Em ato do MST, presidente critica proposta dos EUA, denuncia avanço do unilateralismo e reafirma que o Brasil não aceitará tutela internacional nem o retorno a uma lógica colonial
Salvador amanheceu quente, carregada de símbolos e história, nesta sexta-feira (23). No encerramento do 14.º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palco não apenas para celebrar os 42 anos do movimento, mas para fazer um dos discursos mais contundentes desde o início de seu terceiro mandato. O alerta foi direto: o mundo vive um momento crítico, em que o multilateralismo está sendo atropelado pela lógica da força.
“Está prevalecendo a lei do mais forte. A carta da ONU está sendo rasgada”, afirmou Lula, sob aplausos de milhares de trabalhadores e trabalhadoras sem terra. O alvo principal foi a proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criar um chamado Conselho da Paz, iniciativa que, na avaliação do presidente brasileiro, ameaça esvaziar a Organização das Nações Unidas (ONU) e concentrar poder em uma única liderança.
“Em vez de corrigir a ONU, que é o que a gente reivindica desde 2003 — com a reforma do Conselho de Segurança e a entrada de novos países como o Brasil, o México e nações africanas — o que está acontecendo é o presidente Trump querendo criar uma nova ONU, em que ele sozinho é o dono”, disparou, sob aplausos.
O convite ao Brasil e a "recusa política"
O discurso ganhou ainda mais peso porque o Brasil foi oficialmente convidado a integrar o Conselho da Paz, que teria como uma de suas primeiras atribuições supervisionar um Comitê Nacional para a Administração de Gaza. Lula confirmou o convite, mas deixou claro que a proposta não dialoga com os princípios históricos da diplomacia brasileira.
Para o presidente, aceitar um organismo criado fora das regras do sistema internacional, comandado por uma única potência e sem legitimidade multilateral, significaria abrir mão da soberania política construída ao longo de décadas.
“O Brasil não tem preferência por este ou aquele país. A gente conversa com os Estados Unidos, com Cuba, com a Rússia, com a China. Mas não vamos aceitar voltar a ser colônia para alguém mandar na gente”, afirmou o presidente Lula.
Articulação global contra a política da força
Lula revelou que tem telefonado pessoalmente para líderes mundiais em busca de uma articulação internacional capaz de conter o possível colapso do multilateralismo — que se vê ameaçado pelo unilateralismo estadunidense. Entre eles, o presidente da China, Xi Jinping; o presidente da Rússia, Vladimir Putin; o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi; e a presidenta do México, Claudia Sheinbaum.
“Estou conversando para encontrar uma forma de a gente se reunir e não permitir que o multilateralismo seja jogado no chão e que predomine a força da arma, da intolerância, de qualquer país do mundo”, disse Lula.
Venezuela, soberania e indignação
O tom do discurso se elevou ainda mais quando Lula abordou a recente ação dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada e primeira-dama Cilia Flores. Visivelmente indignado, o presidente classificou o episódio como uma violação grave da soberania de um país sul-americano.
“Eu fico toda noite indignado com o que aconteceu na Venezuela. Como é possível a falta de respeito à integridade territorial de um país? Isso não existe na América do Sul. A América do Sul é um território de paz. A gente não tem bomba atômica.”
Guerra de narrativas, não de armas
Lula também rejeitou qualquer escalada bélica e reforçou que sua aposta política é o diálogo. Disse não querer guerra com ninguém — nem com os Estados Unidos, nem com a Rússia, nem com países vizinhos.
“Quero fazer guerra com o poder do convencimento, com argumento, com narrativa, mostrando que a democracia é imbatível. A gente não quer se impor aos outros, mas compartilhar aquilo que a gente tem de bom”, declarou. “Não queremos mais Guerra Fria, não queremos mais Gaza.”
O MST e o recado político
O 14.º Encontro Nacional do MST reuniu mais de 3 mil trabalhadores e trabalhadoras de todo o Brasil ao longo de cinco dias. Os debates passaram por reforma agrária, produção de alimentos saudáveis, agroecologia, agricultura familiar e os desafios da conjuntura política atual.
Ao final, o movimento entregou ao presidente uma carta política que critica o avanço do imperialismo, denuncia a invasão da Venezuela e alerta para o saque de bens comuns da natureza, como petróleo, minérios, terras raras, águas e florestas.
Entre bandeiras vermelhas, palavras de ordem e memória histórica, o recado que saiu de Salvador foi direto ao mundo: o Brasil não aceita a política do mais forte, não abre mão da soberania e seguirá defendendo a paz — não como discurso vazio, mas como projeto civilizatório.
O MST no Brasil está se tornando na verdade uma grande cooperativa de agricultura familiar e agroecologia, pois a reforma agrária avança a passos largos. Os tempos das invasões e guerras no campo já se torna coisa do passado em nosso país que avança a passos largos.


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