Uma investigação policial, uma morte que chocou o país, a urgência de uma escolha política que o Brasil insiste em adiar, mas quando a polícia bate à porta, a realidade aparece
Por Ronald Stresser, especial para o Sulpost
| Djidja Cardoso, empresária e ex-sinhazinha do Boi Garantido que morreu por de overdose de quetamina — TV Globo/Reprodução |
No primeiro semestre de 2024, uma investigação iniciada no Amazonas expôs de forma brutal aquilo que estatísticas frias já vinham sinalizando há anos: a quetamina deixou de ser apenas um anestésico fora de controle e passou a ocupar o centro de práticas criminosas graves, envolvendo dominação psicológica, violência e morte.
O caso veio à tona após a morte de Djidja Cardoso, ex-sinhazinha do Boi Garantido, encontrada sem vida em 28 de maio de 2024. O que parecia uma tragédia pessoal rapidamente se transformou em um dos episódios mais perturbadores recentes envolvendo drogas no Brasil.
A investigação de 2024: fé falsa, droga real
As investigações conduzidas pela Polícia Civil do Amazonas, com repercussão nacional e acompanhamento de órgãos federais, revelaram que Djidja fazia parte de uma estrutura familiar que operava como uma seita religiosa, autodenominada “Pai, Mãe, Vida”.
Segundo os autos, a mãe, Cleusimar Cardoso, e o irmão, Ademar Cardoso, cooptavam funcionários de salões de beleza e pessoas próximas, prometendo espiritualidade, cura e pertencimento. O método de controle, porém, era químico.
A droga usada para manter as vítimas submissas era a quetamina (cetamina), um anestésico veterinário.
Relatos colhidos pela polícia apontam que as vítimas recebiam injeções da substância sem consentimento, desenvolvendo dependência, confusão mental e perda progressiva de autonomia. As pessoas permaneciam em situação análoga à escravidão, sob coerção psicológica, isolamento e abusos.
Djidja morreu por overdose de quetamina.
Prisões, crimes e um padrão que se repete
Após a morte, a investigação avançou rapidamente. Mãe, irmão e outros envolvidos foram presos e indiciados por crimes como tráfico de drogas, associação criminosa, sequestro, tortura com resultado em morte e estupro de vulnerável.
O detalhe mais alarmante não é apenas a crueldade do caso, mas o meio utilizado: uma substância legalizada para uso veterinário, relativamente acessível, com denúncias e histórico crescente de desvio em todo território nacional.
Do Amazonas ao Paraná: o mesmo rastro químico
No Paraná, operações policiais em 2025 revelaram esquemas de prescrição irregular e venda de quetamina como droga alucinógena. Um médico veterinário é suspeito de ter prescrito mais de 112 mil frascos em quatro anos, movimentando cerca de R$ 60 milhões.
Em Curitiba, mais de 1.100 unidades foram apreendidas em uma única ação. Em outra, uma organização criminosa foi desarticulada após lucrar R$ 10 milhões em apenas dois meses.
Quando a quetamina encontra a cocaína
Estudos toxicológicos mostram que a cocaína vendida no Brasil raramente é pura. Em alguns casos, análises indicam polidrogas, com a presença de anestésicos e outras substâncias psicoativas, aumentando drasticamente o risco de overdose e problemas sociais, de saúde pública. A mistura de vários fármacos na cocaína acaba criando outros tipos de droga, substâncias muitas vezes mais perigosas e com reações imprevisíveis inclusive para os próprios usuários.
O usuário não sabe o que consome. O corpo, a mente, e toda a sociedade acabam pagando a conta.
O paradoxo brasileiro das drogas
Enquanto a quetamina segue autorizada para uso médico e veterinário, mesmo associada a mortes e exploração humana, a maconha medicinal enfrenta barreiras e preconceito institucional no Brasil, entretanto o Paraná saiu na dianteira quanto à regulamentação. No caso da maconha recreativa, que já é liberada em vários países, inclusive no Uruguai, nosso vizinho, então nem se fala.
Essa diferença não se explica pela ciência. Nem pela saúde pública, retrata de um preconceito estrutural e de uma mensuração falsa dos reais danos das drogas, lícitas e ilícitas, bem como das políticas de redução de danos. O Brasil ainda rasteja na sombras e no obscurantismo do tabu social, quando a questão é o uso ou abuso de substância entorpecente.
O que precisa mudar — e quem precisa agir
A posição do blog Sulpost é clara: a quetamina deve ser reclassificada como substância ilícita no Brasil, inclusive alertando para o perigo de que pode ser usada para escravizar mentalmente grupos de pessoas.
- Proibição do uso em humanos
- Banimento ou regulação máxima do uso veterinário
- Rastreamento rigoroso e controle absoluto da produção e da prescrição por órgãos competentes (como já é feito com a morfina, por exemplo)
Segundo fontes consultadas pelo blog, existem alternativas anestésicas mais modernas e seguras, bem como no caso do alegado e polêmico uso terapêutico. Manter a quetamina em circulação ampla é aceitar novas tragédias e acreditamos que a sociedade não merece continuar correndo esse risco.
Decisão urgente
A investigação de 2024, o caso Djidja, deixou um aviso claro. A próxima tragédia não poderá dizer que ninguém sabia. Imagina se começam na prática a distribuir quetamina por aí, para dementar, influenciar e guiar o eleitor igual gado, para as urnas, o tamanho da tragédia que poderia acontecer. Como dizia a personagem Dona Jura, da BBB26 Solange Couto: "né brinquedo não!"
Matéria atualizada com hiperligações às 14h07 de 18/01/26

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