Ucrânia sob fogo: guerra de desgaste, pressão de Trump e o impasse da paz
Enquanto a Rússia amplia os ataques e a infraestrutura ucraniana é destruída, analistas questionam a viabilidade da estratégia de Kiev. Mas um acordo de paz também exige enfrentar a questão da soberania e das fronteiras
A guerra na Ucrânia continua cobrando um preço devastador da população. Nesta segunda-feira, 19 de outubro de 2026, novos ataques russos com mísseis balísticos e drones atingiram diferentes regiões do país, incluindo Kiev, e provocaram mortes, danos à infraestrutura e interrupções no fornecimento de energia. Segundo informações divulgadas pelas autoridades ucranianas e repercutidas pela imprensa internacional, mais de 500 mil residências foram afetadas pelos problemas no abastecimento.
É nesse cenário que ganha destaque a avaliação do tenente-coronel aposentado do Exército dos Estados Unidos Daniel Davis, que considera inviável a perspectiva de uma vitória militar ucraniana nas condições atuais. Em seu canal no YouTube, Daniel Davis Deep Dive, o analista questiona a continuidade de uma estratégia que, segundo ele, prolonga o conflito sem oferecer uma perspectiva realista de vitória.
Davis argumenta que a Ucrânia enfrenta dificuldades para manter sua defesa aérea, sustentar a atividade econômica e financiar o esforço de guerra sem depender de recursos externos. Na avaliação do militar aposentado, insistir em objetivos militares que não podem ser alcançados pode ampliar as perdas humanas e reduzir as possibilidades de uma negociação em condições menos desfavoráveis.
É uma análise que merece ser debatida. Reconhecer os limites militares de um país não significa aceitar como legítima a ocupação de seu território, assim como defender a soberania ucraniana não dispensa uma avaliação realista dos custos e das possibilidades de prolongar a guerra.
Donbass: a origem de um conflito que se agravou em 2022
Para compreender a situação atual, é necessário voltar a 2014, quando a Ucrânia atravessou uma grave crise política, seguida pela anexação da Crimeia pela Rússia e pelo início dos combates no Donbass, região industrial do leste ucraniano que abrange, entre outras áreas, Donetsk e Luhansk.
O leste do país abrigava uma população expressiva de língua russa, com diferentes posições políticas e identidades culturais. Parte dos moradores apoiava uma aproximação com Moscou, enquanto outros defendiam a permanência na Ucrânia. Grupos separatistas armados tomaram áreas da região e proclamaram repúblicas independentes, com apoio russo. Os confrontos com as forças ucranianas se prolongaram por anos, apesar das tentativas de negociação.
É importante, entretanto, não simplificar a história. A Ucrânia tornou-se independente após o fim da União Soviética, em 1991, e a independência foi aprovada em referendo nacional. Não há base histórica para afirmar que toda a população de Donetsk ou do Donbass rejeitava a Ucrânia ou desejava integrar a Rússia.
Em fevereiro de 2022, Moscou iniciou uma invasão em grande escala do território ucraniano. O governo russo apresentou justificativas relacionadas à segurança e à proteção das populações do leste, mas a operação ampliou radicalmente a guerra e provocou condenação internacional. Os acordos e as negociações anteriores não impediram a escalada.
Desde então, a população civil vive sob bombardeios, deslocamentos, destruição de moradias e infraestrutura e perdas humanas. A guerra também provocou consequências econômicas e humanitárias que ultrapassam as fronteiras dos dois países.
Para acompanhar a cronologia do conflito, consulte a análise histórica da Biblioteca da Câmara dos Comuns do Reino Unido, que reúne os principais acontecimentos entre 2014 e a invasão de 2022.
Trump pressiona Kiev, mas a paz continua distante
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a acusar Volodymyr Zelensky de não demonstrar disposição suficiente para encerrar a guerra. A declaração ocorre em meio ao agravamento das tensões entre Washington e Kiev e à tentativa americana de abrir caminho para um acordo com Moscou.
Trump também defendeu decisões de seu governo que flexibilizaram determinadas sanções contra a Rússia, argumentando que é necessário manter Moscou envolvida nas negociações. A postura provoca preocupação entre ucranianos e aliados europeus, que temem que a pressão por um acordo termine favorecendo os objetivos territoriais russos.
Uma das questões mais difíceis é o futuro dos territórios ocupados. A possibilidade de a Ucrânia aceitar perdas territoriais, inclusive em áreas do Donbass, aparece no debate sobre as condições para encerrar os combates. Mas uma proposta de negociação não equivale a um acordo concluído, e não se pode afirmar que Kiev tenha aceitado entregar definitivamente esses territórios.
Para o governo ucraniano, a questão envolve não apenas a linha de frente, mas também a soberania nacional, as garantias de segurança e o risco de que uma trégua seja utilizada para preparar uma nova ofensiva. Para Moscou, o controle dos territórios reivindicados e as condições de segurança regional permanecem centrais nas negociações.
O desafio diplomático é encontrar uma fórmula que interrompa a matança sem transformar a força militar em autorização permanente para modificar fronteiras.
O apoio militar ocidental tem limites
A capacidade de resistência da Ucrânia depende, em grande medida, de sua mobilização interna e do apoio financeiro, tecnológico e militar de parceiros ocidentais. A dependência de sistemas de defesa aérea, munições, inteligência e recursos financeiros torna qualquer mudança na política de Washington especialmente importante.
O modelo de apoio dos Estados Unidos também vem sendo objeto de disputas políticas. É necessário distinguir o fornecimento gratuito de equipamentos financiados pelo governo americano das vendas de armamentos e dos mecanismos em que países europeus pagam por equipamentos destinados à Ucrânia. Nem toda entrega de armas segue o mesmo modelo, e a redução ou interrupção de uma modalidade de assistência não significa, automaticamente, o fim de todo o apoio militar.
Nesta segunda-feira, Zelensky voltou a reclamar de atrasos na entrega de sistemas de defesa aérea, incluindo equipamentos Patriot, e da ausência de um alerta prévio que Kiev esperava receber antes dos novos ataques russos. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, por sua vez, contestou a afirmação de que Washington teria interrompido o compartilhamento de informações de inteligência e mencionou um problema técnico que estaria sendo tratado.
Esses episódios revelam o grau de dependência operacional da Ucrânia e as consequências que as divergências com Washington podem produzir em sua capacidade de defesa. Também demonstram que o apoio ocidental não pode ser tratado como uma garantia permanente e ilimitada.
Até quando continuar uma guerra sem perspectiva de vitória?
A advertência de Daniel Davis levanta uma pergunta que deveria estar no centro do debate internacional: qual é o limite entre apoiar a resistência de um país agredido e alimentar uma guerra cujo custo humano cresce sem uma perspectiva clara de encerramento?
Não há resposta simples. Uma retirada unilateral ou a aceitação de exigências russas pode deixar a Ucrânia vulnerável a novas pressões e comprometer sua soberania. Por outro lado, sustentar indefinidamente uma guerra de desgaste, sem objetivos políticos alcançáveis e sem uma estratégia diplomática consistente, também pode aprofundar a destruição do país que se pretende defender.
A Europa precisa discutir não apenas quanto dinheiro e armamento pode oferecer, mas qual resultado político pretende alcançar. Os Estados Unidos, por sua vez, precisam demonstrar se a pressão diplomática será acompanhada de um esforço consistente para obter compromissos verificáveis de todas as partes.
Também é necessário reconhecer que a disposição para negociar não pode ser medida apenas pelas declarações públicas de presidentes. É preciso examinar as propostas concretas, as condições impostas, as violações de compromissos e a disposição de cada lado para aceitar mecanismos de fiscalização e garantias de segurança.
Paz não é apenas silenciar as armas
O fim dos combates é urgente. Mas uma paz duradoura exige mais do que a suspensão temporária dos ataques. É necessário discutir a proteção da população civil, a segurança das fronteiras, o futuro dos territórios ocupados, a reconstrução das cidades e as condições para impedir que o conflito recomece.
Uma solução negociada também precisa considerar a vontade e os direitos dos ucranianos, sem ignorar as preocupações de segurança que terão de ser tratadas para viabilizar um acordo. O destino de milhões de pessoas não deveria ser decidido exclusivamente pela força das armas ou pelos interesses estratégicos das grandes potências.
A avaliação de Daniel Davis pode ser controversa, mas seu alerta merece atenção: insistir em uma estratégia sem perspectivas realistas pode significar mais mortes e mais destruição. A questão fundamental não é declarar antecipadamente quem venceu ou perdeu, mas evitar que o sofrimento de uma população inteira se prolongue por falta de uma saída política.
Se a diplomacia é o caminho para interromper a guerra, ela precisa sair do discurso e produzir resultados concretos. Quanto mais a destruição avança, mais difícil se torna reconstruir não apenas as cidades, mas também as condições para uma convivência pacífica.
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