívida. Ao mesmo tempo, a oposição passaria a ser cobrada por resultados concretos, especialmente em relação aos preços, à saúde e à economia.
Trump também poderia explorar essa mudança politicamente. Ao dividir o controle do governo federal com os democratas, teria condições de atribuir à oposição parte da responsabilidade por impasses orçamentários ou pela falta de avanços econômicos.
Orçamento, teto da dívida e risco de paralisação do governo
Independentemente do resultado eleitoral, as disputas fiscais devem continuar entre os principais pontos de tensão em Washington em 2027.
O teto da dívida limita o montante que o governo federal pode tomar emprestado para cumprir obrigações já autorizadas. Se o limite não for elevado ou suspenso a tempo, o Tesouro poderá enfrentar dificuldades para honrar todos os pagamentos. Já a falta de aprovação das leis de financiamento necessárias pode provocar uma paralisação parcial do governo, conhecida como shutdown.
Uma Câmara democrata e um Senado republicano — ou a situação inversa — aumentariam o risco de impasses, porque os partidos teriam incentivos para usar as negociações fiscais como instrumento de pressão.
A Reuters ouviu economistas que preveem um ano potencialmente turbulento para os mercados e os investidores, com confrontos sobre o financiamento federal e o teto da dívida. Isso não significa que uma crise seja inevitável, mas indica que a composição do Congresso será relevante para a estabilidade política e econômica.
O que está em jogo até 3 de novembro
A cobertura da Associated Press publicada em 22 de outubro mostra que a mobilização eleitoral aumentou em vários estados decisivos para o Senado. No Texas, a votação antecipada estava 74% acima do nível registrado no mesmo momento do ciclo eleitoral de 2022; no Kansas, havia mais que dobrado. Maine, Carolina do Norte e Ohio também registravam aumentos expressivos.
Esses números medem participação antecipada, não o resultado final, e não permitem concluir isoladamente qual partido será beneficiado. Ainda assim, ajudam a demonstrar a intensidade da disputa.
A AP também destacou que o custo de vida e o fim da guerra com o Irã aparecem entre as prioridades dos eleitores. Em pesquisa AP-NORC, cerca de oito em cada dez eleitores registrados consideraram a redução do custo de vida uma das principais prioridades do próximo Congresso. Aproximadamente quatro em cada dez disseram o mesmo sobre investigar o governo Trump.
O dado sugere uma diferença entre o que mobiliza parte da base democrata e o que preocupa o eleitorado em geral: embora a fiscalização do presidente possa ganhar destaque caso a oposição conquiste a Câmara, a economia continuará sendo uma questão central para os eleitores.
Eventual derrota republicana não derruba Trump, mas deve mudar seu governo
As eleições de meio de mandato não escolhem o presidente, mas podem alterar profundamente as condições em que ele governa. Se os democratas recuperarem a Câmara, Trump poderá enfrentar uma fiscalização parlamentar mais intensa e maiores dificuldades para negociar com o Congresso. Se também conquistarem o Senado, poderão restringir o avanço de suas nomeações e ampliar a pressão sobre a agenda presidencial.
Ainda assim, uma vitória democrata não significaria o fim automático do governo Trump, nem garantiria a aprovação de uma agenda alternativa. O presidente conservaria o veto, poderes executivos relevantes e a possibilidade de recorrer aos tribunais para contestar medidas do Congresso.
O Senado seria decisivo para nomeações e para um eventual julgamento de impeachment, mas não é condição necessária para que a Câmara investigue o presidente ou aprove uma acusação formal.
O resultado mais provável de uma mudança no controle do Congresso seria, portanto, uma presidência mais limitada politicamente, obrigada a enfrentar maior fiscalização e negociações mais difíceis. Trump vai ter que aprender a trabalhar com uma oposição firme ao seu governo. Mas, a extensão dessa mudança dependerá não apenas de quem conquistar as cadeiras, mas também do tamanho das maiorias, da disciplina partidária e da capacidade de cada lado de negociar.
Ganhar o Congresso não é tudo. Para Trump, porém, perder uma ou as duas casas poderia transformar os dois últimos anos de seu mandato em um período de confrontos institucionais muito mais intensos. Certamente não é um momento bom para o governo de Donald Trump, um dos mais impopulares da história dos Estados Unidos.

Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário