Requião denuncia mercantilização do ensino médico e alerta: “não é só faculdade ruim, é a vida do povo brasileiro em risco”
Por Ronald Stresser – Sulpost – 22 de janeiro de 2026
Não é exagero. Não é retórica política. E muito menos disputa ideológica vazia. O que veio à tona com a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) é um alerta direto à sociedade brasileira: estamos formando médicos em instituições que simplesmente não têm condições mínimas de ensinar medicina.
Nesta segunda-feira (19), o Ministério da Educação (MEC) apresentou os dados da primeira edição do Enamed, que avaliou 351 cursos de medicina em todo o país. O resultado é estarrecedor: cerca de 30% desses cursos tiveram desempenho insatisfatório, com menos de 60% dos estudantes considerados proficientes.
Na prática, isso significa que quase um terço das faculdades avaliadas não conseguiu garantir que seus alunos dominassem conhecimentos básicos para o exercício da medicina. E quando falamos de medicina, falamos de diagnósticos, de decisões rápidas, de emergências — falamos de vida ou morte.
Dos cursos avaliados, 99 pertencem ao Sistema Federal de Ensino — que engloba universidades federais e, principalmente, instituições privadas. Esses cursos entrarão agora em um processo de supervisão que pode resultar em redução de vagas, suspensão de financiamentos como o Fies e até fechamento, caso não apresentem melhorias concretas.
As instituições públicas estaduais, municipais e distritais ficam fora desse processo direto, pois são fiscalizadas por conselhos e secretarias locais. Ainda assim, o diagnóstico geral expõe um problema estrutural que vai muito além de uma prova.
Ensino virou negócio — e a conta chega ao paciente
Para o senador Roberto Requião de Mello e Silva (PDT), provável pré-candidato à Presidência da República, o escândalo é consequência direta da transformação da educação em mercadoria.
Em live recente, cuja íntegra será incorporada a esta reportagem, Requião foi direto ao ponto: “ensino não é negócio”. Segundo ele, o Brasil permitiu que faculdades privadas fossem abertas como se fossem bares, lojas ou oficinas, sem compromisso real com a qualidade da formação.
“Criou-se um sistema em que se cobra mensalidade de dez mil reais e não se entrega formação. O resultado são milhares de médicos formados sem preparo adequado, sem residência suficiente, sem vivência hospitalar real. Isso não é apenas um problema educacional. É um problema de saúde pública”, afirmou.
A fala ecoa um sentimento que cresce entre profissionais da saúde, professores universitários e até conselhos médicos: o país expandiu vagas sem expandir qualidade, estrutura e responsabilidade.
Quem perde é o povo brasileiro
O impacto desse modelo atinge diretamente o Sistema Único de Saúde (SUS), as unidades básicas, as UPAs e os hospitais públicos, que já operam sob pressão constante. Médicos mal formados chegam à linha de frente sem a segurança técnica necessária — e quem paga essa conta é a população mais pobre.
Não se trata de demonizar estudantes. Muitos são vítimas de um sistema que prometeu formação de excelência e entregou precariedade. O problema está nas instituições que lucraram com essa promessa e no Estado que, por anos, fechou os olhos.
Como alertou Requião, “não são só faculdades e reputações em jogo. É a vida do povo brasileiro”.
Medidas do MEC e questionamentos
Segundo o MEC, as sanções serão aplicadas de forma escalonada, conforme o risco apresentado por cada curso. As instituições terão 30 dias para apresentar defesa antes que as medidas entrem em vigor. Caso não haja melhora, as punições valerão até a próxima edição do Enamed, prevista para outubro de 2026.
O próprio ministério reconhece que “quanto maior o risco ao interesse público, mais graves serão as medidas adotadas”. Ainda assim, especialistas questionam se a resposta será suficiente diante da dimensão do problema.
Uma escolha de país
O debate exposto pelo Enamed vai além da educação médica. Ele revela uma escolha política e civilizatória: tratar saúde e ensino como direitos ou como mercadorias.
Para o campo progressista, e para vozes como a de Roberto Requião, o caminho passa por fortalecer universidades públicas, investir em hospitais-escola, valorizar professores e interromper a lógica de expansão predatória do ensino privado.
O Brasil precisa de mais médicos, sim. Mas precisa, acima de tudo, de bons médicos. E isso não se constrói com picaretagem.
Faculdades de medicina frias e privadas. CRIME https://t.co/l7aAB8q3Vf
— Roberto Requião (@requiaooficial) January 21, 2026

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