Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza: Brasil avança, mas dignidade ainda não é realidade para todos

No dia 17 de outubro, a ONU chama a atenção para a pobreza como violação de direitos humanos. No Brasil, milhões de pessoas superaram essa condição, mas a desigualdade continua sendo um desafio nacional

 

“A pobreza é uma afronta à dignidade humana e uma negação dos direitos humanos.”

A declaração do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, marca o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, celebrado neste sábado, 17 de outubro. A mensagem é direta e merece reflexão: ninguém deveria precisar escolher entre colocar comida na mesa, pagar o aluguel, comprar medicamentos ou garantir o básico para os filhos.

A pobreza não aparece apenas nas estatísticas. Ela está na família que chega ao fim do mês sem dinheiro, no trabalhador que cumpre sua jornada e ainda não consegue pagar todas as contas, na criança que enfrenta dificuldades para se alimentar adequadamente e em quem não tem uma moradia segura.

Por isso, combater a pobreza não significa apenas distribuir renda. Significa garantir condições para que todas as pessoas possam viver com segurança, autonomia e dignidade.

Uma data para lembrar que pobreza não é fracasso individual

Instituído pela Organização das Nações Unidas, o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza chama a atenção para a necessidade de enfrentar as causas estruturais da exclusão social.

Em 2026, a campanha internacional destaca o tema “Moradia Segura para Todas as Pessoas”, dentro do enfoque mais amplo de união pela paz e pelos direitos humanos.

A escolha tem uma razão concreta. Sem uma casa segura e acessível, fica mais difícil manter as crianças na escola, cuidar da saúde, conseguir emprego e organizar a própria vida. O aluguel e o condomínio, que consomem boa parte da renda, a moradia precária e a insegurança habitacional podem empurrar famílias inteiras para uma situação de pobreza ainda mais profunda.

A ONU defende políticas públicas que ampliem o acesso à moradia digna, ao trabalho decente, à proteção social e aos serviços essenciais. A mensagem completa de António Guterres pode ser consultada no portal das Nações Unidas no Brasil.

Brasil registra queda histórica da pobreza

O Brasil tem motivos concretos para reconhecer os avanços dos últimos anos. De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais 2025, do IBGE, entre 2023 e 2024, 8,6 milhões de brasileiros saíram da pobreza.

A proporção da população nessa condição caiu de 27,3% para 23,1%. A extrema pobreza também recuou: passou de 4,4% em 2023 para 3,5% em 2024, retirando aproximadamente 1,9 milhão de pessoas dessa situação.

Os dois indicadores alcançaram, em 2024, os menores níveis da série histórica iniciada em 2012, segundo o instituto. São números que representam muito mais do que uma melhora estatística. Para milhões de pessoas, significam a possibilidade de comprar alimentos com mais regularidade, enfrentar uma despesa inesperada ou ter um pouco mais de segurança para planejar o futuro.

Os resultados também mostram que a pobreza pode diminuir quando a renda das famílias cresce e existem políticas públicas capazes de proteger quem está em situação de maior vulnerabilidade.

O papel das políticas sociais e do trabalho

A redução da pobreza não acontece por acaso. Ela está relacionada a diferentes fatores, entre eles o comportamento do mercado de trabalho, a evolução dos rendimentos e a proteção social oferecida pelo Estado.

O Bolsa Família, relançado em 2023, é uma das políticas públicas que contribuem para garantir renda às famílias mais vulneráveis. Ao lado dele, a geração de empregos, a valorização dos rendimentos do trabalho, o acesso à educação e a ampliação da segurança alimentar fazem parte de uma estratégia mais ampla de enfrentamento da pobreza.

Na análise dos resultados de 2024, o IBGE também calculou o impacto dos benefícios sociais: sem eles, a proporção de pessoas na pobreza extrema teria sido de 10%, em vez dos 3,5% observados. No caso da pobreza, o indicador subiria de 23,1% para 28,7%.

Essas estimativas ajudam a dimensionar a importância da proteção social. Não substituem o emprego e a renda do trabalho, mas demonstram que políticas públicas podem impedir que milhões de pessoas permaneçam em condições ainda mais graves de privação.

Os avanços não apagam as desigualdades

Reconhecer a redução da pobreza não significa afirmar que o problema está resolvido. O próprio levantamento do IBGE mostra que a pobreza continua atingindo de maneira desigual a população brasileira. Mulheres, crianças e adolescentes, pessoas pretas e pardas e moradores das regiões Norte e Nordeste enfrentam vulnerabilidades mais intensas.

Também é preciso olhar para quem trabalha, mas não consegue garantir condições adequadas de vida. A informalidade, os baixos rendimentos, a instabilidade profissional e o custo da moradia continuam pesando no orçamento de muitas famílias.

Uma pessoa pode ter emprego e, ainda assim, enfrentar insegurança alimentar ou dificuldade para pagar aluguel, transporte e medicamentos. É por isso que a discussão sobre pobreza precisa caminhar junto com o debate sobre salários, condições de trabalho, educação pública, saúde, habitação e distribuição de renda.

Não basta que a economia cresça. É necessário que os resultados desse crescimento se traduzam em melhores condições de vida para a população.

Erradicar a pobreza é uma responsabilidade coletiva

O Brasil demonstrou, nos últimos anos, que é possível avançar na redução da pobreza. Os dados oficiais de 2024 confirmam uma melhora expressiva e oferecem razões para reconhecer os resultados alcançados.

Mas erradicar a pobreza exige continuidade. Significa assegurar que as famílias não voltem à privação diante de uma crise econômica, uma doença, a perda do emprego ou uma despesa inesperada.

Significa também investir em políticas públicas duradouras, ampliar oportunidades e combater as desigualdades que fazem com que algumas pessoas tenham muito mais possibilidades de escolha do que outras.

A dignidade humana não pode depender da sorte de nascer na família certa, no bairro certo ou na região mais favorecida do país.

Como lembra António Guterres, a pobreza é uma afronta à dignidade humana e uma negação dos direitos humanos. Essa afirmação não deve ser tratada apenas como uma frase para marcar uma data no calendário. Ela precisa orientar decisões políticas, prioridades orçamentárias e compromissos sociais.

O Brasil avançou. O desafio agora é transformar esses avanços em segurança, oportunidades e direitos efetivos para todos. Porque viver com dignidade não é privilégio: é direito humano.

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