A epopeia de cada gesto: Ilíada e Odisseia voltam à cena em Curitiba, com o diretor Octavio Camargo e a Cia Iliadahomero no teatro Zé Maria Santos
Por Ronald Stresser | Sulpost![]() |
| Teatro Zé Maria recebe "Odisseia" e "Ilíada" - Foto: Gilson Camargo |
No centro histórico e cultural de Curitiba, o antigo e elegante bairro São Francisco vai pulsar, em agosto, ao som das palavras mais antigas da literatura ocidental. A partir do dia 14, o Teatro José Maria Santos recebe o Festival Homero Curitiba 2025, com oito interpretações ao vivo da Ilíada e da Odisseia, dirigidas pelo meu amigo Octavio Camargo, um nome que já se confunde com a própria epopeia.
O festival vai até o dia 24, sempre de quinta a sábado às 20h, e domingos às 19h, numa ode viva à oralidade que atravessa os milênios.
A Cia Iliadahomero, que carrega mais de 25 anos de trajetória dedicada à encenação integral da obra homérica, volta à cena com o rigor de quem respeita a antiguidade e a ousadia de quem entende o presente. São textos de 2.800 anos, traduzidos sem cortes por Odorico Mendes, mas que, nos corpos e vozes dos intérpretes, se fazem atuais — épicos de dor, honra, retorno, perda, desejo e destino...
Cada palavra tem o peso de uma história coletiva. Cada pausa, a tensão de um mundo em ruínas ou renascido.
Teatro como ritual
A cada noite, um canto. A cada canto, um universo inteiro. O festival começa com a atriz Maureen Miranda (14/08), trazendo o "Canto 12 da Ilíada", em que os troianos tentam atravessar o muro grego, mas são detidos por guerreiros quase mitológicos. Com sua voz, a atriz — que também é artista visual — transita entre a força das armas e o simbolismo de um muro destinado à ruína.
No dia seguinte (15/08), Raquel Rizzo leva à cena o "Canto 16 da Odisseia", o reencontro silencioso e emocionante entre Ulisses e Telêmaco. Com uma delicadeza que escapa ao olhar distraído, Raquel costura o afeto com a estratégia, numa performance que revela a dimensão íntima dos heróis.
O sábado (16/08) é de travessia com Fernando Marés, no "Canto 5 da Odisseia". Ulisses, naufragando em sua própria coragem, deixa a ilha de Calipso e enfrenta Netuno. Marés, com sua experiência também na cenografia, encarna a força vulnerável do herói solitário. A performance é quase uma escultura em movimento.
O domingo (17/08) é histórico: Jonatas Medeiros apresenta o "Canto 1 da Ilíada" em Libras, com narração de Fernando Marés. O espetáculo, fruto de dez anos de pesquisa com a comunidade surda, emociona pela força gestual e visual do épico. A ira de Aquiles, o desprezo de Agamêmnon, o lamento de Crises e a súplica de Tétis ao Olimpo ganham forma nos sinais e silêncios. Um marco na acessibilidade das artes no Brasil.
Segunda semana: o retorno, a perda e o escudo do mundo
Na quinta-feira (20/08), o mais jovem ator do festival, Pedro Inoue, interpreta o "Canto 13 da Odisseia", quando Ulisses volta finalmente a Ítaca, mas não a reconhece. A pandemia moldou sua preparação, e ele traz à cena o silêncio do herói que, diante da terra natal, sabe que ainda não pode revelar-se.
Na sexta (21/08), Letícia Guimarães toma o palco com o "Canto 18 da Ilíada", um dos mais simbólicos de toda a epopeia. Aquiles recebe a notícia da morte de Patroclo e decide voltar à guerra. A dor se transforma em ação. O escudo que Vulcano forja, com todo o cosmos esculpido, é o centro da cena — e Letícia, com sua interpretação poderosa, transforma o teatro em universo.
No sábado (23/08), Lourinelson Vladmir revive o "Canto 3 da Ilíada", o duelo entre Páris e Menelau. É o canto da vaidade, da trégua e da manipulação divina. Vênus intervém, Helena observa, Príamo relembra. Vladmir, veterano da companhia, transforma esse episódio em um espetáculo de tensão e lirismo.
E no encerramento (24/08), Richard Rebelo assume o "Canto 16 da Ilíada", a famosa aristéia de Patroclo. Com a armadura de Aquiles, o jovem guerreiro vive seu momento de glória e tragédia. Ao cair pelas mãos de Heitor, acende a chama da vingança que levará Aquiles ao seu destino. Richard, que já apresentou esse canto em palcos internacionais, como o Teatro Imperial de Teerã, encerra o festival com o peso do que é irremediável.
Muito além de um espetáculo
O Festival Homero Curitiba 2025 é mais do que uma série de apresentações teatrais. É um projeto de memória, tradução e ressignificação. Um exercício de escuta. Uma afirmação de que, mesmo em tempos de ruído digital e distração constante, ainda há espaço para a palavra como experiência sensorial, comunitária e espiritual.
A cenografia de Fernando Marés, a iluminação de Beto Bruel e a curadoria artística de Octavio Camargo formam um tripé estético que transforma o Teatro José Maria Santos em um santuário da tradição oral — e ao mesmo tempo, em laboratório da emoção contemporânea.
Serviço:
Festival Homero Curitiba 2025
📅 De 14 a 24 de agosto
🕗 Quinta a sábado às 20h | Domingo às 19h
📍 Teatro José Maria Santos – R. Treze de Maio, 655 – São Francisco – Curitiba (PR)
🎭 Classificação: 12 anos | Duração: 1h30
🎟️ R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia)
📲 Vendas pelo DiskIngressos ou na bilheteria do teatro (1h antes das sessões)
🧏 Espetáculo com Libras em 17/08
“A Ilíada e a Odisseia nos ensinam que tudo passa, tudo volta, tudo sangra, tudo canta. O teatro é a casa onde esses cantos continuam vivos”, diz Octavio Camargo.
E enquanto houver quem os escute, Homero seguirá caminhando entre nós.
📍 Ronald Stresser é jornalista e editor do Sulpost. 📲 WhatsApp e pix: (41) 99281-4340


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