Há três dias em isolamento controlado, astronautas vivem o intervalo mais delicado da missão que após mais de meio século vai marcar o retorno humano à barreira do espaço profundo
| A tripulação da Artemis II diante de um simulador Orion 23,Jan.23, 2026 no Johnson Space Center, em Houston - NASA/Robert Markowitz |
Antes do rugido dos poderosos motores e antes da luz cortar o céu da Flórida até sumir no horizonte, existe um tempo suspenso. Um tempo em que o mundo precisa ficar à distância para que a história possa avançar. É exatamente nesse ponto que a missão Artemis II se encontra agora.
Desde o fim da última sexta-feira, os quatro astronautas que irão circunavegar a Lua — Reid Wiseman, Victor Glover e Christina Koch, da NASA, além do canadense Jeremy Hansen, da Agência Espacial Canadense (CSA) — estão oficialmente em quarentena preventiva. O isolamento, conhecido como Programa de Estabilização de Saúde, já dura três dias e representa uma das etapas mais sensíveis do cronograma.
O objetivo é claro: impedir que qualquer infecção, por menor que seja, coloque em risco uma missão que carrega não apenas tecnologia de ponta e que custou bilhões de dólares, mas principalmente o simbolismo do retorno humano ao espaço profundo, dessa vez levando a bordo as duas primeiras mulheres que vão orbitar a Lua. Desde o fim do programa Apollo, em 1972, o ser humano não voltava à orbita do nosso satélite natural.
Quarentena não é isolamento absoluto
Diferente do que muitos imaginam, a quarentena da Artemis II não significa confinamento total. Os astronautas seguem em Houston, mantendo contato com familiares, amigos e colegas — desde que todos respeitem protocolos rigorosos. Máscaras, distanciamento físico e a exclusão de ambientes públicos fazem parte da rotina.
Ao mesmo tempo, o treinamento continua. Simulações de missão, checagens médicas e atividades finais seguem acontecendo normalmente. É um equilíbrio delicado entre preservar a saúde e manter o corpo e a mente prontos para uma viagem insólita de aproximadamente dez dias ao redor da Lua, a bordo do maior e mais avançado foguete já fabricado neste início de milênio.
Tradicionalmente, o protocolo de isolamento social começa 14 dias antes do lançamento. Desta vez, porém, a NASA optou por antecipar a quarentena. A decisão não indica atraso, mas estratégia: garantir flexibilidade enquanto os testes finais da missão Artemis II, composta por um foguete SLS e uma astronave Orion, seguem em andamento para que possa ter início a contagem regressiva.
Fevereiro segue no radar, mas sem data oficial
Apesar da expectativa crescente, a NASA ainda não anunciou uma data e horário oficiais para o lançamento da primeira missão lunar deste século com tripulação embarcada. A agência trabalha com janelas potenciais em fevereiro, mas a confirmação depende de etapas críticas, como o wet dress rehearsal — o ensaio geral com abastecimento completo do foguete, o wet test.
Caso os testes avancem conforme o planejado, a tripulação poderá sair temporariamente da quarentena e retomá-la oficialmente 14 dias antes da data final de lançamento. Se tudo correr bem, os astronautas devem seguir para o Centro Espacial Kennedy, na Flórida, cerca de seis dias antes do lançamento.
Lá, eles passarão a viver nos alojamentos de tripulação localizados no edifício Neil A. Armstrong Operations and Checkout, um espaço carregado de memória histórica, onde passado e futuro da exploração espacial se encontram.
Plataforma 39B entra em fase decisiva
Enquanto os astronautas vivem o silêncio controlado da quarentena, o Complexo de Lançamento 39B segue em ritmo intenso. As equipes da NASA já concluíram as verificações dos sistemas elétricos, das linhas criogênicas e dos motores do Space Launch System (SLS), o foguete mais potente e avançado já construído pela humanidade.
A icônica plataforma 39B está em operação desde os anos 60, permanece atual e operante, mostrando como a gigantesca estatal estadunidense cuida de seus equipamentos com o máximo respeito ao dinheiro do contribuinte norte-americano.
No sábado, 24 de janeiro, o perímetro da plataforma começou a ser esvaziado de pessoal não essencial. A medida abre caminho para os trabalhos de manutenção e preparação dos propulsores laterais do SLS, uma etapa crítica para a segurança da missão.
Cada teste finalizado, cada sistema validado, aproxima a Artemis II de um lançamento que carrega expectativas científicas, econômicas e geopolíticas.
O retorno já está sendo ensaiado no Pacífico
Mesmo antes da partida, o fim da jornada já está sendo cuidadosamente preparado. No Oceano Pacífico, equipes da NASA e do Departamento de Defesa dos Estados Unidos realizam uma simulação final de resgate, conhecida como just-in-time training.
Esses profissionais serão responsáveis por recuperar a cápsula Orion e a tripulação após o pouso no mar. Nos dias seguintes ao lançamento, eles começarão a se deslocar para a região prevista do splashdown, garantindo que tudo esteja pronto quando os astronautas voltarem à Terra.
Mais do que uma missão, um marco
A Artemis II será a primeira missão tripulada do programa Artemis. Ao longo de cerca de dez dias, os astronautas orbitarão a Lua, testando sistemas, procedimentos e tecnologias que permitirão missões cada vez mais complexas.
O objetivo vai além da Lua. A missão pavimenta o caminho para uma presença humana lunar sustentável, novas descobertas científicas, oportunidades econômicas e, no horizonte mais distante, abrindo o caminho para as primeiras viagens humanas a Marte.
Por ora, tudo começa no silêncio. Um silêncio necessário, cuidadoso, quase ritualístico. Porque antes de tocar a Lua, é preciso proteger cada detalhe — inclusive o invisível. A NASA conhece muito bem a Lei de Murphy, foi lá na Agência espacial dos Estados Unidos que ela nasceu, e numa missão dessas todo detalhe conta, nada pode dar errado, tudo tem que funcionar em perfeita sintonia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário