Depois de quase três décadas de conflitos e espera, diálogo liderado pelo governo Lula transforma disputa histórica por terra em paz no campo, desenvolvimento regional e justiça social no Paraná
| Acampamento Buraco em 1996 - Foto: Arquivo MST/PR |
Na madrugada fria de 17 de abril de 1996, homens, mulheres e crianças avançaram sobre a Fazenda Giacometti-Marodin, em Rio Bonito do Iguaçu, no Centro-Sul do Paraná. As imagens captadas por Sebastião Salgado atravessaram fronteiras e se tornaram símbolo de um Brasil marcado pela concentração fundiária, pela ausência do Estado e por conflitos que pareciam não ter fim.
Quase 30 anos depois, a mesma região volta a ocupar o centro do noticiário nacional. Mas, desta vez, a história é outra. Onde antes havia confronto, hoje há acordo. Onde reinava a incerteza, agora existe chão firme, papel assinado e futuro possível.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva firmou, nesta quinta-feira (16), um acordo histórico que destina 34 mil hectares à reforma agrária no Paraná, garantindo terra, direito e dignidade a cerca de 3 mil famílias do campo nos municípios de Quedas do Iguaçu, Rio Bonito do Iguaçu, Espigão Alto do Iguaçu e Nova Laranjeiras.
A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, deputada federal eleita pelo PT do Paraná, celebrou a conquista como um marco civilizatório. Em vídeo publicado em suas redes sociais, ela destacou o significado histórico da decisão:
“Depois de quase 20 anos, um conflito fundiário que atingia milhares de famílias paranaenses agora tem solução. O governo do presidente Lula fechou um acordo histórico que garante terra, direito e dignidade para cerca de 3 mil famílias do campo.”
Do conflito à solução
O acordo envolve a União, o Incra e as empresas Araupel S/A e Rio das Cobras Ltda.. Ele prevê a desapropriação indireta e judicial de imóveis localizados na Gleba Pinhal Ralo, a regularização definitiva dos assentamentos Celso Furtado e Dez de Maio, além do reconhecimento da Gleba Rio das Cobras como terra pública. Todas as ações judiciais relacionadas às áreas serão extintas.
Apontada como uma das resoluções fundiárias mais significativas do país nos últimos anos, a negociação consolida uma estratégia que vem sendo adotada pelo governo federal: substituir décadas de litígios, tensão e violência pela construção de soluções pactuadas, com segurança jurídica para todos os lados.
“O que antes era conflito, agora é solução”, resumiu Gleisi Hoffmann. A ministra também fez questão de ressaltar que os proprietários serão devidamente indenizados e que as áreas produtivas das empresas seguem funcionando normalmente, garantindo empregos e atividade econômica na região.
Estado presente, justiça possível
Para o presidente do Incra, César Aldrighi, o acordo entra para a história da reforma agrária brasileira. Segundo ele, a atuação integrada do Ministério do Desenvolvimento Agrário, da Advocacia-Geral da União e do Ministério da Fazenda foi decisiva para que o impasse, arrastado por décadas, encontrasse uma saída concreta.
A diretora de Obtenção de Terras do Incra, Maíra Coraci Diniz, lembrou que a região já concentra o maior complexo de assentamentos do Paraná. Para ela, a regularização não significa apenas posse da terra, mas mais produção de alimentos saudáveis, fortalecimento da economia local e reconstrução de um território recentemente castigado por eventos climáticos extremos, como o tornado que atingiu Rio Bonito do Iguaçu.
O superintendente regional do Incra, Nilton Bezerra Guedes, destacou que o trabalho técnico desenvolvido permitirá consolidar um modelo onde produção agrícola, preservação ambiental e cooperação caminham juntas, com foco na agricultura familiar e no desenvolvimento sustentável.
Quem vive da terra no centro da política
A construção do acordo envolveu um amplo arco institucional e social: Poder Judiciário, Ministérios Públicos estadual e federal, Defensoria Pública, governo do Paraná, prefeitura de Rio Bonito do Iguaçu, além das famílias acampadas e movimentos sociais. Um esforço coletivo que devolve ao Estado seu papel mediador e garante paz no campo.
Com a regularização, políticas públicas como crédito rural, assistência técnica, moradia, educação e infraestrutura poderão chegar com mais rapidez e efetividade às comunidades assentadas.
Os futuros lotes serão preenchidos por meio de processos seletivos conduzidos pelo Incra, com editais publicados na Plataforma de Governança Territorial (PGT). Para participar, é obrigatório ter inscrição ativa no Cadastro Único de Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico).
Da fotografia à esperança
Ao recordar as imagens históricas de Sebastião Salgado, Maíra Coraci expressou um desejo que ecoa entre as famílias que resistiram por anos à beira da estrada:
“Que as fotografias que imortalizaram essa luta agora também sejam símbolo de uma renovação de esperança, de vida para todas as pessoas da região.”
No Paraná de 2026, a terra deixa de ser promessa distante e passa a ser chão concreto. Onde havia medo, nasce o futuro. Onde reinava o conflito, constrói-se a paz. A reforma agrária, tantas vezes atacada e incompreendida, mostra que, quando há diálogo, responsabilidade e compromisso social, o sonho coletivo pode — e deve — virar realidade.

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