A riqueza enterrada em Goiás que virou peça-chave na disputa entre EUA e China
Enquanto Washington corre para reduzir sua dependência de Pequim, o Brasil precisa decidir se quer apenas exportar terras raras ou transformar sua riqueza mineral em tecnologia, indústria e soberania econômica
| Terras raras em Goiás: riqueza que virou disputa entre Brasil e China - Folhapress/Reprodução |
Há lugares do Brasil onde a disputa pelo poder econômico mundial chega sem fazer muito barulho. Minaçu, no norte de Goiás, é um deles.
A cidade, que durante décadas teve sua economia fortemente ligada à exploração do amianto, agora aparece no centro de uma nova corrida internacional. Debaixo daquele solo estão as chamadas terras raras, minerais considerados estratégicos para a indústria de alta tecnologia, para a transição energética e, cada vez mais, para a indústria de defesa.
E a disputa chegou a um ponto decisivo. A norte-americana USA Rare Earth está avançando para assumir o controle da Serra Verde, responsável pelo projeto Pela Ema, em Minaçu. O negócio está avaliado em US$ 2,8 bilhões.
O que transforma a operação em algo muito maior que uma simples aquisição empresarial é o envolvimento direto do governo dos Estados Unidos.
Na segunda-feira (24), o Departamento de Guerra norte-americano confirmou um aporte de US$ 750 milhões em uma estrutura criada para garantir a compra da produção da Serra Verde. A informação foi detalhada pela Agência Pública e também pelo Poder360.
Não é um investimento qualquer. É política industrial somada à estratégia de segurança nacional. E é parte da tentativa americana de diminuir a dependência da China em uma cadeia considerada fundamental para o futuro da economia mundial.
O mineral que o mundo descobriu que não pode faltar
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos que ganharam importância muito além dos laboratórios e das tabelas periódicas.
Eles estão presentes em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, sistemas de comunicação, satélites, robótica e equipamentos militares. Alguns desses elementos são particularmente estratégicos para a indústria de defesa.
A mina Pela Ema tem justamente essa característica. A operação brasileira produz terras raras magnéticas como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, elementos importantes para a fabricação de ímãs permanentes capazes de funcionar em condições extremas.
É por isso que uma mina localizada no interior de Goiás passou a interessar diretamente ao governo de Washington.
Segundo levantamento publicado nesta sexta-feira (28) pelo UOL, a Serra Verde está entre os ativos que ganharam importância geopolítica justamente pela presença de terras raras pesadas.
China continua muito à frente
Existe uma razão simples para tanta pressa americana. A China domina a cadeia mundial de terras raras. O país concentra cerca de 90% da capacidade global de processamento e refino, segundo estimativas citadas pelo Poder360.
Isso significa que possuir uma mina não é suficiente. Quem controla apenas a extração controla o começo da história. Quem controla o refino, a separação dos elementos, a produção de metais, ligas e ímãs controla boa parte do valor econômico e tecnológico que vem depois.
E é justamente nesse ponto que a história brasileira merece atenção.
O Brasil tem a riqueza. Mas ainda não domina a cadeia
O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, segundo dados citados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos. Mas ainda produz pouco diante do tamanho de seu potencial.
A Serra Verde é atualmente a única operação brasileira de terras raras em escala comercial. O material produzido em Minaçu é um concentrado — um carbonato misto de terras raras — que ainda precisa passar por etapas posteriores de processamento.
O refino e outras etapas de maior transformação industrial permanecem, em grande medida, fora do território brasileiro. É aí que aparece a pergunta que deveria estar no centro do debate nacional: o Brasil vai vender a riqueza mineral ou vai aprender a transformar essa riqueza em indústria?
A diferença entre uma coisa e outra pode representar bilhões de reais, milhares de empregos qualificados e, principalmente, domínio tecnológico.
Uma mina brasileira dentro de uma cadeia americana
A estratégia da USA Rare Earth deixa isso bastante claro. A empresa não está interessada apenas em retirar o mineral do solo. O objetivo é montar uma cadeia integrada envolvendo mineração, processamento, produção de metais e ligas e, finalmente, fabricação de ímãs.
Segundo informações divulgadas pela própria empresa e analisadas pelo Brasil Mineral, a estrutura criada para comprar a produção da Serra Verde foi capitalizada em aproximadamente US$ 1,55 bilhão.
Além dos US$ 750 milhões aportados pelo governo norte-americano, existe uma linha de crédito de até US$ 500 milhões e compromissos de compra de produtos de terras raras.
O contrato de fornecimento previsto para a produção da primeira fase da mina tem prazo de 15 anos e envolve 100% da produção dessa etapa, segundo informações publicadas pela Agência Pública. Ou seja: Washington não está simplesmente comprando minério. Está ajudando a construir uma cadeia alternativa à chinesa.
E o Brasil nessa história?
É importante fazer uma distinção. A venda da Serra Verde não significa que o governo brasileiro esteja entregando formalmente uma concessão mineral a outro país. Os direitos minerários continuam submetidos à legislação brasileira e registrados na mesma pessoa jurídica. O que muda é o controle societário da empresa.
O Ministério de Minas e Energia informou que a operação não exige uma anuência prévia do governo federal porque não ocorre transferência formal da concessão de lavra, conforme relatado pelo Poder360.
Isso não encerra a discussão. Na verdade, talvez seja justamente o começo dela. Porque a questão mais importante não é apenas quem é o dono da empresa. É quem fica com a maior parte do valor criado a partir do recurso natural brasileiro.
Ciência brasileira pede uma política nacional
A discussão ganhou força nesta sexta-feira (28). A Academia Brasileira de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência defenderam uma política nacional para as terras raras, colocando no mesmo debate soberania, ciência e desenvolvimento.
A manifestação chega justamente quando a negociação da Serra Verde coloca o Brasil no centro da disputa internacional pelos chamados minerais críticos.
E existe uma preocupação que atravessa diferentes setores da sociedade: o país pode acabar repetindo um velho roteiro. Extrair, exportar e comprar de volta, mais caro, o produto industrializado.
Foi assim com muitos recursos naturais brasileiros ao longo da história. As terras raras oferecem uma oportunidade para fazer diferente.
Não é apenas uma disputa entre Washington e Pequim
É tentador olhar para a história da Serra Verde apenas como mais um capítulo da rivalidade entre Estados Unidos e China. Mas seria pouco. Porque existe uma terceira parte nessa disputa. O Brasil.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, reconheceu a importância estratégica das terras raras brasileiras diante da disputa entre as duas maiores potências econômicas do planeta. A declaração foi registrada pela Folha de S.Paulo.
O momento pode ser uma oportunidade. Mas oportunidade não é sinônimo de garantia. Para aproveitar a janela aberta pela disputa internacional, o Brasil precisará investir em pesquisa, formação profissional, infraestrutura, processamento e indústria. Não basta ter a pedra. É preciso saber o que fazer com ela.
Uma riqueza que pode continuar enterrada — mesmo depois de retirada do chão
Essa talvez seja a ironia mais interessante de toda essa história. O minério pode deixar o subsolo brasileiro, atravessar oceanos e se transformar em componentes utilizados em carros elétricos, turbinas, satélites ou equipamentos militares.
E, ainda assim, uma parcela importante da riqueza e do conhecimento gerados por essa transformação poderá permanecer longe de Minaçu.
O município pode produzir o recurso estratégico. Os Estados Unidos podem garantir o fornecimento. A Europa pode participar de etapas industriais. E a China continuará sendo o grande parâmetro de uma cadeia que o Ocidente tenta reconstruir.
O Brasil, entretanto, precisa decidir qual lugar pretende ocupar. Ser apenas fornecedor? Ou usar sua vantagem geológica para construir uma indústria própria?
A corrida começou. E Goiás está no centro dela
A negociação da Serra Verde mostra que as terras raras brasileiras deixaram de ser assunto restrito às empresas de mineração.
Entraram definitivamente na agenda da geopolítica. Os Estados Unidos querem segurança de abastecimento. A China quer preservar sua posição dominante. A Europa tenta não ficar para trás. E o Brasil possui uma das maiores reservas do planeta.
Talvez a pergunta mais importante, portanto, não seja se o país deve receber investimento estrangeiro. Investimento é importante. A pergunta é outra: que tipo de desenvolvimento o Brasil pretende construir a partir da riqueza que existe debaixo de seu próprio território?
Se as terras raras forem tratadas apenas como mais uma commodity, o país poderá repetir velhos ciclos de exportação de matéria-prima e importação de produtos de maior valor.
Se forem tratadas como recurso estratégico, podem ajudar a construir uma nova política industrial brasileira.
A disputa entre Estados Unidos e China pode estar acontecendo muito longe de Brasília. Mas uma parte importante dela já está acontecendo no subsolo de Goiás. E o que está em jogo não é apenas quem vai explorar uma mina. É quem vai controlar o valor, a tecnologia e o futuro que existem depois dela.
Da Redação Sulpost
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