Megaoperação deflagrada no Rio de Janeiro, nesta terça (28) mobilizou cerca de 2.500 agentes, deixou oficialmente 64 mortos — entre eles quatro policiais — e terminou com a retomada de pontos das comunidades. O custo humano, contudo, permanece incerto
Por Ronald Stresser — 28 de outubro de 2025 — Atualizado às 15h24
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| Megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha. Reprodução/TV Globo |
O Rio de Janeiro amanheceu em guerra. O que o governo do estado chama de “a maior operação de segurança da história” deixou um rastro de 64 mortos — entre eles quatro policiais — e uma ferida aberta na alma de uma cidade acostumada a sobreviver entre sirenes, helicópteros e o som seco dos disparos que atravessam o morro e o asfalto.
Foram mais de 2.500 policiais mobilizados, dezenas de viaturas, caveirões, drones e fuzis em profusão. O alvo: o Complexo do Alemão e o Complexo da Penha, territórios há muito disputados entre facções e forças de segurança. A justificativa oficial: desmontar o poder do Comando Vermelho, retomar pontos estratégicos, “reconquistar o território”.
Mas o que se viu foi mais do que uma operação. Foi um confronto de guerra em plena cidade — com barricadas, explosões, escolas fechadas e famílias escondidas dentro de casa. Até o momento, o balanço oficial confirma 60 mortos classificados como criminosos e quatro agentes de segurança — dois da Polícia Civil e dois do BOPE.
Ainda não se sabe quantos civis inocentes perderam a vida. A Secretaria de Segurança promete apuração, mas nas vielas do Alemão e da Penha a contabilidade do medo não espera por relatórios: são casas atingidas, comércios destruídos, o cotidiano em ruínas.
Vitória que sangra
A operação, planejada há mais de dois meses, foi apresentada como um “golpe cirúrgico” contra o crime organizado. Mas as imagens que circulam nas redes sociais e o relato dos repórteres que conseguiram chegar aos pontos de conflito mostram algo diferente: destruição em larga escala e uma força bruta que desafia os limites do que se chama de política pública.
O estado comemora a apreensão de 75 fuzis e a prisão de 81 suspeitos. No entanto, a pergunta que se impõe — e ecoa pelas ruas — é se a vitória militar justifica a tragédia humana. Quantas vidas serão necessárias até que a inteligência substitua a violência como estratégia?
Cidade sitiada
O Rio de Janeiro, mais uma vez, acorda dividido. De um lado, o discurso da “retomada do controle”. De outro, o silêncio das comunidades que viram a força do Estado se transformar em uma tempestade de fogo. Nas redes, vídeos mostram blindados subindo ladeiras, helicópteros cruzando o céu, tiros ecoando entre prédios residenciais.
Autoridades afirmam que o plano foi um sucesso. Mas o sucesso medido pelo número de mortos é o retrato de um país que insiste em travar uma guerra antiga, que não se vence com fuzis, mas com política, presença social e oportunidades.
E agora, o que virá?
O governo fluminense garante que a operação não terminou e que novas ações podem ser deflagradas nos próximos dias. O temor é que as facções reorganizem suas forças e partam para represálias. O Rio, já tenso, parece estar à beira de um novo ciclo de violência.
Entre as perguntas que o episódio deixa estão duas: o estado está preparado para conter uma reação do crime organizado? E até quando o país seguirá apostando na força, quando o problema que alimenta o tráfico é, antes de tudo, social?
O episódio também reacende um debate que há anos divide especialistas, políticos e a sociedade: a legalização das drogas. Se o combate armado nunca cessou o poder do narcotráfico, talvez seja hora de o Brasil encarar com seriedade o que muitos países já discutem há décadas — uma política de drogas baseada em saúde pública, e não em extermínio.
Um estado cansado de sepultamentos
Em cada esquina do Rio há uma história interrompida. E enquanto o Estado e o crime disputam o mesmo território, quem paga a conta continua sendo o cidadão comum — o trabalhador, o estudante, a mãe que só queria atravessar a rua.
Hoje, o Rio de Janeiro volta a espelhar um país que insiste em lutar contra si mesmo. Um estado e uma nação que precisam, urgentemente, escolher se quer viver em paz ou continuar repetindo a tragédia como política de segurança. A sociedade como um todo precisa debate urgente sobre a questão da discriminação e legalização das drogas. A droga ilegal é a velha história: o uisque do Al Capone. Países vizinhos, como o Uruguai, por exemplo, encontraram um caminho do meio, qual será o nosso?
nalismo independente


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