terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Nelsão da Força revela no rádio a vida dura dos trabalhadores da RMC

Em entrevista ao programa Alô Paraná, vice-presidente do SMC expõe denúncias, defende direitos e revela a rotina dura dos metalúrgicos da Grande Curitiba

Há vozes que não se moldam ao conforto dos estúdios nem ao silêncio dos gabinetes. Elas nascem no ruído da fábrica, no apito da madrugada, no ônibus lotado que corta a Região Metropolitana de Curitiba antes do sol nascer. Foi essa voz que ecoou recentemente nas ondas da Rádio Paraná, quando o líder sindical Nelson Silva, o Nelsão da Força, vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC), foi entrevistado pelo radialista Alexandre Domingues no programa Alô Paraná.

Não foi uma entrevista protocolar. Foi um retrato cru da realidade do trabalho no Paraná — contado por quem viveu, e ainda vive, o chão de fábrica.

Da infância simples à liderança sindical

Nascido no interior do Paraná e criado em bairros populares de Curitiba, Nelsão não fala sobre trabalhadores: ele fala como trabalhador. Entrou na Volvo ainda adolescente, começou como auxiliar de limpeza e construiu ali uma trajetória de mais de quatro décadas, hoje aposentado formalmente, mas licenciado para seguir na luta sindical.

Ao longo da entrevista, ele costura sua história pessoal com a trajetória do movimento sindical, lembrando que sua formação política não veio apenas do sindicato, mas também da associação de moradores, da igreja e do trabalho comunitário. “Representar o povo sempre foi o que me moveu”, afirma, ao lembrar episódios que revelam um traço constante: não se intimidar diante de autoridades, sejam elas empresariais, religiosas ou estatais.

Denúncias que atravessam os muros das fábricas

Nos últimos meses, o nome de Nelsão tem aparecido com frequência em entrevistas, matérias e reportagens por um motivo central: as denúncias de práticas antissindicais e de precarização do trabalho.

No Alô Paraná, ele detalhou situações que, segundo afirma, tornaram-se rotina em algumas empresas da região: trabalhadores filmados em assembleias, demissões após participação sindical, pressão psicológica, uso da polícia para intimidar protestos e tentativas de impor acordos sem negociação legítima.

“Democracia não é isso”, resume, ao criticar empresas que tentam negociar apenas via entidades patronais, ignorando a vontade expressa dos trabalhadores. Para ele, a presença do sindicato não é obstáculo, mas garantia de equilíbrio numa relação historicamente desigual entre capital e trabalho.

Sindicato como ferramenta de proteção

Um dos pontos mais fortes da entrevista foi a defesa de um sindicalismo atualizado, capaz de dialogar com a realidade contemporânea. Nelsão citou sistemas de votação online reconhecidos pelo Ministério Público, negociações inteligentes de PLR e PPR, uso do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) e a luta por jornadas de 40 horas semanais.

Ele também chamou atenção para um tema sensível e pouco debatido: o tempo de deslocamento. Para milhares de trabalhadores que saem de cidades como Campo Largo, Colombo ou São José dos Pinhais, o trajeto até o trabalho pode ultrapassar quatro horas diárias. “Que qualidade de vida é essa?”, questiona.

Salário, custo de vida e dignidade

Segundo o sindicalista, a média salarial de um trabalhador metalúrgico gira em torno de R$ 3 mil — valor que, diante do custo de transporte, alimentação, saúde e moradia, mal sustenta uma família. “Carteira assinada hoje é tudo”, reforça, alertando para os riscos da pejotização e do trabalho sem proteção social.

Na entrevista, Nelsão também criticou empresas que recebem subsídios públicos, mas não garantem condições dignas aos trabalhadores. Para ele, qualquer incentivo estatal deveria estar condicionado ao respeito aos direitos trabalhistas, à inexistência de assédio e à valorização da mão de obra.

Política, eleições e representação real

Ao final da conversa, o líder sindical ampliou o debate para o campo político. Defendeu abertamente o presidente Lula, mas fez um alerta direto: eleger um governo comprometido com o social não basta sem um Congresso e um Senado alinhados aos interesses do povo trabalhador.

Sem rodeios, Nelsão criticou parlamentares que, segundo ele, atuam apenas em função de emendas e interesses privados. “O trabalhador precisa prestar atenção em quem escolhe para representá-lo”, afirmou, lembrando que sindicatos existem para defender direitos — não igrejas, empresários ou corporações.

Uma entrevista documental

A participação de Nelsão da Força no Alô Paraná não foi apenas mais uma entrevista de rádio. Foi um registro vivo das tensões, desafios e esperanças do universo do trabalho no Paraná.

Num estado que concentra grandes indústrias, mas também profundas desigualdades, sua fala ecoa como um lembrete incômodo: desenvolvimento sem justiça social cobra um preço alto — pago sempre pelos mesmos.

Enquanto houver trabalhador acordando às três da manhã para chegar às seis no turno, enquanto houver medo de levantar a mão numa assembleia, vozes como a de Nelsão continuarão fortes e necessárias. E, goste-se ou não do tom, elas seguem cumprindo um papel essencial: lembrar que direitos não caem do céu — são conquistados, todos os dias e pelos próprios trabalhadores, não no silêncio sepulcral das repartições públicas ou dos suntuosos escritórios corporativos.

Assista à entrevista

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