Decisão histórica autoriza cultivo controlado para fins medicinais, amplia formas de uso e reforça um debate urgente que o Brasil insiste em adiar
Por anos, pacientes brasileiros viveram à margem de um sistema que os obrigava a importar, a alto custo, medicamentos à base de cannabis ou recorrer à Justiça para garantir tratamento. Nesta semana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu um passo que muda esse cenário e reposiciona o Brasil no mapa mundi da cannabis medicinal.
Em decisão unânime, a Anvisa ampliou a regulamentação da maconha medicinal, autorizando, pela primeira vez, cultivo de cannabis em território nacional para fins medicinais e científicos, além de expandir as formas de uso, como a fitoterapia, e a possibilidade de manipulação em farmácias. A medida cumpre uma determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e estabelece um marco regulatório mais claro, depois de anos de insegurança jurídica.
Na prática, trata-se de um avanço que atende a uma demanda antiga de pacientes, médicos, pesquisadores e entidades da saúde pública, que viam no modelo anterior um sistema caro, lento, excludente e atravancado por um decadente e pra lá de ultrapassado tabu social, o negacionismo de que maconha é remédio.
Produção nacional e menos dependência externa
Até agora, o Brasil dependia quase integralmente da importação de insumos e produtos à base de cannabis, o que elevava custos e restringia o acesso a quem podia pagar. Com a resolução da Anvisa, novas empresas poderão cultivar cannabis no país, desde que cumpram rigorosos critérios sanitários, de rastreabilidade, segurança e controle de qualidade.
A autorização de cultivo é estritamente regulada, voltada à produção de medicamentos e fitoterápicos, com limites claros para o teor de THC e fiscalização integrada entre Anvisa e outros órgãos do Estado. O uso recreativo ainda segue proibido — ao menos por enquanto.
Para especialistas, a produção nacional vai reduzir preços, ampliar o acesso e estimular a pesquisa científica, além de gerar empregos e inovação num setor que já movimenta bilhões de dólares — de maneira totalmente legalizada — ao redor do mundo.
Novas formas de uso e farmácias de manipulação
Outro ponto central da mudança é a ampliação das vias de administração dos medicamentos à base de cannabis. Além das formas já conhecidas, passam a ser regulamentados usos bucal, sublingual e dermatológico, o que amplia as possibilidades terapêuticas para diferentes condições clínicas.
A norma também autoriza a manipulação desses medicamentos em farmácias, mediante prescrição médica individualizada. Para pacientes, isso significa mais opções, maior personalização do tratamento e, potencialmente, preços mais acessíveis.
Não é exagero dizer que, para milhares de famílias, a decisão representa mais do que uma mudança regulatória: é a diferença entre tratar ou não tratar, entre qualidade de vida e sofrimento silencioso.
Avanço sanitário, atraso político
Mesmo com o avanço, o Brasil segue tratando a cannabis como tabu. Enquanto a Anvisa atua para organizar o campo medicinal com critérios técnicos e científicos, o debate político permanece travado, refém de preconceitos, desinformação e discursos morais que ignoram dados, experiências internacionais e a própria realidade brasileira.
Hoje, diversos estados dos Estados Unidos, além de países europeus, como a Holanda e em nosso vizinho Uruguai, já possuem regulamentado o uso recreativo da maconha, com modelos distintos, mas resultados comuns: redução do mercado ilegal, geração de empregos, arrecadação de impostos, controle sanitário e diminuição da criminalização seletiva que historicamente recai sobre jovens pobres e periféricos.
No Uruguai, nosso vizinho direto, a regulamentação é política de Estado há mais de uma década. Nos EUA, estados conservadores e progressistas colhem receitas bilionárias e ajustam seus modelos com base em evidências — não em medo.
| Maconha legalizada vendida no balcão nos EUA - Getty Images |
O Brasil precisa amadurecer esse debate
A ampliação da maconha medicinal deixa claro que a cannabis não é o problema — o problema é a hipocrisia. Fingir que a proibição resolve algo apenas fortalece o crime organizado, sobrecarrega o sistema penal e impede que o Estado exerça controle real sobre o que circula nas ruas.
Defender, desde já, um debate responsável sobre a futura regulamentação do uso recreativo não é apologia, nem radicalismo. É coerência. É reconhecer que o Estado deve regular, fiscalizar e educar — não criminalizar em massa e lavar as mãos.
Se o Brasil conseguiu avançar no campo medicinal, mesmo sob resistência, é sinal de que o país está pronto para discutir o próximo passo. Com dados, com ciência, com responsabilidade social. Sem dogmas.
A decisão da Anvisa não encerra o debate sobre a cannabis no Brasil. Pelo contrário: escancara o quanto ele foi adiado e o quanto ainda precisa avançar.

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