Epidemia silenciosa: Brasil enfrenta onda de intoxicações por metanol e Congresso reage
Por Ronald Stresser — Sulpost
Atualização: 16h33 — o ministro da saúde, Alexandre Padilha, declarou em rede nacional que já são 59 os casos, entre suspeitos e confirmados, tendo sido 12 confirmados em laboratório como intoxicação por metanol. Padilha também afirmou que a rede pública está sendo preparada com reforço nos estoques do antídoto, o chamado "metanol farmacêutico".
Um copo servido em meio a uma confraternização, um brinde improvisado, uma garrafa comprada por economia. O que deveria ser celebração virou em armadilha fatal para dezenas de brasileiros: o país convive com uma onda de intoxicações por metanol associadas à falsificação de bebidas alcoólicas.
Segundo dados do Ministério da Saúde, já foram registradas 43 notificações de suspeita de intoxicação por metanol em território nacional. O Centro Nacional de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs) informou que 39 desses casos ocorreram em São Paulo — 10 confirmados e 29 em investigação — e que há 4 casos em investigação em Pernambuco.
Até agora, uma morte foi confirmada pelo Ministério da Saúde em São Paulo. Há ainda sete óbitos sob investigação — dois em Pernambuco e cinco em São Paulo. "Estamos diante de uma situação anormal e diferente de tudo o que consta na nossa série histórica em relação à intoxicação por metanol no país", declarou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
"Estamos diante de uma situação anormal e diferente de tudo o que consta na nossa série histórica em relação à intoxicação por metanol no país." — Alexandre Padilha, ministro da Saúde
Os números atuais superam a média anual de cerca de 20 casos de intoxicação por metanol no Brasil. A Polícia Federal conduz investigação por suspeita de atuação de organização criminosa na adulteração de bebidas — operação que, se confirmada, transforma tragédias individuais em crime organizado em larga escala.
Sala de Situação para coordenação nacional
Na quinta-feira, , o Ministério da Saúde instalou em caráter extraordinário uma Sala de Situação para monitorar os casos. A iniciativa reúne equipes técnicas dos ministérios da Saúde, Justiça e Segurança Pública, Agricultura e Pecuária; da Anvisa; dos conselhos Nacional de Saúde (CNS), Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems); e das secretarias de Saúde de São Paulo e Pernambuco.
O grupo terá papel central na análise sistemática dos casos suspeitos e no planejamento, organização e coordenação das medidas de resposta enquanto persistir o risco sanitário. Entre as ações previstas estão a orientação aos serviços de saúde, fluxos de atenção ao paciente e recomendações às equipes de fiscalização e vigilância sanitária.
A resposta política: urgência para tornar falsificação crime hediondo
Em Brasília, a reação também ganhou contornos de urgência. A Câmara dos Deputados aprovou, nesta quinta-feira (2), a tramitação em regime de urgência do PL 2307/07, que prevê tornar a falsificação de bebidas um crime hediondo. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou a aprovação do regime de urgência na noite de quarta-feira (1º), permitindo que o tema seja levado mais rapidamente ao plenário.
A aprovação do regime de urgência acelera a tramitação — ainda que o mérito do projeto precise ser debatido e votado pelos deputados. Se aprovado, seguirá ao Senado e, depois, à sanção presidencial.
Para juristas e representantes de órgãos de defesa do consumidor ouvidos durante a apuração, a elevação da pena pode ser uma ferramenta dissuasória importante. Porém, advertem, é preciso também fortalecer a fiscalização, o controle de insumos e a cooperação entre estados para desmontar as redes criminosas por trás da adulteração.
Vidas e percursos interrompidos
Por trás dos boletins e números estão famílias que enfrentam o desespero no leito de hospital, olhos que perdem a visão e rotinas que ficam marcadas pelo luto. Em muitos bairros, a venda de bebidas de origem duvidosa persiste pela combinação de preço e informalidade — até que se revele letal.
Especialistas em saúde pública alertam que a prevenção precisa caminhar em duas frentes: a repressão às organizações criminosas e campanhas claras de informação para a população, explicando os riscos do consumo de bebidas sem procedência e orientando sobre sinais de intoxicação que demandam socorro imediato.



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