Fenômeno recorrente na Praia Brava expõe fragilidades do projeto de R$ 354,4 milhões do Governo do Paraná, agora sob os holofotes nacionais após reportagem no Jornal Hoje
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| O gigantesco degrau que apareceu novamente na Praia de Matinhos na manhã de hoje (20/01) - RPC/Reprodução |
Não é mais apenas Matinhos. Não é só o litoral e o estado do Paraná. Agora, o Brasil inteiro está assistindo.
O avanço do mar sobre a faixa de areia recém-engordada da Praia Brava de Matinhos, registrado novamente entre a noite de ontem e a madrugada desta terça-feira (20), ganhou repercussão nacional ao ser exibido no Jornal da Hoje, da Rede Globo — o telejornal de maior audiência do país, que diariamente pauta o debate público brasileiro (veja o vídeo mais abaixo).
As imagens são claras, quase didáticas: a areia colocada com recursos públicos some diante das ressacas, formando um paredão íngreme justamente na área onde está montado o palco principal do Verão Maior Paraná, vitrine turística e política do Governo do Estado.
Máquinas voltaram a operar às pressas. O objetivo imediato é conhecido: refazer o espaço, garantir segurança e não interromper os shows programados. O problema é mais profundo — e estrutural.
Quando o mar faz o que sempre fez
O paredão de areia que voltou a se formar não é um acidente, tampouco surpresa para quem conhece o comportamento da Praia Brava de Matinhos.
Trata-se de um processo natural de erosão marinha, intensificado por ressacas — combinação de ventos fortes, ondas elevadas e maré alta — que avançam sobre a orla e removem rapidamente a areia mais solta e recente.
Esse efeito torna-se ainda mais intenso após obras de engorda da praia. A nova faixa de areia, mais larga e artificialmente depositada, fica naturalmente mais vulnerável à ação do mar. O resultado é recorrente: degraus abruptos, desníveis perigosos e a necessidade constante de reposição manual ou mecânica do sedimento.
Não é a primeira vez. Não será a última.
Obra milionária engolida em silêncio
O que chama atenção — e agora choca o país — é o custo desse ciclo repetitivo.
O Projeto de Recuperação da Orla de Matinhos soma R$ 354,4 milhões em investimentos públicos, já considerando aditivos, atualizações de custo e adequações no projeto. É dinheiro do contribuinte paranaense.
E é justamente esse dinheiro que, aos olhos de moradores, turistas e agora de milhões de brasileiros, parece estar sendo literalmente levado pelo mar. O valor da obra, não engloba o que está sendo gasto na reposição e reassentamento da faixa de areia, que diminuí a cada dia, sob os olhos atônitos da população.
Em janeiro, uma situação semelhante já havia exigido a realocação de milhares de metros cúbicos de areia. Em outros episódios, sacos de contenção, tratores e caminhões foram mobilizados para “corrigir” o que a natureza desfez em poucas horas.
A pergunta que ecoa na orla e fora dela é simples e incômoda: quantas vezes será preciso refazer a mesma praia?
Festa garantida, debate adiado
O Verão Maior Paraná segue como prioridade absoluta. Os shows continuam. As estruturas permanecem. O discurso oficial enfatiza turismo, economia e visibilidade. Teremos eleições ainda este ano, e, pelo visto, o show não pode parar.
Mas o episódio escancara uma fragilidade difícil de ignorar: o projeto não parece ter considerado com a seriedade necessária às tradicionais marés altas e ressacas da Praia Brava de Matinhos, conhecidas há décadas por pescadores, surfistas, moradores e estudiosos do litoral paranaense.
A engenharia tentou impor uma nova geografia ao mar. O mar respondeu como sempre responde, com o estrindo das ondas quebrando na praia.
A praia mais vigiada do Brasil
Ao entrar no JH, a engorda de Matinhos deixou de ser apenas uma pauta regional. Tornou-se símbolo de um debate maior: planejamento público, responsabilidade ambiental e uso do dinheiro do povo.
Enquanto as máquinas seguem trabalhando para recompor a faixa de areia e garantir a segurança dos próximos eventos, fica o alerta que a maré insiste em repetir: não existe obra pública que possa ignorar a natureza sem pagar um preço — e esse preço, quase sempre, cai no colo da população.
Em Matinhos, o mar segue fazendo o que sempre fez. Resta saber até quando o Paraná — e agora o Brasil — continuará assistindo passivamente a mais este desperdício de trabalho e dinheiro enquanto tem muita gente passando necessidade por aí. Fato é que o Oceano Atlântico se tornou a caneta emagrecedora da engorda da Praia de Matinhos.
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