Apagões recorrentes após temporais reacendem debate sobre a venda da estatal e fortalecem mobilização popular para devolver a empresa ao controle público no Paraná
A cada tempestade mais intensa, o Paraná revive um enredo que já se tornou dolorosamente previsível. O vento sopra mais forte, a chuva aperta — e, pouco depois, bairros inteiros mergulham na escuridão. Após o temporal registrado nesta semana, cerca de 50 mil imóveis permanecem sem energia elétrica em diferentes regiões do estado. Para milhares de famílias, não se trata de um evento isolado, mas de uma rotina que se repete toda vez que chove.
No centro desse cenário está a Copel, empresa que durante décadas foi referência nacional em eficiência técnica, planejamento e presença do Estado onde o mercado nunca enxergou lucro. Desde a privatização, porém, cresce entre trabalhadores do setor, especialistas e movimentos sociais a percepção de que o negócio foi altamente vantajoso para poucos — e profundamente prejudicial para a maioria da população paranaense.
Um excelente negócio para poucos, um prejuízo coletivo
A venda da Copel passou a ser citada como exemplo de uma privatização que transferiu um patrimônio estratégico do povo paranaense para o mercado sem assegurar, na prática, melhoria na qualidade do serviço. O que se seguiu foi um processo marcado por demissão de quadros técnicos experientes, terceirização de atividades essenciais e uma gestão cada vez mais orientada por metas financeiras de curto prazo.
O impacto dessa lógica aparece com clareza nos momentos de crise. A resposta a eventos climáticos extremos tornou-se mais lenta, menos estruturada e distante da realidade das comunidades atingidas. Quando a luz falta, faltam também água, comunicação, segurança e tranquilidade. O prejuízo não é apenas material — é humano.
Clima extremo exige planejamento, não improviso
As mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção futura e já moldam o presente. Tempestades severas, ventos intensos, chuvas concentradas, ciclones extratropicais e até tornados exigem investimentos contínuos, equipes técnicas robustas e planejamento de longo prazo. São atributos historicamente associados a empresas públicas comprometidas com o interesse coletivo — e frequentemente sacrificados quando a lógica dominante passa a ser a maximização do lucro.
Energia elétrica não é um produto qualquer. É um serviço essencial, diretamente ligado à saúde, à segurança, ao trabalho e à dignidade das pessoas. Cada apagão expõe não apenas fios rompidos, postes e torres derrubadas, mas um modelo que se mostra incapaz de proteger a população em momentos críticos.
Reestatização volta ao centro do debate no Paraná
Diante desse cenário, movimentos populares, sindicatos e partidos políticos lançaram uma campanha pela reestatização da Copel. A mobilização prevê a coleta de milhares de assinaturas para viabilizar um projeto de lei de iniciativa popular, com o objetivo de devolver a empresa ao controle público e restabelecer seu compromisso histórico com o atendimento universal e de qualidade.
Mandatos parlamentares já declararam apoio à iniciativa, defendendo que a reestatização não representa retrocesso, mas sim uma resposta concreta às falhas evidentes do modelo atual. A palavra de ordem é clara: energia como direito, não como mercadoria.
A Frente Contra a Privatização da Copel já iniciou sua campanha para a coleta de assinaturas que vai apresentar este ano um Projeto de Lei Popular (PLP) na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) — para quem quiser participar, as inscrições estão abertas através de formulário no Google Docs.
Alerta que vem de São Paulo
O debate no Paraná ganha ainda mais peso diante do que ocorre em São Paulo. Após sucessivas falhas no fornecimento de energia na capital e na região metropolitana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que órgãos do governo federal adotem “medidas cabíveis e necessárias à plena garantia da prestação adequada, contínua e eficiente do serviço público de distribuição de energia elétrica”.
O despacho, publicado no Diário Oficial da União, é direcionado ao Ministério de Minas e Energia, à Advocacia-Geral da União (AGU), à Controladoria-Geral da União (CGU) e à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), com base nas falhas recorrentes da concessionária Enel SP, responsável pelo serviço na capital paulista.
Lula determinou que a AGU elabore um relatório circunstanciado sobre as providências adotadas pela empresa desde a primeira interrupção relevante, utilizando todas as medidas judiciais e extrajudiciais necessárias. À CGU, cabe identificar eventuais responsabilidades dos entes envolvidos e apurar a ausência de atuação tempestiva dos órgãos reguladores.
O recado é direto: serviços públicos essenciais não podem falhar repetidamente sem consequências.
Uma decisão que define o futuro
No Paraná, a discussão sobre a Copel vai muito além da gestão empresarial. Trata-se de escolher que modelo de desenvolvimento o estado pretende seguir em um cenário de crise climática, desigualdade social e necessidade urgente de infraestrutura resiliente.
A cada novo apagão, a pergunta ecoa com mais força: quem deve controlar a energia que move casas, hospitais, escolas e cidades? Para um número crescente de paranaenses, a resposta passa pela reestatização da Copel — não como bandeira ideológica, mas como instrumento concreto de proteção social, planejamento estratégico e soberania energética.
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