Câmera escondida em banheiro de colégio cívico-militar revolta estudantes no Paraná

Alunas afirmam que equipamento estava no banheiro havia cerca de três anos. Direção foi afastada, Polícia Civil investiga o caso e Ministério Público também abriu apuração

 
Alunas afirmam que equipamento estava no banheiro havia cerca de três anos. Direção foi afastada, Polícia Civil investiga o caso e Ministério Público também abriu apuração
Reprodução/ Redes Sociais

O que deveria ser um espaço de privacidade e segurança dentro de uma escola virou motivo de indignação entre estudantes e familiares. No Colégio Estadual Cívico-Militar Érico Veríssimo, em Cambé, no norte do Paraná, uma aluna descobriu uma câmera escondida no banheiro feminino. A denúncia provocou protestos, mobilizou as autoridades e resultou no afastamento cautelar da direção da instituição.

O caso veio à tona na última segunda-feira, 19 de outubro, quando uma estudante desconfiou de um equipamento instalado na parede, atrás de uma cobertura plástica. Segundo relatos registrados na ocorrência policial, as alunas já questionavam a presença do aparelho havia aproximadamente três anos. Na época, teriam recebido a informação de que se tratava de um sensor de fumaça.

A descoberta ganhou uma dimensão ainda mais preocupante quando estudantes relataram ter identificado imagens dos banheiros no sistema de monitoramento da escola. Segundo os depoimentos divulgados pela imprensa, a área era utilizada inclusive para a troca de roupas.

Uma das estudantes relatou à imprensa que se sentiu invadida. É difícil imaginar a insegurança provocada pela possibilidade de ter sido filmada em um ambiente no qual qualquer pessoa espera ter sua intimidade respeitada.

Direção nega gravação das áreas privativas

Em comunicado às famílias, a direção do colégio afirmou que os equipamentos estavam direcionados às portas de entrada dos banheiros masculino e feminino e que não captavam os espaços destinados às necessidades fisiológicas dos estudantes. A escola também classificou a retirada de câmeras como vandalismo e informou que as circunstâncias do acesso às imagens seriam apuradas.

A versão apresentada pela direção é contestada pelos relatos dos alunos e pelas imagens do sistema de monitoramento divulgadas na imprensa. Cabe agora à investigação esclarecer exatamente quais áreas eram filmadas, quem tinha acesso às imagens e se houve armazenamento ou compartilhamento dos registros.

Não é possível antecipar conclusões sobre a responsabilidade criminal de pessoas específicas e este não é o nosso objetivo. A justiça agora é quem vai decidir. Mas também não se pode tratar uma denúncia dessa gravidade como um simples problema administrativo.

Polícia investiga e direção é afastada

A Polícia Civil do Paraná abriu inquérito para apurar o caso. Em 21 de outubro, equipes realizaram diligências na instituição, e o equipamento recolhido pela estudante foi apreendido. As autoridades também buscaram esclarecer o funcionamento do sistema e a existência de eventuais gravações.

A Secretaria de Estado da Educação do Paraná determinou o afastamento cautelar da direção e instaurou uma apuração administrativa. Segundo a pasta, uma vistoria não encontrou outras câmeras nos banheiros da escola.

O Ministério Público do Paraná também iniciou apuração sobre o episódio, conforme informações publicadas pela imprensa. 

A Secretaria informou ainda que a Resolução nº 5.206/2026 proíbe a instalação e o uso de câmeras em banheiros e vestiários das instituições estaduais de ensino, inclusive equipamentos externos capazes de captar imagens desses ambientes.

Segurança não pode ser desculpa para invadir a privacidade

É perfeitamente legítimo que escolas utilizem câmeras em corredores, pátios, portões e outros espaços comuns, desde que respeitem a legislação e os direitos de estudantes e trabalhadores. Segurança escolar, porém, não significa vigilância sem limites.

Banheiros e vestiários são ambientes de intimidade. Crianças e adolescentes precisam de proteção reforçada, não de uma rotina marcada pelo medo de estarem sendo observados em momentos privados.

A Constituição Federal protege a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. O Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o respeito à dignidade de crianças e adolescentes. A Lei Geral de Proteção de Dados também estabelece regras para o tratamento de informações pessoais, incluindo imagens identificáveis.

A avaliação jurídica definitiva depende das circunstâncias comprovadas, mas a instalação de dispositivos capazes de registrar imagens íntimas pode gerar consequências administrativas, civis e criminais.

E há uma pergunta que precisa ser respondida: se, como afirmam as estudantes, o equipamento estava ali há cerca de três anos, por que a situação não foi esclarecida antes?

O direito à privacidade não admite improvisos

O episódio de Cambé precisa ser investigado até o fim. É necessário esclarecer quem instalou os dispositivos, quem autorizou seu uso, quais imagens foram efetivamente captadas e se alguém teve acesso ou compartilhou esse material.

Também é importante que as autoridades verifiquem eventuais denúncias semelhantes em outras escolas, sem transformar uma suspeita ainda não comprovada em acusação generalizada contra toda a rede de ensino.

As famílias têm direito a respostas claras. Os estudantes merecem ser ouvidos e acolhidos, sem intimidação ou exposição. E qualquer imagem que possa identificar crianças e adolescentes em situação íntima deve ser preservada como possível evidência, sem circular em grupos ou redes sociais.

Uma escola deve ser um lugar de aprendizagem, convivência e proteção. Quando a confiança dos estudantes é abalada por uma suspeita dessa natureza, não basta retirar um equipamento da parede. É preciso esclarecer os fatos, responsabilizar quem eventualmente tenha cometido irregularidades e garantir que episódios assim não voltem a acontecer.

A privacidade não é um privilégio concedido pela direção de uma escola. É um direito. E segurança nenhuma pode ser construída à custa da dignidade de quem deveria estar protegido.

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