Quando mexem com Nossa Senhora, mexem também com a história do Brasil

Da imagem de Aparecida quebrada ao sincretismo com Oxum e Iemanjá, uma disputa que parece religiosa revela algo maior: a tentativa de transformar a fé em instrumento de divisão política

Quando mexem com Nossa Senhora, mexem também com a história do Brasil

Há coisas que o brasileiro entende sem precisar de muita explicação. Nossa Senhora Aparecida é uma delas. Para milhões de católicos, ela é a Padroeira do Brasil. Para outros brasileiros, mesmo aqueles que não professam a fé católica, sua imagem faz parte da memória cultural do país. E há ainda uma dimensão pouco lembrada: a história religiosa brasileira nunca foi feita apenas de fronteiras rígidas.

Foi feita também de encontros, adaptações e sincretismos. É nesse ponto que Nossa Senhora encontra Iemanjá e Oxum, primeira orixá da água salgada, dos mares e a segunda da água doce, dos rios. Lembrando que a imagem de nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, foi encontrada num rio.

Duas tradições, uma história brasileira

Em diferentes regiões do Brasil, Iemanjá foi historicamente associada a Nossa Senhora dos Navegantes e, em outras, a diferentes invocações de Maria. O mesmo acontece com nossa Senhora Aparecida que é sincretizada com Oxum. Essa aproximação nasceu dentro de uma história marcada pela escravidão, pela imposição do cristianismo aos africanos escravizados e pela necessidade de preservar práticas religiosas de matriz africana.

O resultado atravessou gerações e permanece vivo na cultura brasileira. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o dia 2 de fevereiro reúne tradicionalmente devotos de Nossa Senhora dos Navegantes e de Iemanjá. Em Porto Alegre, desde 2024, a própria legislação municipal reconhece a data para as duas tradições.

Não significa que Maria, Oxum e Iemanjá sejam teologicamente a mesma entidade. São tradições religiosas diferentes. O sincretismo é justamente a construção histórica de aproximações simbólicas entre elas.

É uma das coisas mais brasileiras que existem: diferentes mundos religiosos aprendendo a conviver, influenciando-se e, muitas vezes, compartilhando espaços e símbolos.

Quando a diferença deixa de ser diferença

O problema começa quando uma religião passa a enxergar a existência da outra como ameaça que precisa ser eliminada. Esse fenômeno não pode ser atribuído aos evangélicos em geral. Existem milhões de brasileiros evangélicos que convivem pacificamente com católicos, umbandistas, candomblecistas, espíritas, judeus, muçulmanos e pessoas sem religião.

Mas há, historicamente, segmentos específicos do campo neopentecostal que desenvolveram discursos de chamada “batalha espiritual”, nos quais símbolos e entidades de outras tradições religiosas são interpretados como manifestações do mal.

Pesquisas acadêmicas identificaram essa relação em episódios de destruição de imagens católicas e, principalmente, em ataques contra religiões de matriz africana. O cuidado necessário é identificar a igreja, o grupo e o autor de cada episódio, em vez de colocar milhões de pessoas diferentes dentro do mesmo saco.

1995: o “Chute na Santa”

Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 12 de outubro de 1995, justamente no dia de Nossa Senhora Aparecida. Durante um programa da TV Record, então ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, o bispo Sérgio Von Helder atacou fisicamente uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.

O episódio ficou conhecido como “Chute na Santa” e provocou uma enorme reação nacional. Estudos acadêmicos posteriormente passaram a tratá-lo como um dos episódios emblemáticos da chamada iconoclastia religiosa contemporânea brasileira.

O caso é importante porque não foi uma simples divergência teológica sobre o uso de imagens. Houve agressão física a um símbolo religioso de outra tradição.

1978: a própria imagem de Aparecida já havia sido atacada

Dezessete anos antes do episódio televisivo, a imagem original de Nossa Senhora Aparecida havia sido retirada de seu nicho e quebrada em dezenas de pedaços.

Era 16 de maio de 1978.

A imagem foi posteriormente restaurada e voltou ao Santuário Nacional. O episódio entrou para a história religiosa brasileira como um dos ataques mais graves contra o principal símbolo mariano do país.

São acontecimentos de épocas e circunstâncias diferentes. Não há razão jornalística para colocá-los automaticamente dentro da mesma motivação. Mas ambos ajudam a compreender por que a destruição de imagens religiosas provoca uma reação que ultrapassa o valor material da peça.

2026: Nossa Senhora volta ao centro da disputa

Em 11 de setembro de 2026, uma imagem de Nossa Senhora das Graças foi encontrada quebrada no adro da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Milagres, no bairro Matatu, em Salvador. A paróquia informou que pretendia registrar ocorrência e preservar imagens de câmeras de segurança. Também fez questão de pedir que os fiéis não fizessem julgamentos antecipados nem retaliações.

Até o momento das informações divulgadas, não havia identificação pública do autor nem confirmação da motivação. Portanto, não é correto transformar esse episódio em uma acusação contra determinada religião ou grupo político. Entretanto existe uma segunda história acontecendo ao mesmo tempo.

A polêmica eleitoral de setembro

Nos últimos dias, Nossa Senhora Aparecida voltou ao centro do debate político nacional por causa de informações que passaram a circular nas redes sociais sobre uma suposta intenção de retirar dela o título de Padroeira do Brasil em um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL).

A história tem uma origem real, mas a forma como passou a circular em 2026 exige correção.

Existe, de fato, o PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado Professor Victório Galli, que propunha alterar a legislação referente ao feriado de 12 de outubro para restringir a homenagem oficial a Nossa Senhora Aparecida aos católicos. O projeto está arquivado na Câmara dos Deputados.

Isso é diferente de dizer que exista hoje um projeto em tramitação para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil.

E existe outro fato ainda mais atual: em 24 de setembro de 2026, Flávio Bolsonaro publicou vídeo negando que pretenda retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil e classificou essa informação como falsa.

Ou seja: a polêmica existe e tem relevância política, mas a afirmação de que o candidato atualmente pretende retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil não está comprovada.

O que isso tem a ver com Iemanjá e Oxum?

Tem a ver porque o Brasil não possui uma única história religiosa. O mesmo país que transformou Nossa Senhora Aparecida em símbolo nacional também produziu um dos maiores patrimônios religiosos de matriz africana do mundo.

O mesmo brasileiro pode conhecer a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes e a festa de Iemanjá. O dia da padroeira do Brasil como o dia de Oxum. Pode ser católico e respeitar um terreiro. Pode ser umbandista e respeitar uma igreja. Pode ser evangélico e defender a liberdade religiosa de todos. Esse é o Brasil real.

Por isso, quando determinados grupos tentam transformar a religião em uma guerra permanente entre “os que têm Deus” e “os que estão contra Deus”, o resultado não é fortalecimento da fé. É ruptura social.

As Iabás também estão no centro dessa intolerância

Os ataques às religiões de matriz africana são particularmente graves porque se encontram na intersecção entre intolerância religiosa e racismo religioso. O problema é documentado por pesquisadores, instituições públicas e organizações de defesa dos direitos humanos.

Em junho de 2026, por exemplo, a Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados realizou audiência pública especificamente para discutir a intolerância contra povos e comunidades tradicionais de matriz africana e de terreiros.

A audiência foi requerida pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que apontou a ocorrência de discriminação e violência contra essas comunidades e defendeu medidas institucionais para garantir a liberdade religiosa. Não se trata de defender uma religião contra outra. Trata-se de defender o direito de existir de todas elas.

É importante para a identidade do povo brasileiro defender as Iabás, orixás femininos, representam o sagrado feminino e estão diretamente ligadas às religiões de matriz africana, inclusive a umbanda que é uma religião que embora tenha laços com a matriz africana, nasceu no Brasil.

Trata-se não apenas de defender a fé, mas também a manifestação cultural e folclórica, totalmente legítima, do Brasil. Lembrando que intolerância religiosa é crime previsto em lei no nosso país. Defender as Iabás: Yemanjá, Nanã, Oxum e Iansã. Defender a fé popular brasileira.

Há políticos cristãos que defendem a pluralidade

Também é importante lembrar que a disputa não separa simplesmente “cristãos” de “progressistas”. A realidade é muito mais complexa.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se identifica como católico, já declarou publicamente que o Estado brasileiro é laico e que todas as religiões devem ser respeitadas, incluindo católicos, evangélicos e religiões de matriz africana.

O deputado e pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), ele próprio evangélico, tornou-se uma das vozes políticas que criticam a demonização das religiões afro-brasileiras dentro de determinados ambientes religiosos.

A deputada Erika Hilton tem atuado institucionalmente contra o racismo religioso e em defesa das comunidades de terreiro.

E a deputada Gleisi Hoffmann já participou publicamente de iniciativas relacionadas ao Santuário Nacional de Aparecida. Em 2018, quando anunciou uma romaria ao Santuário, o próprio Santuário respondeu que acolhia todos os devotos, mas não permitiria que seu espaço fosse utilizado para promoção política ou ideológica.

O episódio é revelador por outro motivo: até a própria Igreja Católica estabelece uma diferença entre fé e instrumentalização partidária da fé.

O perigo começa quando Deus ganha partido

É aqui que a discussão deixa de ser apenas religiosa e passa a ser política. Nas últimas décadas, pesquisadores vêm estudando a aproximação entre setores pentecostais e neopentecostais e a política brasileira. Essa aproximação não é ilegítima. Pessoas religiosas têm exatamente o mesmo direito de participar da política que qualquer outro cidadão.

O problema democrático surge quando uma determinada interpretação religiosa pretende se apresentar como a única moralmente legítima e passa a considerar adversários políticos, minorias religiosas ou grupos sociais como inimigos que precisam ser combatidos.

É justamente nesse ponto que a literatura acadêmica sobre o bolsonarismo identifica uma aproximação entre discursos religiosos conservadores, nacionalismo, autoritarismo e extrema-direita.

Há pesquisadores que utilizam expressamente conceitos como fascismo, neofascismo e autoritarismo para analisar o bolsonarismo. Outros preferem conceitos como populismo de direita ou coalizão de extrema-direita. Não existe, portanto, consenso acadêmico absoluto sobre uma equivalência entre bolsonarismo e fascismo histórico.

Mas há características que podem ser comparadas: construção permanente de inimigos, culto à liderança, mobilização política baseada no medo, desvalorização de minorias, nacionalismo exacerbado, discurso antipluralista e tensão com instituições democráticas.

É também possível encontrar paralelos históricos com movimentos fascistas e com o nazismo na utilização política da religião, da identidade nacional e da construção de inimigos. Paralelo, porém, não significa identidade histórica.

Nazismo foi um regime totalitário específico, responsável pelo Holocausto e por uma guerra mundial. Fascismo possui uma história própria, originada na Itália de Mussolini. O Brasil de hoje não pode simplesmente ser chamado de Alemanha nazista ou Itália fascista.

Mas estudar os mecanismos que permitiram que aquelas experiências políticas prosperassem é uma forma legítima de compreender os riscos do autoritarismo contemporâneo.

Nossa Senhora não precisa de partido

Talvez essa seja a parte mais importante desta história. Nossa Senhora Aparecida não precisa ser transformada em cabo eleitoral.

Iemanjá, Oxum e Iansã também não. Jesus Cristo não precisa de candidato. E, apenas mudando o nome pode ser chamado de Oxalá.

Nem uma mãe ou pai de santo precisa ser visto como inimigo porque cultua seus orixás. E um evangélico não precisa abandonar sua fé para respeitar um católico.

O Brasil nasceu do encontro — muitas vezes doloroso e desigual — entre povos, culturas e religiões. O sincretismo é uma das marcas dessa história. Talvez seja justamente por isso que imagens religiosas quebradas, terreiros atacados e discursos que transformam o diferente em inimigo devam preocupar todos nós.

Porque quando alguém quebra a imagem de Nossa Senhora, não está simplesmente quebrando cimento, gesso ou madeira. Está atingindo um símbolo que milhões de brasileiros reconhecem como sagrado.

E quando alguém destrói um terreiro, agride uma mãe de santo ou demoniza Iemanjá, também não está simplesmente atacando uma crença que não compreende. Está atacando brasileiros que têm o mesmo direito constitucional de acreditar.

Liberdade religiosa não significa concordar com a religião do outro. Significa reconhecer que o outro tem o mesmo direito de existir.

Talvez essa seja uma das melhores traduções do Brasil que ainda precisamos construir: um país onde Nossa Senhora possa continuar sendo Nossa Senhora, Iemanjá possa continuar sendo Iemanjá e nenhuma delas precise ser colocada contra a outra para que alguém consiga ganhar uma eleição.

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