Entre serpentes e símbolos: Zeca Dirceu ironiza Onyx Lorenzoni com o “Ourobouros” durante a CPMI do INSS
Por Ronald Stresser – Sulpost · 06/11/2025
“A imprensa disse que você fez uma tatuagem no período em que, como réu confesso, reconheceu o crime de caixa dois. A pergunta que tem pairado, ministro, é: qual tatuagem o senhor vai fazer agora? Eu trouxe aqui uma sugestão”, disse Zeca, enquanto sustentava o papel com a imagem circular da serpente. Em voz contida, explicou a origem e o sentido do símbolo: “É o Ourobouros — vem da Grécia, vem do Egito; é uma serpente engolindo o próprio corpo.” O gesto parecia traduzir uma crítica mais profunda: a do poder que, repetindo padrões, termina por devorar a si próprio.
Uma provocação com peso simbólico
Não foi apenas ironia nem mero artifício retórico. Ao exibir o desenho, Zeca procurou transformar em imagem aquilo que imagina ser o motor das falhas — uma repetição obstinada de erros e omissões. O Ourobouros, símbolo ancestral que circula entre mitologias e tradições filosóficas, carrega em si a ambiguidade do eterno retorno: renovação ou autofagia. Naquele instante, o círculo do desenho soou menos como promessa de renascimento e mais como diagnóstico de autoengolimento político.
Do outro lado, Onyx respondeu com a palavra curta e esperada de quem se vê acossado: “A população brasileira sabe quem trabalha com honra e respeito ao dinheiro público.” A frase buscou ancorar o depoente na noção de serviço público e honra — resposta clássica diante da acusação pública — mas não fez desaparecer o rastro visual que ficara no ar.
Contexto: por que a presença de Onyx é relevante
A CPMI do INSS foi convocada para mapear e responsabilizar as falhas que resultaram em descontos indevidos e suspeitas de esquemas envolvendo benefícios previdenciários. Em uma de suas primeiras decisões a comissão determinou a oitiva de todos os ex-ministros da Previdência e ex-diretores do INSS desde 2015 — e, por isso, o depoimento de Onyx Lorenzoni, que chefiou a pasta entre julho de 2021 e março de 2022, ganhou contornos centrais para a investigação.
Para membros da comissão, a presença do ex-ministro é peça necessária para reconstruir decisões administrativas e trajetórias de responsabilidade. Para senadores como Leila Barros (PDT-DF), ouvi-lo é condição para “alcançar um diagnóstico preciso” e para, ao final, formular propostas que minimizem danos aos aposentados e pensionistas. Já para críticos e opositores, há a pista de que doações e relações políticas — citadas em reportagens — merecem ser confrontadas com depoimentos em juízo político.
A cena que fica
O episódio do desenho não será apenas mais um fragmento de sessão; é um registro simbólico. Em uma casa que cultiva ritos e formalidades, o papel com a serpente virou documento de acusação visual — e memória pública. Para além do humor que o gesto exigiu de alguns presentes, fica a pergunta que o símbolo sintetiza: quando as instituições se repetem em suas falhas, seremos capazes de interromper o circuito antes que se consuma por completo?
Zeca Dirceu trouxe a imagem, Onyx devolveu a honra declarada — e a CPMI prossegue, com o ruído das agendas públicas e o peso das histórias que ainda serão contadas pelos números, pelos papéis e pelas testemunhas que faltam ser ouvidas.


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