terça-feira, 29 de julho de 2025

Itaipu e Receita estão transformando produtos apreendidos do crime em energia

De contrabando a combustível limpo: como Itaipu e a Receita Federal estão transformando produtos apreendidos do crime em energia para o futuro

Por Ronald Stresser | Sulpost

 
Os biodigestores de Itaipu em ação - Tânia Rêgo/Agência Brasil
 

Já sabemos que a fronteira entre Brasil e Paraguai, onde a imponência de Itaipu Binacional domina o cenário e as águas do Rio Paraná, abriga uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo. Más uma outra revolução energética silenciosa está em curso. Menos monumental em tamanho, mas gigante em impacto, ela nasce de um paradoxo: transformar o que é fruto de crime em fonte de vida. Produtos do contrabando e descaminho, antes descartados ou incinerados, agora viram energia limpa – literalmente.

A receita da transformação é surpreendente: biodigestores, toneladas de mercadorias apreendidas e o compromisso de um país com a inovação e o meio ambiente.

Tudo acontece dentro da própria Itaipu, em Foz do Iguaçu, onde funciona uma unidade do CIBiogás – Centro Internacional de Energias Renováveis, criado por Itaipu e operado em parceria com órgãos como a Receita Federal, Polícia Federal e o Ministério da Agricultura e Pecuária.

Ali, o improvável se torna cotidiano: sacos de farinha, garrafas de vinho, pacotes de feijão e até azeite de oliva cruzam os portões do complexo energético como “culpados” do crime organizado – e saem dali como gás combustível, biometano e até biofertilizante.

Novo destino para o que antes era destruição

A biousina de Itaipu recebe produtos apreendidos nas operações de combate ao contrabando e descaminho – duas práticas ilegais que movimentam bilhões todos os anos, muitas vezes associadas a redes criminosas internacionais. Mas, em vez de simplesmente destruir os alimentos e bebidas confiscados, uma nova lógica se impõe: reaproveitar com inteligência e propósito.

O resultado dessa aposta é concreto. Segundo Felipe Marques, diretor de Estratégias de Mercado do CIBiogás, mais de 400 tipos de resíduos já foram mapeados como potenciais fontes de energia.

“O biometano sendo usado para substituir o diesel causa um impacto muito grande na redução de emissões”, explica.

Só de leite em pó apreendido – 22 toneladas vindas da Índia – já foi possível abastecer centenas de carros. Ao todo, foram 41,3 mil metros cúbicos de biometano gerados, o que garantiu mais de 484 mil quilômetros rodados sem emissão de carbono fóssil.

A magia da biodigestão

No centro dessa alquimia moderna está um imenso tanque vedado. Nele, ocorre a biodigestão: processo em que microrganismos transformam a matéria orgânica em biogás. Do gás, extrai-se o biometano – um combustível limpo, comparável ao etanol em termos de emissões, mas com potencial de substituir até mesmo o diesel, um dos vilões da matriz energética.

Produtos que, à primeira vista, poderiam ser desperdiçados ou causar danos ao meio ambiente, são tratados com uma engenharia quase artesanal.

“Farinha gera muito biogás, mas pouco metano. Já o azeite é riquíssimo em metano. Então dosamos com cuidado para manter a qualidade do que é produzido”, conta o engenheiro Geovani Geraldi, do CIBiogás.

O controle é rigoroso: nada entra no biodigestor sem que se conheça sua composição, seu potencial e sua contribuição para o equilíbrio do sistema.

Energia que move e inspira

Com capacidade para processar até uma tonelada de resíduos por dia, a biousina ainda recebe sobras de restaurantes do complexo de Itaipu. No auge, já processou 600 toneladas de resíduos orgânicos desde 2017.

O combustível gerado abastece a frota de veículos leves de Itaipu, incluindo o ônibus turístico que circula no interior da usina. E os planos são ambiciosos: a Petrobras já manifestou interesse em adquirir o biometano, sinal de que a iniciativa pode crescer para além das fronteiras do Paraná.

Mas não para por aí.

Do mesmo processo de biodigestão, extrai-se também o bio-syncrude, um óleo sintético promissor na fabricação de SAF (Combustível Sustentável de Aviação). A Itaipu já prepara uma apresentação do novo produto para a COP 30, que ocorrerá em novembro, em Belém. Em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), o objetivo é mostrar ao mundo que é possível alçar voos sustentáveis a partir do reaproveitamento inteligente do que antes era problema.

Energia que dá o exemplo

Em um mundo marcado pelas tragédias climáticas e pela urgência de soluções sustentáveis, o que acontece em Foz do Iguaçu não é apenas inovação – é um gesto de compromisso ético. Itaipu e seus parceiros estão mostrando que é possível dar outro destino ao que o crime traz. Transformar ilegalidade em energia. Dar novo valor ao que seria lixo. Alimentar motores e consciências com inteligência, ciência e responsabilidade.

Essa é, sem dúvida, uma das faces mais humanas e poderosas da transição energética brasileira.

“Não estamos apenas produzindo energia limpa. Estamos mudando a lógica de como lidamos com os impactos do contrabando. Damos uma resposta ecológica e social ao crime”, resume Felipe Marques, do CIBiogás.

No país das desigualdades e das contradições, ver o contrabando virar combustível é um respiro de esperança – e um lembrete de que o futuro pode, sim, nascer das mãos de quem decide agir com coragem, inovação e propósito.

📍 Com informações da Agência Brasil, CIBiogás, Itaipu Binacional, Receita Federal e UFPR.

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