domingo, 4 de janeiro de 2026

Quem vai governar a Venezuela após Maduro?

A captura de Maduro deixa um vácuo de poder, entre a tutela dos EUA e a disputa silenciosa que já ganhou espaço entre civis, militares e interesses obscuros

Ronald Stresser — Sulpost — Curitiba, 04 de janeiro de 2026

Captura de Maduro deixa um vácuo de poder, entre a tutela dos EUA e a disputa silenciosa que já ganhou espaço entre civis, militares e interesses globais

A Venezuela acordou sem presidente — mas não acordou livre. A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, anunciada de modo entusiasmo pelo presidente Donald Trump, não encerra um ciclo histórico. Ao contrário: inaugura um período ainda mais nebuloso, em que soberania, legalidade e poder real já não caminham juntos. Historicamente as tentativas de mudança de regime praticadas pelos Estados Unidos — regime change — costumam não dar certo.

O anúncio, feito em tom triunfal por Washington, foi recebido com perplexidade por boa parte da comunidade internacional. Brasil e China criticaram duramente a ação unilateral, sem autorização do Conselho de Segurança da ONU. Ainda assim, os Estados Unidos deixaram claro: não irão recuar.

O título da agência Reuters resume o momento com frieza cirúrgica: “Maduro Is Out, but it’s unclear who is running Venezuela”. Maduro está fora — mas ninguém sabe quem governa.

A queda de um homem não derruba um regime

Pela Constituição venezuelana, a ausência do presidente abriria caminho para a posse interina da vice-presidente. E foi isso que Trump afirmou: que Delcy Rodríguez teria assumido o cargo e, inclusive, conversado com o secretário de Estado Marco Rubio.

Horas depois, a realidade venezuelana se impôs. Em rede nacional, Delcy surgiu ladeada pelo irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, pelo ministro do Interior Diosdado Cabello e pelo ministro da Defesa Vladimir Padrino López. A mensagem foi direta: Maduro continua sendo o único presidente da Venezuela.

A imagem não foi improvisada. Foi um recado interno e externo: o núcleo duro do poder permanece unido — ao menos por enquanto.

Onde está o poder de verdade

Há mais de uma década, o comando da Venezuela não reside apenas no Palácio de Miraflores. Ele está distribuído em uma engrenagem complexa, sustentada por lealdades militares, controle institucional, vigilância permanente — inclusive da CIA — e interesses econômicos profundos.

De um lado, o eixo civil, representado pelos irmãos Rodríguez. Do outro, o eixo militar, encarnado por Padrino López e, sobretudo, por Diosdado Cabello — apontado por analistas como o personagem mais ideológico, violento e imprevisível do regime, o estado profundo venezuelano.

Cabello exerce influência direta sobre os serviços de inteligência SEBIN e DGCIM, ambos citados pela ONU em relatórios que apontam a prática sistemática de crimes contra a humanidade, incluindo tortura, abusos sexuais e detenções arbitrárias, e, se existe a ligação entre o regime em queda e as narcomilícias, é por aí.

Em recentes aparições públicas, Cabello surgiu armado, cercado por tropas de elite, ordenando perseguições internas e deixando claro que o Estado continua observando tudo e todos. Não se tratava de retórica: era demonstração de força e de resistência à uma tentativa de administração da Venezuela pelos EUA.

Generais, petróleo e economia paralela

A Venezuela possui cerca de 2 mil generais e almirantes, mais que o dobro dos Estados Unidos. Muitos deles controlam setores estratégicos da economia: alimentos, matérias-primas, portos, fronteiras e a estatal petrolífera PDVSA. É um estado que mesmo tendo uma bandeira revolucionária e anti-imperialista acabou se tornando também antidemocrático, militarizado e tirano. Podemos fazer uma analogia com o Brasil, caso bolsonaro tivesse tido sucesso na tentativa de golpe.

Relatórios compartilhados com autoridades internacionais indicam que brigadas militares ocupam regiões-chave não apenas por razões defensivas, mas para controlar rotas de contrabando e fluxos ilícitos. O regime não sobrevive apenas por ideologia — sobrevive por negócios, e, segundo os EUA, ilícitos.

De acordo com especialistas ouvidos pela imprensa estadunidense, remover Maduro foi apenas retirar a face mais visível do sistema. Para desmontá-lo, seria necessário afastar dezenas de oficiais de alto escalão. Sendo que segundo a Reuters, alguns já buscam acordos com Washington. Outros, como Cabello, seguem irredutíveis e se articulam para fazer resistência a uma nova incursão norte-americana.

A oposição ficou fora do tabuleiro

Apesar de amplamente reconhecida como a principal liderança oposicionista, Maria Corina Machado foi descartada por Trump. O presidente norte-americano afirmou publicamente que ela não teria apoio interno — ignorando avaliações internacionais que apontaram fraude na eleição que a impediu de concorrer em 2024.

A mensagem foi inequívoca: os Estados Unidos não pretendem transferir o poder à oposição venezuelana. Pretendem administrar o processo.

“Vamos governar até que a Venezuela esteja pronta”, disse Trump, publicamente, em tom mais que direto. O critério, porém, será definido fora do país.

Afinal, quem será o novo presidente da Venezuela?

A resposta, por ora, é desconfortável: ninguém.

Formalmente, Delcy Rodríguez pode reivindicar o cargo. Na prática, o poder segue fragmentado entre militares, serviços de inteligência, internos e externos, interesses econômicos — e possíveis novos presidentes autoproclamados. Acima de todos eles, paira agora a tutela explícita dos Estados Unidos.

A soberania venezuelana foi violada — fato incontestável. Mas também é fato que o regime que corroeu o país por dentro não desapareceu. Apenas se adaptou, e, mais uma vez quem acaba em vulnerabilidade é a população do país.

A Venezuela vive um interregno histórico. Um país sem comando claro, disputado por forças armadas internas e interesses externos assumidos. E, como a história latino-americana já ensinou tantas vezes, quando o poder deixa de emanar do povo e passa a ser administrado, o preço costuma ser alto — e pago sempre pelos mesmos.

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