Fintechs e grandes bancos aparecem lado a lado em um levantamento que revela como o modelo financeiro brasileiro segue distante do cidadão comum
O Banco Central do Brasil divulgou o mais recente Ranking de Reclamações contra bancos e instituições de pagamento, referente ao 4º trimestre de 2025. O levantamento, que deveria funcionar como um termômetro da qualidade dos serviços financeiros, acaba revelando algo ainda mais profundo: um sistema bancário que cresce, lucra, se digitaliza — mas continua falhando com o consumidor.
O ranking reúne reclamações consideradas procedentes, ou seja, aquelas em que o próprio Banco Central identificou indícios de descumprimento de normas, falhas graves de serviço ou prejuízo direto ao cliente. Não se trata de “reclamação por insatisfação”, mas de problemas reais reconhecidos pelo órgão regulador.
Para tornar a comparação mais justa, o BC utiliza um índice proporcional: número de reclamações procedentes para cada milhão de clientes. Assim, bancos grandes e pequenos, tradicionais ou digitais, entram na mesma régua — e o resultado expõe contradições do modelo financeiro brasileiro.
📊 Ranking de reclamações do Banco Central – 4º trimestre de 2025
Índice de reclamações procedentes por milhão de clientes
- PicPay – 55,52
- C6 Bank – 51,92
- Bradesco – 43,89
- Neon Pagamentos – 39,59
- Inter – 39,23
- Mercado Pago – 38,66
- Itaú – 36,24
- BTG Pactual / Banco Pan – 33,67
- PagSeguro – 32,09
- Santander – 27,29
- Caixa Econômica Federal – 17,23
- Banco do Brasil – 16,22
- 99Pay – 16,00
- Nubank – 12,04
- CloudWalk – 6,43
O dado mais simbólico do ranking é que fintechs e bancos digitais, vendidos ao público como mais ágeis, modernos e próximos do cliente, aparecem nas primeiras posições. PicPay e C6 Bank lideram a lista, mostrando que a digitalização, por si só, não resolveu os velhos problemas do sistema bancário — apenas mudou a interface.
Por outro lado, bancos tradicionais como Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Nubank aparecem com índices mais baixos. Isso não significa ausência de problemas, mas indica que, proporcionalmente, o volume de falhas reconhecidas pelo Banco Central é menor em relação à base de clientes.
O ranking também revela uma contradição estrutural: o setor financeiro brasileiro é um dos mais lucrativos do mundo, mas segue acumulando reclamações por falhas básicas — atendimento precário, dificuldade de resolução de conflitos, bloqueios indevidos, cobranças questionáveis e problemas de segurança.
Segundo a metodologia do Banco Central, as reclamações passam por análise técnica e estatística antes de serem classificadas como procedentes. O objetivo oficial é promover transparência, estimular melhorias e permitir que o consumidor compare instituições. Na prática, o ranking funciona também como um retrato de um sistema que ainda opera muito mais em favor do capital do que do cidadão.
Em um país onde o acesso ao crédito é caro, os juros são abusivos e a bancarização se tornou obrigatória para sobreviver, o ranking do BC deixa claro que o consumidor continua sendo o elo mais frágil da relação. E enquanto os lucros seguem bilionários, as reclamações seguem recorrentes — trimestre após trimestre.
O ranking completo, a metodologia detalhada e os dados oficiais podem ser consultados diretamente no site do Banco Central, na área “Meu BC”.
Reportagem e edição: Ronald Stresser
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