Quando a água canta, o país respira — Itaipu reafirma no Senado seu papel central na redução tarifária, na segurança do sistema nacional e na transição para energias renováveis
Por Ronald Stresser – 03 de novembro de 2025
Entre a força das águas caldalisas do Rio Paraná e a engenharia que domesticou a força das águas, Itaipu reaparece não só como uma maravilha física — a “pedra que canta” do tupi-guarani —, mas como um ator decisivo na vida diária de milhões de famílias brasileiras. Não se trata apenas de megawatts; trata-se de energia que custa menos no bolso do consumidor e que carrega, ao mesmo tempo, a promessa e a prática de um futuro de baixa emissão. Esta é a narrativa que emergiu da audiência na Comissão de Infraestrutura do Senado, onde o diretor financeiro da Itaipu Binacional, André Pepitone, explicou como a quitação da dívida de construção em 2023 devolveu ao país uma usina mais leve — e mais justa — para o presente.
Redução que traduz alívio
Os números são técnicos, mas o efeito é humano: a tarifa de repasse da energia de Itaipu recuou de uma média de US$ 27,86/kW.mês (até 2022) para US$ 17,66/kW.mês no ciclo 2024–2026 — uma redução de 36,6% aprovada em acordo binacional. No campo do mercado regulado, a Aneel homologou o custo médio da energia de Itaipu para a distribuidora CPFL Piratininga em R$ 221,30/MWh, valor inferior ao das usinas cotistas previstas pela Lei nº 12.783/2013 e cerca de 28% abaixo do ACR médio vigente. Esses dados não são abstrações: significam contas de luz mais leves para lares, indústrias e serviços nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Segurança, diálogo e equilíbrio
Pepitone alertou para os riscos de impor tetos artificiais abaixo do custo real do serviço — algo que poderia gerar déficit operacional à ENBPar (responsável pela comercialização da energia de Itaipu no Brasil) e repercussões que variariam entre a regulação tarifária pela Aneel, impacto no Tesouro Nacional ou revisão bilateral dos contratos. A usina, por natureza binacional, exige consenso: não é “ou” do Brasil nem do Paraguai, é “e” — um exercício contínuo de diplomacia e técnica para garantir que sua energia chegue ao consumidor sem perder sustentabilidade ou equidade.
Itaipu como modelo de transição
Erguida entre 1975 e 1984 a partir do Tratado de 1973, Itaipu mantém 20 unidades geradoras de 700 MW cada, com 14 GW de capacidade instalada — e uma trajetória que combina potência técnica com sensibilidade ambiental. Além de abastecer o Sistema Interligado Nacional e aportar segurança operativa nas horas de maior demanda do Sudeste, a usina também desenvolve projetos de inovação em renováveis e ações socioambientais que conectam energia, educação e saúde territorial. É esse protagonismo que a colocará no centro das conversas da COP30, em Belém, onde se discutirão pistas concretas para crescimento com baixas emissões.
Atualização — o que Itaipu fez nesta última semana no interior do Paraná e do Mato Grosso do Sul
Na última semana, Itaipu intensificou ações nas regiões do Paraná e do sul do Mato Grosso do Sul que reforçam seu papel além das turbinas: a empresa anunciou um pacote de investimentos e convênios em educação e pesquisa — mais de R$ 136 milhões destinados ao fortalecimento de cursos superiores, formação técnica e projetos de energias renováveis, abrangendo centenas de municípios e beneficiando milhares de estudantes e professores. Também apoiou inaugurações e obras de infraestrutura voltadas à COP30, como a revitalização do Porto de Outeiro, e ampliou programas socioambientais de gestão de resíduos (Programa Coleta Mais), estendendo o atendimento a dezenas de novos municípios do Paraná e aumentando a renda de catadores. Essas iniciativas vieram à tona durante a Caravana Federativa em Foz do Iguaçu e nas ações desta semana que ligam investimentos, formação e sustentabilidade territorial.
Impacto prático: do gerador ao chão das cidades
O que parece distante — a rotina de manutenção de uma turbina, a negociação de uma tarifa — tem efeito direto em mercados, empregos e oportunidades locais. Programas de formação, convênios com universidades e editais de extensão fortalecem cadeias produtivas locais, criam alternativas de renda e ajudam a disseminar tecnologias limpas. O turismo no complexo Itaipu também vem em alta, reforçando vínculos entre economia, cultura e proteção ambiental.
O desafio do preço justo
Em cena no Senado, o debate sobre o Projeto de Lei nº 1.830/2025 — que propõe limitar o preço da energia de Itaipu — não é apenas uma discussão contábil: é um debate sobre equilíbrio. Reduzir preços ao ponto de inviabilizar a cobertura dos custos de operação pode transferir o problema para o contribuinte ou provocar rupturas contratuais com o Paraguai. A saída que Itaipu propõe — e que Pepitone defendeu — é a transparência e a busca por consensos bilaterais, amparados por regras que preservem a viabilidade operacional e a modicidade tarifária.
Por que isso importa para a COP30
A COP30 promete ser mais do que cúpulas: será palco de projetos aplicáveis. Itaipu leva para Belém um portfólio que combina redução tarifária, segurança de sistema e iniciativas de energia renovável e socioambiental. Ao mostrar que é possível reduzir custos e manter compromisso ambiental, a usina contribui para uma narrativa que interessa — e muito — aos países que buscam exemplos replicáveis de descarbonização com justiça social.
Legado e futuro
Se a usina fosse uma pessoa, teria a marca de quem aprendeu a dividir: divide energia, conhecimento, infraestrutura e esperança. A modernização tecnológica em curso e os investimentos em pesquisa e formação sinalizam que Itaipu não quer apenas ser lembrada pelo passado monumental — quer continuar sendo referência. E, quando uma usina binacional fala em consenso, é a demonstração de que a transição energética também pede política bem feita.


Nenhum comentário:
Postar um comentário