CURITIBA, A LEI DA GRAVIDADE E OUTRAS OBRAS DO DESTINO
Entre árvores que caem, crateras do Inter 2 e promessas de futuro, o Tesla voador vira solução imaginária para os problemas bem reais da Curitiba em que vivemos
Hoje, mais uma árvore caiu na Praça Osório. Em horário de feira, quando a praça está cheia de gente que trabalha, compra, vende ou simplesmente passa por ali.
Não é a primeira vez. Meses atrás, um episódio semelhante deixou uma mulher tetraplégica. Uma tragédia que deveria nos fazer pensar sobre a segurança das árvores, a manutenção dos espaços públicos e, principalmente, o valor da vida humana.
Mas Curitiba tem outras atrações. As obras do Inter 2, por exemplo. Crateras, desvios, trânsito interrompido e os percalços de quem precisa atravessar a cidade para trabalhar. A Prefeitura explica que os transtornos de hoje resultarão em benefícios permanentes amanhã. Pode ser. O futuro, como sempre, promete muito.
Eis que surge uma solução tecnológica à altura dos nossos problemas: o novo Tesla Roadster, apresentado com tecnologia da SpaceX, capaz de realizar manobras aéreas com propulsores. A produção, segundo as notícias, está prevista para 2028.
Convenhamos: o veículo parece ter sido concebido para Curitiba.
Na hora de enfrentar as crateras do Inter 2, basta um pequeno impulso. Se a rua estiver interditada, é só levantar voo. E, diante de mais uma árvore que resolve abandonar o posto no meio da Praça Osório, o motorista aciona os propulsores e passa por cima.
Matemática pura.
Lei da gravidade aplicada em Curitiba.
Naturalmente, há um pequeno detalhe: o Roadster ainda não é uma solução de transporte disponível para o cidadão comum. Mas isso não impede a imaginação de funcionar. Afinal, se a cidade nos oferece obstáculos no chão, por que não sonhar com um carro que passe por cima deles?
O problema é que nem todo mundo tem um Tesla na garagem. A maioria de nós tem horário para cumprir, conta para pagar e um caminho a percorrer. Não pode simplesmente decolar quando o trânsito para, nem fugir para o céu quando uma árvore cai.
E é aí que mora a diferença entre a Curitiba dos projetos, das apresentações e das promessas e a Curitiba de verdade. Aquela em que vivemos todos os dias. A que tem feira, trabalhador, passageiro, comerciante, pedestre e gente que não pode esperar pelo futuro para chegar em casa em segurança.
O progresso é bem-vindo. Obras são necessárias. Tecnologia também. Mas existe uma conta que não fecha quando o futuro é sempre grandioso e o presente continua cobrando seu preço de quem vive na cidade.
Enquanto isso, ficamos esperando o Tesla.
Ou, quem sabe, que alguém se lembre de que a lei da gravidade não é uma questão de opinião. E que cuidar da cidade não deveria ser uma promessa para o futuro. É uma obrigação do presente, porque o futuro já chegou.

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