Desmatamento global cai 15% em 2025, mas mundo continua longe da meta de 2030
Relatório internacional aponta redução da perda florestal, mas alerta que mais de 7 milhões de hectares foram destruídos em um único ano.
No Brasil, a queda do desmatamento na Amazônia convive com novos riscos climáticos associados ao El Niño
O mundo conseguiu reduzir o desmatamento em 2025, mas ainda está longe de fazer o dever de casa para proteger as florestas até o fim desta década. É o que mostra a Avaliação da Declaração Florestal de 2026, divulgada em outubro.
Segundo o levantamento internacional, a perda global de florestas por desmatamento caiu 15% em relação a 2024. Ainda assim, mais de 7 milhões de hectares foram perdidos em 2025.
Para ter uma ideia da dimensão desse problema, estamos falando de uma área equivalente a dezenas de milhares de quilômetros quadrados. Não é pouca coisa. E o dado mais preocupante é que o planeta continua aproximadamente 70% fora da trajetória necessária para interromper e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030.
Desde 2021, o déficit acumulado em relação ao progresso necessário chegou a 10,7 milhões de hectares. Em outras palavras, a redução registrada no último ano é bem-vinda, mas ainda não representa uma mudança estrutural capaz de garantir a preservação das florestas.
O relatório reúne análises de organizações de pesquisa e da sociedade civil e mostra uma realidade que precisa ser encarada sem triunfalismo: é possível reduzir o desmatamento, mas não basta comemorar um ano de melhora quando a destruição continua em escala gigantesca.
Amazônia brasileira mostra que políticas públicas fazem diferença
O Brasil tem um papel decisivo nesse cenário. A Amazônia é um dos principais patrimônios ambientais do planeta, e os resultados do monitoramento oficial mostram que a combinação de fiscalização, monitoramento por satélite e políticas de combate ao desmatamento pode produzir efeitos concretos.
Dados consolidados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), divulgados em agosto de 2026, apontaram que a Amazônia Legal perdeu 5.731 km² de vegetação florestal no ciclo de agosto de 2024 a julho de 2025. O resultado representa uma redução de 12,07% em relação aos 6.518 km² registrados no período anterior.
É uma redução importante. Mas é preciso colocar os números em perspectiva: mesmo com a queda, milhares de quilômetros quadrados de floresta desapareceram em apenas um ciclo anual de monitoramento.
A preservação não pode depender de resultados ocasionais, nem ficar sujeita às mudanças de governo ou às oscilações do mercado. Fiscalização, responsabilização de infratores, proteção dos territórios e acompanhamento permanente são medidas que precisam continuar funcionando.
Também é necessário distinguir os sistemas utilizados pelo INPE. O Prodes calcula a taxa anual oficial de desmatamento, enquanto o Deter produz alertas para apoiar as ações de fiscalização. São instrumentos complementares, mas com metodologias e finalidades diferentes.
Por isso, os números dos dois sistemas não devem ser tratados como se fossem medições equivalentes. Para acompanhar a evolução do problema, o correto é observar cada indicador dentro de seu contexto e período de referência.
Bacia do Congo entra no centro das preocupações
A situação internacional também exige atenção à África Central. De acordo com a Avaliação da Declaração Florestal de 2026, a América Latina registrou aproximadamente 2,5 milhões de hectares de perda florestal em 2025, enquanto a Bacia do Congo perdeu cerca de 2,4 milhões de hectares.
A proximidade dos números chama a atenção para a pressão crescente sobre uma das regiões mais importantes do planeta para a conservação das florestas tropicais e da biodiversidade.
A Bacia do Congo abriga extensas áreas florestais, contribui para o equilíbrio climático e sustenta comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais para viver. A degradação dessas áreas ameaça não apenas espécies e ecossistemas, mas também modos de vida e territórios tradicionais.
Entre as pressões estão a expansão agrícola, a exploração madeireira, a extração de recursos naturais e as dificuldades de fiscalização. A combinação desses fatores pode comprometer áreas que ainda mantêm elevado valor ecológico.
O alerta serve também para o Brasil. Não existe proteção florestal duradoura sem políticas públicas, recursos para fiscalização e alternativas econômicas que não dependam da derrubada contínua da vegetação nativa.
El Niño aumenta a preocupação com o fogo no Brasil
Além do desmatamento, o avanço das condições climáticas associadas ao El Niño acrescenta outro fator de risco. Em seu boletim de monitoramento do El Niño 2026–2027, o INPE informou que havia 95% de probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte no trimestre de outubro a dezembro, com possibilidade de persistência até o primeiro trimestre de 2027.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) também alertou para o fortalecimento do fenômeno e para os riscos de alterações nos padrões de chuva e temperatura, com possibilidade de secas, calor extremo e outros eventos climáticos severos em diferentes regiões.
No Brasil, o cenário exige atenção regionalizada. As consequências do El Niño não são iguais em todo o território nacional, e a avaliação de riscos precisa considerar as particularidades de cada região.
Há, porém, um ponto fundamental: o El Niño não deve ser usado como explicação automática para todos os incêndios.
Na Amazônia, o fogo frequentemente está associado à ação humana, inclusive à abertura e à limpeza de áreas para atividades agropecuárias. Condições de calor e baixa umidade podem facilitar a propagação das chamas e dificultar o combate, mas não eliminam a necessidade de investigar as causas e responsabilizar os responsáveis quando houver infrações.
A resposta precisa combinar prevenção, monitoramento, estrutura para as equipes de combate e fiscalização efetiva. Esperar o fogo se espalhar para só então agir significa colocar em risco florestas, animais, comunidades e a saúde da população.
Meta de 2030: não adianta melhorar um ano e perder os seguintes
A meta internacional de interromper e reverter o desmatamento até 2030 exige uma sequência consistente de resultados positivos. Não basta uma queda expressiva em determinado ano se, na sequência, a destruição volta a crescer.
A avaliação internacional de 2026 indica que o mundo perdeu mais florestas do que deveria desde 2021 para permanecer na trajetória necessária ao cumprimento do compromisso. O déficit acumulado de 10,7 milhões de hectares mostra o tamanho do desafio.
O relatório também chama a atenção para a necessidade de enfrentar os incentivos econômicos que favorecem a destruição ambiental, fortalecer os direitos territoriais de povos indígenas e comunidades locais, ampliar a fiscalização e direcionar investimentos para atividades produtivas compatíveis com a conservação.
Essas medidas precisam sair dos documentos e chegar ao território. É ali que se decide se uma floresta continuará em pé ou dará lugar à exploração predatória.
Governos têm responsabilidade direta na formulação e execução das políticas ambientais. Empresas e instituições financeiras também precisam responder pelos impactos de suas atividades e pelos investimentos que sustentam cadeias produtivas associadas à perda florestal.
Preservar as florestas é proteger o futuro
A redução de 15% no desmatamento global em 2025 é uma notícia positiva. Os dados brasileiros também mostram que é possível diminuir a perda florestal. Mas seria um erro transformar esses resultados em motivo para baixar a guarda.
A pressão sobre a Bacia do Congo, o volume ainda elevado de florestas perdidas e os riscos climáticos associados ao El Niño demonstram que os avanços permanecem vulneráveis.
O interesse público exige transparência nos dados, continuidade das políticas de proteção e fiscalização capaz de alcançar quem lucra com a destruição ambiental.
Floresta em pé não é obstáculo ao desenvolvimento. É patrimônio natural, proteção da biodiversidade, parte do equilíbrio climático e condição de sobrevivência para milhões de pessoas.
O desafio não é apenas desmatar menos em um ano. É garantir que a próxima geração receba um planeta com florestas vivas, rios protegidos e condições dignas de vida.
A meta de 2030 continua de pé. O que falta é transformar os compromissos assumidos em resultados permanentes.
SULPOST - Jornalismo Cidadão e Independente. Pauta Ambiental de Interesse Público, com Consciência Ecológica.

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