Terminal portuário privatizado é um dos alvos de operação contra o PCC em Paranaguá
Por Ronald Stresser — Sulpost
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| O terminal PAR50, alvo das investigações, foi arrematado em 2023 e despertou promessas milionárias de investimento — Arquivo/Portos do Paraná |
Quando o vento do mar sopra sobre Paranaguá, ele carrega também a memória de um porto que sempre foi porta de entrada e saída do país — de alimentos, bens, empregos e, agora, de suspeitas que apertam o pescoço da cidade. O centro das atenções é o terminal PAR50, concedido à iniciativa privada em 2023, que reaparece neste ano no epicentro de uma investigação que junta Receita Federal, Polícia Federal e o Ministério Público: a chamada Operação Carbono Oculto.
Como um terminal virou linha de investigação
A operação, montada para desatar uma teia de fraudes no setor de combustíveis, descobriu — segundo as autoridades — rotas por onde o metanol, produto proibido em grandes proporções na gasolina, entrava no país e migrava para postos com destino final fraudulento. Parte desse fluxo teria passado pelo Porto de Paranaguá, com o PAR50 identificado como um dos pontos por onde o produto teria ingressado com documentação que ocultava sua real destinação.
O leilão, os proprietários e as promessas
O PAR50 foi arrematado em um leilão em 2023 por R$ 1 milhão, pela FTS Group — um lance que trouxe a área de volta ao circuito de investimentos com a promessa de centenas de milhões em obras e expansão. Desde então, nomes e estruturas empresariais passaram pela administração do terminal; hoje, a Liquipar (e fundos relacionados) figura entre as controladoras que prometeram transformar o local em polo de movimentação de líquidos. 3
O impacto que não cabe nos papéis
Para quem vive da pesca, do porto, das docas ou das lojas próximas, a notícia das investigações é mais que manchete: é incerteza sobre empregos, é medo de ver promessas de modernização virarem sinônimo de escândalo. As autoridades afirmam que, nas apurações, foram encontradas evidências de complexa engenharia financeira — estruturas de fundos, empresas de fachada e movimentações que teriam lavado recursos e alimentado uma cadeia que, conforme a investigação, chegou a postos e distribuidoras. Auditores da Receita identificaram irregularidades em centenas de estabelecimentos, apontando um padrão que não cabe apenas em relatórios.
O que dizem as empresas e o que as autoridades investigam
Em notas públicas, a Liquipar e empresas ligadas ao arrendamento têm reafirmado que o terminal passou por processos de regularização, que sua operação técnica tem regras e que investimentos foram anunciados para aumentar a capacidade. Ao mesmo tempo, a Receita e a PF trabalham para mapear se haveria utilização do terminal e de documentos de importação para dar cobertura a cargas cuja destinação final não correspondia à declaração fiscal. Essas são as linhas que os investigadores tentam costurar: da carta de intenções aos caminhões que seguiram para postos distantes.
Por que Paranaguá importa para essa história
Paranaguá não é apenas um espaço logístico: é uma cidade onde decisões tomadas em salas de leilão se traduzem, meses depois, em empregos, ruídos de máquina e filas na praça. A possível infiltração de organizações criminosas no setor de combustíveis, conforme apontado nas operações desta semana, revela uma face que corrói a economia formal e fragiliza o trabalho honesto de milhares. O Porto, por seu papel estratégico, torna-se um ponto sensível: tudo o que passa por ali reverbera pela cadeia produtiva nacional.
O que a investigação pode mudar
Se as acusações se confirmarem, o resultado vai além de bloqueios de bens ou processos: haverá políticas de controle mais rígidas, novas exigências de rastreabilidade e talvez uma revisão das concessões, contratos e da fiscalização nos portos. E, sobretudo, restará à população local a tarefa de transformar decepção em cobrança — por transparência, por respostas, por justiça.


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