Ivan Kaingang leva às estradas a voz de quem trabalha e paga pedágio no Paraná
Liderança da Terra Indígena Apucaraninha e candidato a deputado estadual pelo PT, Ivan Kaigang defende redução, subsídio ou mesmo o fim do pedágio para trabalhadores, pois o custo das praças pedaleiras, em verdade, é pago pelo consumidor final
Na Terra Indígena Apucaraninha, em Tamarana, no Norte do Paraná, as estradas não são mera abstração. As estradas são caminhos para o trabalho, para os estudos, atendimento em saúde, comércio e circulação cotidiana de bens, de indivíduos e famílias que cruzam nosso estado.
É por nossas estradas que passam os produtos que alimentam, fazendas, povoados, cidades e regiões inteiras, movimentando a economia paranaense.
É deste cenário — o de quem conhece os caminhos do Paraná — que Ivan Kaingang, enxerga e compreende o pedágio rodoviário do Estado, colocando a pauta entre uma de suas principais bandeiras.
Candidato a deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições que se avizinham. Ivan tem uma história importante de lutas, e, anterior à atual disputa eleitoral. Nascido em Tamarana e originário da Terra Indígena Apucaraninha, além de bicho do Paraná, é bacharel em Direito. Ele construiu sua atuação pública, desde a juventude, na defesa dos direitos dos povos indígenas, ocupando espaços de representação no movimento indígena e na construção de políticas de saúde para toda comunidade indígena.
Em 2023, Ivan assumiu a coordenação do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Litoral Sul, estrutura da Secretaria de Saúde Indígena que atende populações de povos originários do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. O candidato é um verdadeiro guerreiro, que sempre se ocupou em não apenas marcar presença, mas principalmente em ocupar espaços públicos. Sua luta remonta há tempos passados mas não esquecidos, quando já atuava como liderança da Apucaraninha e na organizações do movimento indígena brasileiro.
A liderança indígena concedeu uma entrevista exclusiva ao blog Sulpost, para para colocar suas ideias sobre as rodovias paranaenses e seu sistema de pedágio. Ivan parte da experiência própria e cotidiana de quem circula pelos caminhos do Paraná.
“Nós, como indígenas, que transitamos toda semana por ali e vemos isso, pedágio abusivo, quando a gente vai ao trabalho.”
A frase resume a perspectiva que pretende levar à Assembleia Legislativa a discussão sobre pedágio. Um assunto que não deveria ser visto apenas a partir dos contratos de concessão, das obras ou da manutenção das rodovias, mas principalmente partindo de quem precisa usar nossas estradas para trabalhar.
A estrada chega ao preço final
Ivan defende que o Estado encontre mecanismos para reduzir o peso do pedágio, para trabalhadores e para quem utiliza nossas rodovias como parte de sua atividade profissional, laboral.
A proposta, apresentada por ele, pode partir de subsídios públicos, considerando a responsabilidade do poder público sobre nossas rodovias, tanto estaduais, quanto federais, de acordo com a jurisdição de cada trecho, de cada praça.
O candidato faz uma comparação interessante das rodovias e veículos que por elas circulam, com o transporte coletivo nos grandes centros urbanos. Se o poder público pode subsidiar o transporte utilizado diariamente pelas populações urbanas - de acordo com o argumento de Ivan - também é possível a discussão de mecanismos de redução de custo para quem depende das rodovias para trabalhar.
“Não vamos entrar no mérito ali”, afirma, ao delimitar o foco de sua argumentação. “Vamos falar do trabalhador.”
É uma escolha deliberada de Ivan: deslocar o debate do usuário eventual da estrada, para aquele que precisa passar pelas praças de pedágio repetidamente, seja para chegar ao emprego, ao tratamento de saúde, a escola, faculdade, universidade ou exercer a atividade econômica que lhe garante o sustento diário.
E o argumento de Ivan não termina no motorista, explorado pelas concessionárias das praças de pedágio. Para ele, o custo da circulação de pessoas e mercadorias que circulam pelas estradas paranaenses está diretamente incorporado no preço final dos bens e serviços prestados não apenas no Paraná, mas em todo lugar onde chegam nossas riquezas, sejam elas materiais ou imateriais.
A lógica de Ivan Kaigang é simples: quem produz, transporta ou comercializa bens e serviços não pode fazer isso sem o deslocamento. Se a circulação fica mais onerosa, mas cara, o custo logicamente acaba sendo repassado ao longo da cadeia logística, até chegar ao consumidor final. Ideia que ele resume com a simplicidade e a sabedoria característica do índio brasileiro.
“Para que o custo do pedágio não sobrecarregue no preço final, no bolso do consumidor final.”
Liderança nascida antes da urna
A candidatura de Ivan em 2026 é apenas o capítulo mais recente na vida pública deste homem que nasceu do centro da terra do Paraná.
Sua trajetória está diretamente ligada à própria comunidade de Apucaraninha e à organização política dos povos Kaingang. Ao longo dos anos, ele ocupou espaços importantes no movimento indígena brasileiro, participando ativamente da articulação dos povos indígenas da Região Sul e atuando na representação dos interesses de diversas comunidades indígenas.
A graduação em Direito acrescentou outra ferramenta à trajetória deste brasileiro de origem ancestral: a linguagem das leis, das políticas públicas e dos direitos comuns a toda cidadã e a todo cidadão. Desde então sua formação passou a fazer parte também de sua atuação ativa na construção de políticas públicas, destinadas não apenas às comunidades indígenas, mas a toda população brasileira.
Na saúde indígena, principalmente no que tange à qualidade de vida, a experiência de Ivan ganhou dimensão regional. Ao assumir a coordenação do DSEI Litoral Sul, ele passou a tratar de políticas públicas destinadas a comunidades indígenas em três estados do nosso país.
Essa trajetória ajuda a compreender por que, em sua fala sobre o pedágio, aparecem simultaneamente fatores como território, trabalho, circulação, produção, precificação e custo de vida.
Para uma comunidade, seja ela indígena ou não, a estrada não termina na praça de pedágio. Ela continua até a cidade, até o local de trabalho, até o hospital, o posto de saúde, o comércio e mercados onde são comercializados os alimentos que fazem parte da mesa do nosso povo e inclusive de outros países.
“Essa pauta vai ser levada”
Ivan afirma que pretende levar a discussão para a Assembleia Legislativa caso seja eleito.
“Estamos aqui, viemos na luta. Essa pauta vai ser levada até a Assembleia Legislativa.”
A proposta defendida por ele é que o Paraná QQ discuta formas de subsidiar o custo do pedágio para quem utiliza as rodovias para trabalhar, com participação do governo estadual ou da União conforme a responsabilidade sobre cada estrada.
Ivan vai além e propõe inclusive que o próprio estado cuide da manutenção das rodovias, como era feito antes do advento dos pedágios, proporcionando assim a livre circulação de bens e serviços, o livre mercado, que não onera o consumidor final. Uma ideia interessante ao nosso ver, e que está diretamente ligada ao custo Brasil.
A discussão, proposta por Ivan, inclusive há tempos já é abonada por Arilson Chiorato, presidente da legenda de Ivan no Paraná, bem como pelo candidato do PDT ao governo do Paraná, Requião Filho. Ela acontece justamente num momento em que as tarifas das concessões rodoviárias do Paraná passam por revisões e reajustes contratuais.
Para o candidato Ivan Kaigang, entretanto, a discussão não deve ficar restrita aos contratos firmados nos gabinetes do poder. O ponto crucial é o impacto que o custo da circulação pode produzir na vida de quem depende diariamente das nossas rodovias.
Apucaraninha como ponto de partida
Há uma dimensão ainda mais profunda na fala de Ivan. Sua relação com a política não começou nos partidos políticos. Começou no território indígena.
A história da Apucaraninha é marcada pela defesa da terra, pela preservação da cultura Kaingang, pela luta por políticas públicas e pela necessidade de garantir condições para que as comunidades possam permanecer em seus territórios.
Uma luta histórica, que foi abraçada fortemente pelo próprio presidente Lula, reconhecidamente amigo, defensor e protetor de todos os povos indígenas do Brasil. É nesse contexto que a fala de Ivan sobre estrada e pedágio ganha outra dimensão, de caráter nacional.
“Vamos falar do trabalhador”
Ao final da entrevista, Ivan volta ao ponto que considera essencial.
“São vários, não é?”, questiona, referindo-se às pessoas que utilizam as rodovias para chegar ao trabalho.
E provoca:
“Dá uma pesquisada em quantos que usam a rodovia para o trabalho.”
É uma pergunta que transforma a discussão sobre pedágio em uma questão mais abrangente: quem paga para circular pelo Paraná todos os dias e quanto esse custo representa para a vida de quem depende da estrada para garantir o próprio sustento?
Para Ivan Kaingang, essa é uma pauta essencial, esse eleito for, certamente irá carregar esta sua Bandeira da Apucaraninha diretamente para a Assembleia Legislativa, para o coração do poder legislativo do Estado do Paraná.
Da comunidade indígena para a estrada. E da estrada para o debate sobre o preço que o Paraná paga para se movimentar.

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